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Sobre Montessori e Não Ajudar Crianças

Maria Montessori dizia: “Nunca ajude uma criança em algo que ela acredita que pode fazer sozinha”. Mas neste texto eu quero falar de outra coisa. Quero falar sobre não ajudar a criança mesmo quando ela não acredita que pode fazer sozinha. É estranho e difícil, mas vamos juntos.

No mundo ideal, todas as crianças teriam lares montessorianos com famílias cheias de tempo e escolas montessorianas com professores muito bem formados. No mundo do nosso dia a dia, não é assim sempre. Se no mundo ideal, todas as crianças se desenvolveriam bem, com autoestima forte, independência ativa e poder sobre a próprias ações, no mundo do dia a dia quase todas elas vivem enclausuradas em mundos de fantasia, dependência e inércia por anos a fio – até que um dia algo muda em nós, e decidimos ajudar a independência a acontecer.

Nessa altura (na altura dos quatro, cinco, sete, nove anos), a criança já está mais do que acostumada a ser incapaz e incapacitada, nula e anulada, e ajudada o tempo todo. Ela já perdeu a confiança na própria força e na própria ação faz muito tempo. E é nesse cenário triste que entramos, querendo transferir a ela responsabilidades importantes que por tempo demais, percebemos, roubamos para nós. E aí é difícil, porque ela acredita, sinceramente, que não pode, não consegue e não deve se esforçar para poder e conseguir. Precisamos do triplo de paciência que precisaríamos se tivéssemos agido corretamente desde o começo, mas há trabalho a fazer e paciência a cultivar, e vamos em frente.

Dois Modos de Não Ajudar

Há, é claro, mais de uma maneira de não ajudar crianças. Uma é não dar importância ou estar impossibilitado de ser de ajuda a ela: é o caso de adultos que preferem deixar a criança fazer como quiser ou puder a serem eles a ter o tempo ocupado pelas necessidades infantis, e também o caso do adulto que adoraria estar com a criança, mas trabalha de sol a sol, e as crianças precisam ser independentes para sobreviverem.

Outra forma de não ajudar crianças, aquela que defendemos em Montessori, exige a presença total de um adulto que faz três coisas: prepara o ambiente e os objetos; demonstra ou apresenta a forma correta de fazer; e observa a ação da criança. Isso é necessário em qualquer situação de não ajuda.

Em uma situação boa, em que a criança seja ainda nova (até mais ou menos três anos) e esteja começando a conquistar sua independência física, basta a demonstração e a disponibilidade dos objetos necessários, e se não houver maiores empecilhos, a criança busca a ação independente. Nós vamos tratar do outro caso.

É comum que uma criança de cinco anos não acredite que é capaz de fazer qualquer coisa por si mesma, porque fizemos por ela, ou com ela, por muito mais tempo do que ela precisava que fizéssemos. Nesse caso, a experiência me mostrou que há alguns passos a seguir:

Primeiro, é necessário picar a ação em pedaços ainda menores. Se, por exemplo, o desafio é colocar uma camiseta, para uma criança que não acredita em si, colocar uma camiseta é muito. Então picamos. Ela precisa só colocar a cabeça, o resto nós fazemos com ela. No outro dia, a cabeça e o segundo braço, depois a cabeça e o primeiro, e depois a cabeça e os dois braços.

Aos poucos, ela conseguirá fazer tudo, mas é muito possível que ainda insista que não consegue, e não aceite nossas afirmações de que ela é capaz, sim. Nesses casos, novamente a experiência me ensinou alguns passos possíveis.

Podemos só insistir: “Consegue sim, coloca”. Ou podemos insistir nos passos: “Claro que consegue, vamos, a cabeça, isso, agora um braço… o outro… [sorriso]!”. Ainda podemos narrar: “Vamos lá, coloca a cabeça, isso, pelo buraco, agora vamos achar o buraco da manga. Esse. Um braço… agora vamos… isso, no outro, vai lá… pronto? Então tá bem”. Em todos esses casos, o que fazemos é uma coisa só: garantir que a criança não foi abandonada porque foi independente.

