Maria Montessori – Biografia

Este é um resumo biográfico escrito a partir de vários documentos biográficos com pesquisa em fontes primárias. Gostaria de reconhecer aqui a enorme dívida deste trabalho para com a obra de Paola Trabalzini, historiadora do Método Montessori e Rita Kramer, biógrafa de Maria Montessori. Débitos também são devidos a Valeria Babini, por sua história crítica das origens do pensamento montessoriano, Günter Schulz-Benesch, por suas coletâneas e processo de didatização intelectual do método Montessori, Paola Giovetti, pela pesquisa do período de Maria Montessori na Índia e Giuliana Marazzi pelo levantamento sobre o período de Montessori na Itália fascista. Agradeço a todos e também a Joke Verheul e Carolina Montessori pelas obras organizadas e pela visita monitorada aos arquivos da Association Montessori Internationale, e aos grupos Opera Nazionale Montessori e Association Montessori Internationale. Finalmente, a dívida para com Maria Montessori e seus relatos históricos, que é sempre imensurável. Os acertos desta biografia só foram possíveis porque me apoiei sobre trabalhos de grande valor.

Até a Casa das Crianças

Era 1937, em Copenhague, e uma das vozes intelectuais mais importantes do mundo se erguia na sala do parlamento dinamarquês para declarar:

Uma educação capaz de salvar a humanidade não é tarefa pequena. Envolve o desenvolvimento espiritual do ser humano, o aprimoramento de seu valor individual, e a preparação dos jovens para compreenderem o tempo em que vivem.[i]

A voz era de Maria Montessori, psiquiatra e educadora que, na altura, já havia transformado a face da educação no planeta. Embora haja ainda poucas escolas montessorianas no mundo, se hoje as crianças se sentam em cadeiras proporcionais à sua estatura e as escolas em todos os lugares reconhecem a importância do material concreto e do movimento na educação das crianças, isso se deve ao gênio infatigável de Maria Montessori. Ao longo de cinquenta anos de carreira pública, Montessori expôs as raízes da incompreensão adulta sobre as necessidades da infância e os frutos nefastos de uma infância mal vivida[ii]. Ela também trouxe, pela primeira vez, evidências de que cada instante da vida de uma criança representa uma esperança para toda a humanidade, porque demonstrou que se a formação humana puder ocorrer em um ambiente de condições favoráveis ao desenvolvimento da vida[iii], a criança constrói um novo ser humano, capaz de originar um novo mundo. Um mundo, em suas palavras, “cheio de milagres”[iv].

Maria Tecla Artemísia Montessori nasceu em 31 de agosto de 1870, na comuna de Chiaravalle, na província de Ancona, a mais de 300 quilômetros de Roma. Em uma época em que mais de 50% da população italiana era composta de adultos analfabetos[v], Montessori nasceu filha de Alessandro Montessori, funcionário do Ministério das Finanças, e Renilde Stoppani, descendente de uma família instruída de classe média alta, ideias liberais, e com parentes nas ciências e no clero.

Maria Montessori teve uma criação rigorosa e exigente, por pais que confiavam em suas capacidades e sua força. Certa vez, quando voltavam para casa, a pequena Maria não cessava de se queixar que estava com fome. Sua mãe, impaciente, entregou-lhe um pedaço de pão muito velho, duro, e lhe disse: “se você não aguenta esperar, coma isso!”[vi]. A mesma mãe, mais tarde, defenderia ardorosamente o direito de sua filha de cursar Medicina, e chegaria a descosturar os livros de Montessori e os costurar em livretos mais finos, para que a filha pudesse os carregar para cima e para baixo nas idas e vindas da universidade.

Maria Montessori, com 10 anos.

Quando Maria Montessori tinha 5 anos, em consequência de uma transferência profissional de seu pai, a família se mudou para Roma[vii], onde Montessori cursaria a educação básica e superior. Se Montessori se mostraria brilhante mais tarde, na escola as coisas eram diferentes. “Eu não estudava nada na escola. Estudar não me interessava nem um pouco, em nenhum assunto”, ela dizia[viii]. Mesmo quando cursava Ensino Técnico em Engenharia, ela mais saía com amigos do que apresentava qualquer ambição. Foi só quando, adolescente, apresentou-se em um espetáculo de dança e teatro e foi ovacionada de forma muito expressiva, que Montessori teve um vislumbre de que tinha “coisas importantes e fazer”, e a partir daí dedicou-se intensamente aos estudos[ix].

A escolha por uma Escola Técnica focada em Física e Matemática era atípica para uma adolescente em 1886. As garotas usualmente seguiam para as escolas “normais” depois dos anos iniciais da educação, e recebiam qualificação para ensinarem nas escolas de Ensino Fundamental. A escolha pela área técnica e as condições financeiras da família, que não permitiam aulas particulares em Latim, Grego, Literatura e Cultura Clássica, se tornariam mais tarde um impedimento para sua entrada na Universidade de Roma, que exigia o currículo do Liceu Clássico, aquele que Montessori declinara em nome da Escola Técnica.

As escolhas de Montessori adolescente não antecipavam sua opção pela Medicina. Ela contemplava carreiras na Matemática e nas Ciências, até que por acaso, caminhando na ruas de Roma, Montessori viu mulher pobre e seu filho, sentados em um degrau da calçada, e o menino brincava somente com um retalho de papelão vermelho. Neste momento, a decisão de cursar Medicina chegou até ela. Mais tarde, contanto a história à sua amiga Anna Maccheroni,  ela diria que “coisas estranhas acontecem a nós, que nos conduzem a objetivos de que não temos consciência”.[x]

Foram necessários dois anos de cursos preparatórios em diversas disciplinas clássicas e científicas, de 1890 a 1892, para que Montessori pudesse entrar no curso de Medicina no terceiro ano do curso, em 1893. Montessori provavelmente esteve entre as primeiras cinco mulheres admitidas para o curso em toda a Itália[xi]. Ainda assim, lá dentro enfrentaria outro enorme obstáculo, que não lhe abandoaria e que ela ajudaria a desmantelar por toda sua carreira: o machismo acadêmico e científico. Fazia somente dezesseis anos que as universidades tinham começado a receber mulheres[xii], e a resistência ainda era titânica.

Se por um lado havia professores, como Guio Baccelli, que admoestavam os alunos homens quando esses não cessavam as zombarias contra Montessori em sala de aula, por outro “a própria universidade não estava imune aos preconceitos da época” e Montessori precisava frequentar o laboratório de Anatomia e dissecação sozinha por várias horas seguidas[xiii].

Depois de um dia inteiro enfrentando a universidade, e especialmente o laboratório de anatomia, Montessori ainda tinha de convencer os pais, preocupados, de que seus enormes esforços valiam a pena:

“Naquela noite, em casa, eu tentei retomar um pouco da coragem. Eles [meus pais] notaram imediatamente que eu estava chateada. Eu me forcei a comer, e comi. Aí conversamos. Meu pai disse: “É inútil se forçar, você não consegue.” E minha mãe: “É ruim para você, minha criança, não volte lá”. “Mas é a primeira vez”, eu disse. “Não se esqueçam, é a primeira vez. Pelo menos eu não desmaiei”. Eu fui para meu quarto, e coloquei meu rosto entre minhas mãos, em desespero. […] Mas quem sabe?… Era como uma fé interior profunda: Quem sabe? E eu bebi a bebida amarga até secar o copo”[xiv].

Somente por um intenso desejo de permanecer na carreira, e pelo suporte que recebia de seus pais – em especial de sua mãe – , Maria Montessori conseguiu continuar o curso e formar-se em Medicina. Não sem sentir e levantar-se contra as opressões impostas às mulheres da época. Ao final do curso, Montessori era uma defensora do feminismo científico[xv], via da luta das mulheres que propunha a entrada das mulheres nas ciências e a demonstração científica da igualdade – Montessori diria, em tom jocoso, inclusive a superioridade – entre o sexo feminino e o masculino.

Em seus pronunciamentos feministas, Montessori trazia, entre muitas outras mensagens:

“As mulheres elas mesmas devem entrar nos ramos da ciência positiva [exatas e biológicas], devem argumentar com seus cérebros, e não seus corações. Mulheres… devem confrontar os homens, debater com eles, trabalhar ao seu lado, se juntar a eles na descoberta da verdade” (1899, Conselho Internacional de Mulheres, em Londres).

Por quase toda sua vida, no entanto, Montessori resistiu à associação com um partido ou viés político específico, que não fosse a defesa, por vias diversas, da vida e da dignidade humana da criança, da mulher e do pobre. Se supõe que ela acreditasse ser preciso articular todos os “lados” políticos nessa busca. Muito mais tarde, em Mente Absorvente, sua obra maior de 1945, ela escreveria:

“Uma educação desde o nascimento, que alimenta uma revolução pacífica e une a todos em um objetivo comum, atraindo-os como a um só centro. Mães, pais, políticos: todos devem combinar em seu respeito e ajuda a este delicado trabalho formativo, que a criança executa nas profundezas de um íntimo mistério psicológico, sob a tutela de um guia interior.”[xvi] (grifo meu)

Em 1897, Montessori começou a trabalhar como assistente voluntária da clínica de psiquiatria da Universidade de Roma. O trabalho, que ela exercia sob a orientação de um professor e junto de seu colega, Giuseppe Montesano, consistia em examinar crianças que pudessem ser retiradas das instituições psiquiátricas da época e serem submetidas a atividades didáticas.

Quando Montessori começava a trabalhar com psiquiatria, fazia muito pouco tempo que o funcionamento das instituições de internação era regulado por alguma legislação. Somente em 1874 uma lei nessa direção fora proposta, e seis anos antes de Montessori começar, uma vistoria pelas instituições psiquiátricas ainda encontrava faltas graves concernentes à higiene, às técnicas de tratamento, equipamento médico, superlotação e falta de registro das clínicas.[xvii] Portanto, libertar as crianças desses locais era não só uma questão psiquiátrica e pedagógica, mas era uma atitude humanitária.

Foi trabalhando na clínica da Universidade de Roma que Montessori conheceu vários dos médicos que se tornariam referências (do que fazer e do que não fazer) ao longo dos anos. Alguns deles, famosos na história da psiquiatria e antropologia médica, foram Sciamanna, De Sanctis e Sergi. Foi também nesse período que Montessori notou a falta quase absoluta de literatura sobre a educação de crianças com deficiências.

Em sua primeira visita às crianças, Montessori percebeu que seus cuidadores eram bastante abusivos em relação a elas, tratavam-nas mal e sem cuidado verdadeiro. Conversando com os adultos, Montessori ouviu que as crianças eram sujas e insaciáveis, porque se jogavam no chão para brincar com migalhas de comida depois que acabavam de comer.[xviii] Montessori notou que as crianças não tinham nada além de suas camas – nenhum brinquedo, nenhum objeto seu, e que as migalhas eram sua única chance de fazer alguma coisa. Montessori entendeu a necessidade de ação espontânea das crianças, mas ainda não sabia o que fazer.

