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Arquivo da categoria: Preparação do Adulto

Textos sobre o adulto preparado de acordo com o método Montessori e as ideias de Maria Montessori.

O Tempo que Temos Juntos

Todos concordamos: Seria incrível ter todo o tempo do mundo para usar com nossas crianças. É importante para elas que os momentos em família sejam muitos e muito bons. Dizer que só o que importa é a qualidade do tempo que se passa junto, e não a quantidade de tempo que se passa junto não é dizer a verdade. A quantidade de tempo importa também, e se o tempo for longo e de qualidade, muito melhor. É bom que haja famílias que optem – ou possam optar – por estabelecer rotinas mais flexíveis para os adultos, de forma a estar mais presentes nas vidas das crianças. É bom quando os pais podem se revezar e cuidar de seus filhos da forma como acreditam, sem depender de escolas em que não confiam e pessoas que não conhecem.

Essa, no entanto, não é a vida da maior parte de nós. Para quase todos nós, não é todo o tempo do mundo aquele que podemos dedicar a nossas crianças, mas só uma parte dele. Só uma pequena parte, às vezes. Famílias que trabalham de manhã à noite, famílias que trabalham em cidades diferentes daquela em que vivem, famílias que fazem plantões, ou que têm por obrigação estarem disponíveis para seus empregadores mais do que podem estar disponíveis para seus filhos. Não faço eco ao discurso de quem diz que “se gosta tanto de trabalhar, não devia ser mãe/pai”. Para muita gente, o trabalho é um pilar de sanidade, e muitas famílias vivem melhor (todo mundo, incluindo as crianças) quando os pais trabalham do que quando um deles deixa de trabalhar e leva a frustração da falta do exercício profissional para casa… Não é incomum que essa seja uma das principais causas da hiperestimulação de crianças.

A ideia desse texto é trazer algumas dicas. Dicas de como melhorar o tempo que passamos com nossas crianças, seja ele quanto for.

1. Fale baixo. Escute. Preste atenção. – É comum que estejamos tão ansiosos para passar algum tempo com as crianças que esqueçamos de ser tranquilos. Nós temos planos para diversão. Vivemos numa sociedade que gira no eixo de “work hard, party harder” (trabalhe muito, divirta-se mais ainda). Queremos brincar, falar alto, dar risada e fazer cócegas. Buscamos a euforia. Mas nossas crianças precisam de equilíbrio. A família muitas vezes é quem melhor entende as primeiras palavras e a fala inicial de uma criança. É muito importante deixá-la falar. Se queremos ter diálogo em nossos lares, esse diálogo precisa começar muito cedo, com respeito, com atenção e cuidado. Às vezes as crianças não querem brincar do que nós queremos brincar. Às vezes elas não querem brincar em absoluto. Só ficar em paz, agasalhadas por você, ou te mostrar alguma coisa interessante que fizeram ao longo do dia.

2. Valorize o silêncio e a observação – Aproveite esse momento de paz, de encontro, de conexão entre você e seu filho, para descobrir de que ele precisa, o que ele conquistou, o que tem despertado seu interesse recentemente, como ele tem se comportado, o que o frustra e o que o alegra. Olhe para ele, com silêncio e admiração, e busque compreendê-lo em suas ações, em suas emoções, em seus atos e no desenvolvimento de sua inteligência. Por outro lado, valorize também o silêncio e a observação que partem de sua criança. Se, na rua, ele para e abaixa para ver qualquer coisa, abaixe-se, olhe com ele. Esteja lá, mas sem interferir, sem dizer nada. Permita que essa outra conexão preciosa – entre a criança e a realidade – se estabeleça e aprofunde suas fortes raízes.

3. Brinquem com o corpo e a voz – Uma boa parte de seu tempo precisou ser entregue ao dinheiro. Inevitavelmente, você já entregou horas a corporações e marcas – no trabalho, na comida comprada, no carro dirigido, no celular. Não entregue esses poucos momentos que você tem com sua criança para mais corporações e mais marcas. Evite a televisão com desenhos fabricados por empresas imensas e de interesses escusos. Evite os tablets com propagandas constantes e perniciosas. Evite os computadores com jogos construídos para alimentar o modo de ser de uma sociedade de consumo. Brinque com aquilo que a natureza deu: o corpo e a voz. Se quiser – se vocês dois quiserem – use brinquedos. Mas use brinquedos que não brinquem sozinhos. Brinquedos que dependam de vocês para funcionar, para acontecer. Brinquedos que sem vocês sejam pedaços de qualquer coisa. Brinquedos nos quais você, e principalmente seu filho, soprem alma e vida.

4. Em casa, a casa basta – Brinquedos muito sofisticados não são uma necessidade da criança. Eles são uma necessidade dos adultos e uma necessidade das empresas. Coordenação motora, equilíbrio, desenvolvimento da fala e do raciocínio lógico… Tudo isso se desenvolve muito bem na vida, sem que sejam necessários brinquedos, softwares e vídeos especializados. O material montessoriano, inclusive, funciona muito bem na escola, onde ele é compreendido em sua inteireza, usado de maneira correta e reaproveitado, auxiliando no desenvolvimento da individualidade e na construção da vida comunitária. Em casa, ele é inútil e, a depender do comportamento do adulto, pode ajudar em formas de opressão variadas – se, por exemplo, forçamos a criança a usar as letras de lixa porque sinceramente acreditamos que será bom para ela. Em casa, use a casa. Limpe, lustre, lave, corte, cozinhe, pendure, enxugue, arrume, separe, organize. Na minha opinião, especialmente cozinhe. Cozinhar com crianças é uma grande diversão, ajuda na alimentação de todo mundo e garante que o tempo da criança será usado de forma maravilhosamente produtiva para sua personalidade: há um trabalho intenso com os sentidos e com a coordenação motora, há a sensação da independência que se desenvolve, há o prazer puro de desfrutar de um bom sabor e a sensação de conquista por comer aquilo que se fez, para dizer o mínimo.

5. Permita a independência – Quando ficamos fora de casa por períodos longos, muitas vezes nos sentimos indevidamente culpados. A sensação de culpa nunca tem boas consequências. Uma das consequências negativas é que, voltando para casa, desejamos proteger nossas crianças de tudo, inclusive de qualquer esforço. E, fazendo isso, protegemos nossas crianças da possibilidade de um desenvolvimento saudável. Permita que sua criança seja independente. Permita que ela se esforce e falhe, permita que ela faça coisas sozinha mesmo nesse curto período que vocês têm juntos. Seu filho valorizará a possibilidade de ser independente na sua presença. A chance de conquistar a vida ao seu lado. Você vai perceber pelo olhar de sua criança quanto acertou em sua escolha.

Não há muito mais o que dizer. Seu coração, seu amor e o conhecimento que você tem de seu filho vão nortear suas ações melhor do que uma imensa lista de atividades sugeridas. Num próximo texto, pretendo abordar formas de melhorar o tempo da criança enquanto ela está longe de nós, na escola ou em casa.

A Transformação do Adulto em Adulto Preparado

A criança vive em estado constante de cerceamento e medo, de angústia, incerteza e falta de poder. Sobrevive em um ambiente via de regra agressivo e opressor, permeado por obstáculos, armadilhas e impedimentos. Vive, dizia Montessori, uma vida de um escravo e um fugitivo. É necessário salvar a criança, insistia ela – e para isso, é necessário modificar o adulto.

Este texto é um especial de Dia das Crianças. Ele é grande, denso, cheio de informações e, talvez, um pouco pesado. Leia-o todo de uma vez, e depois leia em partes. Para ajudar, dividimos o texto em partes menores. Depois da primeira leitura – do texto todo – você pode ler bem devagar, retornando várias vezes ao que achar necessário. Nós, do Lar Montessori, não esperamos que você se transforme do dia 12 para o dia 13 de outubro. Esperamos que você se esforce muito, muitíssimo, para dar os primeiros passos, e então não parar mais.

