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Sentar e Olhar a Vida

Quando tenho a chance de visitar casas e escolas e preciso fazer análises de ambientes, aprendi a ter sempre a mesma atitude: sento-me. Esse texto é sobre isso. Sobre quanto precisamos sentar, em nossas vidas com as crianças, para que tudo corra em paz.

Hoje em dia, vivemos bastante sentados. Sentamos diante da televisão, do computador, em grande parte do tempo que passamos nos transportes diversos, em salas de aula, no trabalho, em reuniões, nas casas de amigos, bares e restaurantes, cinemas, teatros. Praticamente tudo aquilo que envolve nossa existência acontece enquanto estamos sentados. E é contemporâneo defender que devemos ficar mais em pé. O que quero sugerir está no meio. Por um lado, devemos concordar com quem diz que passamos tempo demais em cadeiras. Por outro lado, a solução não está só em ficar de pé. Nós também podemos sentar no chão. Quanto sentamos no chão, tudo muda muito de figura.

Olhando a partir do chão, o que era baixo ganha altura, o que tinha “altura normal” fica inalcançável, e o que estava no alto fica invisível. A perspectiva se altera, e as coisas que eram belas vistas de cima são diferentes se vistas de baixo. A casa cuidadosamente decorada de repente não combina mais, é muito cheia, ou muito monocromática. Um espaço por onde nos movíamos sem problemas e o campo de visão amplo são agora interrompidos por obstáculos que impedem os olhos de ver e o corpo de agir.

Sentar liberta. Liberta na medida em que deixamos de ser prisioneiros de nosso ponto de vista mais comum. Nem sempre nos damos conta, mas ver a vida sempre do mesmo jeito é uma prisão. Ver tudo do mesmo jeito, por melhor que seja o jeito, vicia a interpretação da vida e a ação possível. Isso não vale só para a criança, é verdade para a comida, o trabalho, o transporte e tudo o mais. Mas quando pensamos na criança, isso é especialmente verdadeiro. Ver a criança sempre do mesmo jeito (como a esperança do futuro, ou como um ser em evolução, ou como o retrato da perfeição, ou de qualquer outra forma) vicia nossa ação e nos impede de ver a criança de um outro jeito ainda: como um ser em perpétua transformação que precisa de um observador em metamorfose para ser compreendida.

A gente não compreende uma criança que muda ficando igual.

Por isso precisamos sentar no chão. Porque sentar no chão é uma coisa que a gente faz pouco. E fazer coisas que a gente faz pouco mexe com a cabeça, faz com que adotemos de novo a cabeça da criança, a cabeça do iniciante. Não existe mente melhor para aprender do que a mente do iniciante: fresca, bem disposta, inocente, humilde, pronta, ativa, rápida, vazia. A mente de iniciante nos permite olhar em volta e ver um mundo novo.

Primeiro, podemos sentar no quarto. A decoração, que parecia mínima quanto olhada da altura adulta, agora é muito maior. As paredes talvez tenham muito menos espaço em branco vendo daqui, e os obstáculos que nem pareciam existir ficam muito mais claros. Os brinquedos pelo chão, que eram pequenos objetos quase bidimensionais, ganham sua terceira dimensão e são vistos com a mesma clareza que vemos uma escrivaninha com tudo bagunçado, ou uma sala cheia de mobília desorganizada. Os caixotes de brinquedos que nos lembravam organização agora lembram, vistos de perto, uma casa em dia de mudança. A cama que era tão baixinha agora tem uma altura respeitável que, embora possa ser superada até com alguma facilidade, já não é mais como um desnível do chão: é todo um móvel com características só suas e dimensões dignas. Podemos fazer o mesmo pela casa toda. Às vezes nos surpreendemos muito positivamente.

Sentamos na varanda. Entre meia dúzia de pequenos vasos e duas ou três coisinhas de área externa, com água ou tinta. Aquela varanda era tão pequena, dava para tão pouco, acabava em um passo só. E de repente aumentou. Quando a gente senta, a varanda fica grande. Agora, o chão está próximo, deixou de ser só a área dos nossos pés e se tornou a área das nossas mãos. Com uma folha de jornal estendida no chão, podemos transplantar as ervas daninhas todas para um vaso só, podemos semear, fazer sementeiras para os amigos, vizinhos e parentes, podemos triturar adubo orgânico ou misturar os restos triturados para nossos pequenos vasinhos de tempero que deixam de ser o sonho da casa no campo para por um momento virar natureza de verdade ali-tão-perto. Porque estamos sentados, a folhagem baixa das nossas floreiras pequenas esconde o mar de cidade lá fora, e estamos noutro mundo, noutra vida. Sentados.

Se tivermos coragem, ou se desejarmos desafio, podemos sentar na rua. Sentar na rua com nossas crianças é transformador. Há plantas, animaizinhos, degraus, rachaduras, coisas minúsculas que para nós parecem falhas e para a criança são portais para a realidade. Há quem diga que Montessori é bolha. Bolha é o mundo em que vivemos e que nos isola da natureza e de nós mesmos. Mas é uma bolha que fica estourando o tempo todo, em cada rachadura de calçada onde uma flor pequena nasce. Quando eu era pequeno colhia uma florzinha para a minha avó – hoje eu moro onde minha avó morava e dois quarteirões para cima essa florzinha ainda nasce, nas rachaduras entre a calçada e a parede, numa casa de esquina. Mas a gente só descobre essa flor de dois jeitos: sendo criança e sentando no chão.

Montessori defendeu que o adulto deveria se livrar de toda a ira e todo o orgulho, se desfazer de toda a tirania, se vestir com caridade e humilhar-se. Se eu entendi bem, e aos pouquinhos eu vou entendendo essa proposta, nós precisamos de uma transformação profunda. Eu não proponho que ela vá ser fácil, mas acredito mesmo que ela começa conosco sentados no chão. Sentar no chão da calçada com sua criança bem pequena, enquanto ela brinca de passar um galho em barras de ferro no portão ou pula e sobe e pula de novo o degrau do desnível das calçadas de casas diferentes… Isso, aos olhos do mundo, é humilhação. Aos olhos da criança, é ser o maior e melhor humano que o mundo já viu. Aos nossos olhos, se quisermos, pode ser um revolucionário ato de amor. Amor pela criança, pela vida, pelo que existe de verdade, pelo que somos e nos esquecemos.

Assim, sentando no chão algumas vezes por dia, vamos nos dando conta de quanto nos escapa. É toda uma dimensão do mundo que foge à nossa vista. Como nossa mente não funciona em pedaços, ela aprende rápido: depois que a exploração por dimensões ignoradas começa, ela não para mais. O olhar muda em todas as coisas, em todas as direções. Ele muda para além do espaço, e vemos o tempo de outra maneira. Ele muda para além do que só existe, e vemos a vida de outra forma.

Num golpe de sorte daqueles que tiram nosso chão, estaremos sentados e veremos, frente a frente, os olhos maravilhados de nossas crianças. E aí tudo ficará espantosamente claro: a mente de iniciante delas é essa, que vive pertinho do chão. Ela não perde tempo, ela vê o tempo de perto e de perto tudo é maior. Ela não é desastrada. Os obstáculos do ponto de vista dela são outros. Ela não é preguiçosa. O mundo olhando de baixo é maior. Ela não é medrosa. O mundo visto do avesso é esquisito mesmo. E nossa visão de mundo fica de cabeça para baixo. Olhando de baixo para cima é outro mundo que se vê.