A criança que depende do adulto por tempo demais desenvolve em relação a ele um apego que nada tem daquele apego importante e saudável da relação entre pais e filhos. Trata-se de um apego feito todo de dependência e insegurança. A criança tem mesmo medo de, num momento qualquer, não poder mais contar com o adulto. E a forma de dar a ela a garantia de que isso não acontecerá mesmo que ela avance rumo à independência é transformar a ação física em ação narrativa. Ficamos por perto, participando da experiência com a voz. Até que, claro, não ficamos mais.

Há momentos em que condicionar uma ação futura à independência presente ajuda. Por exemplo, para ir a um parque, é necessário vestir as meias. A criança pode insistir que não sabe – mesmo sabendo – vestir as meias. E nós podemos explicar que para ir ao parque é necessário estar de meias, e que nós sabemos que ela é capaz e vamos ficar por perto, junto, até ela conseguir para a gente sair junto para o parque. Não se trata de uma ameaça ou uma chantagem. Ninguém vai deixar de ir ao parque. Ninguém disse que se ela não colocar a meia sozinha não vai ter parque. Não. Dissemos que meias são necessárias e ficaremos por perto até ela conseguir. Oferecemos a justificativa para o esforço e a presença para a segurança emocional.

Isso parece contrariar a teoria básica de Montessori porque contraria mesmo. Nesse caso, estamos consertando algo que não deu certo – estamos tratando de feridas. Os cuidados para com um enfermo não são os cuidados para com alguém que está bem de saúde, e a não-ajuda da criança excessivamente independente é diferente, pela mesma razão, da não-ajuda oferecida à criança que conquista sua independência com tranquilidade.

O que nós não podemos fazer é decidir que, porque é muito mais rápido vestir a criança, ela vai ter que aprender a ser independente mais tarde. Não podemos decidir que “o que é que tem ele querer minha ajuda? Ele gosta!”. E não podemos decidir que “Eu quero é aproveitar agora que ele quer minha ajuda, depois não vai me querer nem por perto e eu vou sentir saudades”.

Porque isso importa

Não ajudar a criança é uma maneira de confiar nela. É confiar é uma forma de amar. É a certeza desse amor, dessa confiança completa depositada nela, que vai oferecer uma base segura sobre a qual pisar até que ela se torne independente o suficiente para firmar uma autoestima saudável e sólida, que não dependa mais de nossa narrativa nem de nossa aprovação.

Evitando o julgamento, a imposição e a chantagem, tratamos a criança com o máximo de respeito e a independência como um fator natural da vida, não mais desagradável do que qualquer outro, nem mais urgente por qualquer motivo. E sendo um fator natural da vida, ela perde seus perigos e pode ser conquistada com certeza e força interior.

A construção da independência é a construção do eu e a formação do humano. Nosso papel de não-ajudantes é crucial, e tanto mais urgente quanto mais tarde é na vida de uma criança. Negligenciar a importância da independência é um erro que não devemos cometer, claro. Mas se por desconhecimento ou impossibilidade esse tempo já passou, há muito o que fazer, e nós podemos acreditar na criança – esse parece ser um importante passo para que ela acredite nela mesma.

Até mais!

A Humilhação do Adulto

Em A Criança, Montessori nos impele a um alto grau de aperfeiçoamento interior:

A preparação que nosso método exige do professor [adulto] é o autoexame, a renúncia à tirania. Deve expelir do coração a ira e o orgulho, deve saber humilhar-se e revestir-se de caridade. Estas são as disposições que seu espírito deve adquirir, a base da balança, o indispensável ponto de apoio para seu equilíbrio. Nisso consiste a preparação interior, o ponto de partida e a meta.

Para ela, os defeitos adultos mais nocivos à criança eram a ira e o orgulho, que juntos produzem a tirania. Por um momento, considere o orgulho que você tem de ser adulto. Considere a ênfase com que felicitamos uma criança porque ela cresceu e pense em como rimos graciosamente dos esforços de bebês e crianças em vídeos de YouTube enquanto eles aprendem aquilo que há muito já sabemos. Há, em nós, uma compreensível sensação de sucesso por termos chegado onde chegamos, e a também compreensível impressão de que somos de algum modo superiores, porque somos maduros. De alguma maneira, enxergamos em nós mesmos a perfeição ainda não alcançada pela criança pequena, tão cheia de inabilidades e incompetências.

