Períodos Sensíveis VI – Graça e Cortesia

O texto “Períodos Sensíveis V – Música e Ritmo” será publicado em breve. Desculpe-nos pelo transtorno.

 Aos dois anos, a criança já percebeu que existe gente além dela no mundo, e começa a desejar desenvolver-se de forma independente, e a interagir um pouco com os que estão por perto. O aprendizado da convivência é difícil e importante, e segue as linhas de todos os outros aprendizados, desde como amarrar os sapatos até como regar plantastomar banho ou qualquer outra tarefa do dia a dia.

Por serem importantes e por serem difíceis, a graça e a cortesia merecem uma atenção toda especial. Não se pode esperar que a criança aprenda sozinha a se comportar. Diferente do inatismo da linguagem, por exemplo, que permite o desenvolvimento autônomo da língua, os comportamentos sociais são absolutamente culturais, e precisam ser aprendidos um a um. A criança quer aprender, quer ser agradável, ela deseja ser o mais perfeita possível. Mas precisa da ajuda de pais e professores preparados e que, eles mesmos, sejam modelos de comportamento todo o tempo.

Graça e Cortesia foi o nome dado por Montessori para uma das áreas da Vida Prática. Ela considerava que a criança tinha prazer em aprender estes conteúdos e preparou formas montessorianas de ensinar a ser educado e polido em todas as situações. Enumerar várias lições não nos seria útil, porém é interessante considerar o esquema geral deste tipo de lição, e você pode aplicá-lo ao que quiser e precisar.

Quando quiser ensinar uma forma de comportamento adequada à sua criança, tendo observado que ele se comportou inadequadamente ou sem tê-lo, reserve um momento com tempo para a lição. A criança não vai aprender a se comportar do jeito certo pela proibição do jeito errado. Não adianta dizer “Não faça isso!” ou “Tire a mão daí!”. Na hora talvez resolva, mas o comportamento se repetirá depois. A única maneira de garantir que a criança se comportará da forma certa é ensinar a forma certa de se comportar. Parece óbvio, mas é o avesso do que fazemos no dia a dia, quando só corrigimos a forma errada.

Para ensinar a forma certa, então, chame sua criança e siga os cinco passos breves abaixo, com clareza, tranquilidade, objetividade total e um sorriso leve (bem leve, você está dando uma aula) no rosto:

  1. Chame a criança para o local mais adequado à lição (a sala, a cozinha, perto da porta…);
  2. Explique a situação sobre a qual tratará a lição (quando você estiver em um ambiente fechado, quando estiver em uma loja, quando tossir…);
  3. Diga o que deve ser feito (fale baixo, ande com as mãos para trás, cubra a boca com o braço…);
  4. Demonstre (fale baixo, ande com as mãos para trás, tussa com o braço na frente da boca…);
  5. Convide a criança a fazer e observe.

Não corrija a criança. Se ela errar, espere por uma situação em que ela deva se comportar adequadamente e veja se ela, na verdade, não aprendeu. Caso você perceba que ela realmente não aprendeu, chame-a para uma nova lição sobre o mesmo tema. Dê-a de forma um pouco diferente, talvez em outro ambiente, e possivelmente precedida de uma historinha sobre a situação.

Até os seis anos, as lições devem ser sobre os comos, e não sobre os porquês, as razões e toda a parte moral vai ter lugar mais tarde, quando a criança passar a se envolver mais com grupos e desenvolver uma preocupação social maior, a partir dos seis anos de idade. Simplifique a lição ao máximo, atendo-se aos comos, isso vai ajudar sua criança a entender o que ela deve fazer. E fique tranquilo, de posse do o que, o porquê vai vir fácil mais tarde.

Desde sempre, porém, é importante ser um modelo no comportamento objetivo e nos aspectos morais dele. Se ensinamos a falar baixo, não podemos falar alto em nenhuma situação “dentro de casa”, por exemplo, pois isso confunde a criança e ela deixa de saber com precisão quando se deve falar alto e quando falar baixo é melhor. O comportamento do adulto é sempre importantíssimo nesses casos, e no aspecto comportamental a influência do adulto é ainda maior.