Mas é olhando de baixo para cima que vemos o céu. É olhando de baixo para cima que vemos as estrelas que nos guiam, com seu brilho nos olhos das crianças. Aprender a sentar, aprender a olhar, aprender a ver a vida com olhos de iniciante. Não é pouco, mas podemos começar sentados.

Montessori: Uma Vida de Revolução Pacífica

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Novembro de 1907. Em um bairro muito pobre, de famílias trabalhadoras e majoritariamente analfabetas, Montessori está com a professora de uma sala de sessenta crianças, de três a seis anos, brincando à sua volta, quando pede a um garoto a quem entrega um pedaço de giz: “Desenha-me uma chaminé”, e sai, caminhando, para descobrir o que as outras crianças faziam. Minutos depois, ouve-se um grito de espanto, vindo do mesmo menino: “Eu sei escrever!”. Montessori, verificando o que ocorrera, viu que o garoto de fato tinha escrito, no chão: “chaminé”.

A isso se seguiu que dezenas de crianças de repente descobriram seu dom silencioso e, pedindo pedaços de giz, puseram-se, uma a uma, a escrever pelo chão e pelas paredes do bairro de San Lorenzo. Escreveram, e ao mundo pareceu que faziam coro ao que Montessori já há mais de dez anos dizia incansavelmente: Todos podem aprender, se permitirmos. O evento, de imensa fama por seu contexto incomum, ganhou, na mídia da época, o nome de “explosão da escrita”. Para Montessori, era mais um aspecto do que lhe parecia uma “explosão da alma”.

Essas crianças, que vinham de toda sorte de casas mal estruturadas, com famílias que podiam lhes dispensar muito pouca atenção, e muitas vezes com violência, sem organização, com pouquíssimas condições materiais, mostravam a Montessori e ao mundo o melhor da humanidade. Deixadas em liberdade para trabalhar, utilizando materiais cuidadosamente preparados para sua educação, atingiam um estado de espantoso equilíbrio emocional e psicológico, pareciam mais inteligentes, curiosas e capazes, buscavam sua independência com esforço contínuo. Aos poucos, naquela creche ignorada pelo mundo, se delineava para Montessori o segredo da infância.

Esse segredo, o estado de equilíbrio da personalidade alcançado pela criança por seus próprios e livres esforços, instalou no coração de Montessori a certeza de que as crianças poderiam ser as redentoras da humanidade, e de que o certo a fazer seria deixar tudo para trás e seguí-las aonde fosse necessário.

Não foi fácil. Montessori lutara muito para chegar onde estava: professora na Universidade de Roma, havia sido uma das primeiras mulheres a se formar em medicina na Itália, tinha renome internacional, publicara artigos e um livro e atendia clinicamente como psiquiatra. Abandonou tudo isso quando descobriu que a criança podia muito mais do que se imaginava, para, fundamentalmente, comunicar sua descoberta ao mundo.

Foi nessa pequena escola no começo do século passado que Montessori aprendeu que a paz é o estado humano natural, se a criança for deixada livre para se desenvolver e não se instalar, logo no começo da vida humana, aquilo que Montessori reconheceu em A Educação e a Paz como a raiz de todas as guerras: a que se dá entre o adulto e a criança. O adulto, ela disse em A Criança, precisava antes de tudo extirpar de sua personalidade três coisas: o orgulho, a ira e a tirania. Conjuntamente, era necessário aprender a humilhar-se e revestir-se de caridade.

De um ponto de vista, Montessori teve uma vida política intensa. Com uma inicial colaboração com o governo fascista na Itália, e um posterior arrependimento seguido de um rompimento definitivo, Montessori se viu inviabilizada de trabalhar suas ideias em sua própria pátria. Viajou por muito do mundo conhecido, e embora tenha tido seus trabalhos impedidos em todos os países de governos totalitários (como a própria Itália, a Alemanha e a União Soviética), continuou a formar professores e publicar livros em todo o período das grandes guerras.

Em um episódio especialmente fascinante, Montessori estava na Índia quando estourou a Segunda Grande Guerra, e por ser da nação errada no lugar errado, permaneceu impossibilitada de sair do país por toda a extensão do conflito. Durante todo o tempo, trabalhou, formando mais de 1.500 professores indianos e ministrando as palestras que viriam a se tornar o livro – em nossa opinião o melhor de todos eles – Mente Absorvente.

Não é na recusa ao totalitarismo, entretanto, que se firma a luta pela paz empreendida por Montessori. Essa é uma posição política que derivou inevitavelmente de suas experiências com a criança. Mas não é contra qualquer coisa que a luta pela paz se fez em Montessori. Essa busca foi sempre por uma realidade diferente daquela vivida no período de vida de Montessori, uma realidade que, pela mudança da educação da criança, permitiria um “mundo novo, cheio de milagres”. Temos algum retrato disso em suas obras.

Em seu primeiro grande trabalho pedagógico, O Método da Pedagogia Científica (sem edição em português), ela defende a utilização de uma perspectiva educacional que seja verdadeiramente racional, e se abra para observar a criança pelo que ela mostra, e não pelo que qualquer filosofia exige que ela seja. Esse caminho, para Montessori, permitiria a edificação de uma pedagogia que desse à criança toda a liberdade necessária para alcançar o melhor de si mesma. Nesse contexto, ela propunha já em 1909, os prêmios e os castigos se faziam absolutamente desnecessários. Nem os prêmios recebiam importância, ao olhar da criança apaixonada pelo trabalho em si, nem os castigos eram assim encarados, por crianças que eram ajudadas a todo momento por colegas compassivos e generosos.

Em O Manual da Doutora Montessori (sem edição em português), de 1914, ela nos propõe uma pedagogia simples, do tipo que poderia ser colocada em prática por todo mundo, e em todo o mundo. Não há qualquer complicação teórica no livro – toda a teoria do método só vai aparecendo bem aos poucos e mais tarde – e o que lemos é uma esperança para a educação da criança: com algum cuidado com o ambiente, alguma técnica e poucos materiais especificamente construídos de acordo com princípios de observação científica, Montessori garante ser possível a revolução da educação da criança. No enfoque desse livro, uma educação pautada pelo prazer de trabalhar e pela ausência de um professor que seja um corretor eterno dos erros da criança.

Mais tarde, em A Criança, Montessori faz seu primeiro grande apelo. Toda a humanidade, ela propõe, deve ser colocada em julgamento pelos erros que comete para com a infância. Inúmeras formas de opressão, como os castigos, o excesso de brinquedos, os elogios e a ausência de liberdade, vêm deformando a personalidade humana e impedindo seu desenvolvimento saudável e integral. A solução? Conhecer o segredo da infância. A partir do momento em que o adulto tomasse consciência da potência oculta na criança, sob a carapaça de um comportamento violento e violentado, desordenado e desordenador, consequência de maus tratos e repressões, e visse que verdadeiramente o humano pode ser equilibrado, gentil, esforçado e generoso, não mais trataria a criança como o menor entre todos, mas a veria pelo que é: a esperança e a promessa da humanidade.