Esse orgulho pode ser grande. Muitos de nós temos orgulhos grandes. E a vida com uma criança é difícil quando nossos orgulhos são inchados. Um orgulho pequeno se machuca pouco, é difícil de ser atingido e ferido, e sofre somente de quedas pequenas. O orgulhão não. Esse é ferido por qualquer coisa, mesmo que por acidente. Ele é grande demais e fica no caminho das ações da criança. Quando ela desobedece, quando demora mais do que alguns segundos para seguir uma ordem, ou quando opta por um caminho diferente do que sugerimos, tudo isso atinge o orgulho grande. Quando ela enfrenta, desafia, responde, nega e pergunta, o orgulho grande se sente oprimido, porque vê no comportamento independente e livre da criança uma ameaça à sua frágil soberania.

Ocorre, infelizmente, que o orgulho, se ferido, ira-se. Perde a calma, a compostura e a gentileza. O orgulho é medroso, fraco e inábil, se embaraça todo quando algo o contraria, como um rei-palhaço, e sua irritação seria risível se não fosse trágica. É pena que seja trágica. Quando o orgulho ferido se torna raiva, usa do que tiver à disposição: o olhar cruel, o grito, as mãos, o autoritarismo punitivo e o cinismo crudelíssimo do adulto irônico contra a criança que não pode ainda compreender ironias e perguntas retóricas. O orgulho é uma muralha que não permite a participação da compaixão no nosso comportamento.

O rei absolto nesse território murado e protegido contra o sofrimento do outro é o adulto despreparado. O tirano. O tirano é um produto desatento dos conselhos do orgulho e das ações da ira. Isso é verdade para os reis históricos e para os monarcas domésticos. É difícil abrir mão do trono, mas o caminho para a vida além das muralhas passa por isso. Passa pelo abandono de nossa posição de poder, certeza e proteção ilusórias, e pela caminhada, rente ao chão, na direção da verdadeira vida, pelo caminho de poeira, luz e esperança. O caminho em direção à vida é o caminho da humilhação.

Humilhação tem, na sua raiz, o húmus. A terra. Humilhar-se é descer à terra. Descer ao chão. Ajoelhar-se diante do menor entre nós e olhá-lo nos olhos com absolta reverência. É essa a única entrada para uma nova vida: nossa e da criança, doméstica e universal.

Em uma primeira, segunda e centésima leitura, soou-me estranha a ideia da humilhação no texto de Montessori. Eu não conseguia entender ou aceitar. Humildade, sim. Humilhação, dificilmente. Soava-me absurdo que para enxergar a dignidade da criança fosse necessário abrir mão da minha. Achava, eu, que era possível e necessária a existência das duas concomitantemente. Na ignorância de que existe uma dignidade superior àquela comum e orgulhosa, eu resistia a abrir mão desta pela humilhação conhecida, por medo do que viria depois. Eu não sabia que era possível atravessar a humilhação e encontrar uma dignidade mais bela, mais forte, completa e imponente do que aquela a que eu me apegava miseravelmente.

E então, Fábio deixou cair uma bolinha debaixo de uma cama elástica, na lama. Fábio é nome fictício, e ele tinha cerca de dois anos e meio. A cama elástica estava no parquinho de uma escola, e a bolinha era laranja com relevo em azul. O menino recorreu a mim para socorro, sem conseguir ainda articular frases inteiras. Eu entendi o geral da situação, porque assisti a tudo. Disse que ele podia ir, e eu olharia de longe. Não. Medo. Eu tinha de ir junto. Naquele dia, porque trabalhava com crianças, vestia uma camisa social, calças novas e sapatos. E a bolinha estava na lama. Mas Fábio tinha medo. E eu, sem pensar muito, dobrei as mangas da camisa, apoiei os joelhos na terra (húmus…) e fomos juntos até o meio do caminho, em quatro apoios. De lá, ele seguiu sozinho até o meio da cama elástica e pegou a bola. Voltou confiante e feliz, sorrindo e abraçando. Me abraçando, a mim, que estava sujo e não sabia bem como ficar limpo de novo. A professora dele me perguntou, depois, se era aquilo que Montessori queria dizer com “deve saber humilhar-se”. Eu não sabia responder.

