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Objetos Montessorianos: Brinquedo e Material

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Crescemos com brinquedos. Nossos maiores objetos de desejo quando éramos menores foram brinquedos. Desejamos o carrinho, a bola, a boneca, o videogame, o trenzinho, o autorama, o cavalo de pau, e depois os minigames e videogames portáteis. Nos desenvolvemos acreditando que os brinquedos eram a graça da infância. Por isso, somos adultos que acreditamos nisso. Nós temos certeza de que os brinquedos alegram a criança e dão a ela motivos para sorrir. Somos adultos que vêem na brincadeira o verdadeiro objetivo de vida da criança. Nós achamos isso porque nossas crianças riem quando brincam, e nós amamos seus sorrisos. E ainda assim, em tanto amor e tanta alegria, estamos redondamente enganados.

A criança deseja conhecer, explorar e descobrir o mundo. Deseja ser independente e livre, e busca de todos os modos acessar o mundo do adulto, que é o universo que ela tem por modelo. Assim, tenta copiar seus pais em tudo o que fazem: o computador, o carro, o fogão. Nós, percebendo esta vontade da criança, buscamos satisfazer seu desejo lhe dando computadores de mentira, carros de plástico e fogões sem fogo. É uma boa ação, que fazemos com amor, e que a criança aceita de bom grado, porque é o máximo que poderá ter. Mas perto do mundo real, perto do que há de incrível na realidade, o brinquedo é quase uma troça com a vontade da criança de conquistar sua independência.

Segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, brinquedo é “passatempo, distração, coisa que não é séria, coisa fácil de fazer”. As conquistas da criança são difíceis, exigem esforço, trabalho, empenho e dedicação. O aprendizado da fala, do caminhar, e da execução de tarefas do dia a dia, como vestir, limpar, lavar, secar, cortar, comer, pegar, desenhar, abrir, fechar e guardar, exige uma incessante busca e repetidas tentativas por parte dos pequenos, e não se tratam, portanto, de brincadeiras, de passatempos, ou de coisas fáceis de fazer. Acima de tudo, são, para a criança, esforços e trabalhos sérios.

Montessori, quando inaugurou sua primeira sala em San Lorenzo, também achou que as crianças poderiam gostar de brinquedos, e tentou utilizá-los. No entanto, esta sala era equipada com materiais montessorianos e itens do mundo real à disposição dos pequenos. Então, nenhuma criança utilizou os brinquedos que Maria Montessori disponibilizou. Uma professora montessoriana dos Estados Unidos, Paula Polk Lillard, escreve um excelente livro, que consiste no diário que fez durante um ano sobre sua atividade em sala de aula. Neste diário conta que no início do ano utiliza uma caixa de brinquedos para que as crianças achem a escoala semelhante à sua casa, mas que uma semana depois os brinquedos são retirados, e as crianças, já atentas aos materiais presentes na sala, sequer percebem a ausência do caixote.

O brinquedo é despretencioso, é uma distração. É muito bom, mesmo para nós adultos, brincar. Brincar com os filhos, com o cachorro, em um parque de diversões ou com os amigos. Nossas brincadeiras são mais sofisticadas, e gostamos de jogar, alguns gostam de videogames, apreciamos um bom papo jogado fora em volta de uma mesa com boa comida. Tudo isso é muito agradável, como é a brincadeira, mas nada disso nos daria prazer suficiente para que o fizéssemos por anos a fio. Para isso, é necessário o esforço, nós buscamos o esforço que se justifica por um grande objetivo – isso é sonhar e perseguir um sonho.

Com a criança acontece exatamente o mesmo. A criança gosta de brincar, e brincar deve ser considerado um de seus direitos, como é um dos nossos, o lazer. No entanto, a criança também tem suas buscas e seus objetivos. Para ela, no entanto, o trabalho e o objetivo são interiores. Não há para ela, como há para nós, a construção ou criação de algo externo, mas sim a construção de si mesma.