 

Como uma introdução

A criança precisa do adulto. Ela precisa que o adulto a guie, ajude, ampare, proteja. Precisa que ele prepare o ambiente e a si mesmo, precisa que o mundo lhe seja apresentado de forma sedutora, interessante, cheia de encanto. Ela precisa de norte, certeza, chão, suporte. Ela precisa de natureza, tempo aberto e longo, flexível e amplo, precisa de espaço sem e com limite, espaço útil, ferramentas, brinquedos, materiais de trabalho e esforço físico e intelectual. E precisa de um adulto que ajude com tudo isso, e dê a ela tudo o que for necessário para a longa e nobre caminhada para a vida – a conquista contínua de sua independência biofísica, intelectual, social e psicológica, e da percepção de sua integração total com os outros humanos e com o universo.

Acontece, porém, que erramos muito em tudo isso. Nós falhamos, e com mais frequência do que acertamos, ao guiar a criança, ao ajudar a criança, ao dar suporte e condições adequadas para o surgimento e o desabrochar dos fenômenos físicos e psicológicos naturais de seu desenvolvimento. A ideia deste texto é, primeiro, ajudar você a reconhecer a multiplicidade de falhas em que incorremos em nosso comportamento para com a criança e, em seguida, ajudar você a enxergar a você mesmo e ao mundo de forma tal que, aos poucos, você se reconstrua de fora para dentro (isso, de fora para dentro. Você leu certo.) e possa ser um adulto cada vez melhor para as crianças que vivem com você ou com quem você trabalha. Para todo esse texto, usaremos citações e paráfrases do livro A Criança, de Maria Montessori.

Os Erros do Adulto

Montessori diz, em A Criança:

“O adulto não tem compreendido a criança e o adolescente; em consequência, trava contra eles uma luta perene. O remédio não consiste em fazer o adulto aprender alguma coisa ou integrar uma cultura deficiente. Não. É preciso partir de uma base diferente. E necessário que o adulto encontre em si mesmo o erro ignorado que o impede de ver a criança.”

O erro ignorado de que Montessori nos fala é uma cegueira interna que faria lembrar Saramago quando nos diz, com a ênfase da epígrafe, “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.” Essa cegueira é daquelas consagradas pelas religiões do mundo, que muito antes da ciência vinham trazendo à civilização a necessidade de uma crença interior para que um comportamento exterior se fizesse verdadeiro e eficaz. Um olhar cheio de fé que permitisse crer para ver.

A crença fundamental, a verdade fundamental, que necessitamos ter dentro de nós, é a de que a criança é um ser vivo radicalmente diferente do adulto, e que merece não só seu amor e seu respeito, mas mais ainda: sua reverência. E o erro fundamental do adulto é a atitude emocional oposta a essa.

O adulto, em relação à criança, enche-se de orgulho. Acredita-se, como canta Vinícius, “amo e senhor do material”, mas ainda como canta o Poeta, o adulto “pode estar redondamente enganado. No mais das vezes ela anda distante, num mundo lírico e confuso, cheio de aventura e magia, e o adulto nem sequer toca sua alma”.

O adulto se crê superior à criança, verdadeiramente, sem que haja maldade ou perversão alguma em seu pensamento, de forma intencional. Ele se crê, porque maior, mais capaz, mais íntegro em seu caráter, forte em sua fibra moral, firme em seus princípios de vida. Sólido, em seus hábitos formados ao longo de uma vida de repetições. E esse adulto, autocentrado, tem certeza de que pode, por meio de seus esforços, suas tentativas, seu trabalho, formar a criança. Na verdade, diz Montessori, é a criança quem forma o homem.

Esse orgulho, essa noção de que somos superiores, mais capazes, e responsáveis pelo progresso intelectual, físico e moral da criança, nos pesa imensamente, cansa e aflige. É um fardo grande demais para que possamos carregar e, então, iramo-nos contra aqueles que julgamos serem os responsáveis por todo o peso. Iramo-nos contra a criança que, por um lado depende de nós para tudo, e por outro lado não facilita o que julgamos ser nosso trabalho.

A criança não se submete às nossas vontades como gostaríamos. Não é tão submissa quanto desejávamos que fosse. Do alto de nossa torre de orgulho, iramo-nos, soberanos da vontade de nossos filhos e alunos. Tiramos na concepção mais pura do termo: aqueles em quem a ira surge misturada ao orgulho e à certeza do direito natural à obediência. Agimos com a criança no modelo da aristocracia de Luís XIV que, num mítico ímpeto de arrogância, proferiu muito certo de si: “O Estado sou Eu!” e que, quando todas as suas carruagens chegavam à hora marcada, reclamava: “Eu quase que esperei”.

Não admitimos a hipótese de estarmos errados e a criança estar certa. De nos desobedecer e, pasmem, ter razão. A criança, sob nenhuma condição, pode ser diferente do adulto e, ainda assim, ser perfeita. O adulto, diz Montessori, se enxerga como uma “Pedra de Toque”, capaz de testar, pela reação que ele mesmo tem ao comportamento da criança, seu grau de pureza – como a pedra faz com os metais preciosos. Se destoa do esperado pelo adulto, então está, desde o princípio, errado, e essa é uma posição nunca aberta para debate.

Esse comportamento que, sem ser egoísta porque é cheio de amor e sacrifício, é ainda assim egocêntrico. Coloca o eu, do adulto, no centro das referências dele mesmo sobre o mundo, e força a criança a se adaptar ao que quer que o adulto considere positivo ou moralmente adequado.

Para Maria Montessori, o adulto não pode se considerar o centro do universo. No pensamento de nossa precursora, o universo não tem um centro. Ele é um todo, equilibrado e organizado, mantido pelos papéis cumpridos por todos os seres que, não só o habitam, mas o fazem mesmo. Montessori chama a esses papéis, cumpridos por todos os seres, de papéis cósmicos. Ela diz:

“Os animais produzem mais do que exigem suas necessidades; da sua atividade resulta sempre um excedente imensamente superior aos requisitos diretos da preservação da espécie. Consequentemente, são todos operários do universo e cumpridores das leis universais.”

Como exemplos, Montessori oferece as abelhas, que polinizam as flores e possibilitam a vida das plantas e do que delas depende, enquanto mantém a vida de sua espécie e sua comunidade. Oferece também os animais que devoram os corpos mortos de outros animais e os que se alimentam dos detritos que, de outra forma, apodreceriam sobre a terra.

Todos os seres contribuiriam para o equilíbrio universal, e o homem não deveria ser exceção. O papel cósmico do homem é a criação da supernatureza. Se no início o homem vivia da natureza, diz Montessori, aos poucos criou para si mesmo uma forma de viver que não depende integralmente dela. “O homem vive do homem”, diz, em um ambiente complexo que chama de supernatureza. Isso pode ser muito bom – possibilita as vantagens da forma de vida que temos hoje, em comparação com a vida dos caçadores-coletores da Idade da Pedra Lascada. Entretanto, nós nos distanciamos demais da natureza, em nome da supernatureza que criamos. E a criança, com isso, foi distanciada de suas tendências naturais:

“Tudo é excessivamente regrado, demasiado fechado e rápido. Não só o ritmo acelerado de vida do adulto passou a constituir um obstáculo à criança, mas o advento da máquina, que arrasta para longe como um vento impetuoso, privou-a até mesmo dos últimos recantos onde refugiar-se. Em consequência, está impossibilitade de viver ativamente. Os cuidados que lhe dedicam consistem em salvar-lhe a vida dos perigos que se multiplicaram e que a atormentam exteriormente. Mas, na realidade, a criança é um fugitivo no mundo, um ser inerte, um escravo. Ninguém pensa na necessidade de criar para ela um ambiente de vida adequado; não se reflete que ela tem exigências de ação e de trabalho.”