Mas era. A humilhação do adulto acontece no chão. Quando nos ajoelhamos na lama no meio de um dia de trabalho cheio de reuniões porque uma criança precisa de apoio moral. Quando sentamos na calçada porque nosso filho viu uma formiga carregando uma pétala de flor. Quando esperamos, sob sol quente e suor salgado, enquanto nossa criança sobe e desce de um degrau na calçada, cinco, dez vezes. Quando na noite de Natal deixamos o sofá para estar com os pequenos no chão, e deitamos para colaborar na montagem de uma estrutura difícil de erguer com blocos e peças de encaixar. Só descendo de nossos tronos de testa sem suor, calças sem manchas, e sofás socialmente bem-vindos é que poderemos ver o mundo sem orgulho.

Trata-se de um caminho sério. É um ponto de partida e uma meta. A humilhação não é o começo, para depois melhorar. Ela é a coisa toda. E a dignidade que surge também não surge só mais tarde. Ela surge desde o começo. Nossa dignidade não vem mais dos olhos adultos, que não compreendem que o mundo só pode ser transformado quando descemos ao chão. Ela vem dos olhos da criança, que compreende nosso esforço, valoriza imensamente nossa dedicação, e surpreendentemente admira o adulto que por ela deixa de lado todo o orgulho, a ira e a tirania. Descobrimos, com um misto de surpresa e encanto, que nossas sugestões são então obedecidas como ordens, e que nossas ordens são quase mandamentos. Porque a criança nos viu, e nós vimos a criança, agora podemos falar e ouvir como não podíamos antes.

É claro, deve-se dizer, que nada disso significa abandonar os limites que se deve ensinar aos pequenos. Prejudicar-se, prejudicar outros seres vivos ou prejudicar o ambiente não pode jamais ser permitido ou tolerado, em nome da compaixão é que algumas ações da criança precisam ser interrompidas e é nossa responsabilidade ajudá-la a compreender o certo e o errado. Mas essas leis não são nossas. São leis do mundo, desde tempos imemoriais, e não são impostas por reis, mas pelo coração do humano: fazer bem a si, ao outro e ao mundo. É impossível ensinar isso por meio da tirania, com ações iradas dirigidas por um orgulho insano. Um bom caminho só se faz com passos bons, um de cada vez, não chão, na terra viva, que é húmus.

Primeiros Passos de Montessori em Casa

Vamos fazer um favor a nós dois. Antes de começar a leitura deste texto, pare por um momento, e respire profundamente, duas ou três vezes. Sinta seu corpo, e relaxe. Eu também farei isso antes de escrever.

Pronto. Nós precisamos começar em paz, aqui. A mudança que vamos fazer em casa é essa: antes da respiração e depois da respiração. Mas vamos fazer isso no ambiente físico, dessa vez. Se você quiser ler sobre paz e comportamento, pode ir aqui ao lado e buscar o assunto que te interessa.

A casa montessoriana é simples. Muito, muito simples. Nem sempre fácil, é verdade. Mas não é complicada. O nosso objetivo mais amplo é gerar liberdade, e para Maria Montessori, liberdade é um conjunto de “condições favoráveis à vida”. A liberdade de uma árvore é equivalente à chance que ela tem de seguir sua própria natureza, ser nutrida pela Terra, alimentada pelo Sol, envolvida pelo ar e hidratada pela água. Pouca Terra, muito ou pouco Sol, má qualidade do ar ou água em excesso tiram a liberdade da árvore, porque a impedem de seguir os rumos naturais de seu desenvolvimento. Com as crianças, há diferenças individuais importantes, mas há condições básicas para a vida que, se puderem ser garantidas, permitirão um desenvolvimento livre de obstáculos maiores e, portanto, uma liberdade profunda e ampla.

O primeiro aspecto a que devemos prestar atenção é a liberdade para satisfação de necessidades biológicas básicas. A criança deve poder sobreviver em sua casa. Para isso, precisa comer, beber, dormir e realizar suas necessidades. Um primeiro passo interessante, na cozinha, pode ser deixar um ou dois potes pequenos com quantidades de alimento pronto para consumo (pedaços de frutas, verdura ou torradas servem bem) e utensílios simples de cozinha, como um prato e dois talheres disponíveis. A mesma coisa pode acontecer com líquidos, água ou suco, e uma jarra e copo. Aos poucos, é claro que você pode adicionar guardanapos, mais talheres, taças, vasilhas e recipientes diferentes. Mas comece devagar, em paz.