Para essa construção interna, a criança precisa de esforço, trabalho e atividade. Este trabalho, no entanto, precisa de um apoio exterior, um material para exercitar-se. Este é o material montessoriano. Ele serve para ajudar a criança a conquistar o desenvolvimento que ela deseja perseguir. Para que seja eficiente, deve atender a três requisitos principais, que são: a manipulação da criança, o isolamento da dificuldade e o controle do erro.

Primeiro, os materiais são da criança, e não dos adultos. Eles são feitos para serem manipulados pela criança e para que ela se sinta a vontade com eles, não só para que aprenda conteúdos, mas para que desenvolva seus sentidos e sua percepção da realidade.

Em segundo lugar, os materiais, para que ajudem, devem ter objetivos muito claros, trabalhar uma dificuldade, um elemento do mundo, de cada vez. Se um material tem muitos objetivos e ensina muitas coisas de uma vez, não ensina nada. A criança está descobrindo o mundo, e de confusão lhe basta a realide. De nós, ela precisa da ajuda, do apoio e do guia. Assim, quanto mais passo-a-passo puder ser a lição e quanto mais claro estiver para nós o objetivo único da atividade, melhor será para a criança a descoberta do mundo.

O terceiro ponto importante do material montessoriano é que ele contenha em si um dispositivo de controle do erro. O jogo da memória, embora não possa ser considerado um material, tem este dispositivo. Trata-se de algo que impede a finalização da atividade se ela não estiver completamente correta. Com o jogo da memória, se um pareamento é feito errado, ainda que quase todos os segintes sejam acertados, o último dará errado. Assim, o exercício não termina. Isso garante que a criança poderá aprender sozinha, e o professor não precisará corrigir nada, e a criança se desenvolverá por si mesma e seus esforços, sem ter de encarar a figura imensa do adulto desenvolvido o tempo todo.

Por todos os motivos expostos aqui, é possível dizer que não existem brinquedos montessorianos. Existem brinquedos mais inteligentes e menos inteligentes, alguns que trabalham mais e outros que trabalham menos o controle motor, e há os que respeitam mais e os que respeitam menos as fases do desenvolvimento da criança. No entanto, se um “brinquedo” tiver isolamento de dificuldade, um só objetivo, controle do erro e servir à manipulação da criança, sendo aplicado à educação de forma organizada e segundo a fase do desenvolvimento da criança, passamos a ter um material. Caso contrário, temos um excelente e despretencioso brinquedo. É excelente, mas não é Montessori.

Apoiadores do Lar Montessori

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Leitores queridos,

Desde 2010 escrevo o Lar Montessori e sempre tive para mim que não poderia aceitar publicidade, a não ser que se tratasse de algo relevante para Montessori em língua portuguesa e ao mesmo tempo respeitasse a imparcialidade e a neutralidade do Lar Montessori, respeitando a herança montessoriana e apoiando a educação da infância.

Nunca aceitamos os Google AdWords, embora pessoalmente eu os ache fantásticos, e decidimos gastar um pouco mais para retirar anúncios automáticos do WordPress, para que a leitura do blog continuasse tranquila e para que nosso espaço fosse mais de aprendizado do que um ambiente mercadológico.

Há alguns meses a Montessorriso vem conversando conosco para oferecer apoio ao Lar Montessori, em troca de alguma publicidade. Nós esperamos. Esperamos porque queríamos ver os produtos da empresa, que aos poucos surgem e nos alegram. Finalmente, foi possível chegarmos a um acordo quanto à publicidade. O logo deles vai ficar ali no cantinho direito superior, como vocês já devem ter visto.

Esta é a única modificação no Lar Montessori. O apoio da Montessorriso vai nos ajudar a arcar com os custos de manutenção da página, assim como, aos poucos, melhorar nossos vídeos e tornar mais frequentes os nossos artigos. A neutralidade do Lar Montessori será mantida. Por enquanto, não temos nenhum post patrocinado, mas se isto vier a acontecer, vocês serão avisados.

Reforçamos que o Lar Montessori tem como objetivo maior ajudar você a descobrir uma nova perspectiva para a educação dos seus filhos e ser uma fonte, segura, neutra e gratuita, sobre o método Montessori em língua portuguesa. Isso nunca vai mudar.