Em A Educação e a Paz, lemos uma sequência de apelos aos líderes políticos do mundo todo: vimos guerras e mortes. Se queremos mudar essa realidade, não será suficiente que estabeleçamos leis e tratados, será necessário permitir à criança a realização de seus milagres. É pela revolução da infância, propõe Montessori aqui, que se salva a humanidade. Na infância, ela defende, todos os humanos são iguais. Na infância está o princípio comum de toda a civilização. Se os olhos dos governantes de todos os lugares puderem se voltar à criança com a máxima prioridade e eles souberem estimular em seus países uma educação para a liberdade, para a paz e para a vida, o mundo não precisará ver mais os horrores da guerra, pois que a criança, promessa do futuro, não fará a guerra se não sofrer da guerra com seus pais e seus professores.

Aproximando-se do fim de seu trabalho, Montessori reescreve, em uma quinta edição, sua primeira obra pedagógica, e a chama de A Descoberta da Criança (em português, Pedagogia Científica: A Descoberta da Criança). Em uma última edição, procura condensar uma quantidade de sua pedagogia que “seja suficiente para a aplicação pela professora”. Desenha-se todo um currículo de linguagem, matemática, vida prática e educação sensorial. Sobretudo, no entanto, o que aparece nessa obra de importância inominável é uma proposta revolucionária: aquela mesma simplicidade apontada no início de sua vida profissional aparece aqui outra vez: com muita observação e um pouco de bom senso, alguma técnica e material suficiente – pouco material, ela enfatiza – é possível oferecer à infância uma vida cheia de importância e dignidade. Daí, ela defende, brota a autodisciplina, e somem os problemas da escola tradicional. Todo o problema da atenção e do foco, que a escola comum luta por solucionar, já aparece solucionado nessa alternativa pedagógica, e então podemos ter preocupações muito mais elevadas, com o aperfeiçoamento das condições para o desenvolvimento do ser humano.

Em seu último livro, pequeno e forte, de título A Formação do Homem, Montessori é contundente: hoje o ambiente “devora e tritura o homem”. Para um mundo novo, será necessário que todos os seres humanos tenham domínio sobre seu ambiente, sem que alguns possam se aproveitar de outros, e que os proprietários do mundo sejam onipotentes como deuses. Desde a mais tenra infância é de fundamental importância que a humanidade se desenvolva em um ambiente de liberdade e que as fascinantes qualidades da personalidade humana possam se manifestar, excluindo, assim, do futuro, a possibilidade da continuidade da opressão social entre os adultos – essa também tem suas origens na opressão da criança, e pode então ser extirpada não por uma luta contra a opressão, ou não somente por aí, mas por uma educação a favor da liberdade, da paz e da vida.

Que neste aniversário de Montessori, algo de suas inúmeras mensagens nos fale à alma, e que possamos, em todo o ano que virá, nos dedicarmos com tudo o que somos à construção da paz no mundo por uma educação que permita milagres, que tenha suas bases no fascínio e no amor, assim como na cientificidade e no estudo profundo do segredo da criança. Que as exageradas profecias de uma mulher que, em 1907, acreditava que em uma escola livre poderia surgir um novo mundo, possam ser superadas, e que em cada casa, creche, clínica, família e escola, nos surpreendamos, o tempo todo, com o potencial infinito da criança para salvar a humanidade.

Comunicação e Montessori

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Comunicação é a base de nossas vidas com os outros, e isso inclui as crianças. Todo o tempo que passamos perto de crianças envolve comunicação. Desde a escolha do silêncio, até a postura corporal, até as palavras, os gestos e os sinais, que são as formas mais óbvias de nos comunicarmos. Se pudermos nos comunicar em paz, podemos viver em paz. Neste texto, quero abordar o assunto de dois pontos de vista. Primeiro, o da linguística, depois, o da compaixão.

Linguística

Do ponto de vista linguístico, existem quatro grandes princípios para uma conversação eficiente. Elas são chamadas de “máximas conversacionais” e foram descobertas por Paul Grice, um filósofo da linguagem britânico. Essas máximas são (1) a da quantidade, (2) a da verdade, (3) a da relevância, e (4) a da maneira. Numa conversa comum, essas máximas são respeitadas e desrespeitadas o tempo todo. Vejamos como funcionam.

A Quantidade

Quando nos comunicamos, é esperado que falemos tudo aquilo o que é importante. Ninguém espera que deixemos de dizer algo que importa em uma conversa. Acredita-se que aquilo o que dissemos era tudo o que tínhamos para dizer de importante naquele momento. Também é assim com as crianças. Sinceramente, as crianças acreditam que quando falamos com elas, dizemos tudo o que é importante dizer. A questão com as crianças é que elas têm uma capacidade menor que a do adulto para a metonímia. Para um adulto, podemos dizer uma parte da informação, e ele pode entender a informação inteira. Se dissermos “precisamos sair agora porque vai chover”, o adulto entende facilmente que “precisamos sair agora porque vai chover daqui a pouco e não queremos pegar chuva”. A criança só entende que “como vai chover, temos que sair”, e isso pode levar a um desentendimento por parte de uma criança que se recuse a sair e não se explique sobre isso, porque do ponto de vista dela é óbvio que qualquer pessoa em sã consciência optaria por exatamente por não sair, já que vai chover.

A Verdade

Em qualquer conversa comum, é necessário partir do pressuposto de que o outro está falando a verdade, ou aquilo que ele acredita ser verdadeiro. Se precisarmos ficar alertas para mentiras o tempo todo, não há conversa que possa funcionar. Isso funciona exatamente do mesmo jeito com crianças. Elas creem que aquilo que dizemos é a verdade. Acontece, no entanto, que crianças têm uma sensibilidade muito menor para a ironia. Isso significa que se você disser uma coisa querendo dizer outra, a criança interpreta sua fala como verdadeira e, percebendo que é falsa, ofende-se profundamente pela zombaria e por ter sido enganada. Por exemplo, a criança pode perguntar: “Posso comer chocolate agora?” e o adulto responder “Comer chocolate antes do almoço, filho? Aham!” ao que a criança vai pegar o chocolate, e o adulto fala mais alto: “Filho, antes do almoço você não pode comer chocolate, você sabe disso! Larga o chocolate!”. E aí temos outra situação de incompreensão grave.

