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Primeiros Passos de Montessori em Casa

Vamos fazer um favor a nós dois. Antes de começar a leitura deste texto, pare por um momento, e respire profundamente, duas ou três vezes. Sinta seu corpo, e relaxe. Eu também farei isso antes de escrever.

Pronto. Nós precisamos começar em paz, aqui. A mudança que vamos fazer em casa é essa: antes da respiração e depois da respiração. Mas vamos fazer isso no ambiente físico, dessa vez. Se você quiser ler sobre paz e comportamento, pode ir aqui ao lado e buscar o assunto que te interessa.

A casa montessoriana é simples. Muito, muito simples. Nem sempre fácil, é verdade. Mas não é complicada. O nosso objetivo mais amplo é gerar liberdade, e para Maria Montessori, liberdade é um conjunto de “condições favoráveis à vida”. A liberdade de uma árvore é equivalente à chance que ela tem de seguir sua própria natureza, ser nutrida pela Terra, alimentada pelo Sol, envolvida pelo ar e hidratada pela água. Pouca Terra, muito ou pouco Sol, má qualidade do ar ou água em excesso tiram a liberdade da árvore, porque a impedem de seguir os rumos naturais de seu desenvolvimento. Com as crianças, há diferenças individuais importantes, mas há condições básicas para a vida que, se puderem ser garantidas, permitirão um desenvolvimento livre de obstáculos maiores e, portanto, uma liberdade profunda e ampla.

O primeiro aspecto a que devemos prestar atenção é a liberdade para satisfação de necessidades biológicas básicas. A criança deve poder sobreviver em sua casa. Para isso, precisa comer, beber, dormir e realizar suas necessidades. Um primeiro passo interessante, na cozinha, pode ser deixar um ou dois potes pequenos com quantidades de alimento pronto para consumo (pedaços de frutas, verdura ou torradas servem bem) e utensílios simples de cozinha, como um prato e dois talheres disponíveis. A mesma coisa pode acontecer com líquidos, água ou suco, e uma jarra e copo. Aos poucos, é claro que você pode adicionar guardanapos, mais talheres, taças, vasilhas e recipientes diferentes. Mas comece devagar, em paz.

Vai ser importante ensinar a criança a usar cada uma das coisas que você adicionar à sua cozinha. A partir do momento em que ela consegue andar e pegar ou carregar coisas, isso já pode começar a acontecer. Se os pratos de porcelana e vidro ainda assustam você, use plástico por algumas semanas ou meses, mas ensine a criança a segurar essas coisas com cuidado (mostre, lentamente e em silêncio, como se faz) e depois de algum tempo, faça a mudança. Coisas que quebram nos ensinam o movimento cuidadoso, e isso importa. Uma mesinha com uma cadeira pequena são opções boas e válidas, se você puder adicionar isso à sua casa. Se não couber, tudo bem usar a mesa maior – não é tão fácil, nem é tão agradável para a criança, e uma quantidade maior de acidentes pode acontecer, tenha um pouco de paciência com os esforços da criança, e ensine mais do que corrija, demonstrações funcionam muito melhor do que broncas e repreensões.

No quarto da criança, o acesso também importa. Dormir suspenso em uma altura maior do que a sua e cercado por grades não é uma opção interessante. Para um adulto, essa reclusão seria um castigo indigno e humilhante, e por isso não forçamos a criança ao berço. Usamos uma cama no chão. Pode ser um colchão no chão, sobre um estrado ou borracha, ou pode ser algo um pouquinho mais estruturado, mas ainda bem baixinho, sem nenhuma proteção que impeça a queda – especialmente depois dos quatro meses – e sem nada que impeça a entrada e a saída da criança. Essa cama assim baixinha importa especialmente até os três anos, enquanto a criança é realmente pequena demais para alcançar com sossego uma mais alta.

Quanto ao banheiro, basta um banquinho. Um adaptador para o vaso é uma opção interessante, um facilitador útil para algumas crianças. Se a sua criança não quer usar e prefere se apoiar diretamente sobre o suporte adulto, isso não é um problema. Um banquinho ajuda as pernas e descansarem enquanto ela está sentada, ou a alcançar o vaso de pé, assim como possibilita o acesso a pia, então é uma modificação útil e importante.

Pronto. A sobrevivência da criança está garantida. Agora, podemos passar ao seu bem estar. Sobretudo, a criança pequena depende de atividade para se sentir bem. Agir com as mãos, com propósito e controle sobre os seus movimentos traz à criança serenidade, equilíbrio e alegria, suportes muito importantes para um desenvolvimento saudável da personalidade.

Em um retorno breve ao quarto, podemos olhar além da cama. Nele, há um espelho na parede, que fiz horizontal enquanto a criança engatinha, e vertical quando ela já fica em pé, e que vai ser importante para a identificação do rosto, dos movimentos, das expressões, e para o desenvolvimento de um senso estético saudável quanto a roupas, no futuro. À frente desse espelho, que tem cerca de um metro por cinquenta centímetros, pelo menos, podemos instalar uma barra de cortina forte, a mais ou menos 50cm do chão, para que a criança que está aprendendo a andar se erga com mais facilidade. Isso não é essencial, mas colabora para que a criança treine com segurança esse movimento, e use menos os outros suportes acidentais casa afora.

