Períodos Sensíveis IV: Detalhes e Ordem

“To see a world in a grain of sand, / Ver o mundo em um grão de areia,
And a heaven in a wild flower, / E o céu em uma flor selvagem,
Hold infinity in the palm of your hand, / Segurar o infinito na palma da mão,
And eternity in an hour.” / E a eternidade em uma hora. – William Blake

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Detalhes:

Em nosso artigo sobre a evolução do movimento das mãos, reparamos que conforme os olhos percebem melhor os objetos e a coordenação motora fina avança, a criança passa a ter prazer em pegar coisas pequenas. As pecinhas menores dos brinquedos as atraem, assim como os pequenos enfeites da sala, os pequenos insetos que caminham pelo chão e os grãos de comida que ficam no prato.

Para Montessori, as ações exteriores da criança são reflexos e manifestações de suas necessidades interiores e do amadurecimento psico-biológico que ocorre oculto de nossos olhos. Segundo ela, quando observamos o comportamento da criança não devemos julgá-lo por seus efeitos exteriores, mas pelas consequências internas que geram. Por esse motivo, a repetição de uma mesma atividade por parte da criança não deve ser compreendida como a perseguição repetida de um mesmo objetivo.

Uma criança que encaixe peças, por exemplo, não deseja terminar o quebra-cabeças infinitas vezes, isso é só o aspecto visível de sua atividade. Interiormente, seu desafio e seu trabalho são maiores: ela está controlando suas mãos para pegar as peças e encaixá-las sem destruir o resto do que montou, ao mesmo tempo que busca, com seus olhos, os locais de encaixe que fazem sentido para seu cérebro racional. São muitos trabalhos de uma só vez, e é necessário repetir, não para que o quebra-cabeça melhore, mas para que o desempenho interno da criança se aperfeiçoe.

Da mesma maneira, percebemos na atração por objetos pequenos objetos a paixão da criança por algo que auxilia seu desenvolvimento interior em um determinado período de sua vida. Este intervalo vai do nascimento até o quarto ano de vida da criança, com diferentes intensidades. No Lar Montessori evitamos recomendar atividades, porque acreditamos que o fazendo, a tendência é que sejam aplicadas diretamente, sem serem precedidas por períodos de cuidadosa observação, como deve ser.

Entretanto, tentaremos fornecer abaixo uma pequena lista de possibilidades envolvendo objetos, seres e detalhes pequenos, para que você possa compreender até que ponto este interesse se estende.

1. Visualização de figuras: “Onde Está o Wally?”, quebra-cabeças com peças maiores ou menores a depender da idade, quadros e fotografias com detalhes pequenos e nítidos, ainda que ao fundo, figuras e figurinhas, mapas com partes maiores ou menores, a depender da idade.

2. Manipulação de objetos: classificação de botões por cor ou forma, criação de colares com miçangas, utilização de pinças, lego, arranjos de flores.

3. Observação: passeios em jardins com tempo para a criança reparar em objetos e seres pequenos, como flores e pequenas pedras, ou insetos, criação de insetos em aquário, manipulação de insetos não venenosos.

Ordem

Nosso segundo tema neste artigo é a ordem. Temos dezenas de textos no Lar Montessori que tangenciam a questão da ordem e sua importância. Assim, aqui fazemos somente um apanhado em três parágrafos sobre aspectos da ordem: primeiro, sua importância para a criança, em seguida a ordem do ambiente físico e por último a ordem do ambiente não físico (cronológico, psicológico, emocional).

A criança necessita da ordem durante toda sua primeira fase de vida (os seis primeiros anos), mas dos dois aos quatro anos ocorre a transformação da mente absorvente inconsciente em mente absorvente consciente, e esta fase é especialmente frágil no desenvolvimento dos pequenos, por isso um mundo organizado é especialmente importante. Nessa transição, ela deixa de absorver tudo o que vê para começar a compreender ativamente e interferir na realidade, e um mundo no qual as coisas fiquem sempre no mesmo lugar, as pessoas se comportem mais ou menos da mesma maneira e haja uma rotina razoavelmente fixa é um mundo agradável para o desenvolvimento da cognição infantil.