A Relevância

Para participar de uma conversa, não podemos falar de qualquer coisa, mas precisamos falar daquilo que é relevante no momento – continuar no assunto da conversa, mencionar algo que ambos os participantes do papo estão vendo, ou algo assim. A criança também espera que sejamos relevantes, mas acontece com frequência de aquilo que a criança estar vivenciando no momento ser completamente diferente do que nós vivenciamos, Primeiro por uma questão de ponto de vista, e segundo porque ela pode estar ocupada com uma brincadeira enquanto nós nos ocupamos do jantar ou do uniforme da escola, de manhã. Ambos (adulto e criança) esperamos que o outro seja relevante para conosco: a gente espera que a criança entenda logo que deve vir colocar o uniforme, e a criança espera que a gente entenda logo que o urso está brigando com a coruja no chão do quarto. Cabe a nós, adultos, enxergarmos a situação completa, cedermos, interrompermos a brincadeira com educação e cuidado, e inserirmos o novo tópico de conversação. Caso contrário, nossa falta de educação é pega em flagrante e a criança recusa-se a cooperar até que, finalmente, cedamos e digamos algo como “depois você continua brincando” (que é exatamente ser relevante e falar do que ele está fazendo) “agora vem colocar a blusa” (que é inserir um novo tópico de conversa). A criança ainda pode resistir, por nossa falta de educação, mas sabemos que agora estamos mais perto do acordo.

A Maneira

Para Grice, maneira quer dizer como falamos. Não tem tanto a ver com as boas maneiras, mas sim com clareza, brevidade, e organização. Sempre esperamos que falem conosco de forma clara, organizada e direta. Quando isso não acontece, ficamos com a sensação de que a pessoa “fala difícil”, ou que alguém “não sabe conversar”. Quando falamos algo para nossas crianças de maneira nebulosa, elas não conseguem responder ou não conseguem executar. Nossa expressão precisa ser clara. Ser breve significa, entre outras coisas, não se repetir. É comum que falemos a mesma coisa para uma criança várias vezes. Especialmente na escola, quando temos pressa de sermos obedecidos por muitas crianças de uma vez, damos a mesma ordem repetidamente: “senta, senta, isso, senta, senta, vamos rápido, senta”. Em um intervalo de cinco ou seis segundos, uma mesma ordem pode ser dada cinco ou seis vezes. O efeito? O mesmo de uma ordem dada uma vez só, se for falada com calma, cuidado, clareza, atenção, e esperarmos cinco segundos para que seja obedecida. A repetição, a falta de brevidade, a frase desorganizada (“Filho, nós vamos à missa, você precisa se arrumar, então vai guardar seus brinquedos, e se veste, depois escova os dentes”) e outras falhas de comunicação do dia a dia são alguns dos fatores que mais atrapalham nossa relação com nossas crianças.

 

A Compaixão

Nossa reação imediata a tudo isso pode ser algo como: “Mas se eu tiver que prestar atenção a tudo isso, não falo mais nada!”. É exatamente por isso que Montessori pode ser chamada de “uma pedagogia do silêncio”. Montessori citava Dante e dizia: “Que todas as tuas palavras sejam contadas”. Nós não precisamos ficar sempre em silêncio, e conversar com nossas crianças, especialmente se são filhos e filhas, é de importância fundamental. Mas devemos ter em mente que uma boa comunicação não é só uma forma de facilitar a vida. Ela é sobretudo uma maneira de diminuir o sofrimento.

O monge vietnamita Thich Nhat Hanh tem uma maneira belíssima de ver a comunicação. Para ele, devemos sempre falar e ouvir buscando diminuir o sofrimento do outro. Quando ouvimos, podemos escutar o sofrimento falando por trás da raiva, do desespero, da angústia e da tristeza. Podemos perguntar o que faz o outro sofrer, podemos descobrir se poderíamos fazer alguma coisa diferente, podemos nos disponibilizar, verbalmente, a estar sempre ali, presentes, e ajudar.

Em seu livro “Good Citzens” (Bons Cidadãos, sem tradução para o português), o autor propõe que entre companheiros adultos algumas expressões de altíssima vulnerabilidade sejam usadas, por exemplo: “Por favor, diga-me, ajude-me. Eu sei bem que se não compreender você, eu não serei capaz de ser o melhor companheiro para você” Essa frase vem em uma fala maior na qual se pergunta por que o outro sofre, com a disposição total de ajudar esse sofrimento a cessar.

Se pudermos, pacificamente, tocar o sofrimento de nossas crianças – sua dificuldade de acompanhar um mundo cujo ritmo há muito ultrapassou o natural, a opressão imensa que recai sobre elas de toda parte, o desafio constante de ser o que queremos delas, na hora que queremos, enquanto elas gostariam de ser e fazer outras coisas – se pudermos entender esse sofrimento, poderemos nos comunicar com elas de forma transformadora, e ajudar, genuinamente, a diminuir o sofrimento de nossos filhos e alunos.

“O que aconteceu?”; “O que eu posso fazer para ajudar?”; “Eu estou aqui para você” são frases que podem transformar nossos diálogos, substituindo outras como “Se você chora eu não consigo entender o que você diz”; “Bom, quando você quiser conversar direito, estou te esperando” e “Você sabe que eu não gosto quando você fala chorando”. O que deve nos importar, sobretudo, é uma comunicação que diminua o sofrimento, a possibilidade de ele surgir e sua intensidade.

 

Finalização

Uma comunicação que obedeça às cinco máximas de Grice e aos princípios do diálogo de Thich Nhat Hanh tem tudo para reverter a situação apontada por Montessori há quase cem anos: “Nenhum problema social é mais universal que a opressão da criança”. Isso ainda é verdade, e permeia nosso dia a dia.

Quando formos capazes de nos abaixar, falar olhando nos olhos das crianças, falar devagar e claramente, dizer tudo o que queremos que a criança entenda, sem metonímia, ironia, sarcasmo, sem esperar que ela entenda mais do que nós dissemos, mudamos nossa realidade. Quando usarmos toda situação de comunicação para diminuir o sofrimento das crianças, ouvindo com compaixão, falando com compaixão, perguntando e pedindo com compaixão, mudamos nosso mundo.

Que sejamos capazes de uma comunicação mais verdadeira, completa e transformadora com aqueles que são, nas palavras de Montessori, o futuro, a promessa, a esperança e os construtores da humanidade.

A Tranquilidade Necessária

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Acordamos com o despertador e o susto. Levantamos, lavamos o rosto e vamos rápido fazer o café, acordar as crianças, trocar a roupa, tomar o café, escovar os dentes, lavar o rosto de novo, rua. Trânsito, ou pressa, ou trânsito-e-pressa, escola. Trabalho. Escola, trânsito, pressa, casa, banho, brincar, jantar, escovar os dentes, contar história, dormir.

Com um pouco mais, um pouco menos, nossos dias se parecem mais e mais com isso. A urgência contraditória é encontrar tempo para estar. Estar é não pensar no futuro, no depois, no daqui a pouco, e nem no passado, nos erros do passado, no que podia ter sido e não foi. É estar aqui e estar agora. Olhar para as nossas crianças sem pensar no que elas vão ser quando crescerem, ou no que o filho vai fazer quando acabar de brincar de montar, e só olhar e ver como é bonito, como é curioso, como é incrível que ele brinque de montar com tanta presença.

Quando a criança brinca – ou quando ela trabalha – coloca-se inteira no que faz. Não resta nada. É comum encontrarmos nossas crianças isolando-se do mundo, quietas no quarto ou num canto, fazendo qualquer coisa que não sabemos bem o que é e que absorve toda a sua atenção e toda a sua vontade. Isso, segundo o psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi (daqui em diante só Mihaly), é o estado de Fluxo. O estado de Fluxo descoberto por Mihaly é uma joia da natureza humana e uma daquelas chaves para o bem estar, tanto do adulto quanto da criança.

