Compreendendo Montessori: Princípios da Infância

   O Lar Montessori tem muitos artigos sobre a adaptação da casa para a criança. Com a contribuição deste blog e de alguns outros grupos e famílias, a adaptação doméstica se torna cada vez mais uma tendência, e me enche de alegria enxergar a contribuição que damos a este movimento.
   Muitas vezes, porém, com a melhor das intenções, pais, tios, professores adaptam seus ambientes à criança acreditando que acabou aí e que o ambiente por si fará tudo o que Montessori descreve em sua extensa obra. Embora seja bem verdade que a interação livre entre criança e ambiente já seja capaz de muitos milagres, é claro que há mais que isso. É claro que há muito mais que isso.
   Uso o termo milagres um pouco com um tom leve de graça. Evidentemente, não se tratam de milagres, e é justamente sobre isso que escrevemos nesta série de artigos. Espero que sejam artigos breves, bastante objetivos e sucintos e, portanto, dando brecha a muitas dúvidas (sempre bem vindas). Trataremos de três pontos principais nesta sequência de publicações: 1. Princípios de compreensão da criança em Montessori; 2. Princípios de compreensão dos materiais e do ambiente montessorianos e 3. A preparação espiritual do adulto. Esses temas já foram tratados em maior e menor profundidade aqui. Mas acho que vale uma revisão!
   1. Princípios de compreensão da criança em Montessori:
   Montessori, por meio de longas observações do comportamento da criança durante os primeiros seis anos de vida, chegou a uma conclusão que sintetizou da seguinte maneira em seu Mente Absorvente: “Se a ajuda e a salvação podem vir, vir-nos-ão apenas da criança, pois que a criança é o construtor da homem”. Montessori explicava que durante os primeiros anos de vida – inconscientemente de zero a três e conscientemente dos três aos seis – a criança absorve os estímulos de seu ambiente (conceito chamado de mente absorvente) e desta forma constrói o homem. A ideia da construção do homem foi e é compreendida de forma muito metafórica até hoje, como se fosse uma maneira poética de tratar o desenvolvimento da criança. Não é.
   Montessori, em última análise, era bastante literal e objetiva em tudo o que dizia. Com a expressão “construtora do homem” e com a “mente absorvente”, Montessori adiantava, sem saber, ideias que seriam novamente exploradas, então pela Neurociência, mais de meio século depois. Norman Doidge, em seu polêmico e elucidador livro O Cérebro que Se Transforma, explica: “O que é extraordinário durante o período crítico do córtex [aparentemente os seis primeiros anos] é que ele é tão plástico que sua estrutura pode ser alterada pela exposição a novos estímulos” e “a diferença entre a plasticidade do período crítico e a plasticidade adulta é que no período crítico os mapas cerebrais podem ser alterados pela simples exposição ao mundo externo porque ‘a maquinaria de aprendizado está continuamente ligada'”.
   Outro conceito fundamental para a compreensão da infância em Montessori é a ideia de um guia interno. Ela desenvolveu a teoria de que existe, na criança, uma orientação inata para o aprendizado daquilo que é essencial para sua sobrevivência e melhor adaptação. Por isso, segundo ela, a criança consegue aprender a linguagem humana, mas não aprende linguagens animais. E embora Montessori só trate da linguagem oral e escrita, o mesmo se pode dizer tranquilamente das línguas de sinais. A crianças as aprende com a mesma facilidade que aprende as línguas orais e a mesma área do cérebro é utilizada para as duas coisas, na posição de língua materna/natural, embora não me venha agora o local em que li sobre isso.
   Doidge também explica isso (deixem-me dizer: está sendo meu segundo contato com as neurociências, então estou aprendendo mesmo. Não posso dizer muito sem citar). O autor nos diz:

“Durante o período crítico, o BDNF ativa o núcleo basal, a parte de nosso cérebro que nos permite concentrar a atenção – e que o mantém ativo por todo o período crítico. Uma vez ativado, o núcleo basal nos ajuda não só a prestar atenção, mas a lembrar de nossa experiência. Ele permite que a diferenciação e a mudança ocorram sem muito esforço. Segundo Merzenich: ‘É como um professor no cérebro dizendo: ‘Ora, isto é muito importante – é isto que você precisa saber para a prova da vida.” Merzenich chama o núcleo basal e o sistema da atenção de “sistema modulatório da plasticidade” – o sistema neuroquímico que, quando ativado, coloca o cérebro num estado extremamente plástico”.

   Montessori tratou também dos períodos sensíveis do desenvolvimento. Intervalos temporais durante os quais a criança se encontraria propensa ao desenvolvimento de uma determinada habilidade. Como disse o professor Daniel Willingham, da Universidade de Virgínia, “Montessori está muito além do que as ciências congnitivas sabem. Devagar estamos chegando lá”. Nem todos os períodos sensíveis de Montessori já foram comprovados pelas ciências do cérebro. Mas aquele que é mais enfatizado pela autora foi, e aparece no mesmo livro que usamos de apoio até agora: “Esta sensibilidade permite que os bebês e as crianças pequenas captem sem esforço novos sons e palavras durante o período crítico do desenvolvimento da linguagem, simplesmente ouvindo os pais falarem”.
   O que a neurociência chama de plasticidade extrema, Montessori chama de mente absorvente; o que hoje se entende como formação de conexões neurais, nossa médica chamava de construção do homem; aquilo que compreendemos como núcleo basal, ou BDNF, a educadora dizia ser o guia interno da criança e finalmente, aquilo que as ciências cognitivas chamam de período crítico, Montessori nomeava por período sensível. Desta forma, vemos quanto o professor Willingham fala sério quando cita Montessori e quanto esta era objetiva e verdadeira quando explicava que “A base da reforma educativa e social, necessária aos nossos dias, deve ser construída sobre o estudo científico do homem desconhecido”, em A Formação do Homem.