Se você está começando a descobrir Montessori agora, pode querer ler os quatro textos abaixo, que têm muito em comum com este artigo:


10 comentários sobre “Períodos Sensíveis VI – Graça e Cortesia

  1. Obrigada Gabriel, pelo lindo trabalho no blog e parabéns pelo excelente texto! Só não entendi muito bem a parte que diz pra não corrigir a criança. “Não corrija a criança. Se ela errar, espere por uma situação em que ela deva se comportar adequadamente e veja se ela, na verdade, não aprendeu.”
    Por exemplo, se eu explico ao meu filho como ele deve andar dentro de casa, de forma suave e tentando não fazer barulho, sem correr nem pular, e minutos depois ele corre pela casa, qual seria o comportamento ideal do educador, sem corrigir no caso?
    Obrigada novamente!

    1. Olá Marcela! Tudo bem?
      Obrigado pelo comentário!
      Eu quis dizer: “Não corrija a criança [na hora do exercício]. Se ela errar, espere por uma situação em que ela deva se comportar adequadamente e veja se, [passado algum tempo, ela aprendeu aquilo que você havia ensinado melhor do que demonstrou na hora da lição].”
      Muitas vezes, a criança erra na hora que ensinamos, mas vai internalizando a lição com o tempo e quando precisa se comportar certo, o faz. Caso seja uma situação arriscada e a criança se comporte errado (em uma loja de porcelanas ou um pet-shop, por exemplo), corrija. É melhor corrigir do que correr o risco de um acidente.
      Mas se for uma situação boba, como falar alto dentro de casa, segurar errado o talher ou algo do tipo, não corrija. Aproveite outro momento para dar a lição de novo.
      Consegui ser mais claro, Marcela??
      Abraços,
      Gabriel

      1. Oi Gabriel, só agora consegui encontrar a sua resposta, infelizmente não recebi nenhum aviso de que havia uma resposta à minha pergunta, obrigada! Entendi direitinho sim Gabriel, mas suponha que eu more em um apartamento cujo vizinho já e síndico já me advertiu e repreendeu duas vezes em 3 semanas por que meu filho corre dentro de casa Às 6:30 da manhã… correr dentro de casa passou a não ser uma coisa boba, mas um grave problema!!! 😦 Já tem 4 meses que tento mostrar-lhe a forma correta de andar dentro de casa mas ele continua a correr!! Você teria dicas pra me ajudar?? Como isso é feito em uma classe Montessoriana? Lá as crianças falam baixo e não correm certo? Uma criança de 2anos e 5 meses já é capaz de controlar o tom de voz? Outra dificuldade que temos tido com relação a graça e cortesia é que ele fala muito alto, então se vamos na biblioteca ele não consegue ficar calado ou mesmo falar baixo, ele se empolga muuito com tudo e fala muito alto. Se tiver dicas agradeço enormemente! por falar em agradecer, estou a procura de um texto em que você fala do alcance do blog e de como podemos ajudar, mas não o acho mais, se puder me sinalizar de alguma forma nele, eu adoraria ajudar de alguma forma! Abraços, Marcela