Em sua busca, Montessori encontrou os escritos de Itard, médico aluno de Pinel, considerado o pai da psiquiatria. Um dos trabalhos importantes de Itard foi o que desenvolveu com Victor, um menino encontrado abandonado na floresta de Aveyron, que o médico observou e se esforçou por reintroduzir na civilização. O sucesso de Itard foi muito moderado, mas suas contribuições foram importantes para muitos educadores depois.

 “Itard foi o primeiro educador”, disse Montessori, “a praticar a observação do aluno da maneira que os doentes são observados nos hospitais, especialmente aqueles que sofrem de doenças do sistema nervoso”.[xix] Itard trouxe vislumbres importantíssimos para o trabalho de Montessori, mas foram os escritos de Séguin, discípulo dele, que realmente iluminaram o caminho da psiquiatra, que aos poucos se tornava educadora.

Séguin criara o método fisiológico, e ao longo de décadas de pesquisa e prática, publicara dois enormes tomos tratando do “Tratamento Moral, Higiene e Educação dos Idiotas” (idiota, na época, era um termo clínico, que só com o tempo passou a carregar estigma suficiente para ser abandonado) e da “Idiotia e seu Tratamento Pelo Método Fisiológico”. Montessori copiou o primeiro livro, e traduziu o segundo, palavra por palavra:

“Eu escolhi fazer isso a mão, para que eu tivesse tempo para pesar o sentido de cada palavra, e para ler, de verdade, o espírito do autor. Eu tinha acabado de terminar de copiar as 600 páginas do volume francês de Séguin quando recebi, de Nova Iorque, uma cópia do livro em inglês publicado em 1866. Esse velho volume fora encontrado entre os livros descartados de uma biblioteca particular de um médico novaiorquino. Eu o traduzi com a ajuda de um amigo Inglês”.[xx]

De 1900 a 1902, Montessori permaneceu na Universidade de Roma como diretora da Escola Ortofrênica, um espaço de pesquisa e ensino de cuja fundação Montessori participara, e que era ao mesmo tempo uma escola modelo para crianças com deficiências e um centro de formação para educadores, médicos e outros especialistas interessados no assunto. O trabalho de Montessori na Escola era tão intenso quanto se pode imaginar:

“Ela ficava lá das oito da manhã até as sete da noite, observando, experimentando […] À noite, tomava nota de tudo o que havia observado durante o dia, lia tudo o que conseguia encontrar de literatura especializada em educação especial, escrevia suas próprias ideias, fazia rascunhos e esquemas de materiais até achar que tinha chegado no que funcionava melhor. ‘Aqueles dois anos de trabalho’, ela recordaria, ‘são meu primeiro, e na verdade meu único diploma em pedagogia’”[xxi].

Os exercícios oferecidos a essas crianças passavam pelas sugestões e descobertas de Itard e Séguin, e incluíam atividades capazes de conduzir a criança a uma independência gradativa, para que aprendesse a cuidar de si mesma, do ambiente onde estava e de seus próximos, além de exercícios sensoriais, que despertavam a capacidade das crianças para estabelecer relações e pensar de forma lógica, além de refinarem seus movimentos e darem propósito às ações de sua inteligência.

Seu enorme esforço trouxe resultados, para sua vida e para o mundo. As crianças da Escola, consideradas ineducáveis na época, passaram nos testes nacionais de educação com um desempenho igual ou superior ao da média nacional. De fato, elas alcançaram o patamar de alfabetização da população italiana média, em apenas dois anos[xxii]. Todos ao redor de Montessori estavam felizes. Ela não:

“Esses resultados pareciam quase um milagre para quem os via. Para mim, no entanto, os meninos do hospício só foram capazes de competir com as crianças normais porque foram ensinados de um jeito diferente. Eles foram ajudados em seu desenvolvimento, enquanto as crianças normais tinham sido sufocadas, impedidas. […] Enquanto todos admiravam o progresso dos meus… eu procurava pelas razões que podiam manter as crianças saudáveis e felizes das escolas comuns em um plano tão inferior, que pudessem ser igualadas em testes de inteligência com meus pobres alunos”.[xxiii]

Se a fala de Montessori nos parece discriminatória e preconceituosa hoje, vale a pena lembrar que, em uma época na qual as crianças com deficiências eram abandonadas nas ruas e proibidas de frequentar escolas, Montessori não só defendia que houvesse instituições especializadas para elas, mas que as escolas de ensino Fundamental tivessem salas preparadas para receber essas crianças. Hoje, isso não é mais suficiente[xxiv]. Graças ao trabalho e à fibra de Maria Montessori, superamos seus desejos e hoje queremos mais: que as crianças com deficiência sejam incluídas em todos os ambientes, junto com as outras crianças, e com a atenção e as estratégias didáticas e pedagógicas necessárias para seu desenvolvimento. Se podemos querer isso hoje, é porque o absurdo de se aceitar o abandono e a negligência foi suplantado pelo trabalho de Maria Montessori.

Maria Montessori, em 1910 (Fonte: AMI)

Enquanto Motessori colaborava com seus colegas nos esforços pelas crianças das instituições psiquiátricas, era mesmo ela que liderava os trabalhos desenvolvidos. Da colaboração com Giuseppe Montesano, além de um sucesso educacional sem precedentes, foi gerado também um filho. Mário nasceu em 31 de março de 1898[xxv] e foi criado no interior de Roma, longe de seus pais, que não se casaram, e mantiveram segredo sobre seu nascimento. As famílias de Montesano e Montessori eram contra a união, e Montesano colocou como condição para o registro da criança que seu nascimento fosse escondido da sociedade[xxvi]. A mãe de Montessori era veementemente contra o casamento, e mantinha essa posição porque acreditava que a união poderia colocar todo o futuro da filha em questão[xxvii]. Somente após a morte de sua mãe Maria Montessori passou a viver com seu filho, em 1912, quando ele já era adolescente.

Montessori nunca se recuperou do período que passou longe de Mário. Quando finalmente passaram a viver juntos, embora publicamente o anunciasse como seu sobrinho, Montessori dedicou a ele todos os seus esforços. Já em 1913, menos de um depois da união, Montessori escreve em um diário de viagem:

O que minha criança está fazendo agora? Talvez conversando com Fedeli e Olivero [alunos adultos de Montessori]. Ele é um ser maravilhoso, eu senti sua alma, ele é forte, gentil, generoso, apaixonado; ele tem uma sabedoria e um amor profundos e inifinitos. É para ele que eu vivi – ele é o criador de tudo o que está acontecendo – é para ele que tudo isso está acontecendo[xxviii].

Anos depois, quando sabia que a morte era próxima, Montessori ainda escreveu em seu testamento:

“a respeito de todas as minhas posses, eu declaro que elas pertencem a meu filho, material e espiritualmente… pertencem também a ele por direito todos os frutos de meu trabalho intelectual e social, porque eles foram feitos com ele por inspiração, e com sua constante colaboração a partir do momento em que ele foi capaz de agir no mundo, quando devotou toda a sua vida a ajudar a mim e meu trabalho [… que seus filhos sejam para ele um conforto] e que o mundo lhe preste justiça por seus méritos, que eu sei que são grandiosos […] e que meus amigos e aqueles que trabalham com a minha obra possam sentir sua dívida para com o meu filho”[xxix].

Maria Montessori e Mário Montessori, em 1950.

Enquanto vivia longe de seu filho, Montessori examinava mais profundamente os temas que a inquietavam, para isso se matriculou na Universidade de Roma, onde já ensinava, como aluna do curso de Filosofia, que naquele período era muito menos especializado do que atualmente, e incluía um amplo leque de disciplinas das Ciências Humanas. Na época, Montessori começava a voltar suas preocupações para a educação da criança sem deficiências também. “Não havia nenhum currículo que pudesse lhe ensinar o que ela desejava saber, então ela construiu o seu próprio”[xxx]. Ela passou a acreditar que poderia ser possível adaptar as descobertas de Séguin, aliadas a outras noções filosóficas da época, para a educação das crianças de forma geral. Ela escreveu:

“Registrei-me como aluna de Filosofia na Universidade. Uma grande fé me animava, e embora eu não soubesse se seria possível algum dia testar a verdade de minha ideia, eu desisti de todas as outras ocupações para aprofundar e ampliar sua concepção. Era como se eu me preparasse para uma missão desconhecida”[xxxi].

A chance de testar a verdade de sua ideia viria quase duas décadas mais tarde.

Nesse mesmo período, Montessori, que era e continuou Católica por toda a sua vida, tornou-se membro da Sociedade Teosófica[xxxii], um grupo formado por estudiosos ecléticos e fundado por outra mulher forte e de potente inteligência, Helena P. Blavatsky. Em entrevista, Blavatsky explicou que os fins da sociedade teosófica são “(1) Formar um núcleo de Fraternidade Universal da Humanidade, sem distinções de raça, cor, sexo ou credo; (2) Incrementar o estudo das Escrituras, das religiões e das ciências do mundo […] e reinvindicar a importância da antiga literatura asiática, e principalmente das filosofias brahmânica, buddhista e zoroástrica; (3) Investigar os mistérios ocultos da natureza sob todos os aspectos possíveis, e os poderes psíquicos e espirituais latentes, especialmente no ser humano”[xxxiii]. Provavelmente, o contato inicial de Montessori com a Teosofia se deu por Annie Besant, feminista socialista britânica que admirava seu trabalho e presidiu a Sociedade por décadas.

No mesmo ano em que Montessori se associou à Sociedade Teosófica, foi publicado um livro[xxxiv] de Helena Blavatsky com um trecho interessante:

“Realmente concordo que haja grande vantagem para um criança pequena criada nas favelas, tendo a sarjeta por parquinho, e vivendo entre grosserias de gesto e palavra[xxxv], em ser colocada diariamente em uma sala de escola iluminada, limpa, cheia de imagens, e alegrada com flores. Ali ela será ensinada a ser limpa, gentil, organizada; ali aprenderá a cantar e a brincar; terá brinquedos que despertem sua inteligência, aprenderá a usar seus dedos com destreza; falarão com ela com um sorriso em lugar de uma careta; será gentilmente corrigida e direcionada, em vez de ser insultada. Tudo isso humaniza as crianças, desperta seus cérebros, e as torna suscetíveis a influências morais e intelectuais”.

Não sabemos se Montessori leu o livro[xxxvi], ou se sofreu qualquer influência por ele, mas algum diálogo de ideias educacionais se manteve. Anos depois do encontro, que provavelmente ocorreu em 1889[xxxvii], Besant publicaria “Os Ideais da Teosofia” (1915) cujos capítulos sobre educação versam, tanto em forma quanto em conteúdo, de maneira similar aos livros de Montessori. De fato, até hoje na Índia há escolas Besant-Montessorianas. Os laços entre elas e entre Montessori e a Sociedade se mantiveram estáveis por muito tempo, e Montessori publicou artigos em uma revista teosófica na década de 1930[xxxviii], além de ser convidada e acolhida como moradora na sede da Sociedade Teosófica na Índia ao longo da Segunda Guerra Mundial.