Para Mihaly, o estado de fluxo é caracterizado, entre outras coisas, por concentração profunda, uma sensação de que a atividade oferece desafios interessantes, mas ao mesmo tempo desafios que podem ser superados com esforço, além da percepção de que a atividade é recompensadora por si mesma, sem que haja necessidade de prêmios externos. Embora os estudos só tenham ligado o estado de fluxo à escola montessoriana, a casa montessoriana também oferece o estado de fluxo o tempo todo:

O pequeno bebê que, a partir de sua cama baixa tenta ir para o chão, envolvendo todo o seu corpo e toda a sua vontade nessa tarefa, a criança um pouco maior que se esforça para ficar de pé segurando-se na barra e se olhando no espelho, com encanto, foco, concentração, empenho. Depois, o filho que descobre como é que se rega as plantas, e faz isso por muito tempo, e o outro que aprende a secar resíduos e entrega-se à tarefa completamente. Quando nossos pequenos usam os potes da cozinha para encaixar, empilhar, organizar, e quando absorvem-se em suas próprias roupas, tentando entender como é que se faz para vestir uma calça, puxar um zíper ou amarrar um cadarço com sucesso. Em todos esses momentos, quando vemos a criança verdadeiramente absorta no que faz, presenciamos o estado de fluxo.

O estado de fluxo é fundamental por suas consequências. Visitar essa sensação com frequência traz às nossas vidas uma sensação muito maior de bem estar e equilíbrio, satisfação pessoal e alegria. Nos estudos de Mihaly, nota-se também uma melhora no comportamento social – o que não é de se estranhar, considerada a mudança emocional interior – e uma facilidade muito maior para aprender.

Acontece, no entanto, que para o estado de fluxo acontecer, algumas coisas são necessárias. Coisas que devemos lembrar de manter como práticas constantes em nossas casas.

Primeiro, é necessário ter tempo. Sem tempo, não há possibilidade de um mergulho em si mesmo, de uma dedicação intensa a qualquer atividade. Com que intensidade você se dedicaria a qualquer coisa se soubesse que pode ser interrompido dali poucos minutos? A criança, embora inconscientemente, também escolhe não se entregar a atividades quando reconhece o padrão de interrupção frequente, e sabe que tudo o que ela começar vai ser interrompido antes do final. Simplesmente não vale a pena. Por outro lado, o tempo permite milagres. Se em casa a criança pode desfrutar de tempo livre, sem que sua atenção seja requerida pelo adulto a todo momento, e sem que inúmeros deveres – aulas tarefas, ordens – sejam a ela imputados, então se sente livre para empreender um esforço de maior duração e intensidade, abrindo assim o caminho para atingir o estado de fluxo.

Um segundo aspecto fundamental é que os adultos da casa sejam dedicados a preparar um ambiente que favoreça esse estado da consciência. Em ambientes com muito barulho, muita bagunça ou um nível alto de estresse, o início de qualquer atividade é difícil, a escolha também. Por isso, um clima emocional positivo é fundação necessária para o desenvolvimento do bem estar inicial necessário à dedicação intensa da criança. Nós sabemos que se nos sentimos emocionalmente confusos, incertos ou conturbados, não temos energia para uma tarefa longa e exigente. Acontece do mesmo jeito com os pequenos: é sobre uma base sólida de amor, tranquilidade e paz que a criança constrói seu trabalho interior.

Finalmente, é da maior importância que haja opções de atividade para a criança. O estado de fluxo não pode ser atingido enquanto assistimos televisão. Para isso, tudo vale: peças, blocos, material de arte, Vida Prática, quebra-cabeças, desafios lógicos – e isso pode ficar mais complexo conforme a criança cresce. Vale até mesmo permitir que a criança acesse nossos armários e objetos, quando for adequado. O que não vale é não permitir a ação da criança e confiná-la a um mundo de telas, do celular, para o tablet, para a televisão, para a cama.

Em uma casa em que se corre, se grita e se assiste televisão o tempo todo, o estado de fluxo – e a bem da verdade qualquer estado que dependa da tranquilidade – é impossível. Mas com pequenas mudanças no ritmo, no volume e na configuração de nossos lares, podemos, sim e sempre, oferecer à criança a tranquilidade necessária para o mergulho ativo em si mesma e a autodescoberta que são características tão fundamentais da infância. Assim, passo a passo, em fluxo, a criança pode construir a humanidade.

 

Ciclo de Trabalho de Três Horas

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O Ciclo de Trabalho de Três Horas é uma das principais características do método Montessori. Ele é a garantia de que a criança terá, de verdade, liberdade para se desenvolver no seu tempo, de acordo com a sua natureza mais íntima. Montessori descobriu esse ciclo observando crianças na Casa das Crianças, em Roma, e ele é uma exigência da escola montessoriana. Se for respeitado todos os dias, a criança desenvolve um profundo senso de bem estar e tranquilidade para com a escola. Entenda mais no vídeo:

Adultismo e Montessori

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Em A Criança (p.21,22), Montessori disse:

A pregação em favor da criança deve persistir na atitude de acusação contra o adulto: acusação sem remissão, sem exceção. // Eis que, a certa altura, a acusação transforma-se num centro de interesse fascinante, pois não denuncia erros involuntários, o que seria humilhante, indicando falha ou ineficácia. Denuncia erros inconscientes – e, por isso, se engrandece, conduz à autodescoberta. E todo engrandecimento verdadeiro decorre da descoberta, da utilização do desconhecido.” (grifo meu)

Nas ciências humanas contemporâneas, chamamos esses atos inconscientes que decorrem do desconhecimento de algum aspecto de nós mesmos de ideologia. A ideologia não é, como se costuma acreditar nos círculos sociais mais amplos, um véu que cega. Ela é, antes, um modo de ser determinado pelo meio social em que nos inserimos. Existem ideologias de esquerda e direita, sim. Mas também existem ideologias machistas e feministas, religiosas e atéias, e milhares de outras menos polarizadas do que essas, ou que ficam entre um e outro extremos.[1] Neste texto, defendemos algo que é já estudado em alguns espaços acadêmicos e defendido por alguns ativistas no mundo, mas pouco conhecido e ainda não associado com Montessori de forma produtiva: trata-se da ideologia adultista. Um modo de ser no mundo que privilegia o adulto em detrimento da criança e impõe a ela todas as formas de opressão.

No mundo da Natureza, tudo é feito para os menores entre nós: a água fica no chão, o abrigo fica no chão, a comida fica muito próxima do chão, em arbustos, raízes, hortaliças e pequenos animais. No mundo da natureza, uma criança de quatro ou cinco anos já encontra recursos de sobrevivência e pode beber água e comer alguma coisa sem a ajuda do adulto. Uma criança pequena pode dormir, no chão, num monte de folhas, sobre uma pedra quente, sem a ajuda do adulto.

