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Arquivo do autor:gabrielmsalomao

O Segundo Plano do Desenvolvimento – Montessori #612

Este é o primeiro texto do Lar Montessori sobre as crianças entre 6 e 12 anos. Montessori chamava esse intervalo de Segundo Plano do Desenvolvimento. A ideia é que haja muitos textos sobre crianças dessa faixa etária aqui, e por isso criamos essa hashtag: #612. Com ela, fica mais fácil para você encontrar os textos (e futuros vídeos) que tratam especificamente do Segundo Plano entre tudo que o Lar produz. Antes do texto propriamente, um adendo importante: se você chegou aqui de dois ou três anos para cá, viu textos mais maduros, e talvez não tenha visto os primeiros textos do blog – eles recorriam o tempo todo a citações e traduções, porque eu não tinha conhecimento suficiente para escrever sozinho. Pois bem, voltamos ao princípio. Eu não tenho conhecimento suficiente para escrever sozinho sobre o Segundo Plano do Desenvolvimento, e recorrerei o tempo todo a livros, textos e vídeos para trabalhar os mais diversos assuntos. Tenha paciência e, se aceitar, vamos juntos. Como sempre, não dá para prometer que vai ser fácil. Mas dá para prometer que vale a pena.

O Segundo Plano do Desenvolvimento

A vida, do ponto de vista de Montessori, é uma sucessão de conquistas de independência. Na primeira infância, conquista-se principalmente a independência física, a criança aprende sobretudo a fazer sozinha. Agora, aos seis anos, essa criança já conquistou muito do mundo físico à sua volta, e o expande. Passa a incluir nele tudo o que vai além do imediato: espaços mais distantes, tempos diferentes do presente, relações pessoais excêntricas (fora do centro de seu próprio mundo). A criança precisa agora recorrer ao raciocínio, a um mundo muito mais abstrato, e tão arriscado quanto o mundo físico era quando ela começou. Agora, a criança precisa planejar, pesquisar, inquirir, duvidar. Sobretudo, agora a principal ferramenta da criança é a imaginação.

Paula P. Lillard, no livro Montessori Today, explica que há duas novidades importantes no segundo plano do desenvolvimento: a criança caminha corajosamente para o mundo abstrato, e a criança se desenvolve consideravelmente como ser social. Neste texto, trabalharemos um pouquinho essas duas novidades, a partir do capítulo “Changes at the Second Plane”, do livro de Paula Lillard.

Um sinal belo de que o segundo plano está chegando é a mudança na natureza das perguntas. Nos acostumamos com pequenos que perguntavam porquês e comos, mas não tinham paciência para a resposta longa e profunda que tentávamos dar no começo. Nós aprendemos que eles não queriam uma resposta complicada demais, e simplificamos. Mas agora, tudo mudou. As perguntas são de verdade. Quando a criança pergunta por que o céu fica cinza quando vai chover, ela não quer só ouvir “porque tem muitas nuvens”. Ela quer entender como as nuvens agem sobre a luz do sol, impedindo sua passagem, e vai adorar se você explicar para ela que nuvens escuras são como o fundo de um oceano, que a água não permite que a luz alcance.

As comparações, deduções, conclusões e – eu diria que especialmente – as inter-relações, são muito especiais para a criança. A inter-relação é a origem de todo interesse. É quando percebemos que as coisas são interligadas que o conhecimento sobre algo puxa a dúvida sobre alguma outra coisa. A criança que começa a ser capaz de pensar o mundo tem uma forte atração por tudo o que exercite o seu pensamento.

Mais do que entender respostas, as relações encantam. E entre elas, um tipo específico de relação encanta mais que os outros: aquela que se estabelece entre a vida e a descoberta. Para a criança de seis a doze anos, propõe Montessori em Da Infância à Adolescência, “os atos alcançados pelos seres humanos interessam mais do que as coisas”. Importa saber que foram necessários vinte anos e dezenas de milhares de vidas para erguer as pirâmides do Egito. Isso dá a elas um sentido especial. Saber que houve um homem, mil e duzentos anos atrás, que foi o inventor da primeira máquina de voar e viveu no Oriente Médio, e que um outro homem do Oriente Médio foi o primeiro a descrever usos de agulhas e seringas… Tudo isso permite à criança uma visão do mundo muito, muito mais ampla do que aquela que geralmente lhe oferecemos com livros infantis de fantasia e programas animados de televisão. Diante da imensidão do mundo – e do universo – aquilo que oferecemos à criança é quase de mau gosto.

