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Compreendendo Montessori: A Preparação Interna do Adulto, Parte I

“O professor deverá adquirir uma habilidade moral que nenhum método anteriormente exigira: habilidade feita de calma, de paciência, caridade e humildade. São as virtudes, e não as palavras, a sua máxima preparação” (Maria Montessori – Pedagogia Científica, p.144).

Para este artigo, tentaremos descrever o mais didaticamente possível as características do adulto montessoriano, inspirando-nos na longa e bela descrição feita por E.M. Standing em seu “Maria Montessori: Her Life and Work”.

O adulto montessoriano é, acima de tudo, um adulto que compreende verdadeiramente a criança. Que a enxerga pelo que é e não lhe cobra o que não pode ser. Mas que, conhecendo seus potenciais, suas possibilidades, explora-os com amor. A partir deste tratamento, surge uma nova criança, diferente daquela descrita por séculos em livros de psicologia e de ficção. Surge uma criança equilibrada, que nos surpreende. É esta nova criança que merece todos os nossos esforços para nos tornarmos novos adultos.

O trabalho para que nos transformemos em ajudantes da infância, que sejamos capazes de dar exatamente aquilo de que a criança necessita, não menos e, especialmente, não mais, é um esforço de longo prazo – provavelmente de vida inteira – e por isso não se fala na formação interna do adulto, mas em sua preparação, em seu treinamento. Um atleta que seja campeão olímpico tem uma rotina: ele treina. Quando vai às olimpíadas e vence, ganha sua merecida medalha e retorna, com honra, ao seu país, desce dos pedestais, veste sua roupa surrada, e treina. É exatamente assim que devemos fazer: terminado o dia, quando conseguimos ajudar tantas crianças e conseguimos resultados tão bons, é hora de treinar.

O adulto montessoriano deve “expelir de seu coração a ira e o orgulho”, e este é seu preparo. Expelir do coração a ira é difícil, mas é mais fácil que expelir o orgulho. Para que não nos iremos há uma fórmula simples, embora demore para que funcione: basta que repitamos, todas as vezes, sobre qualquer um nos decepcionar ou enfurecer: ele não faz isto por mal. Todos estão tentando ser felizes, e se agem assim é porque compreendem, erradamente, que assim serão felizes. Como não sonharíamos em punir ou vingarmo-nos de alguém por esta pessoa tentar ser feliz, em um período bastante prolongado de tempo, esta repetição surte efeito e a ira desaparece.

Para livrarmo-nos da ira contra a criança é bem mais simples: ela está aprendendo. Se age como age é porque aprendeu assim. Tudo o que precisamos fazer é tratar que ela aprenda a outra maneira de agir. A maneira correta. Um ambiente em que haja respeito mútuo e compreensão será, naturalmente, um ambiente no qual a ira não terá lugar. Não é assim com o orgulho.

Expelir o orgulho exige, antes de tudo, que percebamos a verdadeira natureza da educação. Trata-se de um processo de ajuda à vida. Como tal, somos somente aqueles que servem a um ser que pode mais do que nós. Nós, neste contexto, não somos a peça mais fundamental, nem o alvo dos holofotes. Ao final de um dia de trabalho, o mérito do sucesso é só parcialmente nosso, enquanto que é quase totalmente da criança, do material, de um conhecimento que chegou até nós, e ao qual, se algo adicionamos, foi pouco. Não há espaço para o orgulho quando percebemos, verdadeiramente, que diante da verdade não há outra opção que não ser humilde.

Aquele adulto que enxerga-se como portador da luz e do conhecimento, que vê-se como o salvador da alma da criança, aos poucos torna-se um tirano, quando nota que a criança não deseja receber a luz que ele transmite, e quando o sobressalta a impressão de que algumas almas estão além da salvação de que ele se julgava capaz. O tirano surge quando o amor dá lugar à ira e a humildade dá lugar ao orgulho. A criança carrega a luz que iluminará, para os adultos, o futuro da civilização. A criança mostra ao adulto de que forma ele mesmo pode salvar-se: o trabalho individual que equilibra sua personalidade e a valoriza, que ensina a ela mesma o verdadeiro valor do esforço e ensina ao adulto como esforçar-se.

Servir a criança é ao mesmo tempo um ato de amor e um ato de fé. Fé, no sentido mais amplo do termo: acreditar na criança. Não é possível servir a criança em suas necessidades exatas se não acreditarmos que ela sozinha é capaz de se desenvolver. Nós não somos os viabilizadores de seu desenvolvimento, somos somente os viabilizadores do ambiente de seu desenvolvimento e aqueles que ajudam a criança a conhecer este ambiente. Desenvolver-se, desenvolve-se sozinha.

A reflexão acerca da humildade necessária diante do imenso potencial da criança é o que construirá o adulto montessoriano. O adulto que expeliu de si a ira e orgulho, que reveste-se de caridade e humildade, utiliza somente a paciência e tem nas virtudes, e não nas palavras, sua máxima preparação.

O próximo texto tratará dos aspectos práticos da preparação do adulto e será publicado logo. Dividimos este tema em duas partes para que os textos não ficassem longos demais. Esperamos ansiosamente pelos comentários e reflexões.

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