Montessori e a Vida Espiritual da Criança

A criança tem uma vida espiritual especial, profunda na comunhão e na graça, e muito diferente da vida espiritual da maior parte de nós, adultos. Entender a forma e as manifestações espontâneas que ela tem é uma das maneiras de compreender a criança, e de libertar sua verdadeira natureza. Como em muitos outros aspectos da infância, Montessori nos ajuda aqui.

Maria Montessori foi uma psiquiatra, uma cientista, uma investigadora criteriosa e exata. Ao mesmo tempo, ela era profundamente ligada aos aspectos espirituais da vida. Católica por criação e crença, Montessori reconhecia a verdade fundamental de todas as tradições religiosas e, ao mesmo tempo que desenvolveu uma abordagem para ensinar religião às crianças (há uma nota sobre isso no final do texto), Montessori percebeu que a vida espiritual da criança transborda para muito além da educação religiosa.

Neste texto, vamos tratar somente de três aspectos da vida espiritual da criança pequena: A Força do Espírito que Anima a Vida; A Concentração; e O Amor da Criança Pelo Ambiente. Ao final do texto, teremos um comentário breve sobre a preparação espiritual do adulto, e outro sobre a educação religosa da criança pequena.

Quando tratamos aqui de uma vida espiritual, nos referimos a um aspecto específico da vida interior da criança, e não a ela toda. A vida interior é composta por fenômenos psicológicos, emocionais, cognitivos… Nós aqui queremos tratar daqueles fenômenos que podem ser chamados, propriamente, de “espirituais”, e que poderiam ser chamados, também, de “oceânicos”, “profundos” ou “de comunhão”. Tratamos da conexão profunda que a criança estabelece com A Vida.

A Força do Espírito que Anima a Vida

Às vezes pensamos, ou agimos como se pensássemos, que a criança é educada por nós, que nós é que a construímos, e que somos responsáveis por seus aprendizados e conquistas. Nada poderia estar mais longe da verdade. O adulto pode, no máximo, oferecer à criança um ambiente apropriado, e retirar obstáculos.

As conquistas da criança, seus aprendizados, sua construção e suas transformações, são impulsionados por uma Força Interior, um Impulso de Vida que a criança sente o tempo todo. Alguns adultos mantém uma comunicação profunda com o seu interior, mas para a criança essa comunicação não é uma exceção à vida, nem um momento especial do dia.

A criança se comunica com o seu interior o tempo todo, e guarda dentro de si um Guia Interior e um Impulso Vital que a impelem a diante, pelo caminho do desenvolvimento.

Às vezes, lutamos com esse Guia Interior, profundo, sagrado e forte. Nós dizemos à criança que ela precisa ser rápida ao lavar as mãos e fechar logo a torneira. Mas ela acabou de descobrir mais um dos dons da vida, no frescor da água, e tem Leis Maiores para obedecer. Ela sabe que essas Leis não podem ser desobedecidas. Existem as leis do adulto: velocidade, resultado, eficiência. E existem as Leis da Vida: repetição, comunhão profunda, reconhecimento, processo contínuo de criação.

Entre as duas leis (a do adulto e a da Vida), a criança precisa obedecer as Leias da Vida. São maiores, mais fortes. Se ela tem a chance de obedecer a essas leis, sente dentro de si o paraíso da Vida, percebe o que há de imenso e mais importante no mundo. Alcança o Centro de tudo, na con-centra-ção

A Concentração, Comunhão com a Vida

Entre os adultos que têm uma vida espiritual organizada, há sempre a presença de rituais, que podem variar entre a meditação, um diário, a vigília e a oração. A meditação pode ser só um silêncio monótono, o diário pode ser só um monte de frases sem vida, a vigília pode ser um sacrifício sem objetivo, e a oração pode ser um monólogo repetitivo e vazio. Ou, tudo isso pode se transformar em experiências profundas de comunhão e fé. O que faz a diferença?

Acima de tudo, o que faz diferença é a Atenção. Mesmo para que crê, é possível deixar Deus escapar por entre os dedos, se não prestrarmos atenção em Sua Graça. O Momento Presente vira passado e futuro num piscar de olhos, se não olhamos bem. O segredo é a comunhão atenta.

A criança, esta sabe-tudo, vive em comunhão atenta. Quando lava as mãos a criança entra em estado de graça. Quando monta um quebra-cabeça, desvenda os mistérios da vida. Quando abre e fecha uma gaveta, a criança atravessa a noite escura da alma, durante seus fracassos, perde a fé, e a recupera, quando tem um mínimo sucesso. A criança é uma mística das coisas banais, e um monge do insignificante.

Como um místico que, na tradição cristã, olhasse os lírios do campo, ou um meditante que, na tradição budista, contemplasse bolhas efêmeras num rio, a criança nota a presença da Vida em tudo o que faz. A criança, nos diz Montessori, observa com olhos de amor, e é isso que a faz ver o invisível. Por esse amor, a criança entra em comunhão com o Ambiente, que para ela é a fonte da vida.