No guarda-roupas do quarto, podemos usar as partes mais altas para roupas que a criança não deve acessar, e podemos deixar a seu alcance uma seleção de peças entre as quais ela possa escolher o que vestir no dia a dia. Trocamos essas peças, evidentemente, a depender das opções que podem existir para a criança e, aos poucos, ensinamos a lidar com mais opções e com aquelas roupas que, mesmo podendo ser alcançadas, não podem ser usadas em tais e quais situações.

Repare que há poucos, pouquíssimos, brinquedos nesse quarto. Cinco, seis são suficientes. Muito mais do que isso e a confusão começa a reinar. Deixe disponíveis brinquedos com que a criança efetivamente brinca, e guarde para depois, ou doe, aqueles que já/ainda não interessam. Opte sempre por brinquedos que não brinquem sozinhos, por peças que dependam da criança para funcionarem como brinquedos e por objetos interessantes que só se movam ou façam coisas quando a criança faz, e nunca sem ela. Importa mais o brincar do que o brinquedo, e o que a criança busca é a ação com propósito.

Na cozinha, que começamos a preparar acima, há infinitas possibilidades de atividade. A criança pode nos ajudar com afazeres inicialmente simples, e depois mais e mais complexos, e pode ela mesma desenvolver ações independente de nós. No começo, a criança sobe em uma cadeira ou usa sua mesa baixinha, e nos ajuda a cortar bananas, ou a colocar legumes picados em uma panela, ou a misturar a massa de um bolo e de um pão. Com o tempo, felizmente, ela aprende as receitas, os modos de fazer e os pressupostos básicos de uma cozinha simples, e passa ela mesma a preparar saladas, biscoitos e lanches para si e para os outros, com cada vez menos ajuda adulta.

Aqui, vale ter em mente: para a criança, é importante treinar antes de fazer. Por isso, vale a pena estruturar algumas atividades de exercícios práticos. Alguns exemplos: dois copos para que a criança passe água, ou grãos, de um para o outro; duas vasilhas com bolinhas de madeira ou pedras, para que a criança transporte com um pegador; dois recipientes com água e uma esponja, para a criança passar a água de um para o outro; uma jarra e dois copos, para que a criança aprenda a distribuir a água igualmente e sem derramar… As opções são inúmeras, como as possibilidades de uma cozinha. Você notará que também para a limpeza da casa e das roupas há opções de atividades a desenvolver. A criança nos mostra o que lhe interessa treinar, e nós só temos que dar a estrutura física necessária (lembre-se: o tamanho dos objetos e a beleza importam para a criança). Quando a atividade estiver pronta, mostre em silêncio e bem devagar como é que se faz, e não se preocupe se a criança não se interessar imediatamente. Você pode mostrar mais de uma vez e, em algum momento, talvez distante da apresentação, ela se interessa – ou não, e aí tudo bem também, é só mudar a atividade.

Claro, há atividade para além da cozinha: pode-se varrer, lavar, esfregar, pendurar, plantar, regar, alimentar, limpar, lustrar, polir, colar, cortar, guardar… Tudo o que se faz na casa é atividade, e interessa para a criança pequena. Conforme você observa sua criança, isso fica claro, e fica claro também o que é que se pode fazer junto. É bom perceber sempre que o interesse da criança é muito mais o processo do que o produto, e que ela pode ter que experimentar muitas vezes antes de acertar – e repetir muitas vezes depois. A criança se interessa pelo mundo porque o mundo ajuda no seu desenvolvimento. O interesse verdadeiro é interior.

Pronto. Esse é só um texto de primeiros passos. Há muitos mais em uma caminhada do tamanho da vida. Mas esse começo é como uma respiração: depois dele, fica tudo mais fácil, mais claro e mais cheio de paz. Boa sorte!

Entrevista sobre Montessori

Queridos leitores,

já faz tempo que eu tenho vontade de publicar alguns áudios aqui no Lar Montessori, para que as pessoas que não podem parar para ler possam ouvir enquanto fazem suas vidas. Na semana que passou, acho que uma excelente oportunidade se ofereceu. Fui convidado a dar uma longa entrevista à rádio Spaço Livre, em Farroupilha, no Rio Grande do Sul. Na entrevista de uma hora e quinze minutos, foi possível abordar muitos temas importantes em Montessori – para casa, para a escola montessoriana e para a escola tradicional. Se você quer fazer uma revisão de Montessori ou escutar uma introdução sucinta e boa, eu sugiro essa entrevista. O jornalista responsável foi generoso nas perguntas e na condução de toda a conversa, pelo que sou grato.

Escute aqui:

 

Slides sobre Natureza

Recentemente, ministrei uma palestra sobre Montessori e Natureza. Para ver os slides, que ficarão disponíveis aqui por alguns dias, clique no link:

https://docs.google.com/presentation/d/1yCrwZb12xzzHwtug_oxfGmm_aZ1bigsJOKgsUzk3_q8/edit?usp=sharing

 

 

Sentar e Olhar a Vida

Quando tenho a chance de visitar casas e escolas e preciso fazer análises de ambientes, aprendi a ter sempre a mesma atitude: sento-me. Esse texto é sobre isso. Sobre quanto precisamos sentar, em nossas vidas com as crianças, para que tudo corra em paz.

Hoje em dia, vivemos bastante sentados. Sentamos diante da televisão, do computador, em grande parte do tempo que passamos nos transportes diversos, em salas de aula, no trabalho, em reuniões, nas casas de amigos, bares e restaurantes, cinemas, teatros. Praticamente tudo aquilo que envolve nossa existência acontece enquanto estamos sentados. E é contemporâneo defender que devemos ficar mais em pé. O que quero sugerir está no meio. Por um lado, devemos concordar com quem diz que passamos tempo demais em cadeiras. Por outro lado, a solução não está só em ficar de pé. Nós também podemos sentar no chão. Quanto sentamos no chão, tudo muda muito de figura.