As exigências de ação e trabalho da criança são profundamente diferentes das exigências do adulto. Enquanto o adulto “só ganha p’ra juntar” – para continuar citando Vinícius -, a criança trabalha para construir a si mesma, e para construir a humanidade. O adulto trabalha pela produção, para agregar um resultado final ao mundo: uma ideia, um objeto, uma obra. A criança, por outro lado, não tem como objetivo a construção de qualquer coisa externa a ela mesmo – a criança almeja, de forma inconsciente, é claro, a sua própria construção. Ela deseja fazer-se para na vida e para o mundo. Seu trabalho é produzir a si mesma. A contribuição que dá à humanidade é justamente a humanidade em si, na forma de um indivíduo que busca a perfeição de seu desenvolvimento por meio do trabalho manual. E aos que chegam a considerar que somente mais um indivíduo talvez não seja um trabalho tão fundamental em um mundo de 7.000.000.000 de habitantes, basta por um momento pensar em Gandhi e Hitler, em Madre Teresa e George Bush.

Nós devemos, portanto, propiciar os meios adequados de trabalho para a criança pequena. Devemos preparar seu ambiente, fornecer os brinquedos ou materiais adequados, os melhores espaços possíveis. Tudo isso é conhecimento técnico importante, e o Lar Montessori tem os primeiros passos para você na barra à direita (para quem está navegando no modo tradicional, e não em dispositivos móveis) com as Categorias de nossos textos. Você pode ler sobre o que quiser ali. Neste texto, iremos nos alongar mais com as modificações interiores e com as atitudes para com a criança.

A Correção dos Erros

Para que sejamos capazes de ajudar nossos pequenos, para que nos tornemos adultos preparados, há duas esferas nas quais devemos agir. Precisamos realizar um trabalho de ordem técnico-científica e um de ordem moral.

O primeiro trabalho que devemos realizar é exterior, mesmo, é técnico. Montessori enfatiza isso quando diz que, por meio do esforço por uma prática correta nós nos tornaríamos conscientes de nossas falhas internas e nos esforçaríamos por sua reparação.

O passo inicial que precisamos dar na direção dessa nova busca é aprender a confiar na criança. Confiar, principalmente, em que a criança vá se desenvolver adequadamente pelo trabalho com as mãos. Se pudermos confiar nisso, e podemos, porque toda sorte de pesquisa científica recente aponta exatamente para essa verdade, conseguiremos colocar as nossas mãos atrás das costas todas as vezes que tivermos o ímpeto de interromper uma criança que está trabalhando ou ajudar uma criança que, embora esteja enfrentando dificuldades, está tentando trabalhar. “Nunca”, dizia Montessori, “ajude uma criança com uma tarefa na qual ela sente que pode ter sucesso”.

Confiar na criança não é lá muito simples, e não basta para isso que nos inspiremos internamente e tomemos a decisão correta. É necessário um grau adequado de conhecimento, paciência e observação. O conhecimento você adquirirá lendo e estudando o desenvolvimento infantil, especialmente nos aspectos psicomotores, se sua criança tem até três anos, mas também sobre os aspectos cognitivos desse desenvolvimento.

A atitude prática mais útil aqui é aprender a observar. Cultivar o saudável hábito de um diário sobre sua criança é muito adequado. Em uma época na qual tínhamos mais tempo, era hábito de muita gente manter um diário pessoal. Com a exterminação do tempo pelo trabalho 24h, carregado para casa nos smartphones, tablets e computadores, e com a valorização dessa escravização pelo discurso atual, nós perdemos a valorização do tempo pessoal, e com isso práticas singelas como a confecção de um diário se tornaram quase impossíveis de serem realizadas. Faça um grande esforço – e escreva três ou quatro linhas sobre sua criança todos os dias. Pode ser sobre um hábito, uma evolução, um novo interesse, uma conquista, um trabalho ou uma brincadeira. Três ou quatro linhas. Todos os dias.

Para sermos capazes de observar, precisamos de um esforço anterior: esperar com paciência. Quando a criança tenta colocar uma camiseta ou um sapato, ensaboar-se no banho ou levantar um objeto, ficar de pé ou parar no caminho para observar algo no chão, precisamos aprender a esperar com paciência. Somente se tivermos paciência para esperar será possível assistir ao desabrochar da verdade interior da criança, de seu verdadeiro potencial, de tudo o que ela pode fazer pela humanidade. Se interrompemos o tempo todo, o tempo todo atrapalhamos, ainda que para ajudar.

Enfim, depois desses três aspectos principalmente passivos de nossa ação para com a criança, há um quarto aspecto, mais ativo, e também importantíssimo. Precisamos aprender a seduzir a criança. Seduzir a criança significa que quando quisermos ou precisarmos que ela faça alguma coisa, devemos agir com ela como agimos com um grande amor recente. Ordenar, exigir, mandar, são verbos pouco úteis com crianças. Além de agressivas, essas ações são pouco eficazes, as crianças, especialmente as bem pequenas, ainda não conseguem obedecer, e só nos seguem porque lhes agrada. As mais velhas, embora já consigam, só escolhem obedecer aqueles a quem elas admiram: aquele que espera, abstém-se de ajudas desnecessárias, confia, prepara o ambiente, conhece. E admiram mais ainda aqueles que as seduzem: que agem com amor, com carinho, com cuidado, com fascínio. Com um toque de maravilha na luz dos olhos.

Ainda aqui, é necessário sugerir que todos os adultos leiam os Princípios do Educador Montessoriano, traduzidos pelo Lar Montessori e publicados em inglês pela Association Montessori Internationale.

Iniciada a reforma exterior, é hora de começar a dar atenção ao trabalho interior, de ordem moral, que também precisa ser realizado. Montessori dá um excelente plano de ação quando diz:

“A preparação que nosso método exige do professor [e diríamos, aqui, do adulto] é o autoexame, a renúncia à tirania. Deve expelir do coração a ira e o orgulho, deve saber humilhar-se e revestir-se de caridade. Estas são as disposições que seu espírito deve adquirir, a base essencial da balança, o indispensável ponto de apoio para seu equilíbrio. Nisso consiste a preparação interior: o ponto de partida e a meta.”

Conforme lemos e aceitamos essas palavras de Montessori, e conforme nos esforçamos por praticar os Princípios indicados por ela, ainda que adaptados à realidade familiar (mas jamais adaptados, no caso de escolas), começamos a perceber que há uma incoerência entre o que tentamos praticar e a violência do que sentimos dentro de nós. O salto, quase ornamental, se pode dizer, de tão belo, é o ajustamento do que se sente ao que se quer fazer – e esse ajustamento acontece nas duas direções: de fora para dentro e de dentro para fora. Mas ele começa de fora para dentro. Ele começa na ação correta. E aos poucos, o pensamento correto, o sentimento correto, o olhar correto nascem.

Não devemos, de verdade, sentir culpa profunda, vergonha quase lodosa, por nossos erros. Eles são injustificáveis, é verdade. Eles são terríveis para a criança, é verdade. E não, não existe consolo. Entretanto, todos esses erros são inconscientes, até que venhamos a nomeá-los e compreendê-los. Os nomes, os nomes dos erros que dão origem a todos os outros são: orgulho, ira e tirania, que é a exata soma da ira e do orgulho, os dois anteriores.

Temos como ponto de apoio a percepção dos erros, o autoexame constante. Temos como ponto de apoio o apontamento alheio. Se você não tiver mais ninguém que aponte, pode contar conosco, no Lar Montessori. Fazemos isso pelo menos duas vezes por mês. Temos como ponto de apoio as nossas atitudes exteriores. Um pouco à moda dos teólogos que mandam que ajoelhemos e rezemos, e que dizem que a fé virá por si mesma, nós dizemos sem medo: comporte-se como você acredita que deve, como Montessori propõe. Coloque em prática tudo o que você conseguir. E aos poucos seus olhos se abrirão. Aos poucos, tua ação vai limpar o embaçado das vistas e o brilho do trabalho da criança penetrará no teu coração.