  2. Texto maravilhoso!!!
    O seu blog está me ajudando bastante! Tenho dois pequenos de dois anos e meio…
    Conheci o método montessori quando eles tinham uns 2 anos, estou pesquisando bastante e já fiz várias mudanças em casa, não tem sido nada fácil… acho que antes eu agia totalmente ao contrário do método.
    Estou com um problema que acredito que você possa me orientar. Nossa casa é de dois andares, a parte de cima ainda não está adaptada, não tem portão na escada, então, eles ainda dormem no berço. Assim, arrumei um quarto com atividades no andar de baixo, coloquei uma estante, um espelho, um colchonete, livros… e a primeira coisa que eles fazem quando entram no quarto é gritar “bagunça!!!” e derrubar TUDO que tem na estante, jogar os livros… Eu já vinha fazendo mais ou menos o que você descreveu no texto, arrumava o quarto e mostrava pra eles como as coisas deveriam ficar, que eles deveriam levar o brinquedo no colchonete, depois guardar na estante para pegar outro. Nunca briguei por causa da bagunça, sempre tentei mostrar a maneira certa de brincar, fiz isso hj também, enquanto eu estava no quarto tudo bem, quando eu saí, os brinquedos voaram, não consigo entender esse comportamento… e quando saímos de casa é a mesma coisa, eles bagunçam a casa das pessoas, o consultório do médico. Eu passo a maior parte do tempo com eles procuro fazer o serviço da casa enquanto eles dormem, tento fazer muitas atividades com eles, mas tudo vira bagunça.
    Desculpe o texto gigante…
    Espero que você possa me ajudar!!!
    Muito obrigada pela atenção!

    1. Bom dia, Lidiane,
      Obrigado pelo comentário!
      Como é o resto de sua casa? Afora o quarto de atividades? É organizada? Pergunto porque a criança não tem uma forma de “desligar-se” em um ambiente e só ligar sua atenção em um local específico. A adequação da casa toda, aos poucos, é claro, importa para que a criança apresente o comportamento que lhe é natural – um comportamento tranquilo e pacífico. Busque ensiná-los, um de cada vez, é claro, a subir e descer as escadas. Com dois anos e meio eles certamente tentam fazê-lo com frequência, você só vai dar o passo-a-passo para garantir que eles saibam exatamente como fazer.
      Coloque um portãozinho na parte de cima da escada, é uma excelente ideia. E aí, elimine o berço. Eliminando o berço, adeque o quarto deles aos poucos, com prateleiras baixas, um espelho, e dois ou três brinquedos ou materiais, não mais que isso – dois ou três livrinhos também são uma boa ideia.
      Organize sua casa como um todo e procure mantê-la com uma aparência semelhante todos os dias (é aqui que você me diz que eu sugiro isso porque não sou mãe dos seus dois filhos. Eu sei, é isso mesmo, mas acredite: o esforço vale a pena). O quarto de atividades deles deve ser como o quarto deles: prateleiras baixas, poucas atividades. Se for o caso, comece com duas, uma para cada um. Se eles bagunçarem, você JUNTO com eles, que já estão grandinhos, repõe rápido na estante. Ensine a usar aquelas atividades ou aqueles brinquedos. Conforme eles aprenderem, vá colocando mais. Algo como quatro a oito brinquedos é um número bom. Muito mais do que isso vai deixar os meninos sem saber bem o que fazer. E vá colocando um por um, e ensinando exatamente em que lugar das estantes (ou do chão, se for o caso) eles devem ficar.
      Se ficarem no chão, faça uma linha de fita crepe mesmo dividindo o espaço de “guardar” e o espaço de “brincar”, assim eles têm uma direção para devolver as coisas no lugar. Se puder, compre dois ou três tapetinhos (do tamanho de um tapete de banheiro grande) e deixe enrolados em um espaço determinado do quarto de brinquedos. Quando for ensinar a usar os brinquedos, pegue um dos tapetes, estenda no chão devagar, desenrolando com os dedos, pegue o brinquedo ou a atividade e coloque sobre o tapete. E é ALÍ o lugar de brincar, dentro do tapete. Isso pode ajudar também.
      Depois volte para dizer como foi!
      Abraços,
      Gabriel

      1. Tens razão… A casa não anda muito organizada, acho que eles acabaram se acostumando com a bagunça. Mas consegui modificar algumas coisas e deixar o ambiente mais “limpo”, eu também me sinto melhor assim 🙂
        E no quarto de atividades, fiz como você disse, deixei apenas duas atividades na estante, resolveu! acho que com muitos brinquedos eles ficavam confusos…já aumentei para 4 e eles estão guardando certinho, como ainda não comprei os tapetes, ensinei a eles que o lugar de brincar é no colchonete.
        Já providenciei o portão também, só falta o aquecimento para mudá-los para o quartinho deles (aqui faz muito frio).
        Mas como já tem portão, nós vamos transformar os berços em mini camas.
        quando fizer a mudança do quarto digo como foi!
        Muito obrigada pelas dicas! ajudou bastante!!!