Olhando a partir do chão, o que era baixo ganha altura, o que tinha “altura normal” fica inalcançável, e o que estava no alto fica invisível. A perspectiva se altera, e as coisas que eram belas vistas de cima são diferentes se vistas de baixo. A casa cuidadosamente decorada de repente não combina mais, é muito cheia, ou muito monocromática. Um espaço por onde nos movíamos sem problemas e o campo de visão amplo são agora interrompidos por obstáculos que impedem os olhos de ver e o corpo de agir.

Sentar liberta. Liberta na medida em que deixamos de ser prisioneiros de nosso ponto de vista mais comum. Nem sempre nos damos conta, mas ver a vida sempre do mesmo jeito é uma prisão. Ver tudo do mesmo jeito, por melhor que seja o jeito, vicia a interpretação da vida e a ação possível. Isso não vale só para a criança, é verdade para a comida, o trabalho, o transporte e tudo o mais. Mas quando pensamos na criança, isso é especialmente verdadeiro. Ver a criança sempre do mesmo jeito (como a esperança do futuro, ou como um ser em evolução, ou como o retrato da perfeição, ou de qualquer outra forma) vicia nossa ação e nos impede de ver a criança de um outro jeito ainda: como um ser em perpétua transformação que precisa de um observador em metamorfose para ser compreendida.

A gente não compreende uma criança que muda ficando igual.

Por isso precisamos sentar no chão. Porque sentar no chão é uma coisa que a gente faz pouco. E fazer coisas que a gente faz pouco mexe com a cabeça, faz com que adotemos de novo a cabeça da criança, a cabeça do iniciante. Não existe mente melhor para aprender do que a mente do iniciante: fresca, bem disposta, inocente, humilde, pronta, ativa, rápida, vazia. A mente de iniciante nos permite olhar em volta e ver um mundo novo.

Primeiro, podemos sentar no quarto. A decoração, que parecia mínima quanto olhada da altura adulta, agora é muito maior. As paredes talvez tenham muito menos espaço em branco vendo daqui, e os obstáculos que nem pareciam existir ficam muito mais claros. Os brinquedos pelo chão, que eram pequenos objetos quase bidimensionais, ganham sua terceira dimensão e são vistos com a mesma clareza que vemos uma escrivaninha com tudo bagunçado, ou uma sala cheia de mobília desorganizada. Os caixotes de brinquedos que nos lembravam organização agora lembram, vistos de perto, uma casa em dia de mudança. A cama que era tão baixinha agora tem uma altura respeitável que, embora possa ser superada até com alguma facilidade, já não é mais como um desnível do chão: é todo um móvel com características só suas e dimensões dignas. Podemos fazer o mesmo pela casa toda. Às vezes nos surpreendemos muito positivamente.

Sentamos na varanda. Entre meia dúzia de pequenos vasos e duas ou três coisinhas de área externa, com água ou tinta. Aquela varanda era tão pequena, dava para tão pouco, acabava em um passo só. E de repente aumentou. Quando a gente senta, a varanda fica grande. Agora, o chão está próximo, deixou de ser só a área dos nossos pés e se tornou a área das nossas mãos. Com uma folha de jornal estendida no chão, podemos transplantar as ervas daninhas todas para um vaso só, podemos semear, fazer sementeiras para os amigos, vizinhos e parentes, podemos triturar adubo orgânico ou misturar os restos triturados para nossos pequenos vasinhos de tempero que deixam de ser o sonho da casa no campo para por um momento virar natureza de verdade ali-tão-perto. Porque estamos sentados, a folhagem baixa das nossas floreiras pequenas esconde o mar de cidade lá fora, e estamos noutro mundo, noutra vida. Sentados.

Se tivermos coragem, ou se desejarmos desafio, podemos sentar na rua. Sentar na rua com nossas crianças é transformador. Há plantas, animaizinhos, degraus, rachaduras, coisas minúsculas que para nós parecem falhas e para a criança são portais para a realidade. Há quem diga que Montessori é bolha. Bolha é o mundo em que vivemos e que nos isola da natureza e de nós mesmos. Mas é uma bolha que fica estourando o tempo todo, em cada rachadura de calçada onde uma flor pequena nasce. Quando eu era pequeno colhia uma florzinha para a minha avó – hoje eu moro onde minha avó morava e dois quarteirões para cima essa florzinha ainda nasce, nas rachaduras entre a calçada e a parede, numa casa de esquina. Mas a gente só descobre essa flor de dois jeitos: sendo criança e sentando no chão.

Montessori defendeu que o adulto deveria se livrar de toda a ira e todo o orgulho, se desfazer de toda a tirania, se vestir com caridade e humilhar-se. Se eu entendi bem, e aos pouquinhos eu vou entendendo essa proposta, nós precisamos de uma transformação profunda. Eu não proponho que ela vá ser fácil, mas acredito mesmo que ela começa conosco sentados no chão. Sentar no chão da calçada com sua criança bem pequena, enquanto ela brinca de passar um galho em barras de ferro no portão ou pula e sobe e pula de novo o degrau do desnível das calçadas de casas diferentes… Isso, aos olhos do mundo, é humilhação. Aos olhos da criança, é ser o maior e melhor humano que o mundo já viu. Aos nossos olhos, se quisermos, pode ser um revolucionário ato de amor. Amor pela criança, pela vida, pelo que existe de verdade, pelo que somos e nos esquecemos.