Esperamos ansiosos a reação de vocês a esta novidade!

Círculo de Estudos em Montessori

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O Lar Montessori vem convidá-los para o círculo virtual de estudos em Montessori. O convite está abaixo e todas as informações estão na página “Círculo“, aqui no blog!

 

convite

Comemorações de Final de Ano – A noite de hoje

Aos nossos leitores mais assíduos, este artigo vem precedido de um pedido de desculpas. Havíamos escrito um outro texto, bastante extenso, sobre a comemoração do ano novo e a criança, e perdemos o artigo completo. Por isso, precisaremos deixar somente algumas dicas rápidas sobre o assunto, antes de passar ao texto final deste ano!

Para prevenir qualquer tipo de estresse de afetar a criança e gerar situações desconfortáveis para todos, é muito importante respeitar o tempo, o espaço e as ações da criança.

O respeito ao tempo aparece quando permitimos que a criança demore mais para comer, ou saia da mesa antes dos adultos. Aparece quando permitimos que durma tranquila enquanto comemoramos a passagem de ano e que brinque sossegada enquanto conversamos e comemos.

Respeitamos o espaço da criança quando a ela é permitido usar seus materiais no chão, e não ter de ficar sentada no sofá, e quando não precisa necessariamente ficar em um espaço reservado à criança, como um quarto de brinquedos, um cercadinho, um berço ou um quarto. Está muito bem que espaços para a criança existam, é bom, desde que ela possa os utilizar só se quiser.

As ações da criança são respeitadas quando levamos para eles os brinquedos que usam com mais frequência ou seus materiais favoritos. Uma pequena cesta dos tesouros, um boneco. Da mesma maneira, quando não interrompemos a criança o tempo todo para que fale com os adultos também estamos respeitando que aja. Por fim, à mesa, é necessário lembrar de o que a criança já sabe fazer e usar isso a seu favor. Coloque ou peça que coloquem à mesa os talheres que seu filho sabe utilizar e deixe a comida em um estado que seja perfeito para ele, garantindo assim o bom andamento do jantar.

Espero que as dicas, curtas, tenham sido úteis e novamente me desculpo por não ter reescrito o texto mais longo.
Uma ótima noite para todos,
Gabriel

 

Comemorações de Final de Ano – Cozinha

Em outros posts do nosso blog, já trabalhamos bastante a ideia da criança na cozinha. A cozinha é um dos espaços mais interessantes da casa, do ponto de vista do aprendizado infantil, porque propicia um  a infinidade de possíveis experiências para a criança que já consegue caminhar, ou pelo menos sentar e usar as mãos com tranquilidade.

A época das comemorações de fim de ano é especialmente adequada para as atividades culinárias da criança, porque além de curtir a atividade em si, depois haverá a oportunidade de a criança ver toda a família comendo e elogiando aquilo que ela faz. Não é o elogio que a alegrará, mas a percepção de que “sabe fazer algo direito”a a possibilidade de servir aos outros algo que lhes agrade.

A cinco dias do Natal talvez não dê tempo de desenvolver habilidades novas com maestria suficiente para ajudar em um prato, mas as habilidades já adquiridas podem ser usadas com tranquilidade. Aqui, trabalharemos dois pontos nos quais a criança pode usar: um em que só use as mãos, outro em que use talheres.

Para se aventurar na cozinha, junto com seu filho, o primeiro passo é preparar o ambiente. Primeiro, a altura de tudo. Seu filho precisa alcançar as coisas se for ajudar. Sua cozinha é grande e equipada com uma mesinha baixa para seu filho? Ótimo! Mas se não for este o caso, sem problemas, hora de pegar aquele banquinho que vocês usam no banheiro ou em outro lugar da casa para ele alcançar a pia e a mesa.

Sobre a pia ou a mesa já deixe tudo separado para utilização: potes, bacias, tábuas, ingredientes em ordem (da esquerda para a direita, de cima para 401586_4032519655679_395174502_nbaixo), instrumentos necessários todos. Se o seu filho é mais velho, com uns cinco ou seis anos pelo menos, ele pode fazer uma receita simples inteira sozinho. Se é pequeno, deixe com ele uma parte bem pequena do processo.