Mas o mundo da civilização é cruel com a infância. O adulto tomou para si todos os privilégios: a água que fluía no chão para todos engarrafou-se e subiu a um metro de altura, ou escondeu-se por detrás de uma porta metálica pesada cujo pegador fica, esse também, alto demais. A comida, em sacos, pacotes, potes, gelada, congelada, alta, reservada, perigosa, venenosa, não pode mais ser comida livremente pela criança, e sua fome depende da boa vontade do adulto para ser satisfeita. O sono da criança pequena foi condicionado não só à vontade do adulto, mas à privação de liberdade da criança, que para dormir precisa ser encastelada e gradeada, isolada de tudo e de todos, sem a opção de mover-se, de se levantar, ou de ir dormir sozinha se assim deseja.

Mas a transformação do mundo físico em um mundo que privilegia o adulto – com suas mesas altas que deixam as pernas das crianças balançando e sua imensa quantidade de posses mais preciosas do que a Vida, que são constantemente protegidas por um transbordamento de “nãos” – esse mundo físico é só uma face do adultismo que oprime e destrói a formação da humanidade, hora a hora.

Outras formas de adultismo são o direito ao sim e ao não que o adulto arroga a si mesmo porque… ele é adulto. A frase “Enquanto eu pagar as contas, eu decido.” tão frágil por si mesma, mas tão forte pela tirania que a sustenta, engana-se ao sobrepor o poder do dinheiro ao poder da construção do humano, sobrepondo a produção de bens à produção de seres. Vale dizer: as crianças, depois de adultas, não devem nada aos pais simplesmente por terem sido criadas com todas as necessidades satisfeitas, material e emocionalmente. Isso é um dever do adulto para com a criança, e não uma benesse.

O adulto que bate na criança usa, sistematicamente, colocações cruéis, como “ele pediu”, “ele sabe que eu não gosto que ele faça isso” e “eu estava cansado”, como se cansaço, em algum mundo, pudesse justificar a vergonhosa violência contra a criança pequena.

O adulto decide tudo pela criança: sua roupa, sua comida, seu tempo, seu espaço, seu humor. Seu humor. O adulto diz: “Você vai chorar? Eu vou te dar motivos para chorar!”. O adulto diz: “Não chora! Não tem motivo pra você chorar!”. O adulto diz: “Mas você devia ficar feliz, vai, arruma essa cara!”. Frases que se fossem ditas entre adultos beirariam o tratamento desumano e degradante, configurando, no mínimo, assédio moral, são entre pais e filhos “opções de criação e formas de disciplinar e preparar para a vida”.

A opressão que sofremos, o cansaço que carregamos, os nossos fardos, não podem justificar nunca que queiramos dividi-los, na forma insidiosa da violência sutil, com nossos filhos, nossos alunos ou as crianças que nos circundam: elas não podem carregar o fardo do adulto, ele é pesado demais. Carregá-lo deforma o humano interior da criança, da mesma maneira que deformaria sua contraparte física carregar pesos verdadeiros por dias e noites de sua infância.

Há, felizmente, maneiras por meio das quais podemos combater o adultismo, que é profundamente presente em nossa sociedade, mundo afora. Aqui, listamos só cinco maneiras, mas há muitas mais, que traremos de tempos em tempos.

  1. Prepare sua casa e seu local de trabalho para receber crianças.

Abaixe a água e a comida, tenha mesas baixas, um banquinho no banheiro, e faça as mudanças necessárias para que seu filho não more na sua casa, mas na casa dele também. Preocupe-se com o gosto estético dele na escolha da decoração, e com a facilidade de acesso dele ao guarda-roupa, aos objetos de cozinha e a todo o resto que pode ser acessado por crianças. Em seu local de trabalho, da mesma maneira que você faz mudanças para receber pessoas adultas com deficiências físicas, faça mudanças para receber crianças – em sua loja, escritório ou consultório podem aparecer crianças, mesmo que elas não sejam seu público-alvo, e saber recebê-las é humano.

  1. Abaixe-se para falar com crianças.

É terrível falar com alguém que nos olha muito de cima. Para fazer a experiência, sente-se num banco baixinho e peça para um adulto íntimo seu fingir que te explica alguma coisa, sem abaixar. Agora faça a mesma coisa olho-no-olho. Como você se sente melhor? Agora, pense num adulto que é tirano e se impõe hierarquicamente (um chefe, por exemplo). É melhor olho-no-olho, não é? E é melhor falando baixo, e devagar, também, porque a criança fica mais calma, escuta melhor, e assimila mais completamente.

  1. Coma numa altura confortável para a criança.

Não precisa ser sempre, é justo revezar. Mas comer no chão não é errado. Muitas culturas comem no chão. E comer no chão é confortável para a criança. Comer em cadeiras, bancos e mesas baixas também é. Se fazer as refeições assim é demais paa você, faça os lanches.

  1. Nunca use como justificativa para qualquer coisa o fato de você ser adulto ou pai.

Isso é a mesma coisa que usar como justificativa o fato de se ser branco, homem, heterossexual ou rico. É oprimir sem motivo nenhum, só porque sim, e só porque “eu posso”. Se o que você está fazendo não tem uma justificativa verdadeira, pense. Não imponha tudo. Pense. Se é possível ser flexível, seja flexível. É assim que deveríamos ser com adultos: ceder onde é possível ceder, e não ceder onde não é possível ceder. Se fazemos isso, a criança entende que quando dizemos “dessa vez não dá”, dessa vez não dá. Ela não se frustra mais, ela se frustra menos, porque passa a viver em mundo mais justo.

  1. Não oprima adolescentes, nem os subestime.

É mais fácil pensar na criança quando pensamos no adultismo, porque ver a inocência da criança diante da opressão que ela sofre é óbvio e claro. Ver a inocência do adolescente é tão difícil que, numa clara tentativa de violação de direitos humanos, busca-se até a diminuição da maioridade penal. Adolescentes podem muito, se bem educados e criados, e se tiverem à sua disposição um ambiente que permita e motive seu desenvolvimento integral. Conheça as necessidades de seus adolescentes, as vontades deles, as vozes deles, e dê espaço para que essas vozes sejam ouvidas, consideradas. Se você der ao adolescente mais do que você acha que ele merece, ele vai te mostrar que merece tudo o que recebeu. Seja educado, sincero, respeitoso, e trate o adolescente mais como adulto do que como criança.

Em nosso próximo texto, vamos trabalhar “Como falar com crianças”, ainda em uma tentativa de diminuir a presença do adultismo em nossas vidas. Permita sugerir que agora, depois dessa texto pesado e difícil, você leia “Suficiente”, outro texto do Lar Montessori. Vai um trecho, como convite:

Se você já está tentando construir, todos os dias, em todos os momentos de sua vida, um lar pacífico, se está partindo para uma linha de disciplina positiva, se acredita na elevação da personalidade infantil em um ambiente no qual não sofra nenhum tipo de violência… Se você acredita em tudo isso para a criança, precisa acreditar em tudo isso para o adulto. Se você acredita em uma vida sem violência para o seu filho, precisa acreditar em uma vida sem violência para você. Se você deseja que seu filho ame a si mesmo e consiga lidar com seus erros e se perdoar, você precisa desejar isso para você mesmo. Permitir isso para você mesmo, talvez seja mais adequado.