Entre o final do século XIX e o início do XX, Montessori se dedicou integralmente a três causas[xxxix]:

  1. O feminismo, em congressos e encontros de todo tipo, além de publicações, em que advogava pela libertação da mulher na forma do trabalho com pagamento igual ao recebido pelos homens, a participação da mulher nas ciências, o voto universal, o fim da escravidão sexual, inclusive pelo casamento, e a maternidade como uma escolha.
  2. A ciência, como a principal forma de se resolver problemas sociais graves e como uma porta para a salvação do gênero humano, pela emancipação da mulher, o cuidado e a educação das crianças com deficiências, a educação das crianças sem deficiências e o investimento de esforços científicos na direção da igualdade e da justiça.
  3. A investigação das estruturas da educação e as possibilidades de mudança dessa estrutura, de forma a “ajudar”, e não “sufocar”, o desenvolvimento e o aprendizado de crianças com deficiências e crianças que ainda eram chamadas “normais”, com o estabelecimento de centros de estudo e formação, apoio e levantamento de fundos para entidades governamentais e não governamentais, leigas e acadêmicas, e a publicação em um sem número de revistas científicas e veículos de mídia de massa.

As preocupações sociais de Montessori andavam lado a lado com suas preocupações científicas e acadêmicas. Em um artigo de 1903, ela escreve que a forma correta de “culpar” um criminoso deve ser “não o condenando, mas o redimindo com a educação e com aquele tipo de solidariedade que habita a culpa comum, que é a forma científica do perdão”[xl]. Ao mesmo tempo, preocupava-se com a formação dos professores do período – para ela, a verdadeira transformação da sociedade resultaria de professores e escolas transformadas – e dizia que a formação dos professores não deveria se basear em noções excessivamente livrescas, mas “na observação direta e em estudos de tipo científico”[xli].

Em 1906, Maria Montessori era professora na Universidade de Roma, na área de Antropologia Pedagógica, com renome e grande respeito, conquistados com muito trabalho, entre seus colegas. A Itália, por outro lado, recuperava-se a duras penas de um longo período de crise econômica e política que quase resultara em uma revolução camponesa[xlii]. As eleições de 1890 anteciparam essa situação com alguma obviedade: dos 508 assentos do parlamento italiano, 401 foram ocupados pela esquerda[xliii].

Em meio à erupção do Monte Vesúvio e reformas profundas na educação e na moradia da população mais pobre – urgente em consequência do rapidíssimo crescimento de Roma nas últimas décadas – Montessori recebeu um convite inusitado e sedutor, que mudaria sua carreira, e a história da Educação.

Na década de 1880, surgiu desordenadamente o bairro de São Lourenço, nas beiradas de Roma, em consequência de uma febre imobiliária e de um plano urbanístico novo para a cidade. Opulentos apartamentos foram construídos, mas nunca foram ocupados, porque a clientela que se pretendia atingir nunca comprou as habitações. Muitos prédios foram abandonados sem saneamento ou água, sem eletricidade, janelas ou portas. A população mais pobre rapidamente ocupou esses edifícios, a população local aumentou em praticamente 50%, e as péssimas condições de higiene levaram a uma epidemia de cólera em 1886[xliv].

O bairro, que tinha altíssimas taxas de criminalidade, também abrigava famílias e crianças que, com 12 anos, trabalhavam em fábricas por 12 horas diárias, e adolescentes, que com 15 anos, trabalhavam em turnos do dia e da noite.

Neste cenário de exploração, doença e morte, o Instituto Imobiliário de Roma, e seu fundador, o engenheiro Eduardo Talamo, viram ao mesmo tempo uma oportunidade de negócio dirigido às classes populares, e um caminho para implementar a reforma imobiliária em que Tálamo acreditava. Para ele, a casa deveria ser um lar e deveria vir associada a implementações urbanas, sociais e higiênicas.

Tálamo reformou os prédios, construiu apartamentos menores, com cozinhas de fogão a lenha, água potável em casa, banheiros nos corredores, e ambientes arejados, iluminados e organizados. Não era só um espaço de moradia para as famílias, mas também facilitava o surgimento de uma vida social dinâmica e produtiva[xlv].

Um “problema” que precisava ser resolvido era o do grande contingente de crianças que ficavam abandonadas nos pátios dos prédios ao longo das desumanas jornadas de trabalho de suas famílias. Essas crianças quebravam vidros, riscavam paredes, e eram um inconveniente para o negócio e a obra social do Instituto Imobiliário de Roma. Para solucionar isso, Tálamo escolheu agrupar as crianças entre 3 e 7 anos em um apartamento, com o monitoramento de uma moradora do mesmo conjunto de edifícios, sem formação específica para o magistério[xlvi].

Ele convidou uma mulher brilhante, que também trabalhava pela “redenção social” do povo, e era uma educadora de destaque em toda Europa, para coordenar o novo processo. Maria Montessori, para surpresa e estranhamento de muitos colegas, que achavam o convite abaixo de sua competência[xlvii], aceitou. A sala, por sugestão de uma amiga comum de Tálamo e Montessori[xlviii], foi chamada de “Casa das Crianças”, Casa aí adotando um sentido muito mais próximo de Lar[xlix].

A Casa das Crianças

Eram cinquenta crianças. A sala ainda estava vazia. Os edifícios tinham água potável, e cuidados com a higiene, mas as crianças haviam sido esquecidas. Maria Montessori era professora especializada em higiene, e demandou que mudanças acontecessem para que as crianças pudessem ser abrigadas com dignidade. Suas relações com os movimentos de mulheres se provaram importantes aqui, porque foi por meio de doações que muito se organizou para que as crianças pudessem entrar em uma casa, onde antes havia algo mais parecido com uma prisão infantil[l].

As crianças, disse Montessori, “estavam com medo e vestiam roupas duras, que impediam o movimento livre dos braços e das pernas. À parte de sua comunidade, elas nunca tinham visto outras pessoas. Para que se movessem juntas, elas tinham que dar as mãos. A primeira criança, involuntariamente, era puxada, e o resto da fila vinha junto. Todas choravam miseravelmente”.

Mesmo várias décadas depois, Montessori não sabia explicar completamente o que aconteceu com as crianças em seguida. Elas receberam os materiais que Montessori construíra a partir dos livros de Séguin, anos antes, e alguém doou lápis colorido e papel. O ambiente era muito mais bonito do que aquele que as crianças normalmente frequentavam. E só. A professora, Candida Nuccitelli, tinha por única orientação não interferir na liberdade das crianças.[li]

Em 1942 Montessori ainda escrevia com surpresa sobre essa transformação: “Elas foram deixadas em paz e pouco a pouco as crianças começaram a trabalhar com concentração, e a transformação pela qual passaram foi notável. De tímidas e selvagens como eram antes, as crianças se tornaram sociáveis e comunicativas. Elas mostravam uma relação diferente umas com as outras […] As suas personalidades cresceram e, estranho como possa parecer, elas mostravam uma compreensão, atividade, vivacidade e autoconfiança extraordinárias. Elas estavam alegres e felizes”. [lii]

A primeira vez que Montessori notou a profundidade da concentração das crianças, estava observando uma garota com cerca de três anos, que trabalhava com os encaixes sólidos. A menina repetia muitas vezes o exercício, e Montessori intrigava-se com o que parecia ser um “moto-perpétuo”. Como um experimento, Montessori pediu à professora das crianças que as pusesse a cantar em roda ao redor da pequena garota, e mesmo assim sua concentração não se quebrou. Não satisfeita, Montessori pegou a menina com a poltroninha em que ela estava sentada – ao que a garota agarrou o material completo e o colocou sobre as pernas – e colocou em cima de uma mesinha. A menina continuou trabalhando. “Desde que eu começara a contagem”, diz Montessori, “a menina havia repetido o exercício quarenta e duas vezes. Parou, como se despertasse de um sonho, e sorriu como uma pessoa feliz: os seus olhos brilhavam, e observavam tudo ao seu redor”[liii].

Criança com os Encaixes Sólidos (Fonte: Dr. Montessori’s Own Handbook, 1914)

De surpresa em surpresa, Montessori visitava as crianças semanalmente e via suas certezas sobre a natureza da infância se desmancharem no ar. A cada novo acontecimento, repetia para si mesma que ia acreditar na próxima vez. E na próxima, e na outra. Até que não teve escolha, senão acreditar no que as crianças mostravam.

Os exercícios da sala incluíam novamente os cuidados consigo, com o ambiente e com os outros, e as atividades sensoriais, progressivamente refinadas conforme Montessori observava a atividade infantil. As crianças demonstravam gratidão, gentileza, cuidado com seu ambiente doméstico, e as famílias perceberam isso, e pediram a Maria Montessori que ensinasse as crianças a escrever e ler.

No início, a sala era muito grave e inacessível: as crianças tinham mesas feitas para seu tamanho, mas os materiais ficavam guardados em um armário alto que somente a professora podia abrir. Aos poucos, conforme progrediam as observações de Montessori, a sala ganhou um aquário, arranjos de flores, quadros nas paredes, lousas com giz para as crianças desenharem, e o armário alto foi transformado em vários armários baixinhos, trancados, com as chaves e as fechaduras na altura das crianças. Com o tempo, as portas foram dispensadas em quase todas as escolas montessorianas, e ficamos com estantes.

Armário com os materiais montessorianos (Fonte: Dr. Montessori’s Own Handbook, 1914)

Para Montessori, “A Casa das Crianças tem uma importância dupla, que assume por sua peculiaridade de ser uma escola dentro da casa, e por sua importância puramente pedagógica em decorrência dos métodos para a educação das crianças muito novas”[liv]. Havia, de seu ponto de vista, a fabulosa conquista de se “socializar a função materna”, libertando a mulher para trabalhar, e a de “redimir” a população mais pobre pela educação na Casa[lv].

Montessori resistiu ao pedido das famílias, mas quando as crianças começaram a ecoar os pedidos de seus pais, cedeu, e iniciou o planejamento de um processo de alfabetização, para o qual utilizaria os materiais inspirados em Séguin: plaquinhas de madeira com as letras esculpidas em baixo relevo, e letras vazadas recortadas em madeira.

O plano de Montessori era iniciar a alfabetização das crianças em setembro. Mas ela não conseguiu encontrar um marceneiro que aceitasse produzir o material necessário, e os planos foram adiados para o início de outubro. Depois, para o final do mês. Montessori se chateava neste ponto, porque queria que suas crianças começassem o processo de alfabetização junto com aquelas das escolas convencionais, obtendo assim alguma base para comparação entre os dois processos de alfabetização. Os planos foram adiados para o meio de novembro, e só começaram porque Montessori e uma pupila sua, dos cursos de formação que mantinha na universidade, pensaram em uma alternativa, que consistia em abandonar a madeira e produzir todo o material com papelão, papel grosso e lixa. Assim nasceram dois materiais usados até hoje: as Letras de Lixa e o Alfabeto Móvel.