Há vários pratos em que a ajuda de uma criança pode ser bem vinda: elas podem picar batatas ou salada, ajudar a fazer massas, bater cremes com uma colher, abrir massas com o rolo… Tudo o que nós fazemos, eles fazem também, depois que aprendem a usar os instrumentos. Só lembre: para eles, o tempo não importa, vai ser tudo feito bem devagar – o resultado importa menos que o processo. Se você não tem tempo sobrando, faça tudo sozinho. Fazer coisas com seu filho é uma atividade educativa para ele, e não mão de obra auxiliar para você.

Caso sua criança ainda não saiba usar talheres, pode usar as mãos ou o rolo de massa. Assim, uma porção da massa de um pão pode ser-lhe deixada sob responsabilidade, para amassar, abrir, inclusive para rechear com ingredientes já picados e fechar de novo. A criança pequena não tem nojo das coisas, e gosta de ajudar com o que gruda. É uma textura nova. Elas também podem untar formas muito bem, colocar biscoitos nessas formas com alguma precisão e ajudar lavando um ou outro objeto. Se essa for sua primeira experiência na cozinha com seu filho, vá devagar, para descobrir se ele gosta, e do que ele gosta. Se ele se diverte mais abrindo massa, deixe que faça isso, se prefere untar formas, ótimo também. Caso ele goste de lavar a louça, é outra possibilidade. Novamente, lembre-se que ele está lá mais para aprender do que para ajudar.

Mesmo para usar o rolo de abrir massas, é necessária uma pequena aula. Para os pequenos, ensinamos tudo passo a passo, devagar, objetivamente, e de forma muito clara. Pegue o rolo pelas duas extremidades, dizendo “Você pega o rolo pelas duas pontas”, depois posicione o rolo sobre a massa, explicando, “Coloque o rolo em cima da massa”, em seguida comece a abrir, “Aí, role sobre a massa para ela ficar bem fina, assim”. Em seguida, sem maiores detalhes, deixe-o fazer. Se for necessário, explique que a massa deve ficar mais fininha. Abra um pedaço para ele ter de exemplo. Aí, deixe que trabalhe sozinho.

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Para os talheres, também são necessárias algumas aulas (leia sobre isso nos posts sob a categoria “Cozinha”). Como disse acima, use agora só aqueles talheres que seu filho já domina com tranquilidade – é muita comida, e prestar atenção em como ele está usando a faca que só começou a usar recentemente pode ser uma dor de cabeça a mais. Nesse caso, prefira a colher e o garfo. A criança que já aprendeu a usar colheres pode misturar ingredientes muito bem. Aquela que usa o garfo pode bater cremes e mousses. As mais avançadas na culinárias, que já usam a faca com tranquilidade podem, com alguma supervisão e com uma faca sem ponta e com um fio não muito fino, ajudar a picar coisas simples, como frutas, batatas, legumes em geral. Cenouras e frutos redondos de casca lisa (tomates, e frutas como a maçã e a pêra) podem pedir um pouco mais de maestria. Nesses casos, corte o fruto à metade, e aí, apoiando o lado plano sobre a tábua, a criança terá mais facilidade.

Outra possibilidade para os pequenos com mais habilidades manuais é o uso das forminhas de biscoito. Isso pode começar a ser usado agora, porque não é muito difícil e é bastante divertido. Ensine seu filho novamente com cuidado, em partes e objetivamente a cortar a massa com a forminha, a pegar os pedaços de massa e posicioná-los na bandeja. Depois, vocês podem colocar um pouquinho de chocolate granulado em cima – esse desafio, de polvilhar coisas pequenas com pequenas quantidades de granulado, pode ser interessante para seu filho, que vai ter de controlar muito bem os dedos e a mão.