A fantasia, diga-se de passagem, tem lugar no segundo plano do desenvolvimento. A partir de uma base sensorial sólida, muito bem estabelecida na realidade durante os primeiros anos de vida, a imaginação da criança pode lidar muito bem com a fábula, o conto de fadas e o mito. Todos têm o potencial de contribuir para a construção da moral. Voltaremos a isso num texto futuro.

Para que o mundo possa ser descoberto pela criança, é preciso que ela construa habilidades interiores – da mesma maneira que o bebê aprendeu a subir e descer de seu colchão, aprendeu a andar e correr, carregar e encaixar, agora a criança mais velha aprende, com a ajuda paciente e repetida do adulto, a administrar o tempo, planejar tarefas, fazer listas, mapas mentais, resumos, anotações, roteiros. Quem se organizava antes era o mundo físico, agora a criança trabalha em seu espelho: a mente humana infinita, que tudo pode e tudo alcança. Ainda regida pela Lei do Máximo Esforço, a criança de sete ou nove anos de idade faz esquemas imensos, maquetes, cálculos de páginas e mais páginas. Lê, copia, faz arquivos, coleciona, categoriza. Pede ajuda, aqui e ali – como sempre, nossa ajuda mínima e pontual importa muito, e é nosso papel ajudar a fazer uma ponte de conhecimento necessária para o progresso, sem tirar da criança a alegria da descoberta. É nosso papel ajudar a construir um planejamento, sem roubar da criança a autonomia que ela busca conquistar.

E esse pequeno, que é grande, desenvolve ao mesmo tempo uma percepção social aguçada. Argumenta-se por vezes que a educação infantil montessoriana – em casa e na escola – é muito pouco social. Temos essa impressão porque as crianças são independentes e trabalham no que lhes importa, em lugar de fazerem todas juntas uma mesma tarefa que não importa para ninguém. Essa impressão se dissipa completamente no segundo plano do desenvolvimento.

Conforme a criança aprende que para existir hoje a máquina de Raio X que ajuda a lhe curar cada pequena doença ou fratura uma mulher entregou a vida a um laboratório e morreu em nome de suas descobertas; quando ela aprende que outra mulher foi tão grandemente responsável pela diminuição da mortalidade infantil que pode ter, indiretamente, garantido a vida de seus melhores amigos… o que a criança sente é gratidão por toda a humanidade.

Esse sentimento de gratidão é uma das bases da moral que se desenvolve na criança entre seis e doze anos. A outra é uma forma inicial de compaixão, baseada na justiça. Notamos isso quando a criança se torna, de repente, uma pequena delatora. Corre para nós a dizer o que foi que Fulano fez de errado para Siclano, e nada daquilo tem a ver consigo. Nós por vezes nos incomodamos, sem notar que ali começa a aparecer uma vontade de compreensão: isso é correto? Errado? Eu copio ou não copio esse comportamento?

Para ajudar esse ser social em seu desenvolvimento, é claro que devemos ser bons modelos de ação. Mas também podemos ensinar coisas. De forma paralela ao que fazíamos mais cedo, quando mostrávamos a forma educada de abrir a porta, limpar a boca com um guardanapo e tossir cobrindo a boca com o braço, agora podemos ensinar à criança as formas polidas de existir socialmente. Em um curso de 1943-4, Mario Montessori lista algumas das coisas que fariam parte das lições de Vida Prática a serem apresentadas para a criança dessa faixa etária. No que diz respeito ao desenvolvimento social, alguns itens são: ajudar os mais fracos, cuidar dos feridos, respeitar plantas e animais em nosso caminho e evitar discussões inúteis.

O adulto é, sempre, um guia mínimo, um auxiliar do desenvolvimento. Isso não muda. Ele deve se manter observador atento da vida, para ser capaz de compreender a necessidade da criança.