Montessori e Nuccitelli mostravam às crianças os sons das letras e as crianças traçavam seu desenho com as pontas dos dedos. Mostravam às crianças como traçar e preencher contornos de formas geométricas, com a ajuda de moldes de metal, e apresentavam a elas as letras recortadas para compor palavras no tapete e as crianças faziam essas coisas. Ninguém havia pensado, ainda, em ensinar as crianças a escrever, propriamente.

Mas uma criança escreveu. Um dia,  Montessori estava com os pequenos na laje da escola, porque o dia estava ensolarado e elas estavam brincando. Para divertir um garoto, Montessori pediu a ele que desenhasse uma chaminé. Ele desenhou e, olhando para o desenho, de repente gritou: “Eu sei escrever! Eu sei escrever!”, e então, com o mesmo pedaço de giz, escreveu: chaminé, laje. Outros colegas viram aquilo e, com surpresa, disseram que também sabiam escrever: mama, Giuseppe, Ana. Aos poucos, mais crianças descobriram que também sabiam escrever, e em poucos dias, todas elas escreviam em qualquer superfície que pudessem encontrar: lousa, chão, paredes, batentes de portas e janelas, e até a casca do pão preparado por suas mães. As famílias, desesperadas, pediam socorro a Montessori, que lhes dizia, dominando sua própria surpresa, para comprarem papel e lápis.

Um pouco depois, as crianças estavam escrevendo cartinhas de Natal para suas famílias. No mesmo período, na escola convencional, as crianças estavam aprendendo a traçar linhas retas e curvas em cadernos pautados[lvi].

Os jornais não deixaram passar as descobertas e conquistas de Maria Montessori. Era a segunda vez em sua carreira que a Doutora, como era chamada, tinha provado que era possível educar os ineducáveis. Primeiro, as crianças dos hospícios, depois as das favelas. Dois grupos que nunca tinham entrado na escola, uma vez expostos a meios adequados de educação, superavam o desempenho das crianças “normais”, aquelas que tinham dinheiro, não tinham deficiências, e frequentavam as escolas regulares.

Algumas outras Casas das Crianças foram abertas em São Lourenço nos meses seguintes, e Montessori permaneceu com as crianças do bairro por dois anos, até que Eduardo Tálamo, preocupado que a popularidade do método de Montessori ofuscasse a novidade de seu empreendimento imobiliário, proibiu seu retorno ao conjunto residencial[lvii].

Nessa altura, no entanto, Montessori publicava seu livro, “Il Metodo della Pedagogia Scientifica Applicato all’Educazione Infantile nelle Case dei Bambini” (O Método da Pedagogia Científica Aplicado à Educação Infantil nas Casas das Crianças). A obra levaria Montessori muito além de São Lourenço.

Capa da primeira edição do livro de Maria Montessori. (Fonte: Philobiblon)

A forma como seu livro foi impresso pela primeira vez prenuncia muito do que aconteceria depois[lviii]. Um casal muito influente de admiradores e amigos de Montessori, sabendo dos acontecimentos maravilhosos das Casas das Crianças, imediatamente convenceram Montessori a se retirar pelo tempo que fosse necessário e escrever o que havia descoberto. Para isso, emprestaram a ela uma fazenda, belíssima e com todos os cuidados necessários para seu conforto, e em vinte e um dias o livro estava pronto – provavelmente pela compilação cuidadosa de um sem número de anotações anteriores. Montessori embrulhou o manuscrito e de pronto o Barão Franchetti, seu amigo e dono da fazenda, entrou com ela em uma carruagem para irem à editora. No meio do caminho, mudou de ideia. Voltaram para casa. No dia seguinte, em lugar de irem à editora, foram a uma gráfica, para que o livro fosse publicado exatamente como fora escrito, sem que se mudasse “uma só vírgula”[lix]. Essa mistura de apoio zeloso, desprendimento de instituições, e controle total sobre sua obra se tornaria um padrão por toda a vida de Maria Montessori.

Na mesma fazenda, pouco tempo depois, aconteceu o primeiro curso de formação de educadores montessorianos. No ano seguinte, já acontecia o segundo. De acordo com uma jornalista que visitou o curso, “Ela faz tudo o que pode para que os professores em formação compreendam sua teoria: ela reitera, repete, enfatiza, reprova, vai pessoalmente às salas mostrar às professoras como lidar com as crianças”[lx]. Anna Maccheroni, sua aluna e amiga, que assistiu a vários dos cursos, explicava: os cursos eram parecidos, mas nunca idênticos, porque Montessori nunca repetia uma palestra[lxi].

O livro foi traduzido para o inglês em 1912, seis reimpressões da tradução foram esgotadas em seis meses, e as descobertas das Casas das Crianças seriam, a partir daí, conhecidas para sempre pelo nome dado ao livro traduzido nos Estados Unidos: The Montessori Method, O Método Montessori.

Depois da Casa das Crianças

A partir de então, a história de Montessori começou a se alterar. Ela foi para sempre uma pesquisadora e uma cientista da infância. Mas até a Casa das Crianças Montessori podia se identificar somente assim: médica e cientista, a partir de agora ela era também uma missionária da infância, uma apóstola e uma profetisa. E a vida de uma missionária não é nada fácil:

“Talvez vocês sejam aquelas crianças de quem se disse que vinham para salvar a humanidade. Se é assim, devo seguir vocês”, escreveu Montessori, pensando nas crianças de São Lourenço. “Desde então, eu sou aquela que tenta compreender sua mensagem para segui-las.”

“E para segui-las, eu mudei toda minha vida. Eu tinha quase quarenta anos. Tinha à minha frente uma carreira, um cargo de docência na Universidade. Mas eu deixei tudo, porque me senti compelida a segui-las, e a encontrar outros que as seguissem, porque eu vi que nelas repousava o segredo da alma.”

Depois da tradução para o inglês, o livro de Montessori foi rapidamente traduzido para mais vinte línguas, e o volume de correspondências que ela recebia exigiu a fundação de uma primeira organização montessoriana, financiada pela Rainha Margarida, da Itália. Quando notícias do método se espalharam pelos Estados Unidos, primeiro foram recebidas com ceticismo e crítica, mas na altura em que alcançaram a mídia, e circularam entre professores de crianças e famílias, as manchetes começavam a chamar Montessori de “operadora de milagres” e se referiam a seu método como “revolucionário”. Uma revista de grande circulação nos Estados Unidos recebeu tamanha quantidade de dúvidas e pedidos de publicação que criou um setor na revista dedicado exclusivamente a produzir colunas e reportagens sobre o método Montessori.

Reportagem sobre Maria Montessori na Revista McClure’s, EUA, 1911.

Era um padrão. Montessori era maior do que as divisões institucionais, mas seu trabalho era tão importante que justificava não só novas divisões, mas novas instituições mesmo.

No mesmo período, uma escola se iniciava no palácio do Czar da Rússia, a filha de Tolstói, um dos maiores escritores da história da humanidade, vinha visitar Montessori, e escolas públicas montessorianas começavam a surgir na Itália e na Suíça[lxii]. E então, no ano de 1912, a mãe de Montessori faleceu.

A dor do luto por sua mãe nunca abandonou Montessori, que passou a usar preto e assim permaneceu por toda a sua vida, a não ser pelo período em que viveu na Índia, onde o luto é branco. No mesmo ano, seu filho veio viver com ela, e conforme suas descobertas ganhavam o mundo, Montessori abriu mão da carreira pela qual era apaixonada, a de pesquisadora na Universidade de Roma, para que pudesse propagar uma nova perspectiva sobre infância e educação.

Os Estados Unidos pareciam, desde 1911, ser o país que mais abraçaria suas ideias, com longuíssimas reportagens sobre sua pedagogia e tantos livros sendo publicados sobre seu trabalho, com falhas de compreensão e explanação, que Montessori se sentiu impelida a escrever um livreto exclusivamente para o público estadunidense, “Dr. Montessori’s Own Handbook”, que foi publicado em 1914 e foi um segundo sucesso de vendas.

Em 1913, Montessori organizou em Roma o primeiro curso internacional de formação de educadores. Hoje, as palestras deste curso estão publicadas no livro “The 1913 Rome Lectures”. Recebendo 87 educadores de pelo menos oito países e cinco continentes, Montessori falou sobre sua nova visão para a infância e seu método para a educação. O destaque do curso era dado para a observação de crianças, que, Montessori dizia, permitia aprender “algo que eu não dou, que um assistente não dá, que ninguém pode dar – a capacidade, a sensibilidade que permitirá a vocês aprender os fatos íntimos revelados pelas próprias crianças. […] É isso que a professora precisa saber: como observar”[lxiii].

Quando o curso acabou, Montessori embarcou para os Estados Unidos, onde foi recebida com honrarias, e chegou a se reunir com o Presidente da nação. No país, Montessori falou para milhares de pessoas, e outras tantas quiseram ouvir suas palestras, mas não conseguiram ingressos, tamanha a demanda que sua audiência impunha.

McClure, o jornalista e empreendedor responsável por tornar Montessori conhecida nos Estados Unidos, animava-se muito com tudo isso, e além de acompanhar Montessori desde Roma até a América do Norte, a conduziu por várias das grandes cidades do país, em palestras, entrevistas e mostras admiráveis de filmes feitos nas escolas italianas, que mostravam as crianças trabalhando – era a única maneira de mostrar ao grande público a verdade das ideias de Montessori, que para além disso encantava a muitos com sua oratória[lxiv].

Uma das grandes alegrias de Montessori nessa viagem foi o encontro com Helen Keller, a quem ela viria a dedicar seu livro no ano seguinte. Keller era uma ativista pelo feminismo e socialismo, e era surda-cega. A conversa, relatada na biografia escrita por Rita Kramer, encanta e impressiona pela potência do diálogo, entre uma ativista que acreditava nas revoluções políticas para se alcançar um novo estado de coisas, e uma educadora que acreditava em um novo estado de coisas para as crianças, para que se alcançasse a transformação das condições de vida das populações oprimidas[lxv].

Maria Montessori e Helen Keller (Fonte: Montessorium)

Em 1914, o interesse pelo Método nos Estados Unidos era enorme, mas viria a desmoronar rapidamente nos dois anos seguintes. Principalmente pela publicação de um livreto de crítica mordaz, escrito pelo educador mais conhecido da nação à época, William Kilpatrick. Sua popularidade era tamanha que uma de suas alcunhas era “o professor de um milhão de dólares”. Kilpatrick fez uma visita breve a uma Casa de Crianças, na Itália, e entrevistou Montessori por cerca de uma hora. No retorno, leu “Il Metodo”, e chegando, escreveu um livro que demonstrava a um só tempo uma reserva intelectual para com seu ídolo, o professor estadunidense John Dewey, que chegou a abrir palestras de Maria Montessori em 1913, e um tom belicoso que trazia misoginia e xenofobia de uma só vez, contra Maria Montessori. O livreto de setenta páginas termina com uma passagem que se provaria errada nas décadas e no século seguintes: “Não devemos nenhum [novo] ponto de vista significativo [às contribuições] de Madame Montessori”, como a chamava, em lugar de utilizar o “Doutora”, a que a mídia e outros intelectuais respeitosamente recorriam.

