As Histórias que as Crianças Precisam Ouvir

O sentimento fundamental das novas gerações deve ser de uma ardente admiração pela prodigiosa humanidade. Elas devem sentir o orgulho e o privilégio de pertencer à humanidade. Disse Maria Montessori, em 1946. Hoje, olhando para o que a humanidade fez com o mundo, nós podemos perguntar: como é possível sentir orgulho?

A resposta de Montessori é humilde e generosa: nós não estamos sozinhos. A força da humanidade não pertence somente a ela. Nós vivemos de e para um planeta feito por inumeráveis seres vivos, desde há quatro bilhões e meio de anos. Mesmo antes, as forças físicas do universo estavam em ação, e nós somos o resultado do trabalho dos átomos desde o início dos tempos. Agora, somos parte deste trabalho, e pertence também a nós a tarefa de levar o universo a diante. Nosso orgulho, portanto, não é somente de sermos uma espécie criativa e construtora, mas também o de sermos parte desta rede cósmica de relações, entre seres vivos e não vivos, que compõem, formam e transformam o ambiente natural.

Assim como as cianobactérias liberaram quantidades absurdas de carbono no início dos tempos, colocando em risco a vida de espécies e mais espécies de animais, mas abrindo espaço para a vida de incontáveis outras, nós, humanos, também desequilibramos o mundo. Ao contrário das cianobactérias, no entanto, nós temos consciência. E porque a temos, podemos mudar nossa história e o impacto que nossa espécie terá sobre si mesma e sobre a rede com que está conectada: animais, plantas, o planeta e o cosmos.

Um poeta vietnamita escreve: Estamos aqui para despertar da ilusão de nossa separação. Montessori escreve: Caminharemos juntos pela trilha da vida, porque todas as coisas são parte do universo, e estão ligadas umas às outras formando uma unidade integral. O orgulho de se saber humano, a força e a esperança que vêm daí, não precisam vir da noção de que, porque somos humanos, somos uma espécie separada e especial. Podem vir justamente de que, porque somos humanos, podemos perceber, racionalmente, a interconexão de todas as coisas, e podemos agir, cientificamente, artisticamente, criativamente sobre essa interconexão, como só os humanos podem.

Este texto se dividirá em três partes, por faixas etárias.

Primeira Parte: Crianças de 0 a 6 anos

A criança na primeira infância precisa de um contato concreto e imediato com o mundo. Ainda não é época de teorizar nada. Podemos explicar que as plantas precisam de água e luz para viver, e que nós comemos plantas. Mas mais claro do que explicar é fazer: plantar um jardim, regar, colocar vasos para tomarem sol e colher as verduras de uma horta quando estiverem prontas.

A relação entre as coisas fica mais clara pela própria vida do que pelas explicações que damos. Então se a criança puder ver alguém pegando ovos em um galinheiro, tirando leite de uma vaca, ou puder participar da criação desses animais, ela vê parte das relações de dependência. Se puder visitar um projeto de preservação da natureza, como a criação de espécies em extinção em cativeiro, ou um centro de reabilitação para animais contrabandeados, ou um projeto de proteção, como o TAMAR, as crianças absorvem, pelo olhar e pela presença, a atmosfera de cuidado.

No dia a dia, é claro, tem muito que podemos fazer. Muito mais do que explicações teóricas do tipo “canudos furam os olhos de tartaruguinhas”, as crianças podem ver como a vida é abundante em espaços naturais, e como é mais difícil preservar a vida em espaços desmatados, como as grandes cidades. Para a criança pequena, “as mãos são os instrumentos da inteligência humana” (Montessori), é com as mãos que ela entende o mundo. Nós podemos cuidar bem de nossos bichos de estimação, e podemos participar de projetos comunitários, de hortas e limpeza de vias públicas.

Nós não estamos ensinando nossas crianças a serem revolucionárias – embora esse possa ser o resultado. Estamos mostrando a elas como funciona uma rede de interdependência, para que sua força interior nasça de perceber a capacidade humana de contribuir para um mundo melhor. A criança, especialmente quando muito nova, aprende por experiências no ambiente, muito mais do que ouvindo palavras.

Segunda Parte: Crianças de 6 a 12 anos

Quando as crianças crescem um pouco, também crescem as formas que elas têm de compreender o mundo. As crianças de 6 a 12 anos conseguem dar conta de muita coisa que não pode ser vista ou tocada, se puderem ter contato com boas histórias. Montessori diz em Para Educar o Potencial Humano que a inteligência, nessa faixa etária, “vem ao mundo como uma bola flamejante de imaginação”. É com a imaginação que ela toca o início do universo, a evolução da vida, a formação da Terra, o desenvolvimento das civilizações, e o futuro. A imaginação é o par de mãos da criança mais velha.