O Amor da Criança pelo Ambiente

Do xamanismo norte-americano, às religiões de matriz africana, passando pelas vertentes todas do cristianismo e pelas mais diversas tradições do oriente, todas as religiões nos fazem rever o ambiente que nos cerca. Algumas emprestam a ele seres supernaturais, sejam anjos, fadas ou entidades espirituais, outras fazem o ambiente brilhar com a Graça ou com a Impermanência.

A criança, mesmo aquela que não conhece tradição nenhuma, ainda que seja pequena demais para reconhecer qualquer ensinamento no mundo, olha a vida com Amor. E na vida espiritual da criança, é o amor que a faz ver o invisível. O Amor é o primeiro contato que a criança tem com a vida espiritual e, até onde sabemos, não existe contato melhor. O Amor, ao que tudo indica, é o que todos os adultos buscam por tantos anos, e a criança encontrou.

Quando a criança vê uma formiga carregando comida e assiste, como quem assiste ao desabrochar das cerejeiras ou às nuvens de uma enorme tempestade, a criança vê ali, na formiga de todos os dias, que nós pisamos distraídos, ela vê um detalhe importante do mundo. A criança reconhece os Pilares da Terra quando vê uma camiseta ser dobrada com cuidado, um pregador de roupas ser colocado no lugar certo, e um raio de sol refletir no vidro do relógio de sua mãe. Ela percebe milagre onde nós percebemos rotina, e é pelo milagre que ela se envolve tão profundamente com o pregador e o reflexo de luz.

Nós, claro, esquecemos de tanta coisa que sabíamos quando éramos crianças. Por que esquecemos de tanto? Talvez porque já tenhamos cumprido a maior tarefa de nossas vidas: nós já criamos um ser humano, quando éramos crianças. Mas agora podemos nos envolver na nossa segunda maior tarefa: ajudar na criação de mais um ser humano. Este que está se criando agora, usando o ambiente que nós oferecemos a ele, e as interações que tem conosco, as comunhões.

A Preparação Espiritual do Adulto

Será que estamos prontos para entrar em comunhão com a criança? Para entrar em comunhão com a Vida, junto com a criança? E se não estamos, o que nos atrapalha? Qual a trave em nossos olhos? Montessori dirá que são o orgulho e a ira, que formam a tirania e nos fazem empurrar obstáculos e arremessar dificuldades no estreito Caminho da criança.

A sugestão de Montessori é que embarquemos em uma jornada de humilhação, e aprendamos a estar de joelhos diante da criança, esta enorme criança, que descobriu a Vida pelo caminho do Amor. Ela sugere que nós, adultos, podemos ser caridosos, amorosos, que nós podemos nos transformar em bons auxiliares da vida.

Em uma frase de humildade momumental, quando pediram que Montessori resumisse seu método em duas palavras, ela disse: “Observar esperando”. Observar o quê? Esperar o quê? Muitas coisas, com certeza. Mas, também com certeza, uma: Observar e esperar que se estabeleça, com a profundidade necessária, a comunhão da criança com a Vida, a obediência da criança às Leis da Vida, e as bases para a manifestação viva do Amor.


Nota sobre a Vida Religiosa da Criança Pequena

Este texto trata da vida espiritual da criança, sempre presente, independente de qualquer tradição religiosa. Mas Montessori trabalhou também sobre a educação religiosa da criança pequena, e deu a escolas e famílias que desejassem transmitir à criança os caminhos de sua tradição a oportunidade de fazer isso de maneira a respeitar a infância e as necessidades da criança. Alguma parte dos ensinamentos de Montessori sobre o assunto está em:

  • I bambini viventi nella Chiesa (A Criança na Igreja, sem tradução para o português. Em inglês, sei que existe. Agradeço que você deixe nos comentários se souber do livro em mais línguas)
  • Descoberta da Criança, capítulo sobre a Educação Religiosa
  • The Spiritual Child, de Anne Delsorte, aqui
  • NAMTA Journal Vol 24, No 2, Spring 1999, “Montessori and the Spiritual Development of the Child”

Para Montessori, a Paz era o maior objetivo de qualquer aplicação de sua pedagogia. A paz entre adultos e crianças e, posteriormente, a paz entre adultos e adultos, de diferentes valores e nações. Viver em Paz com Crianças parece ser um de seus maiores princípios e legados, por isso este é o nome de um dos cursos do Lar Montessori. Chegamos a mais de 700 famílias com este curso, e será um presente poder chegar também em sua casa. Veja o que algumas famílias já disseram:

No segundo vídeo já enxerguei tanta coisa sobre minha filha que não conseguia entender! Incrível!!!

Tati Alves, Mãe

A visão Montessoriana de paz é inovadora e transformadora, um caminho que requer muita disposição de mudança do ser humano.

Rosana Almeida, Mãe

Um curso maravilhoso, o Gabriel sabe como explicar e nos tocar no funo da alma!

Tabitha Laurino, Mãe

Escrito por gabrielmsalomao

"A preparação que nosso método exige do professor é o auto-exame, a renúncia à tirania. Deve expelir do coração a ira e o orgulho, deve saber humilhar-se e revestir-se de caridade. Estas são as disposições que seu espírito deve adquirir, a base da balança, o indispensável ponto de apoio para seu equilíbrio. Nisso consiste a preparação interior, o ponto de partida e a meta." Maria Montessori, em A Criança

3 comentários

Deixe uma resposta