Decorar os pratos é outra atividade bastante agradável. Exige ao mesmo tempo delicadeza e senso estético, e pode ser bem gostoso. Posicionar os ele542598_10151241715609390_1347832105_nmentos de uma salada de forma bela, e circular, num prato, por exemplo, é um exercício de simetria e geometria bastante interessante, ainda que, evidentemente, nenhuma dessas palavras vá ser usada. Mesmo a distribuição dos biscoitos para assar ou dos pedaços de batata em volta de um prato exigem o exercício da percepção espacial e são desafios interessantes.

Colocar a mesa pode ser muito divertido também, assim como servir sucos e bebidas no dia da festa, afinal, as crianças gostam de exercitar seu equilíbrio e as habilidades de despejar, carregar e segurar. Isso, no entanto, será conversa para o próximo artigo, que tratará exatamente do dia da comemoração.

Até lá, esperamos que os preparativos para as festas estejam correndo muito bem, e estamos, sempre, abertos aos comentários e às histórias de vocês! Se houver experiências culinárias neste meio tempo, dividam conosco suas receitas e o modo de fazer com os pequenos, vamos todos adorar!

 

As fotografias deste artigo foram cedidas por famílias do grupo Montessori para Mamães

Natal sem Noel: Uma perspectiva a favor da imaginação

O maior astro da minha infância foi Carl Sagan, um astrônomo famoso, que protagonizou a série “Cosmos” e escreveu um livro lindo e grande de mesmo nome. Bem antes de minha adolescência, encontrei este livro na casa de meus avós e o peguei para mim, para alimentar minha imaginação com as belíssimas imagens dos planetas do Sistema Solar e com as ilustrações do Big Bang e das nebulosas, além de fotografias em branco e preto de galáxias próximas e distantes e de uma mensagem criptografada enviada por ondas de rádio para o espaço. Passei anos tentando compreender essa mensagem, e não consegui. Mas eu aprendi o que são ondas de rádio.

Carl Sagan, quando perguntado se acreditava em algo, respondeu: “Não quero acreditar, eu quero conhecer”. Carl Sagan, um cientista, racional e poético ao mesmo tempo, foi o homem que mais estimulou minha imaginação. Eu passei horas aprendendo todas as histórias de constelações, as investigações de Von Daniken, sobre os extraterrestres, e depois as teorias conspiratórias sobre a ida do homem à Lua. Tudo isso fez parte de minha infância e de minha adolescência, graças a Carl Sagan.

Para Montessori, a imaginação da criança deve desenvolver-se tendo como base a realidade. Ela explica que todos os grandes artistas eram, antes de tudo, excelentes observadores do mundo real. Sua imaginação e sua criatividade não partiam das histórias de fantasia que, sem dúvidas, conheciam, mas da extensão de seu raciocínio e de sua capacidade de observação.

Um segundo ponto bastante relevante na obra de Montessori é a ideia de que a educação deve ser, antes de tudo, “uma ajuda à vida”. Para ela, era mais importante ajudar a criança a se desenvolver plenamente do que seguir um currículo previamente estabelecido e, entre outras coisas, é isso que faz de Montessori um método com aplicação tão extensa em casa.

Partindo deste pressuposto, devemos nos lembrar sempre de que um dos desafios enfrentados pela criança é a compreensão da realidade – a organização do mundo em categorias mentais. Assim, tudo o que a ajudar com isso é uma ajuda à vida, e tudo o que a atrapalhar nisso é um empecilho à vida. Colocado desta forma pode parecer um pouco extremo, mas em última análise é verdade.

Em artigos anteriores nós trabalhamos, por exemplo, a importância da ordem no ambiente, que ajuda a criança a reconhecê-lo e se comportar nele de formas que nós não acreditávamos que fosse possível. Também conversamos sobre a importância de se falar claramente com a criança, tanto para o desenvolvimento da linguagem quanto para a compreensão de pedidos e ordens. A nomeação de objetos foi tratada também, e o objetivo é o mesmo, compreender o mundo por meio de categorias mentais. Nós, adultos, fazemos isso o tempo todo, mas já temos muitas categorias, então é fácil. A criança não tem nenhuma, então além de categorizar as coisas, ela precisa desenvolver a noção extremamente abstrata de categorias, o que é dificílimo. Se pudermos ajudar nisso, tudo melhora.