   Eu sei que este texto foi denso e que ele foge ao nosso padrão aqui. Eu prometo evitar isso, mas é o que acontece quando tentamos comunicar aquilo que estamos descobrindo. Espero reflexões e, se por acaso algum dos nossos leitores for estudioso da área e quiser elucidar algo nos comentários, tudo é sempre bem vindo! Se você não é estudioso(a) de ciências cognitivas, mas é mãe ou pai e quer deixar suas impressões, é claro que todos nos alegraremos com isso também!
   O próximo artigo tratará de princípios de compreensão dos materiais e do ambiente montessorianos e deve demorar mais um pouquinho para sair. Provavelmente no meio tempo alguns mais tranquilos serão publicados!
   Até breve e um abraço!
   Gabriel

16 comentários sobre “Compreendendo Montessori: Princípios da Infância

  1. Ótimo texto, passou de forma leve um assunto mais complexo, adorei a forma como vc mostrou a conexão do pensamento de montessori com a neurociência. O texto ficou super objetivo e claro, e fiquei com vontade de ler logo o artigo nº 2 rsrsrs! Bjs!

    1. Gabriella, obrigado!
      O conteúdo é bem difícil, está sendo um desafio esta série, por isso cada um demora tanto para sair!
      Obrigado pelo esclarecimento, eu conheço um pouquinho (quase nada) sobre LIBRAS e sabia, mas faltou mencionar isso no texto de forma mais clara. Eu quis dizer, na verdade, que não é a audição em si, ou a fala, mas o sistema linguístico, que ativa esta área cerebral!
      Obrigado,
      Gabriel

  2. Bom dia Gabriel. Parabéns pelo seu blog. Gostei muito do conteúdo!! Tenho buscado pelo livro Mente Absorvente sem sucesso. Você sabe como eu posso encontrá-lo? Abraço!

  3. Para mim é um desafio constante me adaptar ao sistema, tenho um filho de 2 anos e meio e meu marido e eu temos um grave problema de desorganização, que estamos tentando superar, mas seus posts me inspiram e me faz querer mudar, para o bem do nosso maior bem!

  4. Olá Gabriel!! Me chamo Ana Paula, sou do RJ e aluna de Pedagogia da UERJ (1º período iniciado em 2014). Como estou no início da graduação, tenho pouco conhecimento ainda para interagir nas suas aulas, que por sinal são fascinantes. Infelizmente eu não conhecia sobre o Método Montessori, fiquei sabendo pesquisando na internet, mas posso dizer que estou encantanda. Tenho assistido aos círculos de estudo e estou querendo conhecer mais sobre o assunto. Também sou mãe de uma menina de 5 anos e gostaria muito de saber de que forma as ideias de Montessori podem ser aplicadas por nós mães??? na nossa vida, no ambiente, entre outros… existe algum livro que possa ajudar?

    Obrigada por sua atenção e um grande abraço!!

    1. Ana,
      o Lar Montessori é especificamente sobre Montessori para famílias. Você encontrará muita coisa para seu filho e sua casa, aqui. Além de nós, você pode acessar o grupo Montessori para Mamães, no Facebook, assim como a página Brasil Montessori. Quanto à bibliografia, nesse momento não temos nada em português. Em inglês lhe indico sem medo “How to Raise an Amazing Child the Montessori Way”, de Tim Seldin, e “Montessori from the Start: The Child at Home from Birth to Age Three”, de Paula P. Lillard.
      Permita dizer que sempre fico muito feliz quando alunos de universidades públicas se interessam por Montessori. Se vocês (nós) puderem levar Montessori para dentro dos muros da universidade, teremos atravessado uma barreira imensa e difícil para essa perspectiva pedagógica. Se desejar aprofundar-se em estudos acadêmicos em Montessori, e acreditar que posso ajudar, por favor fale comigo. Abraços e muito boa sorte!

  5. Gabriel, muito boa a comparacao que fez de neurociencia e Montessori, no meu TCC estudo sobre multiplas linguagens e li sobre Gardner. Em Pedagogia nao e estudado muito sobre Montessori, estudamos mais Piaget e Vigotsky. Porque, desejo conhecer melhor este metodo. Abracos,Ana.

  6. Gabriel,
    Sou mãe de primeira viagem e estou começando a estudar Montessori. Estou começando a assistir seus vídeos no YouTube e estou adorando. Um pena que eu não tinha ideia de que Montessori existia na época que vcs estavam fazendo o estudo dos livros pois eu teria adorado participar. Na minha cidade não existe uma escola Montessori então quero estudar tudo o que for possível para trabalhar com meu filho.
    Obrigada por partilhar todo seu conhecimento.

  7. Por mais textos assim, por favor.
    Seria muito bom se você fizesse um texto nos informando sites e fontes de onde podemos nos informar a respeito das atuais descobertas da neurociência e pedagogia cognitiva.
    Eu sou mãe. Vivo numa situação razoável e não muito economicamente sustentável, mas acredito muito na educação como cura para as dores do humano causadas no mundo.

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