  3. Na escola dos meus filhos, montessoriana, vejo que eles fazem atividades no circulo em que andam com as mãos para trás. Acho legal na classe, naquela celebração, mas não penso em extrapolar esse ensinamento específico para fora da escola. Não acho que andar com as mãos para trás numa loja seja coisa desse século. Era na época dela, hoje em dia não.
    Concordo plenamente na maneira de ensinar os filhos, de tudo o que foi falado no texto todo. Apenas o andar com as mão para trás mesmo, me causou um certo espantamento no que deve ser ensinado a criança. Só para refletir. Alguns desses ensinamentos montessorianos poderiamos adaptar melhor aos costumes de nossa época não?

    1. Priscila, como vai??
      Obrigado por seu comentário!
      Às vezes pego-me refletindo sobre isso também. É claro que quais lições serão dadas e quais não é opção familiar, mas deixe-me tentar explicar porque acredito que este seja um bastante válido, ainda em nosso século, como você colocou.
      Imagine por um instante uma criança em uma loja de produtos delicados e, para efeitos de argumentação, caríssimos. Essas lojas existem e muitas famílias as visitam com crianças. Os pequenos nem sempre têm toda a habilidade necessária – ainda que tenham cuidado – para pegar coisas sem deixá-las cair. Digamos que algo se quebre. Na hipótese de se tratar de uma família cujos pais tenham se educado para lidar adequadamente com essa situação, recolher-se-iam os cacos e se pagaria a dívida contraída. Entretanto, na maior parte dos casos, a primeira reação dos pais seria brigar com a criança.
      É melhor ensiná-la a andar com as mãos para trás do que ter de brigar com ela quando quebra algo – e eu acho que nós dois concordamos que brigar não é o melhor, mas é o mais comum.
      Outro ponto que considero relevante, nesta situação, é que em nosso século a individualidade tem aflorado muito, talvez muito mais do que devesse, e passamos a desconsiderar regras sociais e alguns cuidados preciosos. É muito comum, hoje em dia, que se chegue à casa de um amigo e se pegue tudo aquilo que é interessante com as mãos, para “ver”. Há pessoas que não gostam, há objetos que não podem ser pegos e há pessoas descuidadas demais que os quebram com frequência desagradável. Talvez, nós adultos é que precisemos nos reeducar para um tipo de postura mais cuidadosa no mundo, de forma a respeitarmos mais o que pertence a outrem.

      Eu entendo sua colocação porque talvez tenha lhe parecido que esta lição é repressora. Nada em Montessori é repressor. Se a lição for dada de forma repressora, ou por pais com atitudes recorrentemente repressoras, não se trata de Montessori. A lição é mais uma das formas de estar no mundo que a criança vai aprender, e para isso ela precisa de ajuda. Se você tem uma criança que já sabe pegar em tudo sem machucar-se ou causar acidentes, e sabe quando pegar em algo não é uma boa ideia, provavelmente esta lição é inútil para você, e isso talvez seja motivo para comemorar. Porém, há de se considerar que este não é o caso com muitas famílias e que um aprendizado tranquilo sobre a forma de se comportar em diversos ambientes pode prevenir muitas situações desagradáveis e de repressão ainda maior para a criança (ex.: uma família que não brigue com a criança se ela quebra algo na loja, mas que imediatamente a pega no colo e diz “fica aqui no colo, a gente jajá vai embora” e assim proíbe a criança mesmo de caminhar livremente pelo espaço).

      Novamente, obrigado pelo seu comentário.
      Abraços,
      Gabriel

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