Como uma conclusão

Nestes últimos minutos de Dia das Crianças, e nestes primeiros minutos da vida de tantas crianças pelo mundo, nós desejamos um verdadeiro renascimento em sua casa. Uma nova forma de ver a criança, um jeito muito melhor e mais bonito de ver a vida em si mesma, logo em seu começo. É com essa vontade que esperamos que você receba esse texto – o presente que tentamos dar.

Com um abraço cheio de força para os esforços futuros seus e de sua família, desejamos tudo de bom para sua criança, no dia de hoje e nos próximos.

Lar Montessori

PS: Se mesmo com nossas ressalvas, você continuar se sentindo culpado(a), sugerimos esses dois vídeos: [Vídeo 1][Vídeo 2] e esse livro: [Livro].

O que faz uma “Família Montessoriana”?

No título deste texto, usei aspas em família Montessoriana, e ao longo do texto usarei itálico. Farei isso para repetidamente deixar claro: famílias montessorianas não existem. Assim como não existe método Montessori e não existem princípios montessorianos. A lembrança importa. Chamamos de método Montessori um determinado conjunto de princípios filosóficos, psicológicos e pedagógicos, que tiveram seu início ao longo da primeira metade do século XX por ação direta de Maria Montessori. Ela mesma, porém, não tomou para si o método que desenvolveu e nem o batizou com seu nome. Até o fim de sua vida, quando se referia ao método pelo seu nome, dizia algo como “aquilo que chamam de método Montessori”. O nome preferido por Montessori para a ciência da infância à qual deu o passo inicial foi Pedagogia Científica. A lembrança do nome original e da forma de pensar de Maria Montessori evita que nos confundamos e nos digamos montessorianos quando, de fato, admiramos Montessori e sua criação, mas não levamos à prática os postulados científicos que propôs.

A ideia deste texto é ajudar famílias que descobriram Montessori há pouco tempo em seus passos inciais, e dar suporte às famílias que já buscam utilizar Montessori em casa tanto quanto possível. Além disso, esse texto tem a estrutura de uma lista, então você pode ler aos poucos.

 

1. Famílias Montessorianas preparam o ambiente das crianças

Um dos pilares da pedagogia desenvolvida por Maria Montessori é a preparação do ambiente da criança. Preparar um ambiente significa olhar para ele do ponto de vista dos pequenos e realizar as modificações necessárias para que as crianças possam ter liberdadeindependência. Com base nessa ideia, utilizamos uma cama que fica muito próxima do chão, para que a criança não precise escalar a cama na hora de dormir. A partir disso, também, instalamos uma barra no quarto das crianças que estão aprendendo a andar, para que elas possam se tornar independentes de nós nessa ajuda e possam se exercitar sempre que quiserem com segurança. Colocamos um espelho, para que a criança se conheça.

Em outros cômodos também tornamos a vida da criança mais próxima de uma vida total e feliz: comida, água e bebidas apropriadas podem ficar ao seu alcance em pequenas quantidades, o banheiro pode ter um banquinho e um penico, para que a criança alcance a pia e possa utilizar o banheiro sem precisar do equilíbrio do encaixe no vaso sanitário e com o mesmo conforto que um adulto tem quando se senta para suas necessidades. A sala pode ter um cantinho da criança e, pensando no exercício de sua liberdade e de sua independência, precisa permitir o movimento. Por isso, é importante ensinar a criança a segurar da forma certa tudo o que quebra ou, enquanto ela é nova demais, modificar a localização de alguns pertences, para que corramos todos menos riscos. A ideia não é restringir a vida do adulto, como muito se coloca. Mas possibilitar a vida da criança, como faríamos, talvez, com um adulto que não enxergasse ou não pudesse caminhar. A criança é um habitante da casa, e deve ser respeitada.

Quando defendemos a preparação do ambiente da criança, não falamos de adaptação. Permita que repitamos: não falamos de adaptação. O ambiente da criança conforme a orientação de Montessori é o mais próximo possível do ambiente natural. Ambientes naturais são, por natureza, essencialmente baixinhos. Há água disponível na altura do chão, arbustos com frutas, raízes comestíveis, abrigo, tudo. Há toda uma vida que não chega à cintura de um adulto. Então, quando preparamos o ambiente para a criança, nós não adaptamos. Nós preparamos ou, no máximo, retornamos a aquilo que é natural para o desenvolvimento da criança pequena, e com o que convivemos por quase dez mil anos de civilização, sem contar os milhões de anos de evolução.

 

2. Famílias Montessorianas escutam, vêem e observam as crianças

Todos nós escutamos, vemos e observamos crianças, pode-se argumentar. E então, podemos pensar na frase de Saramago: Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara. A ideia de escutar, ver e observar a criança não é a de conviver com ela, com o celular, com a refeição em preparo, com as tabelas numéricas e com as obrigações diversas ao mesmo tempo. A ideia é, pelo menos durante alguns momentos (quem sabe, de forma otimista, períodos) do dia realmente viver junto, escutar com atenção, ver com amor, observar com cuidado.

Para termos clara ideia de quanto devemos escutar, ver e observar nossas crianças, podemos pensar em quanto escutamos, vemos e observamos aqueles a quem escolhemos amar, no início do relacionamento. Uma infinidade de conflitos pode ser prevenida simplesmente por ouvirmos nossos pequenos e tentarmos compreender o que os está chateando. Às vezes, são mesmo coisas que não podemos remediar. Mas às vezes podemos e, nesses casos, vale a pena tentar – e só podemos tentar, se pudermos ouvir. Precisamos fazer isso entre adultos também, na verdade.

Precisamos ver nossas crianças. Prestar atenção nelas. Precisamos ver como estão seus olhos, por exemplo. Precisamos checar se brilham. Os olhos das crianças devem brilhar. De interesse, de alegria, de curiosidade, de criatividade, de suspense, de atenção, de concentração, de esforço, de contentamento, de tranquilidade, de afeto, de segurança, de amor. Os olhos deles têm motivo para brilhar o tempo todo. Se não estiverem bem brilhantes (e como professor e palestrante, convivendo com muitas crianças de cada vez, eu infelizmente posso dizer com certeza que não são todas as crianças que têm olhos brilhantes), se não brilharem por tudo o que há na vida, então há algo muito errado. Pode ser a televisão, que apaga a luz dos olhos na medida em que emite luz da tela. Pode ser a falta de independência, que pedra por pedra des-edifica o interesse da criança pelo mundo. Pode ser o autoritarismo, que deixa tão pouco espaço para ação que não vale mais a pena achar graça na vida. Pode ser a escola, que age de forma a violentar a natureza da criança, e a violência apaga mesmo o brilho dos olhos. Precisamos fazer de tudo para manter o brilho nos olhos de nossos filhos e alunos. E precisamos fazer de tudo para reavivá-los, se começam a esmorecer.

Sobretudo, precisamos observar as crianças pequenas. Precisamos ver o que querem fazer agora. Precisamos observar que tipo de independência estão tentando adquirir e tentar entender como podemos ajudar indiretamente – sem substituir a criança em seus esforços. Precisamos registrar nossas observações de algum jeito, para que possamos compreender nossas crianças melhor, e ajudá-las com mais certeza, e mais cuidado. Observar, e registrar observações, é uma forma de garantir que estamos dando atenção às nossas crianças – o perigo de nos tornarmos famílias burocratas é tão pouco presente que não vale tratar dele. O registro da observação precisa vir sempre depois da necessidade de atenção e amor, é claro. Mas é bom que exista.

 

3. Famílias Montessorianas amam, conhecem e exploram o universo com as crianças

Montessori disse que não era suficiente amar a criança. “Antes, é necessário amar e conhecer o universo”. Se desejamos que nossas crianças possam satisfazer o interesse que têm naturalmente pelo mundo, se esperamos que sua curiosidade seja a maior motivação para seu aprendizado, e se queremos que no presente e no futuro elas possam cumprir de forma exemplar seu papel no mundo, precisamos ter verdadeira paixão por esse mundo. Fascínio mesmo. E enxergar nele belezas quase indescritíveis.