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[1] Não acreditamos que o “extremo” aqui seja necessariamente negativo. Ser extremamente feminista, por exemplo, pode ser interpretado como ser extremamente a favor da igualdade entre homens e mulheres.

Aspectos de Montessori em Casa

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Em algum momento, olhamos para nossas crianças e enxergamos seres humanos. Esse é o princípio de nossa transformação.

A partir daí, buscamos referências, pessoas que pensem como nós, alguém que já pense assim há mais tempo, textos, sugestões de vida, atividades, modos de conviver. Entre um e outro blog, vídeo e grupo, esbarramos em Montessori: no quarto, no respeito, em brinquedos educativos, na liberdade. Muitas das ideias de Montessori são mais fáceis de se entender de maneira abstrata e inexata do que de se aplicar ali, no dia a dia, com a criança de verdade, que se mexe, tem vontades, olhares e, assim queremos, voz. Este texto pretende esclarecer alguns desses aspectos menos claros, e ajudar você na prática, no uso de Montessori com a sua criança. Para isso, trabalharemos cinco pontos importantes: (1) Como ajudar a criança em sua conquista de liberdade; (2) Quanto facilitar as tarefas do dia a dia para a criança; (3) Algumas concepções erradas sobre o quarto montessoriano; (4) A ideia do brinquedo montessoriano e (5) O respeito à criança como pessoa.

1. Como ajudar a criança a construir sua liberdade
O primeiro ponto importante é que a liberdade da criança é construída dentro dela, como uma forma de viver. É muito mais uma sensação de poder escolher a própria vida do que uma maneira de organizar a casa e os comportamentos do adulto.

Uma importante autora montessoriana (Angeline Lillard) diz em seu livro, Montessori: The Science Behind the Genius, que Montessori tem níveis. Muito sucintamente, é o seguinte: num nível macro, existe bastante estrutura – a casa é organizada, as prateleiras, armários, as caixas e as gavetas, a conduta educada de todos, os rituais que permeiam tempos e espaços. Num segundo nível, intermediário, existe uma imensa liberdade – a casa é organizada, mas quem opta por onde estar é a criança, as coisas têm todas o seu lugar, mas a criança escolhe o que usar e quanto, a conduta é sempre polida, mas a criança escolhe socializar ou não, participar ou não, estar sozinha ou estar junto, e finalmente os rituais permeiam tudo, mas a criança pode participar de uma flexibilização de tempos e espaços relativamente grande (pode sugerir quandos e ondes alternativos aos que propomos, por exemplo). Finalmente, num terceiro nível, há estrutura de novo – se a criança escolhe um cômodo, deve respeitar as necessidades dele (não riscar paredes, cuidar do chão de madeira, usar tapetes ou jogos americanos…), se escolhe um objeto, deve utilizá-lo adequadamente e devolver para o lugar de onde tirou, se escolhe socializar, deve fazê-lo de forma respeitosa e gentil, se participa de um ritual deve ser colaborativa.

Costumamos dizer, a partir de Montessori ela mesma, que temos três grandes limites quanto às ações da criança. Primeiro, a criança não pode fazer nada que seja danoso para ela mesma; segundo, nada que seja danoso para outros seres vivos; e finalmente, nada que seja danoso para o ambiente. São limites que consideram não tanto a vontade do adulto, mas muito mais o bem estar coletivo e social. Para além desses princípios, não costuma haver motivos para inibir as ações da criança. Por isso, quando falamos em “liberdade com limites”, em Montessori, não nos referimos a alguma forma de disciplinar crianças para que sejam o que o adulto deseja, mas somente de permitir a expansão da personalidade e das ações da criança para todas as direções construtivas.

Dessa maneira, o que se estabelece não é uma trila estreita de desenvolvimento, pela qual a criança segue “no caminho certo e único”. Ela segue pelo seu próprio caminho, um dos infinitos caminhos possíveis, na direção da autoformação humana para o bem estar individual e social. Montessori falava que a liberdade é um conjunto de “condições favoráveis à vida”, em The 1913 Rome Lectures. Não é uma liberdade favorável só ao fascínio dos pais, à independência da criança ou ao aprendizado mais rápido e eficiente. É direcionada à construção da vida em si.

2. Quanto facilitar as tarefas do dia a dia para a criança
Muitas vezes, quando começamos a preparar a casa para a criança, guardamos em mente que devemos tirar os obstáculos para o desenvolvimento infantil e garantir o acesso a tudo o que importa na casa, para que a criança possa se tornar independente de nós. Isso está correto. Devemos lembrar sempre, também, que as dificuldades nem sempre são obstáculos para o desenvolvimento. Elas podem ser degraus a superar, desafios importantes ou indicadores de que algo foi alcançado, e às vezes devem ser mantidas.

O que me despertou a atenção para a importância dessa percepção foi uma fotografia de uma toalhinha de mesa do tipo “jogo americano” que vinha com os contornos do prato, dos talheres e do copo, como um guia para que a criança usasse como base para pareamento na hora de colocar a mesa para comer, e não errasse a localização de cada objeto. Isso me pareceu não só desnecessário, mas também um impedimento, um passo a mais. Uma das tendências em Montessori – em casa e na escola – é que nós, adultos, adicionemos passos a mais. Montessori acreditava no poder de aprendizado da criança, era uma defensora firme da vida prática no mundo real, com coisas reais, e incluiu em sua proposta pedagógica a ideia de que a criança é capaz de fazer conexões e generalizações de aprendizados. Quando olhamos para o conjunto dos materiais montessorianos, como base teórica para pensarmos a casa, percebemos que eles não incluem repetições de atividades, colas, facilitadores ou reforços. Há somente o mínimo, o essencial para o aprendizado. O que está além do essencial é feito pelo cérebro da criança.

No caso específico do mapa da mesa, uma vez abolido, ele dá lugar à naturalidade: agora, a criança é como o adulto. Come como ele, e deve colocar a mesa como todos os de sua família o fazem. Podemos e devemos ensinar, lentamente, repetidamente, com educação, gentileza, silêncio e sem corrigir desnecessariamente, como é que se coloca a mesa. Isso sim, sempre. A criança o fará aos poucos mais e mais corretamente. Tirar o mapa também nos ajuda a não exigir muito de uma criança muito pequena. Uma criança que está aprendendo a carregar coisas não precisa colocar toda a sua mesa, não há nenhuma necessidade aqui. A independência que ela está adquirindo ainda é física demais. Ela pode, aos poucos, colocar seu prato, sua colher ou garfo, seu copo, sua faca. Mas não precisa fazer tudo isso de uma só vez. Quanto a nós, podemos observar com muito mais maravilhamento, quanto aprendem as crianças quando não há uma “cola” para inibir o aprendizado completo e servir sempre de mestre mudo para as ações infantis.

3. Sobre o quarto montessoriano
O quarto montessoriano como o conhecemos, assim como toda a aplicação de Montessori em casa, é um combinado de aspectos de Montessori e de observações dela sobre a criação das crianças. O propósito do quarto é que ele seja um ambiente de conforto, liberdade e respeito pelas necessidades da criança pequena. O quarto montessoriano comum contém uma cama no chão, uma área de movimento com um espelho à frente do qual pode haver uma barra a 50cm do chão, para que a criança se apoie quando quiser começar a ficar em pé e caminhar, uma prateleira com poucos brinquedos e um guarda-roupas com algumas prateleiras ou gavetas acessíveis para uma seleção de roupas da criança.