Vai ser importante ensinar a criança a usar cada uma das coisas que você adicionar à sua cozinha. A partir do momento em que ela consegue andar e pegar ou carregar coisas, isso já pode começar a acontecer. Se os pratos de porcelana e vidro ainda assustam você, use plástico por algumas semanas ou meses, mas ensine a criança a segurar essas coisas com cuidado (mostre, lentamente e em silêncio, como se faz) e depois de algum tempo, faça a mudança. Coisas que quebram nos ensinam o movimento cuidadoso, e isso importa. Uma mesinha com uma cadeira pequena são opções boas e válidas, se você puder adicionar isso à sua casa. Se não couber, tudo bem usar a mesa maior – não é tão fácil, nem é tão agradável para a criança, e uma quantidade maior de acidentes pode acontecer, tenha um pouco de paciência com os esforços da criança, e ensine mais do que corrija, demonstrações funcionam muito melhor do que broncas e repreensões.

No quarto da criança, o acesso também importa. Dormir suspenso em uma altura maior do que a sua e cercado por grades não é uma opção interessante. Para um adulto, essa reclusão seria um castigo indigno e humilhante, e por isso não forçamos a criança ao berço. Usamos uma cama no chão. Pode ser um colchão no chão, sobre um estrado ou borracha, ou pode ser algo um pouquinho mais estruturado, mas ainda bem baixinho, sem nenhuma proteção que impeça a queda – especialmente depois dos quatro meses – e sem nada que impeça a entrada e a saída da criança. Essa cama assim baixinha importa especialmente até os três anos, enquanto a criança é realmente pequena demais para alcançar com sossego uma mais alta.

Quanto ao banheiro, basta um banquinho. Um adaptador para o vaso é uma opção interessante, um facilitador útil para algumas crianças. Se a sua criança não quer usar e prefere se apoiar diretamente sobre o suporte adulto, isso não é um problema. Um banquinho ajuda as pernas e descansarem enquanto ela está sentada, ou a alcançar o vaso de pé, assim como possibilita o acesso a pia, então é uma modificação útil e importante.

Pronto. A sobrevivência da criança está garantida. Agora, podemos passar ao seu bem estar. Sobretudo, a criança pequena depende de atividade para se sentir bem. Agir com as mãos, com propósito e controle sobre os seus movimentos traz à criança serenidade, equilíbrio e alegria, suportes muito importantes para um desenvolvimento saudável da personalidade.

Em um retorno breve ao quarto, podemos olhar além da cama. Nele, há um espelho na parede, que fiz horizontal enquanto a criança engatinha, e vertical quando ela já fica em pé, e que vai ser importante para a identificação do rosto, dos movimentos, das expressões, e para o desenvolvimento de um senso estético saudável quanto a roupas, no futuro. À frente desse espelho, que tem cerca de um metro por cinquenta centímetros, pelo menos, podemos instalar uma barra de cortina forte, a mais ou menos 50cm do chão, para que a criança que está aprendendo a andar se erga com mais facilidade. Isso não é essencial, mas colabora para que a criança treine com segurança esse movimento, e use menos os outros suportes acidentais casa afora.

No guarda-roupas do quarto, podemos usar as partes mais altas para roupas que a criança não deve acessar, e podemos deixar a seu alcance uma seleção de peças entre as quais ela possa escolher o que vestir no dia a dia. Trocamos essas peças, evidentemente, a depender das opções que podem existir para a criança e, aos poucos, ensinamos a lidar com mais opções e com aquelas roupas que, mesmo podendo ser alcançadas, não podem ser usadas em tais e quais situações.

Repare que há poucos, pouquíssimos, brinquedos nesse quarto. Cinco, seis são suficientes. Muito mais do que isso e a confusão começa a reinar. Deixe disponíveis brinquedos com que a criança efetivamente brinca, e guarde para depois, ou doe, aqueles que já/ainda não interessam. Opte sempre por brinquedos que não brinquem sozinhos, por peças que dependam da criança para funcionarem como brinquedos e por objetos interessantes que só se movam ou façam coisas quando a criança faz, e nunca sem ela. Importa mais o brincar do que o brinquedo, e o que a criança busca é a ação com propósito.