O livro, combinado com um desentendimento entre Montessori e seu agente nos Estados Unidos, McClure, fariam com que sua contribuição para a educação fosse gradativamente silenciada no país pelos próximos cinquenta anos, quando finalmente retornaria com mais força lá do que em qualquer outro lugar do mundo.

Na Itália, Montessori enfrentava críticas de intelectuais, que atacavam o que entendiam como limitação da liberdade da criança[lxvi], e da Igreja Católica, que atacava justamente a liberdade fornecida na Casa das Crianças e a compreensão biológica de liberdade sustentada por Montessori, como “condições favoráveis à vida”[lxvii].

É fascinante perceber que já na edição estadunidense de seu livro “Il Metodo”, de 1909, traduzido em 1912, Montessori propõe alterações na obra, e substitui as ilustrações de materiais (uma ênfase no método) por fotografias de crianças usando os materiais (uma ênfase na criança)[lxviii]. Esse movimento se intensificaria quase continuamente até a última edição do livro, em 1949, acompanhando a inteligência de Montessori, que enxergava com cada vez mais nitidez a base de sua pedagogia: “É isso que a professora precisa saber: como observar”.

Como que para demonstrar o impacto da observação sobre a compreensão que o adulto teria da criança, e de seu método, Montessori aceitou um convite em 1915 – ano em que a Itália entrou na Primeira Guerra Mundial, para montar uma sala montessoriana com paredes de vidro na Exposição Internacional Panamá-Pacífico, que aconteceu em São Francisco. A feira em si foi memorável, com enormes construções demonstrando a potência da engenharia de São Francisco, que havia se recuperado de um terremoto há pouco. Montessori com mais de 30 alunos e Helen Parkhurst, que começaria como assistente e depois assumiria a sala por quase quatro meses, ficava em um ambiente completamente exposto, por cujas paredes de vidro e janelas passavam observadores ao longo de todo o dia.

Maria Montessori e crianças na sala de vidro. (Fonte: The Montessori Observer)

Montessori deu várias palestras e ministrou uma formação de educadores na Califórnia, que resultaram no livro “The California Lectures in 1915”, mas recebeu a notícia de que seu pai havia falecido, e precisou retornar às pressas para a Europa.

Ela retornou tendo como destino final a Itália, mas parou em Barcelona a convite de autoridades locais, e depois de ficar em Roma por um período breve, foi para a cidade da Sagrada Família estruturar um curso de formação de educadores, desta vez com uma urgência nova, pois a guerra tinha mutilado famílias e deixado muitas crianças órfãs, e já havia na Espanha uma escola-abrigo que utilizava o método Montessori, coordenada por uma ex-aluna indicada por Maria Montessori, Anna Maccheroni.

Enquanto estava em Barcelona, em colaboração com Maccheroni e uma outra aluna-amiga sua, Anna Fedeli, Montessori estruturou, com experimentação e observação, os primeiros materiais para a educação de crianças mais velhas. Os resultados teóricos, psicológicos e didáticos desses anos de experiência foram publicados na obra L’Autoeducazione Nelle Scuole Ellementari (A Autoeducaçao na Escola Fundamental, sem tradução para o português), publicada no ano de 1916. Além do “novo” assunto, o livro traz uma flagrante preocupação social de Montessori com os direitos da criança e, vindo em dois volumes, conseguiu se aprofundar em aspectos teóricos (no volume I) e sobre os materiais (no segundo).

Entre 1916 e 1919, Montessori ficaria entre Espanha, França, Holanda e Londres. Enquanto isso, na Itália, mesmo em meio a críticas, escolas montessorianas já recebiam milhares de crianças[lxix].

Embora seu trabalho viesse crescendo em todo o mundo, Montessori ainda enfrentava resistências na Itália, com críticas da igreja católica e de parte dos intelectuais de seu país. Com a ascensão de Benito Mussolini no início da década de 1920, abriu-se uma possibilidade de diálogo. Mário Montessori escreveu para o ditador expondo a constrangedora situação de um método que, criado na Itália e disseminado por todo o mundo, não era aplicado ou conhecido o suficiente em sua terra natal.

Depois de enviar emissários a outros países e verificar que, realmente, o método era percebido com bons olhos em todos os lugares, Mussolini se encontrou com Maria Montessori em 1924. Aos olhos da cientista, esta era uma chance de levar suas descobertas às crianças de seu país. Para o ditador, o método poderia ajudar a resolver o analfabetismo, mas sobretudo, traria prestígio para a Itália, e o governo, fascista[lxx].

Se uma aliança com o fascismo é sempre passível de crítica, já que desde seu início o governo tivera raízes na guerra, no conflito armado e no golpe de estado com suporte de milícias, também é verdadeiro que antes da aliança com o governo nazista de Hitler, o potencial opressor e genocida do fascismo ainda não agia por inteiro[lxxi].

No mesmo ano em que Montessori e Mussolini se encontraram, a Opera Montessori, entidade civil reconhecida pelo governo fascista para a expansão do método na Itália, ganhou a participação do Ministro da Educação como diretor executivo, e a de Mussolini como presidente honorário do comitê de disseminação do método no país. Na altura, as relações entre Montessori e Mussolini eram boas, e ela, pelo menos publicamente, lidava em silêncio com as contradições que apareciam.

Em 1926, com a publicação da terceira edição italiana de seu livro “Il Metodo”, Montessori realizou modificações ao longo de toda a obra[lxxii], e removeu referências a pensadores menos alinhados com o fascismo, assim como colaboradores de seu trabalho que mantinham posicionamento liberal ou socialista. Além disso, Montessori retirou muitas menções à liberdade da criança, suavizou afirmações sobre a opressão e a exploração sofrida pelas crianças, e silenciou completamente sua conceituação de liberdade como um fenômeno biológico, que defendia desde 1913 e voltaria a defender nas últimas obras de sua vida.

Entre as linhas desta edição, no entanto, se percebe a transpiração da angústia de Montessori, que reforça, às vezes de forma notavelmente excessiva, palavras e frases que remetem à sensação de opressão. Um exemplo disso é toda a passagem sobre a Lição do Silêncio, que soa muito mais repressiva e menos libertadora do que nas edições anteriores ou posteriores do mesmo livro[lxxiii], mas traz em si sentidos que mostram um desejo de liberdade.

Mesmo diante da necessidade de realizar modificações em sua obra principal, Montessori permaneceu na Itália e a importância de seu trabalho cresceu. Em 1928, o governo italiano fundou a Regia Scuola di Metodo Montessori, para formação de professores, e a instituição incluía até mesmo uma Casa de Crianças modelo. O currículo da formação, no entanto, recebeu “adições” por parte da liderança fascista. Além das áreas habitualmente exploradas nos cursos de Montessori, foram incluídas, por exemplo, língua italiana, cultura fascista e religião[lxxiv] – tema este que Montessori passara a abordar em suas obras por influência da igreja católica, e que se fortaleceu durante o intervalo fascista.

Em 1929, Montessori e seu filho fundaram a Associação Montessori Internacional, que permaneceria na Itália somente até 1932, e depois teria sedes em Berlim, Espanha e Amsterdã, onde permanece até hoje. A função da Associação era salvaguardar a integridade do método[lxxv], que Montessori acreditava poder se perder, com a disseminação, que era em si boa, mas trazia o risco da diluição de ideias fundamentais de seu sistema de pensamento.

Aos poucos, as dificuldades cresciam. O governo se impunha com mais força sobre seu trabalho e Montessori, que até então buscava maneiras de contornar isso, afirmando, por exemplo, que o governo deveria apoiar a disseminação de seu método porque se tratava de uma educação “genuinamente italiana”[lxxvi], encontrava cada vez mais obstáculos para levar suas descobertas às crianças de sua própria nação.

Se dentro da Itália Montessori era silenciosamente coagida a dar suporte a um governo bélico e nacionalista, fora do país Montessori conversava com expoentes do pacifismo mundial, como Rabindranath Tagore, Prêmio Nobel de Literatura, e Mahatma Gandhi, líder indiano que tornou o protesto não-violento conhecido em todo o planeta. Em conferências públicas, ela também defendia, com ardor crescente, a importância da paz entre as nações, e até mesmo atacava a obediência cega a líderes políticos. Em 1932, em uma fala ministrada em Genebra, Montessori disse:

“Essa prática [de humilhar publicamente a criança que erra], bem como outros tipos de condicionamento, que conduzem a um sentimento de inferioridade, abre caminho a uma atitude irrefletida de respeito, idolatria quase irracional, entre os adultos, paralisados diante dos dirigentes públicos, que se torna substitutos do pai e do educador, figuras que a criança foi obrigada a ver como perfeitas e infalíveis. Logo, a disciplina imposta se transforma em servilismo”[lxxvii].

Se o governo fascista havia recebido Montessori e seu método, muito interessado no aprendizado rápido, na ordem, na alfabetização eficiente e na disciplina, e havia dado espaço para um posicionamento discreto de Montessori a favor da liberdade das crianças, um pronunciamento como esse, por uma italiana apoiada pelos fascistas, em uma conferência internacional fora da Itália não seria tolerada.

Maria Montessori em Roma, 1930. (Fonte: AMI)

As falas de Montessori no exterior eram intensamente criticadas por membros do governo de Mussolini, e em uma atitude mais drástica, uma das professoras que trabalhavam nos cursos de formação de professores de [lxxviii]Montessori foi acusada, julgada culpada e proibida de trabalhar como professora porque havia dito uma “frase” que incluía palavras de baixo calão, “incompatíveis com o magistério”. Pouco depois, Mussolini pessoalmente a absolveu[lxxix], mas a ameaça teve impacto sobre Montessori.

Em janeiro de 1933, Montessori já não podia mais tolerar as insistentes tentativas e profundas modificações impostas pelo governo fascista a seus cursos e o funcionamento das escolas que levavam seu nome. Pediu demissão, então, da Opera Montessori, e renunciou ao cargo de diretora da Scuola di Metodo Montessori, proibindo o então ministro mais importante da Itália de usar o nome “Montessori” para algo que já não podia ser identificado com seu trabalho[lxxx].

As coisas pioraram gradativamente e, em 1934, a polícia foi instruída a “vigiar” um congresso sobre a obra de Montessori, que ficara longe da Itália por mais de um ano, e quando esta se recusou a continuar o congresso sob vigilância, um grupo de fascistas com apitos e outros instrumentos adentraram o auditório e forçaram uma pausa naquele momento. O congresso foi finalizado, com Montessori fazendo elogios eventuais ao governo fascista, em uma atmosfera de ameaça e medo. Depois de enfrentar a invalidação dos diplomas de seus alunos, a vigilância, e a perseguição fascista, em 1934 Montessori se impôs o autoexílio[lxxxi]. Dois anos depois, em 1936, por um decreto do Ministro da Educação, a Scuola foi fechada, e em seguida a Opera Montessori encerrou suas atividades[lxxxii]. Montessori foi então para a Catalunha.