Assim, sentando no chão algumas vezes por dia, vamos nos dando conta de quanto nos escapa. É toda uma dimensão do mundo que foge à nossa vista. Como nossa mente não funciona em pedaços, ela aprende rápido: depois que a exploração por dimensões ignoradas começa, ela não para mais. O olhar muda em todas as coisas, em todas as direções. Ele muda para além do espaço, e vemos o tempo de outra maneira. Ele muda para além do que só existe, e vemos a vida de outra forma.

Num golpe de sorte daqueles que tiram nosso chão, estaremos sentados e veremos, frente a frente, os olhos maravilhados de nossas crianças. E aí tudo ficará espantosamente claro: a mente de iniciante delas é essa, que vive pertinho do chão. Ela não perde tempo, ela vê o tempo de perto e de perto tudo é maior. Ela não é desastrada. Os obstáculos do ponto de vista dela são outros. Ela não é preguiçosa. O mundo olhando de baixo é maior. Ela não é medrosa. O mundo visto do avesso é esquisito mesmo. E nossa visão de mundo fica de cabeça para baixo. Olhando de baixo para cima é outro mundo que se vê.

Mas é olhando de baixo para cima que vemos o céu. É olhando de baixo para cima que vemos as estrelas que nos guiam, com seu brilho nos olhos das crianças. Aprender a sentar, aprender a olhar, aprender a ver a vida com olhos de iniciante. Não é pouco, mas podemos começar sentados.

Montessori: Uma Vida de Revolução Pacífica

Publicado em

Novembro de 1907. Em um bairro muito pobre, de famílias trabalhadoras e majoritariamente analfabetas, Montessori está com a professora de uma sala de sessenta crianças, de três a seis anos, brincando à sua volta, quando pede a um garoto a quem entrega um pedaço de giz: “Desenha-me uma chaminé”, e sai, caminhando, para descobrir o que as outras crianças faziam. Minutos depois, ouve-se um grito de espanto, vindo do mesmo menino: “Eu sei escrever!”. Montessori, verificando o que ocorrera, viu que o garoto de fato tinha escrito, no chão: “chaminé”.

A isso se seguiu que dezenas de crianças de repente descobriram seu dom silencioso e, pedindo pedaços de giz, puseram-se, uma a uma, a escrever pelo chão e pelas paredes do bairro de San Lorenzo. Escreveram, e ao mundo pareceu que faziam coro ao que Montessori já há mais de dez anos dizia incansavelmente: Todos podem aprender, se permitirmos. O evento, de imensa fama por seu contexto incomum, ganhou, na mídia da época, o nome de “explosão da escrita”. Para Montessori, era mais um aspecto do que lhe parecia uma “explosão da alma”.

Essas crianças, que vinham de toda sorte de casas mal estruturadas, com famílias que podiam lhes dispensar muito pouca atenção, e muitas vezes com violência, sem organização, com pouquíssimas condições materiais, mostravam a Montessori e ao mundo o melhor da humanidade. Deixadas em liberdade para trabalhar, utilizando materiais cuidadosamente preparados para sua educação, atingiam um estado de espantoso equilíbrio emocional e psicológico, pareciam mais inteligentes, curiosas e capazes, buscavam sua independência com esforço contínuo. Aos poucos, naquela creche ignorada pelo mundo, se delineava para Montessori o segredo da infância.

Esse segredo, o estado de equilíbrio da personalidade alcançado pela criança por seus próprios e livres esforços, instalou no coração de Montessori a certeza de que as crianças poderiam ser as redentoras da humanidade, e de que o certo a fazer seria deixar tudo para trás e seguí-las aonde fosse necessário.

Não foi fácil. Montessori lutara muito para chegar onde estava: professora na Universidade de Roma, havia sido uma das primeiras mulheres a se formar em medicina na Itália, tinha renome internacional, publicara artigos e um livro e atendia clinicamente como psiquiatra. Abandonou tudo isso quando descobriu que a criança podia muito mais do que se imaginava, para, fundamentalmente, comunicar sua descoberta ao mundo.

Foi nessa pequena escola no começo do século passado que Montessori aprendeu que a paz é o estado humano natural, se a criança for deixada livre para se desenvolver e não se instalar, logo no começo da vida humana, aquilo que Montessori reconheceu em A Educação e a Paz como a raiz de todas as guerras: a que se dá entre o adulto e a criança. O adulto, ela disse em A Criança, precisava antes de tudo extirpar de sua personalidade três coisas: o orgulho, a ira e a tirania. Conjuntamente, era necessário aprender a humilhar-se e revestir-se de caridade.

De um ponto de vista, Montessori teve uma vida política intensa. Com uma inicial colaboração com o governo fascista na Itália, e um posterior arrependimento seguido de um rompimento definitivo, Montessori se viu inviabilizada de trabalhar suas ideias em sua própria pátria. Viajou por muito do mundo conhecido, e embora tenha tido seus trabalhos impedidos em todos os países de governos totalitários (como a própria Itália, a Alemanha e a União Soviética), continuou a formar professores e publicar livros em todo o período das grandes guerras.