É preciso, por exemplo, olhar para uma árvore e enxergá-la com uma incrível elo em uma sequência infindável de vida que faz o universo – pelo menos o Planeta Terra – funcionar em equilíbrio. É preciso ver na lagarta que caminha pela casca um ser vivo cumprindo sua tarefa cósmica e próximo a se tornar uma borboleta, que irá polinizar flores e permitir que a Natureza se mantenha, assim. É preciso ver beleza onde há vida, e onde não há. Perceber a imensidão da Terra sob nossos pés e a da atmosfera acima de nossas cabeças. É preciso reconhecer essa beleza que deixou há muito de ser óbvia, desde que nos desligamos da natureza e dos rituais que a celebravam. O caminho de retorno a esse encanto, hoje, para a maior parte de nós, acontece por meio da ciência.

O mundo humano, também, cheio de encantos, é tema de maior interesse para as crianças mais velhas. De seis ou sete anos em diante. As culturas, os costumes, as línguas, as formas de viver, as festas, as religiões, as diferentes versões da(s) História(s) e as várias formas de retrato do humano, nas artes plásticas, na poesia, na música – e também na agricultura, no comércio, na construção de cidades. Assim como os limites da compreensão e da exploração humana, à Lua, ao Everest, ao fundo do mar, às selvas mais escondidas. Da mesma forma que os testes máximos do humano, contra a fome, a sede, a luta pela sobrevivência e todo tipo de máximo e mínimo atingido pelo humano, tudo interessa, tudo deve nos interessar. De tudo o que lermos, assistirmos, escutarmos podemos tirar pedacinhos de conhecimento que formarão verdadeiros universos em nossas conversas com nossas crianças, e nos permitirão ajudar os pequenos a desbravar a humanidade e o planeta que habita.

 

4. Famílias Montessorianas compreendem as necessidades do desenvolvimento

Não acima de tudo, mas sem dúvidas em posição de grande importância, se encontra o conhecer o desenvolvimento. Não é necessário ser um especialista em cada osso, órgão, nervo e estágio psicológico das crianças. Mas é necessário conhecer um pouco do desenvolvimento motor, especialmente até os três anos, e encontrar uma linha com a qual você concorde, e que faça algum sentido cientificamente, no caso de Montessori, para explicar o desenvolvimento mental das crianças.

No caso de Montessori, o livro Mente Absorvente e o livro A Criança são os dois melhores locais para se encontrar esse tipo de informação. O primeiro explica o desenvolvimento das capacidades mentais da criança e os motivos psicológicos pelos quais nós podemos e devemos deixar a criança em liberdade, além de explicar o desenvolvimento da fala e o das mãos. Já o segundo traz importantes observações sobre a saúde mental da criança pequena e o que chamamos de períodos sensíveis – intervalos ao longo do desenvolvimento durante os quais a criança está mais apta a determinados aprendizados ou à aquisição de determinadas habilidades.

Para isso é mesmo necessário estudar um pouco. Mas em pouco tempo você aprende o básico necessário para compreender melhor sua criança. Compreendendo-a, você será capaz de proporcionar a ela liberdade, experiências e objetos muito mais adequados ao estágio de desenvolvimento em que se encontra, e esse tripé tornará a vida de vocês muito mais tranquila e muito mais feliz.

 

5. Famílias Montessorianas vivem uma revolução

Esse tópico foi, na verdade, o que me motivou a escrever o texto inteiro. Utilizar os princípios descobertos por Montessori para auxiliar a vida da criança não é comum. Não é o que se faz em larga escala hoje. Não é o que se espera que seja feito. Não é o que as prateleiras de livrarias sobre vida em família sugerem que se faça, e não é o que os programas de televisão sobre disciplina infantil pregam. Viver de acordo com as necessidades da criança, permitindo sua liberdade e favorecendo sua independência é um imenso serviço de compaixão, intenso e profundo, que modifica a forma como enxergamos a vida e como a vivemos.

Montessori disse, em Mente Absorvente, que o que nos trazia era uma revolução pacífica, que não deixaria intocado nada do que existe no mundo, e que se levada até o final, seria a última de todas as revoluções. As famílias que hoje carregam Montessori para suas crianças, e as escolas que compreendem essas famílias, compreendem essas crianças, e levam Montessori verdadeiramente à sua prática também, são a linha de frente da revolução mais fundamental da humanidade. Aquela que terminará com o problema social mais universal que temos: a opressão da infância.

Se você pesquisou, leu, compreendeu e começa a aplicar Montessori agora, seja bem vindo. Se você já o faz há algum tempo, vamos juntos. Nossa revolução é universal, e ao mesmo tempo é muito, muito pequena. É uma revolução de detalhes: uma jarra que caiba nas mãos de nossas crianças, uma cama alguns centímetros mais baixa e um sabonete que seja pequeno o suficiente para não escorregar das mãos de nossos filhos e alunos. Nossa revolução é bem pequena. Mas tem a força do sorriso de seu filho. E o brilho de seus olhos. Nessa revolução, conte com amigos, colegas, pessoas que possam apoiar você em sua caminhada, e possam ajudar você sempre que necessário. Você não deve e não precisa ser sozinho na aplicação de Montessori para ajudar a vida de sua criança. Nós todos queremos um mundo de paz. Nós todos queremos ajudar a vida.

 

Suficiente

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“Imperfeições […]
são lembretes de que estamos nessa juntos”
-Brené Brown

A humanidade está em julgamento. Montessori disse isso em 1936, no seu livro A Criança. A humanidade está em julgamento pelos males perpetrados contra a infância, sucintamente. E nós, adultos, estamos todos na posição de réus. A pergunta que fica é: quem nos julga? E a resposta que sobra é: A Criança. E a Criança, invariavelmente, nos declara inocentes. Se nós somos inocentes aos olhos da infância, e somos réus, o que em nós mesmos permite que nos declaremos culpados?

É verdade. O adulto oprime a criança. E por isso deve ser sumariamente condenado. É verdade, ele inibe seu desenvolvimento. Culpado de novo. É verdade também que destrói a capacidade inata da criança para amar o esforço, o trabalho e a concentração. Mais três vezes culpado. Deforma a sensação de alegria e transforma em obediência servil a bela autodisciplina infantil. Culpado ainda outras duas vezes. Construímos ambientes que fazem recuar a criança pequena. Culpados. Interrompemos todo o trabalho a que ela se dedica. Culpados. Moldamos sua rotina de acordo com nossos horários e não com o seu tempo. Culpados. Culpados. Culpados.

Entretanto a criança nos perdoa. E o que faz com que ela seja capaz de perdoar nossos erros é a mesma coisa que faz com que ela perdoe aos seus próprios e levante a cada vez que cai, até aprender a andar. É o mesmo que faz com que ela tente de novo e de novo e de novo até conquistar cada nova habilidade ao longo de seus primeiros anos de vida. Ela nos perdoa porque tem compaixão por nós. E perdoa-se porque tem compaixão por si mesma. Em outros termos: ela se perdoa e nos perdoa porque se sabe suficiente e nos sabe suficientes também.

A criança tem dentro de si os segredos para o estado de supremo equilíbrio da humanidade. E nós só muito recentemente descobrimos que a autocompaixão é um dos aspectos mais importantes para que nos sintamos bem conosco mesmos (veja aqui) e para que vivamos uma vida mais completa (veja aqui e aqui). A compaixão também é importante para o resto do mundo (veja isso aqui). É aqui que entra a pena à qual devemos nos submeter por sermos culpados por todos aqueles crimes contra a humanidade.