Na cozinha, que começamos a preparar acima, há infinitas possibilidades de atividade. A criança pode nos ajudar com afazeres inicialmente simples, e depois mais e mais complexos, e pode ela mesma desenvolver ações independente de nós. No começo, a criança sobe em uma cadeira ou usa sua mesa baixinha, e nos ajuda a cortar bananas, ou a colocar legumes picados em uma panela, ou a misturar a massa de um bolo e de um pão. Com o tempo, felizmente, ela aprende as receitas, os modos de fazer e os pressupostos básicos de uma cozinha simples, e passa ela mesma a preparar saladas, biscoitos e lanches para si e para os outros, com cada vez menos ajuda adulta.

Aqui, vale ter em mente: para a criança, é importante treinar antes de fazer. Por isso, vale a pena estruturar algumas atividades de exercícios práticos. Alguns exemplos: dois copos para que a criança passe água, ou grãos, de um para o outro; duas vasilhas com bolinhas de madeira ou pedras, para que a criança transporte com um pegador; dois recipientes com água e uma esponja, para a criança passar a água de um para o outro; uma jarra e dois copos, para que a criança aprenda a distribuir a água igualmente e sem derramar… As opções são inúmeras, como as possibilidades de uma cozinha. Você notará que também para a limpeza da casa e das roupas há opções de atividades a desenvolver. A criança nos mostra o que lhe interessa treinar, e nós só temos que dar a estrutura física necessária (lembre-se: o tamanho dos objetos e a beleza importam para a criança). Quando a atividade estiver pronta, mostre em silêncio e bem devagar como é que se faz, e não se preocupe se a criança não se interessar imediatamente. Você pode mostrar mais de uma vez e, em algum momento, talvez distante da apresentação, ela se interessa – ou não, e aí tudo bem também, é só mudar a atividade.

Claro, há atividade para além da cozinha: pode-se varrer, lavar, esfregar, pendurar, plantar, regar, alimentar, limpar, lustrar, polir, colar, cortar, guardar… Tudo o que se faz na casa é atividade, e interessa para a criança pequena. Conforme você observa sua criança, isso fica claro, e fica claro também o que é que se pode fazer junto. É bom perceber sempre que o interesse da criança é muito mais o processo do que o produto, e que ela pode ter que experimentar muitas vezes antes de acertar – e repetir muitas vezes depois. A criança se interessa pelo mundo porque o mundo ajuda no seu desenvolvimento. O interesse verdadeiro é interior.

Pronto. Esse é só um texto de primeiros passos. Há muitos mais em uma caminhada do tamanho da vida. Mas esse começo é como uma respiração: depois dele, fica tudo mais fácil, mais claro e mais cheio de paz. Boa sorte!

Entrevista sobre Montessori

Queridos leitores,

já faz tempo que eu tenho vontade de publicar alguns áudios aqui no Lar Montessori, para que as pessoas que não podem parar para ler possam ouvir enquanto fazem suas vidas. Na semana que passou, acho que uma excelente oportunidade se ofereceu. Fui convidado a dar uma longa entrevista à rádio Spaço Livre, em Farroupilha, no Rio Grande do Sul. Na entrevista de uma hora e quinze minutos, foi possível abordar muitos temas importantes em Montessori – para casa, para a escola montessoriana e para a escola tradicional. Se você quer fazer uma revisão de Montessori ou escutar uma introdução sucinta e boa, eu sugiro essa entrevista. O jornalista responsável foi generoso nas perguntas e na condução de toda a conversa, pelo que sou grato.

Escute aqui:

 

Slides sobre Natureza

Recentemente, ministrei uma palestra sobre Montessori e Natureza. Para ver os slides, que ficarão disponíveis aqui por alguns dias, clique no link:

https://docs.google.com/presentation/d/1yCrwZb12xzzHwtug_oxfGmm_aZ1bigsJOKgsUzk3_q8/edit?usp=sharing

 

 

Sentar e Olhar a Vida

Quando tenho a chance de visitar casas e escolas e preciso fazer análises de ambientes, aprendi a ter sempre a mesma atitude: sento-me. Esse texto é sobre isso. Sobre quanto precisamos sentar, em nossas vidas com as crianças, para que tudo corra em paz.