É nesse universo incrível, composto de sofisticado pensamento abstrato, relações sociais ricas e profundas, imaginação e inter-relação que a criança do segundo plano vive, aprende e se desenvolve. O mundo não é grande demais para ela, e seu raciocínio tem poderes imprevistos. A compreensão agora é todo-abarcante e tem prazer verdadeiro em enxergar as causas e consequências da realidade. As histórias e as perguntas fascinam, os esforços humanos inspiram e os sofrimentos despertam compaixão. Os segundos seis anos do desenvolvimento talvez não sejam tão cheios de transformação quanto a primeira infância ou a adolescência, mas são anos de abraçar a Terra, e trazer o cosmos para dentro de si, encontrando, como propunha Montessori, o próprio centro no universo inteiro.

Documentário da BBC sobre Montessori

Nós já escrevemos bastante sobre a Montessori aqui, e ainda escreveremos muito mais. Sabemos, no entanto, que há muitas vozes contando muito bem a vida de Montessori e suas contribuições para o mundo. Muitas dessas vozes se encontram representadas no documentário abaixo, “Extraordinary Women: Maria Montessori”, legendado em português:

Sobre Montessori e Não Ajudar Crianças

Maria Montessori dizia: “Nunca ajude uma criança em algo que ela acredita que pode fazer sozinha”. Mas neste texto eu quero falar de outra coisa. Quero falar sobre não ajudar a criança mesmo quando ela não acredita que pode fazer sozinha. É estranho e difícil, mas vamos juntos.

No mundo ideal, todas as crianças teriam lares montessorianos com famílias cheias de tempo e escolas montessorianas com professores muito bem formados. No mundo do nosso dia a dia, não é assim sempre. Se no mundo ideal, todas as crianças se desenvolveriam bem, com autoestima forte, independência ativa e poder sobre a próprias ações, no mundo do dia a dia quase todas elas vivem enclausuradas em mundos de fantasia, dependência e inércia por anos a fio – até que um dia algo muda em nós, e decidimos ajudar a independência a acontecer.

Nessa altura (na altura dos quatro, cinco, sete, nove anos), a criança já está mais do que acostumada a ser incapaz e incapacitada, nula e anulada, e ajudada o tempo todo. Ela já perdeu a confiança na própria força e na própria ação faz muito tempo. E é nesse cenário triste que entramos, querendo transferir a ela responsabilidades importantes que por tempo demais, percebemos, roubamos para nós. E aí é difícil, porque ela acredita, sinceramente, que não pode, não consegue e não deve se esforçar para poder e conseguir. Precisamos do triplo de paciência que precisaríamos se tivéssemos agido corretamente desde o começo, mas há trabalho a fazer e paciência a cultivar, e vamos em frente.

Dois Modos de Não Ajudar

Há, é claro, mais de uma maneira de não ajudar crianças. Uma é não dar importância ou estar impossibilitado de ser de ajuda a ela: é o caso de adultos que preferem deixar a criança fazer como quiser ou puder a serem eles a ter o tempo ocupado pelas necessidades infantis, e também o caso do adulto que adoraria estar com a criança, mas trabalha de sol a sol, e as crianças precisam ser independentes para sobreviverem.

Outra forma de não ajudar crianças, aquela que defendemos em Montessori, exige a presença total de um adulto que faz três coisas: prepara o ambiente e os objetos; demonstra ou apresenta a forma correta de fazer; e observa a ação da criança. Isso é necessário em qualquer situação de não ajuda.

Em uma situação boa, em que a criança seja ainda nova (até mais ou menos três anos) e esteja começando a conquistar sua independência física, basta a demonstração e a disponibilidade dos objetos necessários, e se não houver maiores empecilhos, a criança busca a ação independente. Nós vamos tratar do outro caso.

É comum que uma criança de cinco anos não acredite que é capaz de fazer qualquer coisa por si mesma, porque fizemos por ela, ou com ela, por muito mais tempo do que ela precisava que fizéssemos. Nesse caso, a experiência me mostrou que há alguns passos a seguir:

Primeiro, é necessário picar a ação em pedaços ainda menores. Se, por exemplo, o desafio é colocar uma camiseta, para uma criança que não acredita em si, colocar uma camiseta é muito. Então picamos. Ela precisa só colocar a cabeça, o resto nós fazemos com ela. No outro dia, a cabeça e o segundo braço, depois a cabeça e o primeiro, e depois a cabeça e os dois braços.

Aos poucos, ela conseguirá fazer tudo, mas é muito possível que ainda insista que não consegue, e não aceite nossas afirmações de que ela é capaz, sim. Nesses casos, novamente a experiência me ensinou alguns passos possíveis.