Desde 1913, sementes montessorianas já haviam sido plantadas em solo catalão. Em seu primeiro curso internacional de formação de educadores, que aconteceu em Roma, Montessori recebeu uma educadora de Barcelona, e no ano seguinte já havia oito participantes da região da Catalunha[lxxxiii]. Em 1915, a popularidade do método na comunidade catalã crescia rapidamente, graças à imprensa e às muitas fotografias[lxxxiv] que a imprensa ilustrada, muito recente, trazia para a população. O Concelho Municipal de Barcelona estabeleceu um departamento especial, dirigido pela própria Maria Montessori, e ela passaria vários períodos na cidade e nas províncias próximas.[lxxxv] A educação catalã e Maria Montessori beneficiavam-se mutuamente, e ambas tinham mais espaço e autonomia em decorrência de uma vitória recente do “nacionalismo catalão”, que dava maior liberdade para a gestão pública das províncias da comunidade, em todos os aspectos, inclusive na educação.

Ambiente montessoriano em Barcelona, 1932.

Infelizmente, uma ditadura seria instalada em 1919, dificultando o trabalho de Montessori, e em 1925 a autonomia da região seria revogada. Um dos pilares das escolas montessorianas em Barcelona e cidades próximas era o uso da língua materna das crianças, o catalão, e a comunicação em uma língua diferente do espanhol foi proibida na região a partir da mesma data.

Em 1931, o jogo político mudaria novamente, e enquanto a Itália mergulhava em um tenebroso interim fascista, a Catalunha respirava com a Segunda República e uma nova onda de liberdade e autonomia, propícia para o retorno e o desenvolvimento do método Montessori. Foi então que Montessori, fugindo da perseguição fascista, chegou a Barcelona, em 1932. Já em 1933, por uma decisão popular do governo da Segunda República, Montessori ministrou um curso financiado com recursos públicos, nas duas universidades de Barcelona (em uma ela dava palestras, na outra demonstrava materiais e o funcionamento das salas de aula). Participantes de dezessete países e vários continentes, e oficiais do governo catalão participaram do curso.

Montessori se sentia em casa em Barcelona. Desde 1915, mesmo com condições adversas, ela sempre fora bem recebida lá, e escolas-modelo foram fundadas na cidade. O contexto amigável, a existência de escolas para pesquisa, o suporte das universidades, e os amigos de longa data provavelmente foram um alívio e um incentivo para Montessori, que no período em que esteve em Barcelona escreveu cinco grandes livros[lxxxvi]: L’Autoeducazione, sobre o qual já falamos antes, e mais quatro na década de 1930; O Segredo da Infância, que expunha as descobertas psicológicas sobre as crianças feitas desde a primeira Casa das Crianças, um conteúdo menos prático, mas fundamental para a compreensão da perspectiva montessoriana sobre a infância; e outros três livros bastante voltados para o currículo das crianças de 6 a 12 anos: Psicoaritmética, Psicogeometria e Psicogramática (somente o terceiro foi traduzido para o português). Montessori enfatizou a importância da psiquê da criança nos três títulos, que poderiam se chamar Aritmética, Geometria, e Gramática, mas trazem o prefixo “Psico”, todas as vezes. Um exemplo desta ênfase vem nas primeiras palavras do prefácio de Psicoaritmética:

A aritmética, conforme apresentada neste livro, contém um componente da psicologia infantil até agora não publicado, em que se toma a posição de que a aritmética é uma forma de raciocínio e a criança é um ser racional. Números, e aquilo que deles deriva, são estímulos científicos que provocam atividade psíquica [lxxxvii].

Os desenvolvimentos na Catalunha teriam continuado, pois a situação de Montessori na década de 1930 parecia perfeita, e ela contava com todo o apoio – ainda que sempre houvesse críticas a seu método – de diversas classes sociais, do meio intelectual e espectros políticos. Infelizmente, mais uma vez a guerra entraria em seu caminho.

Em 1936 a Guerra Civil Espanhola começou, e levaria ao poder Francisco Franco, um general que afundou também a Espanha no fascismo. A guerra aterrorizava Montessori, que a esta altura tinha quase setenta anos, um filho, e netos. Em sua vida, portas se fecharam e se abriram com espantosa sincronia, e desta vez foi um navio de guerra britânico que a resgatou, às margens de um derramamento de sangue. Com poucas horas para juntar seus pertences, quase tudo ficou para trás, e Montessori migrou para a Inglaterra, onde chegaria nas vésperas do Quinto Congresso Internacional de Montessori[lxxxviii].

Depois de muito pouco tempo na Inglaterra, Montessori se mudou para a Holanda, na cidade de Laren, onde teve ajuda de amigos e de sua família estendida para encontrar uma casa que pudesse ser ao mesmo tempo moradia e local de trabalho, acolhendo uma sala para crianças de 3 a 6 anos, e outra para crianças mais velhas. Laren foi casa e laboratório para Maria Montessori por três anos. Lá, começou a pensar sobre a apresentação da Visão Cósmica do mundo para a criança, algo que amadureceria mais tarde. Também em Laren Montessori escreve sua contribuição para a educação dos adolescentes, o livro Erdkinder (em tradução literal, “Os Filhos da Terra”), que depois seria incorporado ao livro Da Infância à Adolescência (este traduzido para o português).

Em Erdkinder, Montessori fez uma proposta para a educação do adolescente que não teve tempo de experimentar, mas que se baseava em leituras e observações de outros experimentos variados envolvendo alunos dessa faixa etária. No livrinho, Montessori sugere que faz bem ao adolescente viver em um ambiente tranquilo, seguro, com natureza, chance de cultivar a terra, oportunidade parta estudar e trabalhar coletivamente, e viver na companhia de colegas e adultos profissionalmente preparados, em um internato muito amigável e apropriado ao desenvolvimento adolescente. Hoje, algumas escolas buscam a transformação necessária para este processo.

Vídeo breve de Maria Montessori e cenas de uma escola montessoriana, 1931.

Enquanto morava na Holanda, Montessori recebeu a visita de George Arundale, um inglês que morava há anos na Índia, primeiro servindo a Sociedade Teosófica lá, e agora trabalhando como seu presidente. Arundale foi extremamente gentil e receptivo com Montessori, e a convidou para passar seis meses na Índia, com um curso de formação e de educadores. Montessori aceitou prontamente[lxxxix].

Arundale publicou no periódico da Sociedade Teosófica da época os detalhes de seu convite, e a alegria de receber Maria Montessori:

“Quando eu a convidei para vir, ela aceitou de coração aberto, com a condição de que teria tempo para estudar a situação indiana, porque, como ela de fato disse, seus métodos precisam se adaptar às necessidades dos vários grupos de crianças ao redor do mundo”[xc].

Maria e Mário Montessori na Índia.

Montessori chegou à Índia em outubro de 1939, graças a um patrocínio de Rabindranath Tagore e Mahatma Gandhi[xci]. Os planos de Montessori incluíam um curso breve, de cerca de seis meses, e depois a vida continuaria como sempre: mais viagens, mais países, mais crianças. Mas o obstáculo da guerra veio novamente.

Porque Montessori era italiana, e a Itália era aliada da Alemanha, e estava em território britânico com seu filho, os dois foram proibidos de deixar o país. Até mesmo sua circulação foi restringida, e Mario foi levado para um campo de prisioneiros, em uma cidade diferente daquela de sua mãe. Meses depois, ele seria libertado como presente de aniversário para Maria Montessori, mas a movimentação dos dois ainda era bastante restrita aos lugares próximos da sede da Sociedade Teosófica, em Adyar, onde habitavam. Montessori e seu filho ficariam na Índia por seis anos[xcii].

A experiência na Índia trouxe muito para Montessori, transformou alguns aspectos de sua compreensão da criança, e talvez a tenha libertado de pontos de vista estritamente europeus, ou ocidentais, como apontam várias de suas obras publicadas durante e após os anos indianos.

Na Índia, Montessori ministrou cursos para até 300 alunos de cada vez.

A Sociedade Teosófica se preparou para a chegada de Montessori: ela moraria em uma casa de dois andares, com o andar de cima sendo residencial, e o de baixo uma escola. Além disso, foi construída uma vila de cabanas de folhas de bananeira, com um salão capaz de abrigar centenas de alunos, sem paredes, para favorecer a ventilação. Para Montessori e seu filho, que era também seu tradutor, havia um pequeno palco com uma mesa. Os alunos, mais de 300 no primeiro curso[xciii], e mais de mil depois[xciv], se sentavam no chão, ou assistiam em pé.

Montessori nunca fora tão bem recebida, e alguns de seus discípulos e colaboradores mais antigos afirmaram que lá “ela estava em casa”[xcv]. Entre as grandes virtudes de seus cursos, estava o fato de que membros de todas as castas (na época ainda protegidas pela lei) assistiam ao curso juntos, uns perto dos outros, na mesma tenda de folhas de bananeira[xcvi]. Para alguém que fugira de países que buscavam a separação social, isso talvez fosse por si só uma conquista e uma alegria.

Já no primeiro curso que Montessori ofereceu na Índia, podemos perceber o grande salto que a pesquisadora deu entre as primeiras apresentações de seu método, e a sublime descrição da descoberta da criança, décadas depois. Em sua primeira edição de “Il Metodo”, Montessori descreveu uma atividade chamada de “Lição do silêncio” de forma bastante objetiva. Conta a história, singela, de quando levou um bebê para a sala das crianças e as desafiou a fazerem um silêncio tão completo quanto o do pequeno mestre. Ela descreve as dificuldades e alegrias das crianças, mas não mais do que isso. Quando dá seu primeiro curso indiano, em 1939, depois dessa descrição básica da atividade, adiciona:

Isso mostra a necessidade que a alma humana tem de se desapegar do mundo exterior, esta necessidade real é revelada na criança. A voz que vem da escuridão, do silêncio chama a criança. O silêncio oferece à alma algo que preenche uma necessidade espiritual [xcvii].

Montessori se tornava, cada vez mais, a descobridora da criança. Um importante passo nessa direção foi a liberdade que Montessori encontrou enquanto estava aprisionada. De fato, ela reflete sobre a liberdade no mesmo curso:

“Se temos uma ideia fixa de o que a liberdade é e o que a liberdade deve ser, tornamo-nos escravos de nossa ideia de liberdade. […] A liberdade, então, é se tornar livre de algumas amarras que temos com certas coisas e que nos restringem. Quando sabemos o que a liberdade é, aprendemos a aceitar uma nova ideia livremente”[xcviii].

Na Índia, Montessori teve duas oportunidades únicas em sua carreira. A primeira foi a observação próxima e constante de crianças muito pequenas, entre o nascimento e os três anos de idade. Enquanto nos países europeus era muito comum que as crianças dessa idade fossem mantidas dentro de casa, na Índia elas acompanhavam suas mães com frequência, ou até seus irmãos, e mesmo durante os cursos que ministrava Montessori via as crianças entre os adultos da plateia. Porque permaneceu no país por seis anos, é bastante possível que tenha até mesmo acompanhado algumas crianças por longos anos de seu desenvolvimento – algo incomum para uma mulher que morava no mundo todo, mais do que em um só país.