Em um episódio especialmente fascinante, Montessori estava na Índia quando estourou a Segunda Grande Guerra, e por ser da nação errada no lugar errado, permaneceu impossibilitada de sair do país por toda a extensão do conflito. Durante todo o tempo, trabalhou, formando mais de 1.500 professores indianos e ministrando as palestras que viriam a se tornar o livro – em nossa opinião o melhor de todos eles – Mente Absorvente.

Não é na recusa ao totalitarismo, entretanto, que se firma a luta pela paz empreendida por Montessori. Essa é uma posição política que derivou inevitavelmente de suas experiências com a criança. Mas não é contra qualquer coisa que a luta pela paz se fez em Montessori. Essa busca foi sempre por uma realidade diferente daquela vivida no período de vida de Montessori, uma realidade que, pela mudança da educação da criança, permitiria um “mundo novo, cheio de milagres”. Temos algum retrato disso em suas obras.

Em seu primeiro grande trabalho pedagógico, O Método da Pedagogia Científica (sem edição em português), ela defende a utilização de uma perspectiva educacional que seja verdadeiramente racional, e se abra para observar a criança pelo que ela mostra, e não pelo que qualquer filosofia exige que ela seja. Esse caminho, para Montessori, permitiria a edificação de uma pedagogia que desse à criança toda a liberdade necessária para alcançar o melhor de si mesma. Nesse contexto, ela propunha já em 1909, os prêmios e os castigos se faziam absolutamente desnecessários. Nem os prêmios recebiam importância, ao olhar da criança apaixonada pelo trabalho em si, nem os castigos eram assim encarados, por crianças que eram ajudadas a todo momento por colegas compassivos e generosos.

Em O Manual da Doutora Montessori (sem edição em português), de 1914, ela nos propõe uma pedagogia simples, do tipo que poderia ser colocada em prática por todo mundo, e em todo o mundo. Não há qualquer complicação teórica no livro – toda a teoria do método só vai aparecendo bem aos poucos e mais tarde – e o que lemos é uma esperança para a educação da criança: com algum cuidado com o ambiente, alguma técnica e poucos materiais especificamente construídos de acordo com princípios de observação científica, Montessori garante ser possível a revolução da educação da criança. No enfoque desse livro, uma educação pautada pelo prazer de trabalhar e pela ausência de um professor que seja um corretor eterno dos erros da criança.

Mais tarde, em A Criança, Montessori faz seu primeiro grande apelo. Toda a humanidade, ela propõe, deve ser colocada em julgamento pelos erros que comete para com a infância. Inúmeras formas de opressão, como os castigos, o excesso de brinquedos, os elogios e a ausência de liberdade, vêm deformando a personalidade humana e impedindo seu desenvolvimento saudável e integral. A solução? Conhecer o segredo da infância. A partir do momento em que o adulto tomasse consciência da potência oculta na criança, sob a carapaça de um comportamento violento e violentado, desordenado e desordenador, consequência de maus tratos e repressões, e visse que verdadeiramente o humano pode ser equilibrado, gentil, esforçado e generoso, não mais trataria a criança como o menor entre todos, mas a veria pelo que é: a esperança e a promessa da humanidade.

Em A Educação e a Paz, lemos uma sequência de apelos aos líderes políticos do mundo todo: vimos guerras e mortes. Se queremos mudar essa realidade, não será suficiente que estabeleçamos leis e tratados, será necessário permitir à criança a realização de seus milagres. É pela revolução da infância, propõe Montessori aqui, que se salva a humanidade. Na infância, ela defende, todos os humanos são iguais. Na infância está o princípio comum de toda a civilização. Se os olhos dos governantes de todos os lugares puderem se voltar à criança com a máxima prioridade e eles souberem estimular em seus países uma educação para a liberdade, para a paz e para a vida, o mundo não precisará ver mais os horrores da guerra, pois que a criança, promessa do futuro, não fará a guerra se não sofrer da guerra com seus pais e seus professores.

Aproximando-se do fim de seu trabalho, Montessori reescreve, em uma quinta edição, sua primeira obra pedagógica, e a chama de A Descoberta da Criança (em português, Pedagogia Científica: A Descoberta da Criança). Em uma última edição, procura condensar uma quantidade de sua pedagogia que “seja suficiente para a aplicação pela professora”. Desenha-se todo um currículo de linguagem, matemática, vida prática e educação sensorial. Sobretudo, no entanto, o que aparece nessa obra de importância inominável é uma proposta revolucionária: aquela mesma simplicidade apontada no início de sua vida profissional aparece aqui outra vez: com muita observação e um pouco de bom senso, alguma técnica e material suficiente – pouco material, ela enfatiza – é possível oferecer à infância uma vida cheia de importância e dignidade. Daí, ela defende, brota a autodisciplina, e somem os problemas da escola tradicional. Todo o problema da atenção e do foco, que a escola comum luta por solucionar, já aparece solucionado nessa alternativa pedagógica, e então podemos ter preocupações muito mais elevadas, com o aperfeiçoamento das condições para o desenvolvimento do ser humano.

Em seu último livro, pequeno e forte, de título A Formação do Homem, Montessori é contundente: hoje o ambiente “devora e tritura o homem”. Para um mundo novo, será necessário que todos os seres humanos tenham domínio sobre seu ambiente, sem que alguns possam se aproveitar de outros, e que os proprietários do mundo sejam onipotentes como deuses. Desde a mais tenra infância é de fundamental importância que a humanidade se desenvolva em um ambiente de liberdade e que as fascinantes qualidades da personalidade humana possam se manifestar, excluindo, assim, do futuro, a possibilidade da continuidade da opressão social entre os adultos – essa também tem suas origens na opressão da criança, e pode então ser extirpada não por uma luta contra a opressão, ou não somente por aí, mas por uma educação a favor da liberdade, da paz e da vida.