Podemos só insistir: “Consegue sim, coloca”. Ou podemos insistir nos passos: “Claro que consegue, vamos, a cabeça, isso, agora um braço… o outro… [sorriso]!”. Ainda podemos narrar: “Vamos lá, coloca a cabeça, isso, pelo buraco, agora vamos achar o buraco da manga. Esse. Um braço… agora vamos… isso, no outro, vai lá… pronto? Então tá bem”. Em todos esses casos, o que fazemos é uma coisa só: garantir que a criança não foi abandonada porque foi independente.

A criança que depende do adulto por tempo demais desenvolve em relação a ele um apego que nada tem daquele apego importante e saudável da relação entre pais e filhos. Trata-se de um apego feito todo de dependência e insegurança. A criança tem mesmo medo de, num momento qualquer, não poder mais contar com o adulto. E a forma de dar a ela a garantia de que isso não acontecerá mesmo que ela avance rumo à independência é transformar a ação física em ação narrativa. Ficamos por perto, participando da experiência com a voz. Até que, claro, não ficamos mais.

Há momentos em que condicionar uma ação futura à independência presente ajuda. Por exemplo, para ir a um parque, é necessário vestir as meias. A criança pode insistir que não sabe – mesmo sabendo – vestir as meias. E nós podemos explicar que para ir ao parque é necessário estar de meias, e que nós sabemos que ela é capaz e vamos ficar por perto, junto, até ela conseguir para a gente sair junto para o parque. Não se trata de uma ameaça ou uma chantagem. Ninguém vai deixar de ir ao parque. Ninguém disse que se ela não colocar a meia sozinha não vai ter parque. Não. Dissemos que meias são necessárias e ficaremos por perto até ela conseguir. Oferecemos a justificativa para o esforço e a presença para a segurança emocional.

Isso parece contrariar a teoria básica de Montessori porque contraria mesmo. Nesse caso, estamos consertando algo que não deu certo – estamos tratando de feridas. Os cuidados para com um enfermo não são os cuidados para com alguém que está bem de saúde, e a não-ajuda da criança excessivamente independente é diferente, pela mesma razão, da não-ajuda oferecida à criança que conquista sua independência com tranquilidade.

O que nós não podemos fazer é decidir que, porque é muito mais rápido vestir a criança, ela vai ter que aprender a ser independente mais tarde. Não podemos decidir que “o que é que tem ele querer minha ajuda? Ele gosta!”. E não podemos decidir que “Eu quero é aproveitar agora que ele quer minha ajuda, depois não vai me querer nem por perto e eu vou sentir saudades”.

Porque isso importa

Não ajudar a criança é uma maneira de confiar nela. É confiar é uma forma de amar. É a certeza desse amor, dessa confiança completa depositada nela, que vai oferecer uma base segura sobre a qual pisar até que ela se torne independente o suficiente para firmar uma autoestima saudável e sólida, que não dependa mais de nossa narrativa nem de nossa aprovação.

Evitando o julgamento, a imposição e a chantagem, tratamos a criança com o máximo de respeito e a independência como um fator natural da vida, não mais desagradável do que qualquer outro, nem mais urgente por qualquer motivo. E sendo um fator natural da vida, ela perde seus perigos e pode ser conquistada com certeza e força interior.

A construção da independência é a construção do eu e a formação do humano. Nosso papel de não-ajudantes é crucial, e tanto mais urgente quanto mais tarde é na vida de uma criança. Negligenciar a importância da independência é um erro que não devemos cometer, claro. Mas se por desconhecimento ou impossibilidade esse tempo já passou, há muito o que fazer, e nós podemos acreditar na criança – esse parece ser um importante passo para que ela acredite nela mesma.

Até mais!

A Humilhação do Adulto

Em A Criança, Montessori nos impele a um alto grau de aperfeiçoamento interior:

A preparação que nosso método exige do professor [adulto] é o autoexame, a renúncia à tirania. Deve expelir do coração a ira e o orgulho, deve saber humilhar-se e revestir-se de caridade. Estas são as disposições que seu espírito deve adquirir, a base da balança, o indispensável ponto de apoio para seu equilíbrio. Nisso consiste a preparação interior, o ponto de partida e a meta.