Para alimentar essa imaginação e dar suporte para que a mente da criança reconstrua, intelectualmente, a enorme rede de interdependências do mundo, nós usamos histórias. Algumas das principais são:

1. A História do Cosmos – Nós começamos do universo porque a inteligência da criança pede tanto nessa idade que não há motivo para não dar tudo de uma vez! Nós podemos dar a ela o universo inteiro, e contar como tudo aconteceu, desde o Big Bang até a formação da Terra. Com alguns, mas não muitos, detalhes físicos e químicos. Sobretudo, causando na criança a impressão do tamanho, do tempo, da distância, e da cronologia das coisas. O mais importante é o fascínio. Nós podemos contar na mesma história, ou depois, a história da Terra, desde sua formação, até o início da vida. Essa primeira história deve dar à criança – sem que isso seja dito explicitamente – a impressão de que tudo está interligado, de que tudo existe porque tudo mais existe.

2. A História da Vida – A segunda rede de interdependências de que a criança faz parte é a Vida. Por isso, essa é a segunda “camada” de histórias que contamos a ela. Podemos contar de uma só vez toda a evolução das espécies, ressaltando pontos-chave da sequência, e dando sempre ênfase às influências mútuas entre as espécies. Deixando claro, por exemplo, o papel das algas na produção do oxigênio, e o papel das minhocas e dos fungos na transformação do solo, ilustrando como os corais absorvem cálcio dos oceanos, e como as borboletas e as abelhas polinizam as plantas, que depois outros animais comem. Isso também pode ser ilustrado para a criança em várias pequenas histórias separadas, depois. O mais importante é a percepção clara de que a vida é o que sustenta a vida.

3. As Histórias das Civilizações – A terceira rede que nos mantém é a conexão com outros seres humanos, através do espaço e do tempo. Por isso, devemos contar à criança sobre como chegamos até aqui. Desde a Idade da Pedra, passando pelas descobertas do fogo e das ferramentas, da agricultura e da vida em comunidade, até os tempos modernos, com o advento de máquinas cada vez mais sofisticadas e facilidades cada vez maiores para a humanidade viver e contribuir para um planeta melhor. Esta história deve deixar claro que culturas diferentes contribuem com coisas diferentes umas para as outras: com formas diferentes de plantar, conservar, e cozinhar os alimentos, formas diferentes de morar e organizar a comunidade, e as mais diversas ferramentas e máquinas. A percepção da criança deve ser – sem que isso seja dito explicitamente – de que, pelo grau de colaboração e influência que temos uns sobre os outros, a Terra inteira é como uma Nação Única.

Essas histórias podem ser contadas em momentos solenes, com ilustrações lindíssimas e uma preparação especial. Mas também podem, e devem, fazer parte de nossos diálogos com as crianças, na rotina, para que a interdependência de todas as coisas seja uma noção clara e natural para elas. É uma miopia humana, que nos enfraquece, imaginar que estamos isolados de todo o resto de alguma maneira. Nós somos maiores do que cada indivíduo, e maiores do que a humanidade. É nossa consciência disso, e de nossa influência, que deve alimentar a confiança e o ânimo que podemos ter na capacidade humana de resolver problemas (mesmo os que nós causamos) e melhorar o mundo.

Terceira Parte: Adolescentes de 12 a 18 anos

O adolescente está atravessando a porta entre a infância e a vida adulta. Diante dele não está mais a casa ou a escola, mas a sociedade e o mundo. Para o adolescente, os problemas e o fascínio que o mundo apresenta são tangíveis. A esperança e a vontade de fazer podem ser intensas, a angústia e o desespero também.

Aqui vamos explorar duas das direções para as quais Montessori aponta quando trata dos adolescentes:

1. História da Humanidade através da Ciência e da Cultura – Na adolescência, é comum só se estudarem relações de disputa política, guerras, genocídios e dominações. Mas enquanto uma parte da humanidade brigava por fortunas e fronteiras, outra parte se ocupava de expandir o conhecimento humano e nossa capacidade de viver no mundo, melhor e de forma mais equilibrada. Montessori insiste que devemos dar mais espaço para essa história do que para a outra. Devemos mostrar, com ilustrações e textos da época, mesmo, a transformação que cada descoberta e invenção trouxe à vida em comunidade. Isso vale para a prensa e o microscópio, como vale para as grandes navegações. É claro que há guerras e disputas, e nesse caso, Montessori sugeria, o foco deve se voltar aos ideais por trás da guerra, e a discussão das ideias que motivaram o conflito. Também devemos dar atenção para a influência e o processo de assimilação entre as culturas. Nessa altura, olhando para o passado e o futuro ao mesmo tempo, o adolescente deve ter a sensação (verdadeira, diga-se de passagem) de que “a vida humana interior se eleva mais e mais a tendências que são cada vez menos cruéis e violentas, e se esforça para criar associações entre grupos cada vez maiores de indivíduos”.