Para Montessori, existe uma diferença fundamental entre imaginação e fantasia. Imaginação é aquilo que surge da inteligência e que ultrapassa os limites da realidade conhecida. Fantasia, por outro lado, é a imposição de uma falsidade no plano da realidade, algo que violenta os limites da realidade conhecida de forma a fazer a criança acreditar que a realidade é diferente do que é.

Os seres do mundo da fantasia são lindos e poéticos para nós, adultos, que sabemos serem fantásticos e nos encantamos com a imaginação de quem os criou. No entanto, nos comportamos de formas dúbias com a criança: se suas fantasias são do lobo mau, o homem do saco ou o bicho-papão, dizemos, para tranquilizá-la, que estes seres não existem, e que ela não deve ter medo do que não existe. No entanto, para que se encante com o mundo, nos permitimos contar a ela histórias que sabemos serem irreais. O medo do que não existe não é tido como certo, mas o encantamento pelo inexistente sim. Montessori defende que o encantamento deve ser por aquilo que existe, exatamente como Carl Sagan, que me encantou com todas as estrelas do céu.

O Papai Noel não existe. E se compreendemos que a imaginação parte da observação da realidade e que o maior auxílio à vida da criança é a ajuda na compreensão da realidade, não existe uma justificativa para dizer o contrário à criança.

O Papai Noel personifica, na melhor das hipóteses, algumas ideias belíssimas: as de generosidade, bondade, disposição, merecimento e gratidão. Estes sentimentos são extremamente reais, e é de absoluta importância que a criança consiga senti-los em relação a seres reais, ao mundo real, a pessoas reais. E é esta ideia que defendemos aqui.

Em lugar de dizer que Papai Noel trouxe os presentes de Natal, sugerimos que os presentes sejam dados pelos pais, pelos tios, pelos irmãos, avós, amigos, pela escola, igreja, grupo escoteiro ou quem quer que seja. Defendemos que pessoas reais tomem para si a capacidade de se mostrarem abertamente generosas. A possibilidade de realmente dar algo à criança é belíssima, poética em si mesma. É isso o que amamos no Papai Noel, ele faz as crianças felizes. Nós podemos fazer exatamente o mesmo, nós, adultos, auxiliadores da vida, os protetores da infância. Nós podemos fazer as crianças felizes e podemos aceitar esta imensa responsabilidade.

O Papai Noel é generoso, ele dá brinquedos a todos, “Seja rico ou seja pobre, o velhinho sempre vem”. Nós sabemos que não é sempre que ele vem, que muitas famílias não têm uma visita do Papai Noel. Que tal nós irmos lá, como seres humanos reais, e termos a generosidade do Papai Noel, junto com as crianças, e darmos brinquedos belos, bons, para crianças pobres, que estavam esperando um presente e que vão recebê-lo, de surpresa, de um estranho – mas de um estranho que existe, que está no mundo – um estranho que é uma esperança real de renovação para a humanidade. Este estranho pode ser você, ou pode ser seu filho, um pequeno estranho que presenteie outro.

O Papai Noel é bondoso, ele nunca briga, ele sempre deixa que lhe puxem a barba, que lhe explorem as roupas, que lhe sentem ao colo. O Papai Noel tem tempo para todas as crianças do mundo em uma só noite. Nós podemos ser o Papai Noel todos os dias tendo todo o tempo do mundo para algumas poucas crianças – aquelas que moram conosco. Esta materialização da bondade é muito mais forte e perene do que aquela que acontece somente uma vez ao ano, ou algumas, nos shoppings, durante o mês de dezembro. Novamente, você pode ser também este aspecto do Papai Noel.

O Bom Velhinho fala sobre merecimento. A criança que se comporta bem é aquela que recebe os bons presentes. Mas nós sabemos que, em condições ideais de ambiente e preparo do adulto, todas as crianças se comportam bem. Quando não, é menos porque não querem e mais porque não conseguem. A ideia de merecimento do Papai Noel vem atrelada à noção de prêmio e punição, que embora ainda persista na educação, tem vários pontos polêmicos a considerar e se demonstra cada vez mais sem validade científica. Montessori, por sua vez, reprovava a ideia de que o prêmio estimula um comportamento e a punição o reprime – para ela, o caminho para o bom comportamento era a liberdade em um ambiente preparado, pois assim a alegria interna da realização da criança seria suficiente para que ela se mantivesse um bom caminho.