Para ela, os defeitos adultos mais nocivos à criança eram a ira e o orgulho, que juntos produzem a tirania. Por um momento, considere o orgulho que você tem de ser adulto. Considere a ênfase com que felicitamos uma criança porque ela cresceu e pense em como rimos graciosamente dos esforços de bebês e crianças em vídeos de YouTube enquanto eles aprendem aquilo que há muito já sabemos. Há, em nós, uma compreensível sensação de sucesso por termos chegado onde chegamos, e a também compreensível impressão de que somos de algum modo superiores, porque somos maduros. De alguma maneira, enxergamos em nós mesmos a perfeição ainda não alcançada pela criança pequena, tão cheia de inabilidades e incompetências.

Esse orgulho pode ser grande. Muitos de nós temos orgulhos grandes. E a vida com uma criança é difícil quando nossos orgulhos são inchados. Um orgulho pequeno se machuca pouco, é difícil de ser atingido e ferido, e sofre somente de quedas pequenas. O orgulhão não. Esse é ferido por qualquer coisa, mesmo que por acidente. Ele é grande demais e fica no caminho das ações da criança. Quando ela desobedece, quando demora mais do que alguns segundos para seguir uma ordem, ou quando opta por um caminho diferente do que sugerimos, tudo isso atinge o orgulho grande. Quando ela enfrenta, desafia, responde, nega e pergunta, o orgulho grande se sente oprimido, porque vê no comportamento independente e livre da criança uma ameaça à sua frágil soberania.

Ocorre, infelizmente, que o orgulho, se ferido, ira-se. Perde a calma, a compostura e a gentileza. O orgulho é medroso, fraco e inábil, se embaraça todo quando algo o contraria, como um rei-palhaço, e sua irritação seria risível se não fosse trágica. É pena que seja trágica. Quando o orgulho ferido se torna raiva, usa do que tiver à disposição: o olhar cruel, o grito, as mãos, o autoritarismo punitivo e o cinismo crudelíssimo do adulto irônico contra a criança que não pode ainda compreender ironias e perguntas retóricas. O orgulho é uma muralha que não permite a participação da compaixão no nosso comportamento.

O rei absolto nesse território murado e protegido contra o sofrimento do outro é o adulto despreparado. O tirano. O tirano é um produto desatento dos conselhos do orgulho e das ações da ira. Isso é verdade para os reis históricos e para os monarcas domésticos. É difícil abrir mão do trono, mas o caminho para a vida além das muralhas passa por isso. Passa pelo abandono de nossa posição de poder, certeza e proteção ilusórias, e pela caminhada, rente ao chão, na direção da verdadeira vida, pelo caminho de poeira, luz e esperança. O caminho em direção à vida é o caminho da humilhação.

Humilhação tem, na sua raiz, o húmus. A terra. Humilhar-se é descer à terra. Descer ao chão. Ajoelhar-se diante do menor entre nós e olhá-lo nos olhos com absolta reverência. É essa a única entrada para uma nova vida: nossa e da criança, doméstica e universal.

Em uma primeira, segunda e centésima leitura, soou-me estranha a ideia da humilhação no texto de Montessori. Eu não conseguia entender ou aceitar. Humildade, sim. Humilhação, dificilmente. Soava-me absurdo que para enxergar a dignidade da criança fosse necessário abrir mão da minha. Achava, eu, que era possível e necessária a existência das duas concomitantemente. Na ignorância de que existe uma dignidade superior àquela comum e orgulhosa, eu resistia a abrir mão desta pela humilhação conhecida, por medo do que viria depois. Eu não sabia que era possível atravessar a humilhação e encontrar uma dignidade mais bela, mais forte, completa e imponente do que aquela a que eu me apegava miseravelmente.

E então, Fábio deixou cair uma bolinha debaixo de uma cama elástica, na lama. Fábio é nome fictício, e ele tinha cerca de dois anos e meio. A cama elástica estava no parquinho de uma escola, e a bolinha era laranja com relevo em azul. O menino recorreu a mim para socorro, sem conseguir ainda articular frases inteiras. Eu entendi o geral da situação, porque assisti a tudo. Disse que ele podia ir, e eu olharia de longe. Não. Medo. Eu tinha de ir junto. Naquele dia, porque trabalhava com crianças, vestia uma camisa social, calças novas e sapatos. E a bolinha estava na lama. Mas Fábio tinha medo. E eu, sem pensar muito, dobrei as mangas da camisa, apoiei os joelhos na terra (húmus…) e fomos juntos até o meio do caminho, em quatro apoios. De lá, ele seguiu sozinho até o meio da cama elástica e pegou a bola. Voltou confiante e feliz, sorrindo e abraçando. Me abraçando, a mim, que estava sujo e não sabia bem como ficar limpo de novo. A professora dele me perguntou, depois, se era aquilo que Montessori queria dizer com “deve saber humilhar-se”. Eu não sabia responder.