Ser culpado de tanto não é pouco. Não é leve. Não deixa tranquilas nossas consciências se nós realmente compreendemos o extremo a que levamos o sofrimento imenso da infância. Só há, porém, um caminho de saída: confiar na criança e observá-la, para que sejamos capazes de compreender suas necessidades, preparar o ambiente e permitir que ela seja livre nele, de forma útil e engajada.

A criança, se é deixada livre, erra. E precisa ser perdoada por seus erros. Já dissemos no Lar Montessori que se você não gritaria com um amigo por ele derrubar vinho na toalha durante a ceia de fim de ano, então você também não deve gritar com seu filho quando ele derruba o suco do almoço. Seu amigo já está no mundo há algumas dezenas de anos. Seu filho está aqui há muito menos tempo, e ainda está aprendendo. Se você não grita com o adulto, não grita com a criança. Se não bate no adulto, não bate na criança – a criança não pode se defender.

O oposto, no entanto, também é verdadeiro. Se você já está tentando construir, todos os dias, em todos os momentos de sua vida, um lar pacífico, se está partindo para uma linha de disciplina positiva, se acredita na elevação da personalidade infantil em um ambiente no qual não sofra nenhum tipo de violência… Se você acredita em tudo isso para a criança, precisa acreditar em tudo isso para o adulto. Se você acredita em uma vida sem violência para o seu filho, precisa acreditar em uma vida sem violência para você. Se você deseja que seu filho ame a si mesmo e consiga lidar com seus erros e se perdoar, você precisa desejar isso para você mesmo. Permitir isso para você mesmo, talvez seja mais adequado.

Brené Brown é uma pesquisadora que aparece de vez em quando nos textos do Lar Montessori, e não é sem mérito. Ela desenvolveu uma pesquisa realmente bela, muito bem construída, sobre vulnerabilidade e vergonha. Você pode ver a pesquisa dela em dois dos links acima (ah, sim, veja os links acima! Um é um texto curto e os outros três são vídeos nos quais você pode ativar legendas em português, e os vídeos vão realmente mudar a forma como você vê algumas coisas).

Em seu livro A Coragem de Ser Imperfeito, Brown detalha os resultados de sua pesquisa e chega a duas conclusões – entre muitas outras -, que vamos explicar de forma exageradamente sucinta em dois parágrafos cada uma.

Vivemos em uma cultura de nunca o suficiente. Tudo o que fazemos é pouco perto do que achamos que deveríamos conseguir fazer. Perto do que somos levados a acreditar que precisamos ser capazes de fazer. Nós não trabalhamos o suficiente, não ganhamos o suficiente, não ficamos tempo suficiente com nossos filhos, não nos alimentamos bem o suficiente, não economizamos o suficiente, não curtimos a vida o suficiente, não nos arriscamos o suficiente, não somos tranquilos o suficiente. A lista é infinita, e nos fere a cada dia. Nos leva o sono das noites e a tranquilidade das manhãs, repõe tudo com stress, ansiedade, medo. A insegurança resultante de não sermos o suficiente nos aterroriza tanto que precisamos vestir uma armadura contra ela. Essa armadura nos protege dos ferimentos. Mas também nos protege do amor. E essa armadura nos protege da compaixão. Vinda dos outros, para os outros, ou de nós para nós mesmos.

Essa mesma cultura faz com que desejemos que nossos filhos aprendam tudo cada vez mais cedo. Colocamo-los em escolas de esportes, artes, línguas, pouco depois de seu primeiro aniversário. Não confiamos na capacidade da criança de se desenvolver o suficiente seguindo seus impulsos interiores, nem mesmo no período logo após o nascimento. Queremos que aprendam a ler e a escrever cada vez mais cedo – e se isso não for feito com a naturalidade total do método Montessori, pode ser desagradável, forçado e cansativo, estressante e pressionador. Queremos que nossas crianças sejam melhores do que as outras. Que estejam à frente da média de desenvolvimento de sua idade. E vale perguntar: se todos nós desejamos estar à frente da média, que média sobra? Aqueles que estão na média, que aprenderam a falar, andar, comer, escrever e contar na idade média estão condenados ao fracasso? Aqueles que aprenderam antes, destinados ao sucesso? Que sucesso? Qual é o sucesso que é suficiente em nosso mundo?

A outra descoberta de Brené Brown diz que, se desejamos uma vida completa, vivida de coração inteiro, precisamos nos saber suficientes. Isso não significa, nem pode significar, autoindulgência, falsa autoestima ou narcisismo. Na verdade isso é o oposto da autoindulgência, da falsa autoestima e do narcisismo. Se somos suficientes não somos perfeitos, mas estamos tentando. Se somos suficientes não fazemos vista-grossa para nossos erros, mas os reconhecemos e nos sabemos suficientes para evitar aquele erro no futuro, e suficientes para pedir desculpas sinceras. Se somos suficientes não nos adoramos acima do resto do mundo, e nos achamos um pouquinho mais perfeitos do que os outros 6.999.999.999 de humanos. Somos iguais, mas sabemos que somos suficientes para, primeiro, estarmos na humanidade e, segundo, trabalharmos pelo seu desenvolvimento saudável, equilibrado, justo e feliz.

Todos nós, os suficientes, os insuficientes, os autoindulgentes, os narcisistas, os perfeccionistas, os que têm e os que não têm boa autoestima, todos nós erramos a valer. A diferença fundamental é que alguns de nós sentem que cometem erros e outros sentem que são erros. Se você tem filhos, sabe que em alguns momentos nós sentimos que somos erros. Mas nós não somos, e isso é muito importante. Isso é muito importante porque se formos erros não podemos fazer nada para mudar. Essa é a criança que acredita que é burra ou é desastrada. Esse é o adulto que se acredita insuficiente, incapaz, errado, torto. Por outro lado, se cometermos erros, podemos reconhece-los, podemos trabalhar sobre eles, podemos nos desligar deles, observarmos de longe, podemos compreender. Nós podemos mudar. Se nós somos erros, não temos como mudar isso. Se nós cometemos erros, podemos ser suficientes para mudar nossas atitudes, aspectos de nossas vidas ou de nossas personalidades que nos permitam cometer menos erros.

Isso vale para a criança. Isso vale para o amigo que derramou vinho em sua toalha. Isso vale para você, todos os dias de sua vida. De agora até sempre. A compaixão é o maior dom concedido à personalidade humana, ou conquistado por ela ao longo de milhões de anos de evolução. A criança é compassiva. Ela perdoa e perdoa-se. Ela permite que tentemos de novo, renova as esperanças dia após dia. Ela se permite tentar de novo, renova as próprias esperanças incessantemente. Devagar, uma respiração de cada vez, nós podemos tentar aprender.

Da próxima vez que você for dar uma bronca em sua criança, tire três segundos para uma inspiração profunda, e pense: “Ele é o suficiente”. Da próxima vez que você for dar uma bronca em você mesmo, ou em você mesma, tire cinco segundos para uma inspiração profunda, e sussurre (em voz baixa, mas com voz real): “Eu sou o suficiente”. Isso não é autoajuda barata. Em seguida, considere cada uma de suas atitudes inadequadas, comprometa-se a alterar cada uma delas.

Você, eu e todos os adultos ainda estamos no banco dos réus. Mas nossa pena não é de castigos psicológicos. Nós fomos condenados à graça de trabalhar pelo progresso da humanidade, e nos foi concedida a alegria de termos como parceiros pequenos novatos muito experientes, por mais contraditório que pareça. Nós podemos respirar profundamente agora, e reconhecermos em nós e em nossos parceiros pessoas suficientes para a jornada da vida.

A Um Adulto Montessori

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Em homenagem a todos os pais e professores montessorianos, que fazem valer o 143° aniversário de Maria Montessori.

A quem se diz adulto, quase sempre
É certo ser sério, forte e grande
É certo ainda que nunca se lembre
De como ria e explorava, quando infante

Em quem se diz maior, altivo e importante
É certo encontrar arrogância, ira e poder
É certo que tenha orgulho de viver
Entre sucessos e em meio a gigantes.