Por fim, a gratidão que nasce da criança em relação ao Papai Noel, e que a faz ser extremamente apegada a esta imagem como a uma esperança de alegria, pode nascer em relação ao mundo, às pessoas que a presenteiam, ou mesmo àquelas que só vivem com ela ou lhe ajudam de alguma forma. A criança pequena pode ser grata aos que lhe são próximos, enquanto que para a criança mais velha algo muito mais amplo e belo é possível: podemos lhe contar sobre todas as pessoas envolvidas na construção dos produtos que ela consome, sobre quem criou e fabricou os presentes que ela ganha. Assim, a gratidão da criança se estende ao mundo todo e fica simples compreender a interdependência entre todos e tudo o que há no mundo. Afinal, é por meio do trabalho de pessoas do mundo todo que o Papai Noel consegue estar em todos os lugares em uma só noite.

Falta-nos, por vezes, um maravilhamento diante do mundo. Para mim, a frase mais bela de toda a obra de Montessori é: “Não basta que o professor ame a criança. É, antes, necessário que ele ame e conheça o universo”. Quem conhece, ou quem caminha para conhecer, o universo, sempre o ama, e sempre se maravilha, se encanta diante das infinitas possibilidades, belezas e fenômenos que, sendo reais, parecem contos de fantasia.

Nós podemos ajudar a criança a amar e conhecer o universo, e ela crescerá apaixonada pela natureza, feliz pelas infinitas possibilidades da vida, grata pela imensa força da humanidade e encantada por aquilo que é fantástico, não porque não existe, mas justamente porque existe, justamente porque pode ser visto, tocado, experimentado, sentido. Perceberá que o mundo, exatamente como é, guarda tudo o que há de incrível, e tudo o que é necessário para que nos inspiremos a nos tornar seres humanos melhores.

O Papai Noel não é necessário. Ele não precisa estar na sua casa. Estando, ele pode ser mais um enfeite de Natal, e não precisa se tornar o protagonista da comemoração. Ele pode ser um coadjuvante querido se sua verdadeira história – que é tão linda – for contada à criança. Caso seu filho pergunte se Papai Noel existe, seja sincero, diga a verdade, e em seguida peça: “Mas posso lhe contar algo mais incrível que a história do Papai Noel?”, e lhe fale de todas as pessoas que se esforçam todos os dias para que ele ganhe belos presentes, e de como é incrível viver em um mundo em que tantos agem para que todos vivam cada vez melhor.

Por fim, se o seu filho já acredita em Papai Noel, fique tranquilo, você não vai ser o responsável por destruir a fantasia. Simplesmente não a alimente mais, aos poucos permita que a realidade surja e que ele se acostume com ela. Um dia, ele vai perguntar, e neste dia você vai responder, e vocês dois vão perceber que há verdades melhores do que nossos melhores sonhos.

“Em algum lugar, alguma coisa incrível está esperando ser descoberta” – Carl Sagan