2. Preparação e Liberdade para Agir sobre a Comunidade – Ao mesmo tempo que estuda sobre o passado e as tendências para o futuro, o adolescente deseja agir sobre o presente. Recentemente temos exemplos bastante contundentes de ação adolescente, com Malala Yousafzai, Emma Gonzalez e Greta Thunberg. Mas nem todos os adolescentes sentem o ímpeto de ir tão longe. Muitos desejarão agir sobre problemas locais, que podem ter a ver com moradia, distribuição de alimento, preservação de rios e matas, ou socorro a espécies animais. Estas e quaisquer outras causas devem ser estudadas pelo adolescente, e nosso suporte deve ser na direção de levar a ele histórias de personalidades que despertem interesse, e de quem traços de comportamento possam ser estudados e refinados. Também deve haver um estudo do presente e da situação nacional, com um enfoque sobre a Constituição e as leis, e suas características morais, méritos e pontos a considerar. Tudo isso, aliado a adultos que ajudem os adolescentes a entrarem em contato com o mundo, em uma atmosfera protetora e amorosa, mas que não sufoque sua força vital e capacidade de atuação sobre a realidade.

A esperança possível

Ter esperança não é esperar. É fazer, e ter a expectativa de um bom resultado. Oferecer esperança às nossas crianças não é o mesmo que lhes oferecer uma crença boba, cega e ingênua de que “tudo vai ficar bem”. Oferecer esperança é mais parecido com a construção de força interior, de ânimo, vontade e capacidade de compreender o mundo e o transformar.

A melhor maneira de fazer isso é pelo estudo sistemático da História Cósmica. Abrindo caminhos para que a inteligência e a imaginação da criança percebam que a vida sustenta a vida e que caminhamos juntos pela trilha da vida. Em todo o mundo existe uma só nação, e todas as coisas estão ligadas a todas as outras coisas. Estamos aqui para despertar da ilusão de nossa separação.

Essas são as histórias que as crianças precisam ouvir: é possível viver em colaboração com o mundo, desde o início tudo esteve interligado, todos nós dependemos de todos nós, e existem bons exemplos a seguir se quisermos continuar o trabalho que nos trouxe até aqui, mantendo o equilíbrio do mundo, e melhorando a situação em que se encontram todos aqueles que compartilham o universo conosco.


Alguns dos conceitos deste texto são pilares de Montessori, que funcionam ainda melhor quando articulados com outros aspectos do método. O Lar Montessori tem um minicurso de Introdução ao Método Montessori para acompanhar você no começo dos seus estudos. As aulas são breves e objetivas, mas podem ajudar bastante seus estudos. Veja o que alguns (dos mais de 2.000) alunos disseram:

Muito mais do que eu esperava! É, sobretudo, um curso repleto de informações e generosidade. 

Moacir de Almeida, Pai

O curso é bem objetivo e claro. Superou as minhas expectativas, pois mesmo resumido, pude compreender a essência e a importância do método Montessori e despertou a curiosidade para conhecer mais sobre o método. Recomendo!

Luana de Andrade

Referências deste texto:

Texto todo: The Child, Society and the World, de Maria Montessori; A Educação e a Paz, de Maria Montessori; Creative Development in the Child, v.2 de Maria Montessori; The Great Work: Our Way Into the Future, de Thomas Berry; Good Citizens, de Thich Nhat Hanh.

Primeira parte: Primeira edição, em inglês, do livro The Montessori Method, e livros Descoberta da Criança, Mente Absorvente e A Criança, de Maria Montessori.

Segunda parte: Para Educar o Potencial Humano, de Maria Montessori; Children of The Universe, de Michael e D’Neil Duffy; e The Deep Well of Time, de Michael Dorer.

Terceira parte: Da Infância à Adolescência, de Maria Montessori; Optimal Developmental Outcomes, terceira parte do texto, por David Kahn; textos diversos sobre adolescência escritos por Marta Donahoe, disponíveis aqui.

Escrito por gabrielmsalomao

"A preparação que nosso método exige do professor é o auto-exame, a renúncia à tirania. Deve expelir do coração a ira e o orgulho, deve saber humilhar-se e revestir-se de caridade. Estas são as disposições que seu espírito deve adquirir, a base da balança, o indispensável ponto de apoio para seu equilíbrio. Nisso consiste a preparação interior, o ponto de partida e a meta." Maria Montessori, em A Criança

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