Essa oportunidade de observar crianças muito novas originou o livro mais potente de toda a obra montessoriana: Mente Absorvente (chamado, em Italiano, de A Mente da Criança). O livro é dividido em duas grandes partes, uma para as crianças da gestação até os três anos, e outra para aquelas entre três e seis. É aqui que Montessori apresenta a ideia que se tornaria, tardiamente, a base que dá sentido a todas as suas outras descobertas e a todo o seu método de educação, a mente absorvente.

Já se dizia antes de Montessori que as crianças aprendiam porque seu cérebro se modificava frente a estímulos. Ela foi mais longe:

…a criança passa por uma transformação. As impressões não só entram em sua mente, elas a formam. Elas se incarnam na criança. A criança constrói seus próprios “músculos mentais” usando para isso o que encontra em seu ambiente. Nós chamamos esse tipo de funcionamento mental de A Mente Absorvente [xcix].

A formação da mente da criança abriu, para Maria Montessori, a porta para novas esperanças por uma nova humanidade, e um novo mundo. Se a mente da criança se formava a partir daquilo que absorvia do ambiente, um novo ambiente podia significar um novo ser humano:

“Esta é a educação, compreendida como uma ajuda à vida; uma educação desde o nascimento, que alimenta uma revolução pacífica e une a todos em um objetivo comum, atraindo-os como a um só centro. Mães, pais, políticos, todos devem combinar em seu respeito e ajuda por esse delicado trabalho de formação, que a criança executa nas profundezas de um íntimo mistério psicológico, direcionada por um guia interior. Esta é a resplandecente esperança para a humanidade. Não a reconstrução, mas a ajuda ao trabalho construtivo que a alma humana é conclamada a executar e a materializar; um trabalho de formação que externaliza os imensos potenciais de que as crianças […] são dotadas”[c].

A outra oportunidade que Montessori recebeu na Índia era relacionada a esta. Ela compreendeu lá como a mente da criança mais velha, de seis a doze anos, recebe o mundo, o organiza interiormente, e como essa recepção e o trabalho cognitivo que se segue são responsáveis por semear as raízes da paz, do serviço e da justiça.

Embora Montessori já pensasse sobre o mundo como um cosmos interligado há alguns anos e um pouco antes de ir para a Índia, ela tenha dado uma palestra em Londres que demonstrasse essa reflexão[ci], foi em seu período de permanência forçada no país que a Educação Cósmica amadureceu.

Por motivos médicos, Montessori e seu filho foram morar nas colinas de Kodaikanal. Lá, uma sala-modelo foi montada, com algumas crianças, e Mário Montessori visitava a floresta com essas crianças, e fazia experimentos sobre a natureza com elas. Aos poucos, as dúvidas das crianças mostraram que elas queriam mais. Montessori sugeriu então se desse mais.

“Já que se percebeu que era necessário dar tanto à criança, vamos dar a elas uma visão de todo o universo. O universo é uma realidade que se impõe, uma resposta para todas as perguntas. Vamos trilhar juntos o caminho da vida, porque todas as coisas são parte do universo, e são conectadas umas às outras para formar uma unidade”[cii].

Em Kodaikanal, Maria Montessori, seu filho e uma professora dedicada e experiente, Lena Wikramaratne, deram forma à Educação Cósmica, que se tornou depois uma organização do currículo na forma de histórias, pesquisas e experiências da/na natureza que trazem à criança uma visão do interser de todo o universo, a percepção de que todas as coisas são causas e consequências de todas as outras coisas.

Um diagrama clássico da Educação Cósmica, mostrando inter-relações entre todas as coisas. (Fonte: montessoriatmx)

Na Índia, Montessori ministrou cursos que foram transformados em alguns de seus melhores livros: Educação para Um Novo Mundo, Para Educar o Potencial Humano e Creative Development in the Child (este último sem tradução para o português). No Sri Lanka, em uma breve viagem, Montessori ministrou palestras que se tornaram o livro O que você precisa saber sobre seu filho, também alimentado pelas muitas observações de crianças nos três primeiros anos de vida.

Em 1946, Montessori e seu filho foram libertados. Chegando à Holanda, reencontrou seus netos (e Mário, seus filhos), depois de muitos anos. Mas logo começou a viajar novamente[ciii]. Com setenta e seis anos, e ao fim da Segunda Guerra Mundial, Montessori visitou países em ruínas, mas continuava, em cada um deles, oferecendo a mesma mensagem de esperança, força e fé, que era alimentada nela mesma pela observação das crianças pequenas.

No ano seguinte, conseguiu finalmente retornar à Itália, no início de uma redemocratização, e dar novo fôlego à Opera Montessori[civ]. Ainda em 1947, Montessori retornou à Índia, e depois foi ao Paquistão. De um curso ministrado em 1948, em Ahmedabad, Índia, é que foram compiladas as palestras que formam o livro Mente Absorvente [cv], o mais profundo de toda a sua obra.

Em 1949, Montessori de novo na Itália, cria-se a Scuola Assistenti all’Infanzia, que formava educadores para guiarem famílias nos cuidados das crianças nos primeiros anos, estendendo formalmente o método Montessori à casa, e provando, segundo Mário Montessori, que o que Montessori criou “não é um método de ensino, mas uma ajuda à vida para as crianças em seu desenvolvimento”[cvi].

Entre 1949 e 1952, Maria Montessori foi indicada ao prêmio Nobel da Paz por três vezes com apoio de muitos países, e recebeu a Legião de Honra da França, e a Ordem de Orange-Nassau na Holanda.

Maria Montessori discursando em Amsterdã, 1950. (Fonte: AMI)

Os prêmios não diminuíam o empenho de Montessori, que fundou um centro de formação de educadores em Perúgia, na Itália, em 1950, e no mesmo ano publicou a quinta edição de seu “Il Metodo”. Agora, seu foco se transformara completamente, e o título do livro mudou também: “La Scoperta Del Bambino”, A Descoberta da Criança.

A quinta edição do livro trouxe algumas modificações de linguagem, com foco maior na psiquê infantil e um pouco menos de detalhes específicos sobre a apresentação de materiais. Uma modificação relevante e que provavelmente deriva de sua estada na Índia é a eliminação da educação religiosa como parte integrante de seu método. O capítulo sobre o assunto, na edição italiana, termina com:

“O experimento de educação [religiosa] foi no final abolido nas nossas Casas de Crianças, porque ele se referia somente à educação religiosa católica, na qual é possível fazer uma preparação ativa por meio dos movimentos do corpo e dos objetos, isto é, dos exercícios “materiais”; enquanto que isto não pode ser feito com outras religiões completamente abstratas”[cvii].

Mesmo com as modificações menores, no que diz respeito à ênfase nos materiais e apresentações, Montessori considerava que o livro poderia ser um ponto de partida para os educadores interessados em levar seu método para a escola, e afirmava na primeira frase das conclusões da obra que:

“A parte do método aqui descrita pode claramente conduzir, creio eu, as professoras a aplicá-la na prática”[cviii].

Com quase oitenta e um anos, “Montessori ainda trabalhava das sete e meia da manhã até a uma da madrugada, com uma pequena soneca à tarde, que ela só tirava por insistência de seu médico”[cix]. Mesmo forte e talvez ainda mais dedicada ao trabalho agora do que na juventude, Montessori tinha pressa de fazer mais pelas crianças, e sentia a perda da juventude. Em uma carta para uma amiga[cx], Montessori escreveu:

Queria ser jovem, para poder trabalhar mais, e ter mais tempo para escrever e estabelecer novas ideias, e especialmente para escrever meu novo livro: Psiquê: O Ser Humano.

Em 6 de maio de 1952, Montessori conversava com amigos sobre uma viagem para Ghana[cxi], para mais um curso de formação de educadores, com quase oitenta e dois anos. Sugeriam a ela que não viajasse mais, e que preparasse o necessário para que as palestras fossem dadas por outras pessoas. Ela, então, virou para seu filho, e perguntou: “Então eu não sirvo mais para nada?”.

Instantes depois, Montessori faleceu, de hemorragia cerebral. Suas ideias, sua luz, e a exaltação da criança que ela trouxe pela primeira vez à humanidade sobreviveram, e frutificam todos os dias.

Montessori foi enterrada no cemitério da Igreja Católica Romana de Noordwijk, na Holanda, pois ela escolheu ser enterrada onde quer que morresse, tendo dito anos antes que seu país era “um astro, que gira ao redor do sol, e se chama Terra”[cxii].

Em sua lápide, está até hoje o apelo de que emana o sentido de sua vida:

“Peço às queridas crianças que tudo podem que se unam à mim para a construção da paz no Ser Humano e no Mundo”[cxiii].

Lápide e epitáfio de Maria Montessori. (Fonte: montessoricongress2017)

Algumas das maiores mentes que se dedicaram ao estudo da infância e da psiquê foram preparadas por Maria Montessori. Entre elas, figuram Jean Piaget, Anna Freud e Erik Erikson. As ideias de igualdade e direitos das crianças que temos hoje são um legado direto da influência que Montessori exerceu sobre a criação dos direitos universais da criança.

O impacto imensurável de Montessori, como acontece com toda mente revolucionária, se mostra menos pela replicação de suas descobertas e pelo número de escolas montessorianas no mundo, e muito mais pelo aprofundamento da linha de pesquisa que ela iniciou, ao investigar a formação da consciência da criança, seus potenciais latentes e suas necessidades de desenvolvimento, bem como pela transformação social que levou à proteção da criança com prioridade absoluta[cxiv] em muitos países.

A força, a fibra e a gentileza de Maria Montessori fizeram com que sua voz fosse, sem intervalos, utilizada para a exaltação da criança, conclamando a todos nós para uma revolução pacífica, e para a união ao redor deste centro que é a nebulosa de potenciais da criança, capaz de nos conduzir à construção de “um mundo novo, cheio de milagres”[cxv].

Em seu último livro, A Formação do Homem, Montessori escolheu somente quatro temas para abordar: A ordem natural do desenvolvimento, e seus obstáculos, os preconceitos sobre a criança nas ciências e na educação, o funcionamento da mente infantil e a luta pelo fim do analfabetismo mundial. Até o fim, Montessori exaltou a criança, pelo que ela é e pelo que representa. No fim, nos deixou uma missão:

Eu me dirijo a vocês hoje como a uma família que deve seguir seu caminho. Ela é certamente jovem e forte, mas precisa mesmo de fé e esperança, e eu gostaria de lhes dar um guia para orientar sua ação.

[…]

A reforma da educação e da sociedade de que necessitamos atualmente deve se fundamentar no estudo científico do ser humano, esse desconhecido [cxvi].