É certo que seja dono de tudo
E, generoso, venha a ter e distribuir
É certo ainda que faça grande alarde
Que fale muito e alto, sem ouvir.

É certo a ele ficar sempre de pé
Nunca ajoelhar, nunca silêncio.
É certo sempre voz e atividade
Nunca um mergulho em sonho imenso.

A quem não olha pra baixo e não repara
No futuro que brota aos seus pés
É certo pisar sempre sem cuidado
É certo caminhar sempre sem fé.

Mas quem vê no rosto da criança
O brilho das estrelas, das galáxias
Quem entende no som da voz aguda
A beleza das harpas e das flautas

Quem percebe na pele recém-feita
A eternidade da alegria de brotar
Não pode descrer, fraquejar, esmorecer
Estes não podem desistir de transformar.

A quem percebe na criança vida e fruto
Futuro belo a desabrochar,
Só se permite paz, vida e reverência
Só se permite o amor de semear.

A estes só cabe abraçar forte e sorrir.
Olhos de cientista, mãos de monge,
A estes só cabe olhar de longe
E de perto, ensinar sem corrigir.

A estes, só cabe a certeza
De um futuro cheio de esperança
O vislumbre eterno da beleza
De um mundo a surgir pela criança.

Quando o Adulto Falha

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Nós falhamos, e com mais frequência do que gostaríamos. Nosso mapa está ok: Montessori está certa. Sabemos disso porque sempre que seguimos Montessori em todos os detalhes, dá certo. O problema é que nem sempre conhecemos todos os detalhes, e às vezes conhecendo-os esquecemos de um ou outro. Isso nos gera culpa, confusão, desorientação, e embora não prejudique muito nossas crianças, nos coloca em dúvida quanto à nossa competência. Por isso, acho que vale um artigo para trabalharmos os motivos das falhas que cometemos e como resolver problemas assim.

1. A diferença entre o erro e o sintoma do erro

Quando erramos, nem sempre percebemos o erro em si, mas o resultado dele. Percebemos que nossas crianças não querem desenvolver as atividades que propomos, ou que não desejam ficar sozinhas nunca. Podemos notar que elas rejeitam a possibilidade de fazer escolhas, ou que não querem trabalhar com os materiais que apresentamos, ou querem, mas de uma forma que jamais aprovaríamos, porque é evidentemente improdutiva.

Quando apresentamos uma atividade com a qual a criança não quer trabalhar, o erro não está necessariamente na nossa apresentação, e em geral não está na atividade também. O erro não se encontra nas estantes ou na possibilidade de escolhas, quando as oferecemos e as crianças não aceitam. Estes são só sintomas do erro. São a aparência externa do erro, aquilo que nos mostra que o erro existe, a manifestação palpável do erro. Mas o erro em si é invisível, ele não se encontra em nada que possa ser visto por nós, porque está do lado de dentro do adulto, e não do lado de fora.

Mesmo quando a casa não está adaptada, quando não oferecemos possibilidades de escolha e quando somos autoritários com nossos pequenos, o erro não está em nada disso. Isso tudo, tudo aquilo que consideraríamos como falha total, é só manifestação exterior do erro. Erros mesmo só existem dois, e são internos: falta de confiança na criançafalta de observação. Estes são os dois únicos erros, e são as origens e raízes de todas as manifestações externas que nos preocupam. Embora pareçam desafios imensos, esta é uma notícia boa: agora nós sabemos onde está o problema, e podemos refletir sobre ele.

2. A Observação

Observar é um ato de amor. Não há como observar sem amor. Se observamos sem amor, detalhes escapam, e sentimentos negativos se intrometem na observação. Sem amor, nós nos distraímos e a tarefa se torna enfadonha. Encarar a observação como um ato de amor – tanto quanto a amamentação, o preparo do almoço ou o beijo de boa noite – ajuda. Ela se torna mais agradável, e fazê-la todos os dias se torna mais prazeroso e, aos poucos, se percebe como é um ato de amor precioso.

Observar é tentar enxergar o que a criança nos diz sobre si mesma, sem articular verbalmente. A criança nos ensina a psicologia da infância, dizia Montessori. Estar atento à criança é estar atento a como o ser humano se desenvolve, como uma espécie vem a ser o que é. Ao mesmo tempo, é uma atividade despretensiosamente familiar, de um amor de mãe para filho, de professor para aluno, e uma atividade de investigação científica que pode revolucionar – como fez Montessori – a forma como o adulto compreende a criança. Decididamente, revoluciona a forma como cada um de nós compreende cada um deles.

Tenha um caderninho. Ele tem que ser querido, então você pode comprar um de que goste ou fazer um para você, encapar um com um tecido agradável ao toque. É bom que seja um caderno pequeno, porque é mais fácil de carregar com você e mais discreto. Ele vai ser um caderninho de observações sobre as crianças com as quais você convive. A outra opção é ter um bolinho de folhas de papel em cada cômodo de sua casa com uma caneta que deve permanecer sobre ele, e utilizar as folhas sempre. Depois, você pode arquivar as folhas em uma pasta ou encaderná-las. A caneta com a qual você vai escrever precisa ser gostosa para você também. Vale tudo para tornar a tarefa gostosa!

Todos os dias, sente-se para assistir sua criança fazer qualquer coisa: tomar banho, dormir, comer, assistir TV (eu não gosto de TV, e faz mal, mas demora para a gente aceitar tirar isso da vida de nossas crianças), brincar, conversar com amigos. Observe como ele faz, por quanto tempo se concentra, em quais atividades permanece mais tempo, se precisa de você e com qual intensidade precisa. Anote tudo. Veja se ele acordou mais disposto quando você mudou o colchão para o chão e veja se organizar tudo muito direitinho ajuda no humor dele. Escreva as alterações que acontecem conforme você insere o banquinho, a barra, o espelho, as estantes e as escolhas. Registre as mudanças que vão acontecendo conforme você estrutura a rotina e aprende a ser claro e direto, mesmo quando gentil, e conforme você substitui os prêmios e castigos pela autodisciplina. Anote tudo.

Se você fizer isso todos os dias, vai começar a notar padrões de comportamento, aprender o que é que ajuda seu filho, o que o torna mais tranquilo e o que o agita, o que o deixa feliz e equilibrado e o que só o alegra. Vai começar a distinguir pequenas crises de humor e o desejo de ficar sozinho para trabalhar, e vai ser capaz de ajudá-lo em seu desenvolvimento com muito mais eficiência. Quando não observamos, e não registramos por escrito, nossa visão, opinião e vontade se intromete no que achamos que é percepção objetiva dos fatos, e então impomos às nossas crianças aquilo que nós acreditamos ser o melhor naquele momento. Não nos cabe esta tarefa. Nosso trabalho é ver o que ela nos diz que é melhor, e prover aquilo que ela pede. Só a observação, como ato de amor, pode fazer isso por nós, e por isso, assim como a falta de observação é a raiz de quase todos os erros, também é a sustentação de todos os acertos.

3. Confiar na criança

“A criança é uma esperança e uma promessa para a humanidade”, dizia Montessori, que ainda adicionou: “Eu descobri a criança”. Não há como realmente auxiliarmos a criança se não acreditarmos que ela é capaz de se desenvolver sozinha. Nós somos auxiliares, nós precisamos preparar o ambiente, oferecer atividades, auxiliar com a rotina e algumas orientações, especialmente de adequação social. No entanto, a parte difícil ela faz sozinha. Nós não ensinamos nossa língua para os pequenos – nós só falamos com eles. E eles fazem a parte complicada: aprender, em um ano, a falar, e em três anos, a falar quase como nós.