Mas era. A humilhação do adulto acontece no chão. Quando nos ajoelhamos na lama no meio de um dia de trabalho cheio de reuniões porque uma criança precisa de apoio moral. Quando sentamos na calçada porque nosso filho viu uma formiga carregando uma pétala de flor. Quando esperamos, sob sol quente e suor salgado, enquanto nossa criança sobe e desce de um degrau na calçada, cinco, dez vezes. Quando na noite de Natal deixamos o sofá para estar com os pequenos no chão, e deitamos para colaborar na montagem de uma estrutura difícil de erguer com blocos e peças de encaixar. Só descendo de nossos tronos de testa sem suor, calças sem manchas, e sofás socialmente bem-vindos é que poderemos ver o mundo sem orgulho.

Trata-se de um caminho sério. É um ponto de partida e uma meta. A humilhação não é o começo, para depois melhorar. Ela é a coisa toda. E a dignidade que surge também não surge só mais tarde. Ela surge desde o começo. Nossa dignidade não vem mais dos olhos adultos, que não compreendem que o mundo só pode ser transformado quando descemos ao chão. Ela vem dos olhos da criança, que compreende nosso esforço, valoriza imensamente nossa dedicação, e surpreendentemente admira o adulto que por ela deixa de lado todo o orgulho, a ira e a tirania. Descobrimos, com um misto de surpresa e encanto, que nossas sugestões são então obedecidas como ordens, e que nossas ordens são quase mandamentos. Porque a criança nos viu, e nós vimos a criança, agora podemos falar e ouvir como não podíamos antes.

É claro, deve-se dizer, que nada disso significa abandonar os limites que se deve ensinar aos pequenos. Prejudicar-se, prejudicar outros seres vivos ou prejudicar o ambiente não pode jamais ser permitido ou tolerado, em nome da compaixão é que algumas ações da criança precisam ser interrompidas e é nossa responsabilidade ajudá-la a compreender o certo e o errado. Mas essas leis não são nossas. São leis do mundo, desde tempos imemoriais, e não são impostas por reis, mas pelo coração do humano: fazer bem a si, ao outro e ao mundo. É impossível ensinar isso por meio da tirania, com ações iradas dirigidas por um orgulho insano. Um bom caminho só se faz com passos bons, um de cada vez, não chão, na terra viva, que é húmus.

Primeiros Passos de Montessori em Casa

Vamos fazer um favor a nós dois. Antes de começar a leitura deste texto, pare por um momento, e respire profundamente, duas ou três vezes. Sinta seu corpo, e relaxe. Eu também farei isso antes de escrever.

Pronto. Nós precisamos começar em paz, aqui. A mudança que vamos fazer em casa é essa: antes da respiração e depois da respiração. Mas vamos fazer isso no ambiente físico, dessa vez. Se você quiser ler sobre paz e comportamento, pode ir aqui ao lado e buscar o assunto que te interessa.

A casa montessoriana é simples. Muito, muito simples. Nem sempre fácil, é verdade. Mas não é complicada. O nosso objetivo mais amplo é gerar liberdade, e para Maria Montessori, liberdade é um conjunto de “condições favoráveis à vida”. A liberdade de uma árvore é equivalente à chance que ela tem de seguir sua própria natureza, ser nutrida pela Terra, alimentada pelo Sol, envolvida pelo ar e hidratada pela água. Pouca Terra, muito ou pouco Sol, má qualidade do ar ou água em excesso tiram a liberdade da árvore, porque a impedem de seguir os rumos naturais de seu desenvolvimento. Com as crianças, há diferenças individuais importantes, mas há condições básicas para a vida que, se puderem ser garantidas, permitirão um desenvolvimento livre de obstáculos maiores e, portanto, uma liberdade profunda e ampla.