A ordem do ambiente físico é a primeira a que podemos nos atentar. Ela é a mais fácil de garantir (eu sei que não é tão fácil assim, mas a mais fácil, de qualquer maneira). No começo, até os dois ou três anos, mais ou menos, a ordem depende totalmente de nós. Três vezes por dia é necessário reorganizar tudo. A partir dessa idade, entretanto, quando a criança já consegue carregar suas coisas, pode nos ajudar – só é necessário lembrá-la todas as vezes, até os seis anos de idade às vezes, de que precisa guardar o que pegou. Para funcionar, é claro que nós temos de agir exatamente da mesma forma. Um adulto que faz bagunça cria crianças que sabem trabalhar em equipe: bagunçam junto.

A ordem no ambiente não físico, desde a rotina até o comportamento dos pais, é mais desafiadora, mas também importantíssima. Dá segurança para a criança saber que ela tem – ou não tem – tempo para algo. Aos poucos, horários de comer, escovar os dentes, dormir, pegar a mochila para a escola, tudo fica mais claro. O mesmo acontece com a descoberta de o que é e o que não é permitido. Se algumas ações só são proibidas de vez em quando, mas liberadas quando estamos cansados e não queremos disputar poder com os pequenos, eles ficam genuinamente confusos e não sabem quando é possível desobedecer. A sequência de artigos “Ordem em Família”, I, II e III deixam mais claros estes aspectos.

Nossa série sobre os Períodos Sensíveis continua! Fique atento aos próximos textos e nos agracie com sua opinião e suas percepções destes períodos nas crianças com quem você convive. Até semana que vem!

Períodos Sensíveis

Escrito por Gabriel Salomão

Eu sou Gabriel Salomão, pesquisador e autor do Lar Montessori. Eu ajudo famílias e professores a incorporarem o método Montessori em sua vida e seu trabalho. Fui aluno de uma escola montessoriana por doze anos, e trabalhei em algumas escolas montessorianas depois, como professor e consultor. Vivo Montessori todos os dias, como pai, professor, consultor, ou pesquisador. Em 2019 terminei meu Doutorado sobre Montessori na Mídia, pela Universidade de São Paulo. Veja mais sobre meu trabalho aqui.

4 comentários

  1. Confesso. Fui uma criança, adolescente e adulta um pouco (muito) bagunceira. Graças ao meu filho e as leituras sobre o método montessoriano travo uma batalha todos os dias para deixar a casa organizada para o meu pequeno (1a2m)..trabalho no interior (professora) e venho para cidade aos fins de semana e essas mudanças ja agitam demais ele. Tenho dificuldade de aplicar o método do jeito que eu quero pq ainda moro com os meus pais eles n entendem muito bem. como posso envolver meus pais nesse processo?

    1. Juci, tudo bom??

      Vou te sugerir duas coisas: primeiro, dê-lhes de presente uma cópia do texto “Manual do Proprietário de uma Criança Montessori”, se for o caso, tire o “Montessori” do título, e deixe só “Manual do Proprietário de uma Criança”. Depois, sugiro que vá ao grupo “Montessori para Mamães”, no Facebook, e faça a mesma pergunta lá! Muitas famílias passaram pelo mesmo processo e vão poder lhe ajudar com diversas estratégias! 🙂

      Tudo de bom!

  2. Gabriel, pra variar, seus textos são ótimos! E como é gostoso ler e ver na prática com os filhos. Minha menina tem 1 ano e 9 meses e está vivendo intensamente esta necessidade da ordem, se preocupando até com o local certo onde deixar os saoatinhos quando os tira do pé. Muito obrigada pelo seu empenho em nos ajudar a conhecer melhor Montessori. Bjos

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