Porque Crianças Dizem NÃO!

No início da vida, até um ano e meio de idade, mais ou menos, as crianças seguem os adultos. Vão no colo, caminham junto, não questionam. E então, um dia, nós sugerimos ou pedimos alguma coisa, e a criança diz: “Não!”. Por que isso acontece com todas as crianças mais ou menos na mesma época? E como nós podemos fazer para conviver melhor com essa nova fase de nossos filhos?

Segundo Maria Montessori, as crianças pequenas têm, entre outras, duas necessidades importantes para se desenvolverem bem: liberdade e movimento. Até o período entre um ano e meio, e dois anos de idade, a criança sente-se perfeitamente bem seguindo o adulto. Ela ainda não desenvolveu vontade, e por isso não sente a necessidade, com frequência, de fazer algo diferente daquilo que o adulto sugere.

Perto dos dois anos, acontecem várias coisas de uma vez: primeiro, a criança começa a ter vontade.(desejo mesmo, de fazer e escolher e conseguir) Segundo, ela já tem desenvolvimento motor suficiente para agir no mundo (caminhando, pegando, carregando, subindo e descendo). Terceiro, ela percebe que sua vida é limitada constantemente pela vontade do adulto (porque quase todos os adultos, quase o tempo todo, mandam na criança sem pausa).

Então, quando nós dizemos à criança: “Vem filho, vamos lá fora”, e nossos filhos dizem um “Não!” que não deixa dúvidas, há pelo menos três coisas que podemos entender.

  1. “Eu quero escolher o que eu quero fazer, não quero seguir você agora”.
  2. “Eu sei me movimentar, e posso fazer isso sozinho, sem você mandar”.
  3. “Obedecer você o tempo todo cansa. Eu quero agir um pouco por mim mesmo”.

Nós temos, aí, duas possibilidades de ação. A primeira é quebrar a vontade da criança, demonstrar nossa superioridade com força e volume na voz, e obrigar a criança a, mais uma vez e para sempre, não ser livre, e ser obediente. Nós geralmente fazemos isso, e por isso Montessori dizia que o problema do mundo não é a falta de obediência, mas o excesso dela.

A segunda opção que temos é abrir os portões da liberdade. Em geral, quando uma criança diz “Não!”, faz isso porque sabe que o não é a senha para uma vida melhor e mais livre, mais cheia de escolhas. Quando nossos filhos dizem que não vão fazer algo, e nós precisamos que eles façam, passamos a oferecer várias maneiras mais interessantes de se fazer a mesma coisa: levar brinquedo para o chuveiro, ler um livro antes de dormir, e tantas outras coisas.

Por isso, a nossa melhor sugestão em Montessori é:

Não espere pelo Não.

Antes do seu filho dizer “Não!”, dê opções a ele. Se ele puder escolher em que ordem quer fazer as coisas, ajuda muito: “Filho, você quer brincar primeiro, e depois tomar banho, ou quer tomar banho primeiro, e depois brincar?”. Ele também pode escolher como fazer a coisa: “Filho, você quer tomar banho com o sabonete verde, ou com o laranja?”. E em vários casos ele pode escolher se quer fazer a coisa: “Você quer ir na praça brincar, filho?”.

Nós, geralmente, nem percebemos que a criança pode fazer escolhas. Mas qualquer escolha é um descanso da eterna obediência. Obedecer cansa.

É verdade que às vezes vai ser necessário fazer algo, sem escolher – injeções e vacinas, por exemplo. Mas é muito mais fácil obedecer em uma coisa, do que obedecer em todas as coisas. A criança que é livre obedece com muito mais tranquilidade. A criança que precisa obedecer o tempo todo, tenta o tempo todo se libertar de suas amarras.

O “Não!” é a primeira tentativa da criança de se libertar da tirania do adulto. Se nós pudermos permitir a escolha, desde antes, o “Não!” será pouco presente, porque será pouco necessário. E quando ele aparecer, nós podemos escutar o que ele diz de verdade, e agir a partir da compreensão profunda das necessidades de nossos filhos.


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Escrito por gabrielmsalomao

"A preparação que nosso método exige do professor é o auto-exame, a renúncia à tirania. Deve expelir do coração a ira e o orgulho, deve saber humilhar-se e revestir-se de caridade. Estas são as disposições que seu espírito deve adquirir, a base da balança, o indispensável ponto de apoio para seu equilíbrio. Nisso consiste a preparação interior, o ponto de partida e a meta." Maria Montessori, em A Criança

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