Que neste aniversário de Montessori, algo de suas inúmeras mensagens nos fale à alma, e que possamos, em todo o ano que virá, nos dedicarmos com tudo o que somos à construção da paz no mundo por uma educação que permita milagres, que tenha suas bases no fascínio e no amor, assim como na cientificidade e no estudo profundo do segredo da criança. Que as exageradas profecias de uma mulher que, em 1907, acreditava que em uma escola livre poderia surgir um novo mundo, possam ser superadas, e que em cada casa, creche, clínica, família e escola, nos surpreendamos, o tempo todo, com o potencial infinito da criança para salvar a humanidade.

Comunicação e Montessori

Publicado em

Comunicação é a base de nossas vidas com os outros, e isso inclui as crianças. Todo o tempo que passamos perto de crianças envolve comunicação. Desde a escolha do silêncio, até a postura corporal, até as palavras, os gestos e os sinais, que são as formas mais óbvias de nos comunicarmos. Se pudermos nos comunicar em paz, podemos viver em paz. Neste texto, quero abordar o assunto de dois pontos de vista. Primeiro, o da linguística, depois, o da compaixão.

Linguística

Do ponto de vista linguístico, existem quatro grandes princípios para uma conversação eficiente. Elas são chamadas de “máximas conversacionais” e foram descobertas por Paul Grice, um filósofo da linguagem britânico. Essas máximas são (1) a da quantidade, (2) a da verdade, (3) a da relevância, e (4) a da maneira. Numa conversa comum, essas máximas são respeitadas e desrespeitadas o tempo todo. Vejamos como funcionam.

A Quantidade

Quando nos comunicamos, é esperado que falemos tudo aquilo o que é importante. Ninguém espera que deixemos de dizer algo que importa em uma conversa. Acredita-se que aquilo o que dissemos era tudo o que tínhamos para dizer de importante naquele momento. Também é assim com as crianças. Sinceramente, as crianças acreditam que quando falamos com elas, dizemos tudo o que é importante dizer. A questão com as crianças é que elas têm uma capacidade menor que a do adulto para a metonímia. Para um adulto, podemos dizer uma parte da informação, e ele pode entender a informação inteira. Se dissermos “precisamos sair agora porque vai chover”, o adulto entende facilmente que “precisamos sair agora porque vai chover daqui a pouco e não queremos pegar chuva”. A criança só entende que “como vai chover, temos que sair”, e isso pode levar a um desentendimento por parte de uma criança que se recuse a sair e não se explique sobre isso, porque do ponto de vista dela é óbvio que qualquer pessoa em sã consciência optaria por exatamente por não sair, já que vai chover.

A Verdade

Em qualquer conversa comum, é necessário partir do pressuposto de que o outro está falando a verdade, ou aquilo que ele acredita ser verdadeiro. Se precisarmos ficar alertas para mentiras o tempo todo, não há conversa que possa funcionar. Isso funciona exatamente do mesmo jeito com crianças. Elas creem que aquilo que dizemos é a verdade. Acontece, no entanto, que crianças têm uma sensibilidade muito menor para a ironia. Isso significa que se você disser uma coisa querendo dizer outra, a criança interpreta sua fala como verdadeira e, percebendo que é falsa, ofende-se profundamente pela zombaria e por ter sido enganada. Por exemplo, a criança pode perguntar: “Posso comer chocolate agora?” e o adulto responder “Comer chocolate antes do almoço, filho? Aham!” ao que a criança vai pegar o chocolate, e o adulto fala mais alto: “Filho, antes do almoço você não pode comer chocolate, você sabe disso! Larga o chocolate!”. E aí temos outra situação de incompreensão grave.

A Relevância

Para participar de uma conversa, não podemos falar de qualquer coisa, mas precisamos falar daquilo que é relevante no momento – continuar no assunto da conversa, mencionar algo que ambos os participantes do papo estão vendo, ou algo assim. A criança também espera que sejamos relevantes, mas acontece com frequência de aquilo que a criança estar vivenciando no momento ser completamente diferente do que nós vivenciamos, Primeiro por uma questão de ponto de vista, e segundo porque ela pode estar ocupada com uma brincadeira enquanto nós nos ocupamos do jantar ou do uniforme da escola, de manhã. Ambos (adulto e criança) esperamos que o outro seja relevante para conosco: a gente espera que a criança entenda logo que deve vir colocar o uniforme, e a criança espera que a gente entenda logo que o urso está brigando com a coruja no chão do quarto. Cabe a nós, adultos, enxergarmos a situação completa, cedermos, interrompermos a brincadeira com educação e cuidado, e inserirmos o novo tópico de conversação. Caso contrário, nossa falta de educação é pega em flagrante e a criança recusa-se a cooperar até que, finalmente, cedamos e digamos algo como “depois você continua brincando” (que é exatamente ser relevante e falar do que ele está fazendo) “agora vem colocar a blusa” (que é inserir um novo tópico de conversa). A criança ainda pode resistir, por nossa falta de educação, mas sabemos que agora estamos mais perto do acordo.