O primeiro aspecto a que devemos prestar atenção é a liberdade para satisfação de necessidades biológicas básicas. A criança deve poder sobreviver em sua casa. Para isso, precisa comer, beber, dormir e realizar suas necessidades. Um primeiro passo interessante, na cozinha, pode ser deixar um ou dois potes pequenos com quantidades de alimento pronto para consumo (pedaços de frutas, verdura ou torradas servem bem) e utensílios simples de cozinha, como um prato e dois talheres disponíveis. A mesma coisa pode acontecer com líquidos, água ou suco, e uma jarra e copo. Aos poucos, é claro que você pode adicionar guardanapos, mais talheres, taças, vasilhas e recipientes diferentes. Mas comece devagar, em paz.

Vai ser importante ensinar a criança a usar cada uma das coisas que você adicionar à sua cozinha. A partir do momento em que ela consegue andar e pegar ou carregar coisas, isso já pode começar a acontecer. Se os pratos de porcelana e vidro ainda assustam você, use plástico por algumas semanas ou meses, mas ensine a criança a segurar essas coisas com cuidado (mostre, lentamente e em silêncio, como se faz) e depois de algum tempo, faça a mudança. Coisas que quebram nos ensinam o movimento cuidadoso, e isso importa. Uma mesinha com uma cadeira pequena são opções boas e válidas, se você puder adicionar isso à sua casa. Se não couber, tudo bem usar a mesa maior – não é tão fácil, nem é tão agradável para a criança, e uma quantidade maior de acidentes pode acontecer, tenha um pouco de paciência com os esforços da criança, e ensine mais do que corrija, demonstrações funcionam muito melhor do que broncas e repreensões.

No quarto da criança, o acesso também importa. Dormir suspenso em uma altura maior do que a sua e cercado por grades não é uma opção interessante. Para um adulto, essa reclusão seria um castigo indigno e humilhante, e por isso não forçamos a criança ao berço. Usamos uma cama no chão. Pode ser um colchão no chão, sobre um estrado ou borracha, ou pode ser algo um pouquinho mais estruturado, mas ainda bem baixinho, sem nenhuma proteção que impeça a queda – especialmente depois dos quatro meses – e sem nada que impeça a entrada e a saída da criança. Essa cama assim baixinha importa especialmente até os três anos, enquanto a criança é realmente pequena demais para alcançar com sossego uma mais alta.

Quanto ao banheiro, basta um banquinho. Um adaptador para o vaso é uma opção interessante, um facilitador útil para algumas crianças. Se a sua criança não quer usar e prefere se apoiar diretamente sobre o suporte adulto, isso não é um problema. Um banquinho ajuda as pernas e descansarem enquanto ela está sentada, ou a alcançar o vaso de pé, assim como possibilita o acesso a pia, então é uma modificação útil e importante.

Pronto. A sobrevivência da criança está garantida. Agora, podemos passar ao seu bem estar. Sobretudo, a criança pequena depende de atividade para se sentir bem. Agir com as mãos, com propósito e controle sobre os seus movimentos traz à criança serenidade, equilíbrio e alegria, suportes muito importantes para um desenvolvimento saudável da personalidade.

Em um retorno breve ao quarto, podemos olhar além da cama. Nele, há um espelho na parede, que fiz horizontal enquanto a criança engatinha, e vertical quando ela já fica em pé, e que vai ser importante para a identificação do rosto, dos movimentos, das expressões, e para o desenvolvimento de um senso estético saudável quanto a roupas, no futuro. À frente desse espelho, que tem cerca de um metro por cinquenta centímetros, pelo menos, podemos instalar uma barra de cortina forte, a mais ou menos 50cm do chão, para que a criança que está aprendendo a andar se erga com mais facilidade. Isso não é essencial, mas colabora para que a criança treine com segurança esse movimento, e use menos os outros suportes acidentais casa afora.

No guarda-roupas do quarto, podemos usar as partes mais altas para roupas que a criança não deve acessar, e podemos deixar a seu alcance uma seleção de peças entre as quais ela possa escolher o que vestir no dia a dia. Trocamos essas peças, evidentemente, a depender das opções que podem existir para a criança e, aos poucos, ensinamos a lidar com mais opções e com aquelas roupas que, mesmo podendo ser alcançadas, não podem ser usadas em tais e quais situações.