Carta do Building the Pink Tower

   Alguns grupos no mundo estão trabalhando com força para espalhar o método Montessori para mais escolas e mais crianças. Um dos grupos com o trabalho mais belo é o Building the Pink Tower. Eles estão montando um documentário interessantíssimo e muito tocante sobre as Casas das Crianças – as salas de aula montessorianas para crianças de zero a seis anos.
   Depois de ver o belíssimo trailer no Facebook, entrei em contato com eles e pedi uma carta. Fiz um pedido especial: precisava ser uma carta que contasse a vocês a beleza da aplicação de Montessori em casa. Vina Kay, Co-Diretora do projeto, enviou-me a carta abaixo. O Lar Montessori apoia este projeto e insiste: apoie você também! Vamos construir o futuro da educação!
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    Na primeira vez que entrei em uma sala Montessori, fui levada pela paz e pela beleza do ambiente, e pelo sussurro quase silencioso das crianças ocupadas com seu trabalho. Eu soube imediatamente que era isso o que eu desejava para meus filhos. Levando meu filho mais velho para a Casa das Crianças todos os dias, indo com meu filho menor para a sala dos bebês do outro lado do corredor, eu também absorvia o ambiente. A luz suave, as cadeiras pequenas, as bandejas cuidadosamente arrumadas com os materiais – era tudo belo para mim.
    O que percebo agora é que o ambiente vivido por meus filhos na escola era exatamente o mesmo que eu criava instintivamente em casa. Os dois se sustentavam e ajudavam-se mutuamente. O mundo pelo qual eu ansiava para meus filhos – calmo, respeitoso, gentil – era o mesmo mundo que eles viam na escola. Assim foi fácil continuar a experiência interagindo com eles em casa e estruturando nosso ambiente doméstico.
    Comecei a dar a eles pequenas tarefas que podiam executar: colocar a mesa, despejar água, limpar o espelho do banheiro. Juntos fizemos massa de biscoito e pão sovado. Essas atividades de nosso dia-a-dia eram valorizadas como trabalho importante no ambiente Montessori. Maria e eu estávamos nos ajudando!
    Havia obstáculos, claro. Quando eu perguntava a meu filho por que ele não guardava seus brinquedos em casa no final do dia do mesmo jeito que guardava seus trabalhos na escola, ele respondeu: “Na escola tem um lugar certo para tudo”. Depois de um momento de reflexão, eu vi o que precisava fazer para organizar nossos armários e prateleiras. Precisava ajudá-lo a ter um ambiente que facilitasse guardar as coisas.
    Hoje, meus filhos já são adolescentes, e ainda estamos tentando descobrir uma forma de guardar as coisas, mas todos nós crescemos e nos beneficiamos da educação Montessori. Agora, eu quero compartilhar a mensagem de que uma educação para criatividade, colaboração e paz pode ser acessível a todas as crianças. A criação um mundo mais pacifico, e não só os resultados da próxima avaliação, serão nossa forma de medir o sucesso da educação.
    Building the Pink Tower (Construindo a Torre Rosa) é um projeto de documentário que objetiva reimaginar a escolar e o aprendizado pelas lentes da educação Montessori. O título de nosso projeto parte do trabalho dos pequenos estudantes das Casas das Crianças que cuidadosa e metodicamente constroem algo belo com simples blocos cor-de-rosa. Sabemos que muita reflexão e planejamento foram necessários para apresentar às crianças esses blocos cor-de-rosa, e da mesma maneira, reconhecemos a vontade e o esforço necessários para abrir as portas a uma educação significativa.
    Acreditamos que um documentário que conte a história da educação e do aprendizado de forma bela, que leve os espectadores até salas de aula confortáveis e acolhedoras, que capture as vozes e expressões de crianças fazendo suas próprias descobertas, seja a melhor forma de mostrar ao mundo o potencial da educação Montessori. Nosso projeto levará algum tempo, e esperamos construir mais que um filme ou um debate: um movimento de paixões compartilhadas para tornar a educação significativa para as crianças. Acreditamos que a educação tem um futuro.
    Junte-se a nós neste movimento. Há muitas formas de ajudar. Precisamos de recursos para tornar este filme tão belo quanto a educação que desejamos para todas as crianças. Visite nosso website e faça uma doação. Assista ao nosso trailer e compartilhe com outros, boca-a-boca, por redes sociais e em reuniões. Curta nossa página no Facebook , siga-nos no Twitter, conheça-nos no Google+ e seja uma voz nesta conversa. Compartilhe nossa visão de educação.
 
Vina Kay
Co-Produtora/Co-Diretora
Building the Pink Tower




Os vídeos do Building the Pink Tower estão disponíveis no YouTube e no Vímeo, nos endereços abaixo:
Trailer no Vimeo: http://vimeo.com/39504864
Um olhar sobre uma sala Montessori: http://www.youtube.com/watch?v=S0HlI7dmOzU
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