Sobre morangos, crianças e paz

Em um artigo publicado na página de divulgação científica Science of Us, Evan Thompson explica que uma das funções-padrão de um dos principais mecanismos automáticos do cérebro é criar realidades. Ele explica com exemplo simples:

Se você for particularmente bom(boa) em imaginar, pode ser que comece a salivar com a imagem de um morango bem maduro e convidativo. Ainda assim, é só uma imagem mental, não é um morango de verdade.

Ocorre, feliz ou infelizmente, que o cérebro não faz isso só com morangos. Ele também faz isso com a imagem que temos de nós mesmos:

A criação de um eu feita pelo funcionamento padrão do cérebro (FPC) é parecida com isso [com o morango]: imagens de quem você pensa que é, mas não quem você realmente é. Se por um lado você não consideraria a imagem mental de um morango tão satisfatória quanto um bolinho de morango de verdade, é fácil considerar a imagem mental que você tem de você mesmo como sendo o seu eu verdadeiro.

Exatamente o mesmo que acontece com morangos e imagens de si mesmo ocorre com as imagens mentais que temos das crianças. De nossos filhos, nossos alunos, nossos pacientes. Não vemos as crianças que existem. Aquilo que construímos internamente pelo modo automático de funcionamento dos nossos cérebros, sem controle algum sobre o processo, toma o lugar das crianças. É essa imagem mental que deve levar broncas porque se comportou mal. É dela que esperamos boas notas na escola. É ela que nós vemos colando durante uma prova. É dela que desconfiamos quando recebemos um trabalho e não acreditamos em sua autoria. É ela que amamos.

Quando escrevia sobre a criança, Montessori propunha revoluções na forma de compreendermos a vida. Poucos de nós conseguem entender como é possível que uma só pessoa possa ter visto tanto que ninguém viu. Tanto que até hoje pouca gente vê. Montessori se explicava assim:

Quando eu estou com as crianças, eu sou ninguém, e o maior privilégio que tenho quando me aproximo delas é ser capaz de esquecer até mesmo que eu existo, porque isso me permitiu ver coisas que eu perderia se eu fosse alguém – coisas pequenas, verdades simples, mas muito preciosas. – A Educação e a Paz

O fascínio de Montessori pela criança permitiu que ela se visse completamente ignorante sobre a verdade da infância, permitiu a humilhação e a humildade necessárias para olhar para a criança pela primeira vez. E porque Montessori olhou pela primeira vez, compreendeu. A boa notícia é que nós também podemos fazer isso. Uma formadora de professores da Associação Montessori Internacional explica em um excelente vídeo:

Observação é importante, porque eu vou me aproximar de cada criança, a cada novo dia, como uma nova pessoa. Como uma nova criança. Então eu não trago o que aconteceu ontem para essa nova situação. E porque eu sei observar e estou livre do que aconteceu ontem, quando eu vejo essa criança, eu ofereço uma nova pessoa também. Então a criança, ou mesmo um adulto, pode ter a oportunidade de ser diferente também. Se eu venho com ideias sobre o que houve ontem para uma nova experiência, eu transmito para a criança meus sentimentos de ontem, e a criança vai reagir exatamente como eu espero que ela reaja. Então, sou eu que posso me transformar, se sou livre. Se eu vejo uma criança com quem eu tenho um problema ou com quem eu passei por alguma situação, e eu me aproximo dela com os mesmos olhos, ou os mesmos sentimentos, eu transmito esses sentimentos, e isso continua para sempre. Mas se eu puder estar presente, e puder observar, e é isso que é observar, eu verei essas crianças como novas crianças todos os dias.

Nós estamos tão acostumados a seguir no que o artigo da Science of Us chama de trem de pensamentos que nem percebemos a realidade passando. É como se estivéssemos sentados sobre uma locomotiva em movimento e só o que percebêssemos da realidade fosse o que passa por nós. Vemos alguma coisa dela, mas sem detalhes, e precisamos completar os quadros com nossas memórias e conhecimentos prévios. Ver nossos filhos assim é muito pouco. Ver nossos alunos assim também. Precisamos descer do trem, sentar, esperar a confusão da descida diminuir e a poeira baixar. E aí, olhar para a criança com o que Silvia Dubovoy chama de mente silenciosa:

Tenho de ter uma mente silenciosa. Uma mente silenciosa quer dizer que vou observar de forma tal que não trarei nenhuma experiência pregressa para essa experiência nova. Eu vou me libertar de todas as ideias preconcebidas sobre o que é uma sala de aula, ou o que é uma criança, você é novo, fresco, e seus olhos são novos, e você aceita situações, seres humanos, as crianças, condições, de uma forma totalmente diferente.

A essa altura, se você estiver se perguntando “Ok, mas como eu faço isso?”, nós estamos juntos. Há alguns anos eu me perguntava a mesma coisa. Dois elementos contribuíram para uma mudança profunda: a decisão de nunca mais perder a calma com uma criança, e uma frase de um monge vietnamita. A decisão foi isso mesmo. Um dia eu decidi e nunca mais voltei atrás. Teve falha. Tem falha. A cada falha, peço desculpas. Mas tem pouca falha, graças à frase. A frase diz: Respire, sorria, e vá devagar. Eu li essa frase e decidi seguir, pela vida toda, custasse o que custasse. E isso salvou minha experiência como educador e como pai.

No artigo que mencionei, indica-se alguns caminhos para a desautomatização do funcionamento de nossa cognição. São três indicados: terapia com LSD, hipinose, e meditação de consciência plena (leia sobre no site da UNIFESP). Segundo o artigo, muitos estudos vêm apontando o potencial da meditação nessa direção. O autor do artigo diz: “[com treino,] O estado de repouso do cérebro se aproxima mais do estado meditativo, produzindo um modo automático mais centrado no presente”.

Montessori nos dá, como sempre, um caminho em belíssimas palavras:

Em lugar de executar as ações naturais de todos os dias, sem pensar, ou de maneira imperfeita, acreditamos que fazê-las de forma atenta, consciente, cuidadosa e tão perfeita quanto possível, é o primeiro passo para alcançarmos a perfeição. Esse é um dos caminhos, existem muitos. Devemos fazer as coisas porque devemos fazê-las, e devemos fazemos como elas vierem. Devemos usar tudo, para que aperfeiçoemos tudo. Se tornar mais consciente, esse é o caminho da perfeição; quanto mais ideias, quanto mais ações executamos, mais vamos dominando, mais perfeitos nos tornamos. Essa é a orientação no sentido da perfeição. […] O caminho da perfeição é aquele no qual todas as ações que executamos em nossas vidas, nós pensamos, e executamos como um meio de chegar à perfeição. – Maria Montessori, Creative Development in the Child

Caminhar na rua, andar sobre a Terra, beber água potável, comer comida de verdade, ver o brilho nos olhos e a risada da descoberta no rosto da criança. Esses são os verdadeiros milagres. Se pudermos viver cada um deles como se fosse a primeira vez, a felicidade está ao alcance da mão. A criança se revela com facilidade quando olhamos para ela, e o caminho da paz se abre a cada passo que damos, conscientemente, corajosamente. Vamos caminhar juntos?


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