Repare que há poucos, pouquíssimos, brinquedos nesse quarto. Cinco, seis são suficientes. Muito mais do que isso e a confusão começa a reinar. Deixe disponíveis brinquedos com que a criança efetivamente brinca, e guarde para depois, ou doe, aqueles que já/ainda não interessam. Opte sempre por brinquedos que não brinquem sozinhos, por peças que dependam da criança para funcionarem como brinquedos e por objetos interessantes que só se movam ou façam coisas quando a criança faz, e nunca sem ela. Importa mais o brincar do que o brinquedo, e o que a criança busca é a ação com propósito.

Na cozinha, que começamos a preparar acima, há infinitas possibilidades de atividade. A criança pode nos ajudar com afazeres inicialmente simples, e depois mais e mais complexos, e pode ela mesma desenvolver ações independente de nós. No começo, a criança sobe em uma cadeira ou usa sua mesa baixinha, e nos ajuda a cortar bananas, ou a colocar legumes picados em uma panela, ou a misturar a massa de um bolo e de um pão. Com o tempo, felizmente, ela aprende as receitas, os modos de fazer e os pressupostos básicos de uma cozinha simples, e passa ela mesma a preparar saladas, biscoitos e lanches para si e para os outros, com cada vez menos ajuda adulta.

Aqui, vale ter em mente: para a criança, é importante treinar antes de fazer. Por isso, vale a pena estruturar algumas atividades de exercícios práticos. Alguns exemplos: dois copos para que a criança passe água, ou grãos, de um para o outro; duas vasilhas com bolinhas de madeira ou pedras, para que a criança transporte com um pegador; dois recipientes com água e uma esponja, para a criança passar a água de um para o outro; uma jarra e dois copos, para que a criança aprenda a distribuir a água igualmente e sem derramar… As opções são inúmeras, como as possibilidades de uma cozinha. Você notará que também para a limpeza da casa e das roupas há opções de atividades a desenvolver. A criança nos mostra o que lhe interessa treinar, e nós só temos que dar a estrutura física necessária (lembre-se: o tamanho dos objetos e a beleza importam para a criança). Quando a atividade estiver pronta, mostre em silêncio e bem devagar como é que se faz, e não se preocupe se a criança não se interessar imediatamente. Você pode mostrar mais de uma vez e, em algum momento, talvez distante da apresentação, ela se interessa – ou não, e aí tudo bem também, é só mudar a atividade.

Claro, há atividade para além da cozinha: pode-se varrer, lavar, esfregar, pendurar, plantar, regar, alimentar, limpar, lustrar, polir, colar, cortar, guardar… Tudo o que se faz na casa é atividade, e interessa para a criança pequena. Conforme você observa sua criança, isso fica claro, e fica claro também o que é que se pode fazer junto. É bom perceber sempre que o interesse da criança é muito mais o processo do que o produto, e que ela pode ter que experimentar muitas vezes antes de acertar – e repetir muitas vezes depois. A criança se interessa pelo mundo porque o mundo ajuda no seu desenvolvimento. O interesse verdadeiro é interior.

Pronto. Esse é só um texto de primeiros passos. Há muitos mais em uma caminhada do tamanho da vida. Mas esse começo é como uma respiração: depois dele, fica tudo mais fácil, mais claro e mais cheio de paz. Boa sorte!

Entrevista sobre Montessori

Queridos leitores,

já faz tempo que eu tenho vontade de publicar alguns áudios aqui no Lar Montessori, para que as pessoas que não podem parar para ler possam ouvir enquanto fazem suas vidas. Na semana que passou, acho que uma excelente oportunidade se ofereceu. Fui convidado a dar uma longa entrevista à rádio Spaço Livre, em Farroupilha, no Rio Grande do Sul. Na entrevista de uma hora e quinze minutos, foi possível abordar muitos temas importantes em Montessori – para casa, para a escola montessoriana e para a escola tradicional. Se você quer fazer uma revisão de Montessori ou escutar uma introdução sucinta e boa, eu sugiro essa entrevista. O jornalista responsável foi generoso nas perguntas e na condução de toda a conversa, pelo que sou grato.

Escute aqui:

 

Slides sobre Natureza

Recentemente, ministrei uma palestra sobre Montessori e Natureza. Para ver os slides, que ficarão disponíveis aqui por alguns dias, clique no link:

https://docs.google.com/presentation/d/1yCrwZb12xzzHwtug_oxfGmm_aZ1bigsJOKgsUzk3_q8/edit?usp=sharing