Assim desenhado, trata-se de um bom quarto para os primeiros anos de vida da criança. Depois de chegado o tempo em que ela se deite e levanta-se sem dificuldade de uma cama comum, a substituição pode acontecer. A ideia não é que a criança escale a cama para dormir, porque isso não é relaxante. Mas também não desejamos manter a criança em uma cama diferente da nossa depois de ela já ser capaz de dormir em uma semelhante. O espelho também muda de posição depois que a criança fica em pé, e não engatinha mais. Se antes ficava horizontal, agora fica vertical e permite que o corpo inteiro seja visto. Os brinquedos mudam, o acesso às roupas aumenta gradativamente com o aprendizado, e a barra desaparece tão logo seja desnecessária.

Alguns pontos que habitualmente aparecem em quartos montessorianos e que podem ser aperfeiçoados para o bem estar da criança são o excesso de cores e brinquedos, o excesso de decoração para o adulto e a artificialização do ambiente.

Quando tornamos o quarto muito colorido, o ambiente deixa de ser relaxante. As cores para o quarto de dormir precisam ser escolhidas tendo em mente um espaço pacífico e tranquilo, mais do que um espaço “fofo”, “infantil” ou – pior – “de menino(a)”. Assim, uma só cor clara, suave e relaxante é sempre a melhor opção. Quando temos brinquedos em excesso o problema é um pouco maior. Além de tornar o ambiente estimulante, muitos brinquedos tornam uma organização clara e cuidadosa quase impossível, e isso tem alguns efeitos, dois dos quais são que a criança escolha sempre o mesmo brinquedo ou que ela brinque por muito pouco tempo com todos eles e depois se desinteresse e vá buscar outras coisas para fazer pela casa. Com poucos brinquedos bem organizados, a criança consegue escolher mais facilmente e nós conseguimos identificar verdadeiramente pelo que é que ela se interessa.

A decoração do quarto da criança também deve ser cuidadosamente escolhida. Em lugar de estabelecer um “tema” para o quarto e torná-lo um museu de coisas inúteis e padronizadas feito para fascinar adultos, nós podemos colocar, na parece, bem baixinhas, três ou quatro ilustrações que agradem aos principais interessados – os nossos filhos – ou que tenham sido feitas por eles e que eles mesmos tenham escolhido utilizar na decoração. Isso ajuda a criança a se sentir “dona” do ambiente e deixa o quarto mais agradável para ela, menos estimulante e mais tranquilo.

Finalmente, há algumas coisas que fazemos com o quarto da criança que não precisam, mesmo, existir. A mais comum entre elas é cobrir todo o chão do quarto com placas coloridas de borracha. Isso é desnecessário e pode ser prejudicial. Podemos colocar placas de borracha para isolar a cama do frio do chão, e até podemos colocar uma ao lado da cama para proteger crianças de menos de um ano de idade de quedas. Mas colocar as placas em todo o quarto tira a firmeza do chão, importante para o caminhar da criança, e torna o ambiente do quarto dela algo especial, e completamente artificial, em relação ao resto da casa e do mundo. As placas coloridas também são estímulos demais. Uma outra peça bastante usada na decoração dos quartos das crianças é uma casinha de madeira em volta da cama. Ela apareceu inclusive em um programa de televisão do qual eu participei, e ficou em cena pelo bem da cenografia (explicaram-me que o quarto ficaria “muito vazio” sem aquilo, e eu não consegui deixar claro que “muito vazio” era o que eu queria), mas não é uma peça necessária, e pode ser arriscada para a criança, se ela bater a cabeça ali enquanto dorme. Sobretudo, desde há muito tempo que camas não têm mais armações em volta delas e a cama não é uma casinha, ela é mesmo uma cama. Se queremos uma casinha ou uma cabana, podemos fazer uma, num lugar que não seja a cama.

4. A ideia do brinquedo montessoriano
É necessário começar com uma afirmação: o brinquedo montessoriano não existe. Existem materiais montessorianos, e elencos de materiais montessorianos podem ser encontrados no livro “Pedagogia Científica” e em artigos de Angeline Lillard. Mas esses materiais são para a escola. Foram desenvolvidos por Montessori ou por pessoas que estudaram muito seu método, partem de princípios importantes e entram em uma sequência mais ou menos flexível de utilização, contando com diversas apresentações dos professores e usos que se aprende pela leitura dos livros de Montessori ou em cursos de formação especializados. Não são materiais para casa.
Em casa, não podemos usar brinquedos montessorianos, porque isso não é uma coisa que o método inclua. Nem Montessori, nem nenhum de seus seguidores pensou em brinquedos Montessori. O brincar tem sua importância em casa, sim, e precisa acontecer. Por isso, a seleção de bons brinquedos é importante. É melhor conhecer as características importantes dos brinquedos e brincadeiras do que buscar “brinquedos montessorianos” e comprar gato por lebre. Para isso, você pode visitar a categoria sobre Brinquedos e Brincadeiras, aqui no Lar Montessori.

Mais do que brinquedos, importa o brincar: estar com sua criança, com leveza e bom humor, jogando, trocando, conversando, rindo, correndo, vivendo com ela, é muito mais importante do que “o brinquedo certo”. Eu não vou escrever essa frase de novo para não ficar repetitivo, mas você pode ler de novo se quiser. O brincar é mais importante que o brinquedo, e essa importância é imensa.
Para além do brincar e da brincadeira está a vida prática. Repetimos incansavelmente neste blogue: em casa, a casa basta. Na sua casa, você não precisa necessariamente de brinquedos criativos e inovadores. Sua casa, do jeito que ela é, adaptada para a criança, é suficiente. Vocês podem fazer de tudo, e ela pode fazer de tudo, nos cuidados com a casa, consigo e com os outros, desde limpar o vidro de uma janela, até preparar uma salada de frutas para o lanche de vocês.

Antes de terminar o texto, eu gostaria de adicionar: Montessori defendeu por muito tempo que aquilo que desenvolvia era um método de ajuda à vida, e não um método educacional. Precisamos, com bastante urgência, passar a ter isso em vista. Tudo o que queremos com Montessori em casa é ajudar a vida da criança a se desenvolver melhor. Montessori não é uma forma a mais de estimular precocemente seu filho (há como utilizar Montessori para estimulação, em casos de necessidades especiais, para algumas sugestões veja nossa página sobre “Estimulação”, lá em cima). Montessori não é e não deve ser sobre pressão para um desenvolvimento mas rápido ou mais perfeito, nem sobre expectativas exageradas. Nada disso. Montessori é sobre a vida do seu filho, e a melhor maneira de ajudar o seu filho a ser feliz, a se desenvolver bem, a apreciar a própria vida, a viver sem medo, a ter coragem e vontade de enfrentar novos desafios, a amar a vida mais do que a televisão. Montessori é a semente de uma revolução de amor. Retornando ao primeiro ponto de nosso texto, tudo o que queremos é oferecer à criança as “condições favoráveis à vida”.