A Maneira

Para Grice, maneira quer dizer como falamos. Não tem tanto a ver com as boas maneiras, mas sim com clareza, brevidade, e organização. Sempre esperamos que falem conosco de forma clara, organizada e direta. Quando isso não acontece, ficamos com a sensação de que a pessoa “fala difícil”, ou que alguém “não sabe conversar”. Quando falamos algo para nossas crianças de maneira nebulosa, elas não conseguem responder ou não conseguem executar. Nossa expressão precisa ser clara. Ser breve significa, entre outras coisas, não se repetir. É comum que falemos a mesma coisa para uma criança várias vezes. Especialmente na escola, quando temos pressa de sermos obedecidos por muitas crianças de uma vez, damos a mesma ordem repetidamente: “senta, senta, isso, senta, senta, vamos rápido, senta”. Em um intervalo de cinco ou seis segundos, uma mesma ordem pode ser dada cinco ou seis vezes. O efeito? O mesmo de uma ordem dada uma vez só, se for falada com calma, cuidado, clareza, atenção, e esperarmos cinco segundos para que seja obedecida. A repetição, a falta de brevidade, a frase desorganizada (“Filho, nós vamos à missa, você precisa se arrumar, então vai guardar seus brinquedos, e se veste, depois escova os dentes”) e outras falhas de comunicação do dia a dia são alguns dos fatores que mais atrapalham nossa relação com nossas crianças.

 

A Compaixão

Nossa reação imediata a tudo isso pode ser algo como: “Mas se eu tiver que prestar atenção a tudo isso, não falo mais nada!”. É exatamente por isso que Montessori pode ser chamada de “uma pedagogia do silêncio”. Montessori citava Dante e dizia: “Que todas as tuas palavras sejam contadas”. Nós não precisamos ficar sempre em silêncio, e conversar com nossas crianças, especialmente se são filhos e filhas, é de importância fundamental. Mas devemos ter em mente que uma boa comunicação não é só uma forma de facilitar a vida. Ela é sobretudo uma maneira de diminuir o sofrimento.

O monge vietnamita Thich Nhat Hanh tem uma maneira belíssima de ver a comunicação. Para ele, devemos sempre falar e ouvir buscando diminuir o sofrimento do outro. Quando ouvimos, podemos escutar o sofrimento falando por trás da raiva, do desespero, da angústia e da tristeza. Podemos perguntar o que faz o outro sofrer, podemos descobrir se poderíamos fazer alguma coisa diferente, podemos nos disponibilizar, verbalmente, a estar sempre ali, presentes, e ajudar.

Em seu livro “Good Citzens” (Bons Cidadãos, sem tradução para o português), o autor propõe que entre companheiros adultos algumas expressões de altíssima vulnerabilidade sejam usadas, por exemplo: “Por favor, diga-me, ajude-me. Eu sei bem que se não compreender você, eu não serei capaz de ser o melhor companheiro para você” Essa frase vem em uma fala maior na qual se pergunta por que o outro sofre, com a disposição total de ajudar esse sofrimento a cessar.

Se pudermos, pacificamente, tocar o sofrimento de nossas crianças – sua dificuldade de acompanhar um mundo cujo ritmo há muito ultrapassou o natural, a opressão imensa que recai sobre elas de toda parte, o desafio constante de ser o que queremos delas, na hora que queremos, enquanto elas gostariam de ser e fazer outras coisas – se pudermos entender esse sofrimento, poderemos nos comunicar com elas de forma transformadora, e ajudar, genuinamente, a diminuir o sofrimento de nossos filhos e alunos.

“O que aconteceu?”; “O que eu posso fazer para ajudar?”; “Eu estou aqui para você” são frases que podem transformar nossos diálogos, substituindo outras como “Se você chora eu não consigo entender o que você diz”; “Bom, quando você quiser conversar direito, estou te esperando” e “Você sabe que eu não gosto quando você fala chorando”. O que deve nos importar, sobretudo, é uma comunicação que diminua o sofrimento, a possibilidade de ele surgir e sua intensidade.

 

Finalização

Uma comunicação que obedeça às cinco máximas de Grice e aos princípios do diálogo de Thich Nhat Hanh tem tudo para reverter a situação apontada por Montessori há quase cem anos: “Nenhum problema social é mais universal que a opressão da criança”. Isso ainda é verdade, e permeia nosso dia a dia.

Quando formos capazes de nos abaixar, falar olhando nos olhos das crianças, falar devagar e claramente, dizer tudo o que queremos que a criança entenda, sem metonímia, ironia, sarcasmo, sem esperar que ela entenda mais do que nós dissemos, mudamos nossa realidade. Quando usarmos toda situação de comunicação para diminuir o sofrimento das crianças, ouvindo com compaixão, falando com compaixão, perguntando e pedindo com compaixão, mudamos nosso mundo.

Que sejamos capazes de uma comunicação mais verdadeira, completa e transformadora com aqueles que são, nas palavras de Montessori, o futuro, a promessa, a esperança e os construtores da humanidade.

A Tranquilidade Necessária

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Acordamos com o despertador e o susto. Levantamos, lavamos o rosto e vamos rápido fazer o café, acordar as crianças, trocar a roupa, tomar o café, escovar os dentes, lavar o rosto de novo, rua. Trânsito, ou pressa, ou trânsito-e-pressa, escola. Trabalho. Escola, trânsito, pressa, casa, banho, brincar, jantar, escovar os dentes, contar história, dormir.