A gente não ensina a criança a andar. Muitos de nós realmente não fazem nada neste sentido, mas mesmo assim um dia a criança anda. Sozinha, ela aprende. E isto serve para tudo. Não ensinamos que se deve fazer tais e quais coisas em tais e quais situações, mas a criança o faz, porque absorve o ambiente em que se encontra, e traduz sua absorção em comportamento. Ela vem com potencialidades inatas que propiciam o desenvolvimento das habilidades essenciais à sua sobrevivência. Se deixarmos à sua disposição a comida e a bebida, comerá quando sentir fome e beberá quando sentir sede. Se deixarmos os agasalhos ao seu alcance, e a ensinarmos a se vestir, ela, sozinha, irá buscá-los se sentir frio. Nós não precisamos ensinar isso, a criança aprende porque absorve o ambiente, e em seu ambiente os adultos fazem tudo isso, então ela faz também.

Por isso, um cuidado que beira o extremo com o ambiente deve ser tomado. O ambiente deve ser planejado e preparado para a criança em suas dimensões físicas e emocionais. A criança absorve tudo: ordem e desordem, paz e violência, amor e ira, calma e ansiedade. Se em seu ambiente nada se encontra ao alcance de suas mãos, o que absorve é a ideia de que depende do adulto para tudo – e um ambiente preparado leva, logicamente, à independência bela que vemos em crianças dentro de salas montessorianas.

Confiar na criança é acreditar que, assim como fez durante toda a história da humanidade, ela continuará a ser capaz de se desenvolver sozinha, e que o seu filho não é diferente. Ele precisa de você, de seu amor, de sua observação, de sua ajuda. Mas a parte difícil é trabalho dele, e você precisa deixar ele fazer o trabalho dele. Precisa acreditar.

Isto envolve permitir que ele erre, que enfrente dificuldades, que leve uns tombinhos, que use e quebre copos de vidro e pratos de cerâmica (leia sobre isso na categoria “cozinha”, aqui ao lado), que ele suba no próprio colchão e limpe o próprio bumbum, conforme aprende a fazer cada uma dessas coisas – e para aprender ele precisa que você ensine com cuidado, com observação e confiança.

4. Conclusão

Assim, fica claro que os erros que cometemos são os dois que apontamos: não confiar e não observar. Se confiarmos e observamos, as coisas caminharão. Se você está começando, leia as treze dicas do Lar Montessori para famílias montessorianas e o Manual do Proprietário da Criança Montessori. Em seguida, conforme for fazendo as adaptações do ambiente e ensinando seu filho a lidar com a nova independência, observe com cuidado como ele se desenvolve e o que lhe faz bem.

Confie. Ele vai se desenvolver. A criança é incrível, ela supera nossos erros quase sem perceber e vai em frente, rumo à vida. Confie na criança, e torne a observação um ato de amor. Você vai eliminar pelo menos quase todos os seus erros, assim. Depois, volte para contar como foi!

Compreendendo Montessori: A Preparação Interna do Adulto, Parte I

“O professor deverá adquirir uma habilidade moral que nenhum método anteriormente exigira: habilidade feita de calma, de paciência, caridade e humildade. São as virtudes, e não as palavras, a sua máxima preparação” (Maria Montessori – Pedagogia Científica, p.144).

Para este artigo, tentaremos descrever o mais didaticamente possível as características do adulto montessoriano, inspirando-nos na longa e bela descrição feita por E.M. Standing em seu “Maria Montessori: Her Life and Work”.

001079O adulto montessoriano é, acima de tudo, um adulto que compreende verdadeiramente a criança. Que a enxerga pelo que é e não lhe cobra o que não pode ser. Mas que, conhecendo seus potenciais, suas possibilidades, explora-os com amor. A partir deste tratamento, surge uma nova criança, diferente daquela descrita por séculos em livros de psicologia e de ficção. Surge uma criança equilibrada, que nos surpreende. É esta nova criança que merece todos os nossos esforços para nos tornarmos novos adultos.

O trabalho para que nos transformemos em ajudantes da infância, que sejamos capazes de dar exatamente aquilo de que a criança necessita, não menos e, especialmente, não mais, é um esforço de longo prazo – provavelmente de vida inteira – e por isso não se fala na formação interna do adulto, mas em sua preparação, em seu treinamento. Um atleta que seja campeão olímpico tem uma rotina: ele treina. Quando vai às olimpíadas e vence, ganha sua merecida medalha e retorna, com honra, ao seu país, desce dos pedestais, veste sua roupa surrada, e treina. É exatamente assim que devemos fazer: terminado o dia, quando conseguimos ajudar tantas crianças e conseguimos resultados tão bons, é hora de treinar.

O adulto montessoriano deve “expelir de seu coração a ira e o orgulho”, e este é seu preparo. Expelir do coração a ira é difícil, mas é mais fácil que expelir o orgulho. Para que não nos iremos há uma fórmula simples, embora demore para que funcione: basta que repitamos, todas as vezes, sobre qualquer um nos decepcionar ou enfurecer: ele não faz isto por mal. Todos estão tentando ser felizes, e se agem assim é porque compreendem, erradamente, que assim serão felizes. Como não sonharíamos em punir ou vingarmo-nos de alguém por esta pessoa tentar ser feliz, em um período bastante prolongado de tempo, esta repetição surte efeito e a ira desaparece.

Para livrarmo-nos da ira contra a criança é bem mais simples: ela está aprendendo. Se age como age é porque aprendeu assim. Tudo o que precisamos fazer é tratar que ela aprenda a outra maneira de agir. A maneira correta. Um ambiente em que haja respeito mútuo e compreensão será, naturalmente, um ambiente no qual a ira não terá lugar. Não é assim com o orgulho.

Expelir o orgulho exige, antes de tudo, que percebamos a verdadeira natureza da educação. Trata-se de um processo de ajuda à vida. Como tal, somos somente aqueles que servem a um ser que pode mais do que nós. Nós, neste contexto, não somos a peça mais fundamental, nem o alvo dos holofotes. Ao final de um dia de trabalho, o mérito do sucesso é só parcialmente nosso, enquanto que é quase totalmente da criança, do material, de um conhecimento que chegou até nós, e ao qual, se algo adicionamos, foi pouco. Não há espaço para o orgulho quando percebemos, verdadeiramente, que diante da verdade não há outra opção que não ser humilde.

Aquele adulto que enxerga-se como portador da luz e do conhecimento, que vê-se como o salvador da alma da criança, aos poucos torna-se um tirano, mm1936quando nota que a criança não deseja receber a luz que ele transmite, e quando o sobressalta a impressão de que algumas almas estão além da salvação de que ele se julgava capaz. O tirano surge quando o amor dá lugar à ira e a humildade dá lugar ao orgulho. A criança carrega a luz que iluminará, para os adultos, o futuro da civilização. A criança mostra ao adulto de que forma ele mesmo pode salvar-se: o trabalho individual que equilibra sua personalidade e a valoriza, que ensina a ela mesma o verdadeiro valor do esforço e ensina ao adulto como esforçar-se.

Servir a criança é ao mesmo tempo um ato de amor e um ato de fé. Fé, no sentido mais amplo do termo: acreditar na criança. Não é possível servir a criança em suas necessidades exatas se não acreditarmos que ela sozinha é capaz de se desenvolver. Nós não somos os viabilizadores de seu desenvolvimento, somos somente os viabilizadores do ambiente de seu desenvolvimento e aqueles que ajudam a criança a conhecer este ambiente. Desenvolver-se, desenvolve-se sozinha.

A reflexão acerca da humildade necessária diante do imenso potencial da criança é o que construirá o adulto montessoriano. O adulto que expeliu de si a ira e orgulho, que reveste-se de caridade e humildade, utiliza somente a paciência e tem nas virtudes, e não nas palavras, sua máxima preparação.

O próximo texto tratará dos aspectos práticos da preparação do adulto e será publicado logo. Dividimos este tema em duas partes para que os textos não ficassem longos demais. Esperamos ansiosamente pelos comentários e reflexões.