As ideias, palavras e gestos de Montessori ainda vivem, agora e aqui. Sua mente genial e criativa já não cria mais. Coletivamente, porém, nós podemos continuar os passos que Montessori precisou dar sozinha, enquanto abria caminho para todos nós, e para a revolução da criança.

Maria Montessori em Londres, 1939. (Fonte: AMI)

Referências:

Abaixo, deixo a bibliografia utilizada para este texto, na ordem em que cada referência aparece pela primeira vez no texto.

Montessori, M. Education and Peace, Henry Regnery Company, 1972.

_. O Segredo da Infância, Kirion, 2019.

_. The 1913 Rome Lectures, Montessori-Pierson Publishing Company, 2013.

Trabalzini, P. Maria Montessori Through the Seasons of the Method, The Namta Journal, 2011.

Depoimento de Helen Henny sobre Montessori, disponível aqui: https://montessori-ami.org/news/portrait-maria-montessori (acesso em 30 de agosto de 2020).

Schulz-Benesch, G. The Adventure of a Life in the Service of the Child. In Basic Ideas of Montessori’s Educational Theory. Clio: Oxford, 2003.

Babini, V. Science, Feminism and Education: The Early Work of Maria Montessori. History Workshop Journal, 2000.

Kramer, R. Maria Montessori: A Biography. De Capo Press, 1988

Montessori, M. The Absorbent Mind. Henry Holt and Company, 1995.

_. The Montessori Method, Frederick A. Stokes Company, 1912, disponível aqui: http://digital.library.upenn.edu/women/montessori/method/method.html# (acesso em 30 de agosto de 2020).

_. Maria Montessori Sails to America: a private diary, 1913. Montessori-Pierson Publishing Company, 2013.

Blavatsky, H. P. Chave da Teosofia, Ed. Três: São Paulo. 1973.

Montessori, M. How It All Happened, AMI Journal, 1970/2-3

Marazzi, G. Montessori e Mussolini: la collaborazione e la rottura. Disponível em: http://dprs.uniroma1.it/sites/default/files/292.html (acesso em 30 de agosto de 2020)

Rubí e Garcia, The Spread of the Maria Montessori Method in Catalonia, 1914-1939. Texto de 2018 disponível em: https://historyofeducation.org.uk/the-spread-of-the-maria-montessori-method-in-catalonia-1914-1939/ (acesso em 0 de agosto de 2020).

_. The photography and propaganda of the Maria Montessori method in Spain (1911–1931), International Journal of the History of Education, Volume 48, 2012 – Issue 4. Disponível em https://www.tandfonline.com/eprint/HNByeJMDhtFuwDqyMPZX/full (acesso em 30 de agosto de 2020).

Montessori, M. Psychoarithmetic, Montessori-Pierson Publishing Company, 2016.

ESF, Montessori in India, Pre-reading Material for the Fifth Assembly of Educateurs sans Frontières, Hyderabad, 2016. Disponível em https://montessori-esf.org/sites/default/files/downloads/files/MontessoriIndia70Years.pdf (acesso em 30 de Agosto de 2020).

Montessori, M. Creative Development in the Child: The Montessori Approach. Kalakshetra Press, 2015.

_. To Educate the Human Potential, Montessori-Pierson Publishing Company, 2015.

_. La Scoperta del Bambino, Garzanti, 1984.

AMI. Maria Montessori: A Centenary Anthology. Association Montessori Internationale, 1970.

Montessori, M. A Formação do Homem. Kirion, 2018.


Notas:

As notas de fim vêm quase sempre com a referência abreviada. Por favor, refira-se às “Referências” para a referência completa.

[i] Montessori – Education and Peace, Cap. 3.

[ii] Montessori – O Segredo da Infância.

[iii] Montessori – 1913 Rome Lectures

[iv] Montessori – Education and Peace, Cap. 1

[v] Trabalzini, p.5.

[vi] Quem conta a história é Anna Mancheroni, amiga de Montessori, e a história é citada no livro de  Trabalzini, p.7.

[vii] Trabalzini, p.7

[viii] Fresco, G. Maria Montessori: uma storia attuale, p.20 apud Trabalzini, p.8.

[ix] Depoimento de Helen Henny.

[x] Schulz-Benesch, G. The Adventure of a Life in the Service of the Child. In Basic Ideas of Montessori’s Educational Theory. Clio: Oxford, 2003.

[xi] Trabalzini, p.14, nota de fim de capítulo nº14.

[xii] Babini.

[xiii] Trabalzini.

[xiv] Kramer, p.42-3.

[xv] Babini.

[xvi] Montessori – Absorbent Mind.

[xvii] Sessão sobre a lei de 1874 até a lei de 1904, Wikipedia: https://it.wikipedia.org/wiki/Ospedali_psichiatrici_in_Italia#Dal_1874_alla_legge_n._36_del_1904

[xviii] Schulz-Benesch.

[xix] Montessori – The Montessori Method

[xx] Montessori – The Montessori Method.

[xxi] Kramer, p.89.

[xxii] Kramer, p. 89.

[xxiii] Montessori, M. The Montessori Method, p.38

[xxiv] Trabalzini, p.19

[xxv] Kramer, p.92

[xxvi] Kramer, p.92

[xxvii] Trabalzini, 28

[xxviii] Montessori – Maria Montessori Sails to America, p.6

[xxix] Kramer, pp. 368-9

[xxx] Kramer, p.94

[xxxi] Montessori – The Montessori Method, p.33

[xxxii] Trabalzini, p.30-1

[xxxiii] Blavatsky, H. P. Chave da Teosofia, Ed. Três: São Paulo. 1973, p.57.

[xxxiv] Trata-se da edição original do livro A Chave da Teosofia, citado anteriormente.

[xxxv] Reconhecemos aqui, de pronto, a forma preconceituosa da expressão no período.

[xxxvi]  Wilson, C. Montessori Was a Theosophist, 1985, disponível em: http://www.kelpin.nl/fred/download/montessori/english/theosophist.pdf, acesso em 11 de agosto de 2020.

[xxxvii] Trabalzini acredita que Montessori e Besant se encontraram no final do século XIX, Kramer, que o encontro ocorreu em 1910.

[xxxviii] Trabalzini, p.31

[xxxix] Babini.

[xl] Trabalzini, p. 40

[xli] Trabalzini, p.43

[xlii] Kramer, 108

[xliii] https://en.wikipedia.org/wiki/1890_Italian_general_election, acesso em 12 de agosto de 2020.

[xliv] Trabalzini, p.45

[xlv] Trabalzini, p. 49

[xlvi] Trabalzini, p.49

[xlvii] Kramer, p.111

[xlviii] Kramer, p.112

[xlix] Montessori – The Montessori Method, p.68

[l] How It All Happened, Montessori, AMI Journal 1970/2-3.

[li] How It All Happened, Montessori, AMI Journal 1970/2-3.

[lii] How It All Happened, Montessori, AMI Journal 1970/2-3.

[liii] Montessori – O Segredo da Infância, pp. 139-40

[liv] Montessori – The Montessori Method, p.44

[lv] Montessori – The Montessori Method, Capítulo 3.

[lvi] Montessori – The Montessori Method, p. 270

[lvii] Kramer, p.146

[lviii] Trabalzini, p.57

[lix] Trabalzini, p.57

[lx] Kramer, 147

[lxi] Kramer, 147

[lxii] Kramer, 156-7

[lxiii] Kramer, 178

[lxiv] Kramer, 180-88

[lxv] Kramer, 196

[lxvi] Trabalzini, Parte 2, capítulo 1.

[lxvii] Montessori – The 1913 Rome Lectures, pp.54-61

[lxviii] Trabalzini, p.111

[lxix] Os últimos parágrafos são todos referenciados em Trabalzini, pp.118-125.

[lxx] Trabalzini, cap.2, parte 2.

[lxxi] Hobsbawm, Era dos Extremos, Cap.4

[lxxii] Trabalzini.

[lxxiii] Relatório final de Trabalho de Graduação Individual de Gabriel Merched Salomão, não publicado. O autor trabalhou sobre três edições de “Il Metodo”, analisando especificamente as passagens sobre a Lição do Silêncio. Argumenta que o texto publicado durante o fascismo traz uma carga semântica que se conecta aos sentidos do interdiscurso relativos à repressão e à luta pela liberdade.

[lxxiv] Trabalzini, p.131

[lxxv] Trabalzini, p.131

[lxxvi] Marazzi.

[lxxvii] Montessori – A educação e a paz, p.39 (Ed. Papirus, 2004).

[lxxviii] Trabalzini, 159.

[lxxix] Marazzi.

[lxxx] Marazzi.

[lxxxi] Trabalzini, 160

[lxxxii] Trabalzini, p.159

[lxxxiii] Rubí e Garcia, the spread of the maria montessori method in catalonia, 1914-1939.

[lxxxiv] Rubí e Garcia, The photography and propaganda of the Maria Montessori method in Spain (1911–1931).

[lxxxv] Rubí e Garcia, the spread of the maria montessori method in catalonia, 1914-1939.

[lxxxvi] Em https://www.operanazionalemontessori.it/montessori/maria-montessori/le-opere, acesso em 27 de agosto de 2020.

[lxxxvii] Montessori – Psychoarithmetic.

[lxxxviii] Kramer, 332-337

[lxxxix] ESF. Montessori in India, Pre-reading Material for the Fifth Assembly of Educateurs sans Frontières, Hyderabad, 2016.

[xc] ESF. Montessori in India, Pre-reading Material for the Fifth Assembly of Educateurs sans Frontières, Hyderabad, 2016.

[xci] Trabalzini, p.165

[xcii] Trabalzini, 164-168

[xciii] Kramer, p.343

[xciv] Kramer, p.346

[xcv] Kramer, p.345

[xcvi] Kramer, p.346

[xcvii] Montessori – Creative Development in the Child, V.1, p.80

[xcviii] Montessori, Creative Development in the Child, V.1, p.76

[xcix] Montessori – Absorbent Mind, p.26

[c] Montessori – Absorbent Mind, p. 17

[ci] Trabalzini, 163

[cii]  Montessori – To Educate the Human Potential, p.3

[ciii] Trabalzini, p.169

[civ] Trabalzini, p. 169

[cv] Trabalzini, p.170

[cvi] Trabalzini, p.170-1

[cvii] Montessori – La Scoperta del Bambino, p.326 – o trecho está ausente da tradução para o português de 1965 e 2017, sendo substituído por outro, com sentido distinto.

[cviii] Montessori – La Scoperta del Bambino, p.345 – o trecho está ausente da tradução para o português de 1965 e 2017, em que o capítulo se inicia no parágrafo seguinte.

[cix] Kramer, p.366

[cx] Trabalzini, p.172

[cxi] Trabalzini, p.172

[cxii] AMI. Maria Montessori: A centenary anthology.

[cxiii] AMI. Maria Montessori: A centenary anthology.

[cxiv] Artigo 227 da Constituição Brasileira

[cxv] Montessori – A Educação e a Paz, p.41

[cxvi] Montessori – A Formação do Homem, pp.15 e 21.

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