Com um pouco mais, um pouco menos, nossos dias se parecem mais e mais com isso. A urgência contraditória é encontrar tempo para estar. Estar é não pensar no futuro, no depois, no daqui a pouco, e nem no passado, nos erros do passado, no que podia ter sido e não foi. É estar aqui e estar agora. Olhar para as nossas crianças sem pensar no que elas vão ser quando crescerem, ou no que o filho vai fazer quando acabar de brincar de montar, e só olhar e ver como é bonito, como é curioso, como é incrível que ele brinque de montar com tanta presença.

Quando a criança brinca – ou quando ela trabalha – coloca-se inteira no que faz. Não resta nada. É comum encontrarmos nossas crianças isolando-se do mundo, quietas no quarto ou num canto, fazendo qualquer coisa que não sabemos bem o que é e que absorve toda a sua atenção e toda a sua vontade. Isso, segundo o psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi (daqui em diante só Mihaly), é o estado de Fluxo. O estado de Fluxo descoberto por Mihaly é uma joia da natureza humana e uma daquelas chaves para o bem estar, tanto do adulto quanto da criança.

Para Mihaly, o estado de fluxo é caracterizado, entre outras coisas, por concentração profunda, uma sensação de que a atividade oferece desafios interessantes, mas ao mesmo tempo desafios que podem ser superados com esforço, além da percepção de que a atividade é recompensadora por si mesma, sem que haja necessidade de prêmios externos. Embora os estudos só tenham ligado o estado de fluxo à escola montessoriana, a casa montessoriana também oferece o estado de fluxo o tempo todo:

O pequeno bebê que, a partir de sua cama baixa tenta ir para o chão, envolvendo todo o seu corpo e toda a sua vontade nessa tarefa, a criança um pouco maior que se esforça para ficar de pé segurando-se na barra e se olhando no espelho, com encanto, foco, concentração, empenho. Depois, o filho que descobre como é que se rega as plantas, e faz isso por muito tempo, e o outro que aprende a secar resíduos e entrega-se à tarefa completamente. Quando nossos pequenos usam os potes da cozinha para encaixar, empilhar, organizar, e quando absorvem-se em suas próprias roupas, tentando entender como é que se faz para vestir uma calça, puxar um zíper ou amarrar um cadarço com sucesso. Em todos esses momentos, quando vemos a criança verdadeiramente absorta no que faz, presenciamos o estado de fluxo.

O estado de fluxo é fundamental por suas consequências. Visitar essa sensação com frequência traz às nossas vidas uma sensação muito maior de bem estar e equilíbrio, satisfação pessoal e alegria. Nos estudos de Mihaly, nota-se também uma melhora no comportamento social – o que não é de se estranhar, considerada a mudança emocional interior – e uma facilidade muito maior para aprender.

Acontece, no entanto, que para o estado de fluxo acontecer, algumas coisas são necessárias. Coisas que devemos lembrar de manter como práticas constantes em nossas casas.

Primeiro, é necessário ter tempo. Sem tempo, não há possibilidade de um mergulho em si mesmo, de uma dedicação intensa a qualquer atividade. Com que intensidade você se dedicaria a qualquer coisa se soubesse que pode ser interrompido dali poucos minutos? A criança, embora inconscientemente, também escolhe não se entregar a atividades quando reconhece o padrão de interrupção frequente, e sabe que tudo o que ela começar vai ser interrompido antes do final. Simplesmente não vale a pena. Por outro lado, o tempo permite milagres. Se em casa a criança pode desfrutar de tempo livre, sem que sua atenção seja requerida pelo adulto a todo momento, e sem que inúmeros deveres – aulas tarefas, ordens – sejam a ela imputados, então se sente livre para empreender um esforço de maior duração e intensidade, abrindo assim o caminho para atingir o estado de fluxo.

Um segundo aspecto fundamental é que os adultos da casa sejam dedicados a preparar um ambiente que favoreça esse estado da consciência. Em ambientes com muito barulho, muita bagunça ou um nível alto de estresse, o início de qualquer atividade é difícil, a escolha também. Por isso, um clima emocional positivo é fundação necessária para o desenvolvimento do bem estar inicial necessário à dedicação intensa da criança. Nós sabemos que se nos sentimos emocionalmente confusos, incertos ou conturbados, não temos energia para uma tarefa longa e exigente. Acontece do mesmo jeito com os pequenos: é sobre uma base sólida de amor, tranquilidade e paz que a criança constrói seu trabalho interior.

Finalmente, é da maior importância que haja opções de atividade para a criança. O estado de fluxo não pode ser atingido enquanto assistimos televisão. Para isso, tudo vale: peças, blocos, material de arte, Vida Prática, quebra-cabeças, desafios lógicos – e isso pode ficar mais complexo conforme a criança cresce. Vale até mesmo permitir que a criança acesse nossos armários e objetos, quando for adequado. O que não vale é não permitir a ação da criança e confiná-la a um mundo de telas, do celular, para o tablet, para a televisão, para a cama.

Em uma casa em que se corre, se grita e se assiste televisão o tempo todo, o estado de fluxo – e a bem da verdade qualquer estado que dependa da tranquilidade – é impossível. Mas com pequenas mudanças no ritmo, no volume e na configuração de nossos lares, podemos, sim e sempre, oferecer à criança a tranquilidade necessária para o mergulho ativo em si mesma e a autodescoberta que são características tão fundamentais da infância. Assim, passo a passo, em fluxo, a criança pode construir a humanidade.