Hoje em dia, vivemos bastante sentados. Sentamos diante da televisão, do computador, em grande parte do tempo que passamos nos transportes diversos, em salas de aula, no trabalho, em reuniões, nas casas de amigos, bares e restaurantes, cinemas, teatros. Praticamente tudo aquilo que envolve nossa existência acontece enquanto estamos sentados. E é contemporâneo defender que devemos ficar mais em pé. O que quero sugerir está no meio. Por um lado, devemos concordar com quem diz que passamos tempo demais em cadeiras. Por outro lado, a solução não está só em ficar de pé. Nós também podemos sentar no chão. Quanto sentamos no chão, tudo muda muito de figura.

Olhando a partir do chão, o que era baixo ganha altura, o que tinha “altura normal” fica inalcançável, e o que estava no alto fica invisível. A perspectiva se altera, e as coisas que eram belas vistas de cima são diferentes se vistas de baixo. A casa cuidadosamente decorada de repente não combina mais, é muito cheia, ou muito monocromática. Um espaço por onde nos movíamos sem problemas e o campo de visão amplo são agora interrompidos por obstáculos que impedem os olhos de ver e o corpo de agir.

Sentar liberta. Liberta na medida em que deixamos de ser prisioneiros de nosso ponto de vista mais comum. Nem sempre nos damos conta, mas ver a vida sempre do mesmo jeito é uma prisão. Ver tudo do mesmo jeito, por melhor que seja o jeito, vicia a interpretação da vida e a ação possível. Isso não vale só para a criança, é verdade para a comida, o trabalho, o transporte e tudo o mais. Mas quando pensamos na criança, isso é especialmente verdadeiro. Ver a criança sempre do mesmo jeito (como a esperança do futuro, ou como um ser em evolução, ou como o retrato da perfeição, ou de qualquer outra forma) vicia nossa ação e nos impede de ver a criança de um outro jeito ainda: como um ser em perpétua transformação que precisa de um observador em metamorfose para ser compreendida.

A gente não compreende uma criança que muda ficando igual.

Por isso precisamos sentar no chão. Porque sentar no chão é uma coisa que a gente faz pouco. E fazer coisas que a gente faz pouco mexe com a cabeça, faz com que adotemos de novo a cabeça da criança, a cabeça do iniciante. Não existe mente melhor para aprender do que a mente do iniciante: fresca, bem disposta, inocente, humilde, pronta, ativa, rápida, vazia. A mente de iniciante nos permite olhar em volta e ver um mundo novo.

Primeiro, podemos sentar no quarto. A decoração, que parecia mínima quanto olhada da altura adulta, agora é muito maior. As paredes talvez tenham muito menos espaço em branco vendo daqui, e os obstáculos que nem pareciam existir ficam muito mais claros. Os brinquedos pelo chão, que eram pequenos objetos quase bidimensionais, ganham sua terceira dimensão e são vistos com a mesma clareza que vemos uma escrivaninha com tudo bagunçado, ou uma sala cheia de mobília desorganizada. Os caixotes de brinquedos que nos lembravam organização agora lembram, vistos de perto, uma casa em dia de mudança. A cama que era tão baixinha agora tem uma altura respeitável que, embora possa ser superada até com alguma facilidade, já não é mais como um desnível do chão: é todo um móvel com características só suas e dimensões dignas. Podemos fazer o mesmo pela casa toda. Às vezes nos surpreendemos muito positivamente.

Sentamos na varanda. Entre meia dúzia de pequenos vasos e duas ou três coisinhas de área externa, com água ou tinta. Aquela varanda era tão pequena, dava para tão pouco, acabava em um passo só. E de repente aumentou. Quando a gente senta, a varanda fica grande. Agora, o chão está próximo, deixou de ser só a área dos nossos pés e se tornou a área das nossas mãos. Com uma folha de jornal estendida no chão, podemos transplantar as ervas daninhas todas para um vaso só, podemos semear, fazer sementeiras para os amigos, vizinhos e parentes, podemos triturar adubo orgânico ou misturar os restos triturados para nossos pequenos vasinhos de tempero que deixam de ser o sonho da casa no campo para por um momento virar natureza de verdade ali-tão-perto. Porque estamos sentados, a folhagem baixa das nossas floreiras pequenas esconde o mar de cidade lá fora, e estamos noutro mundo, noutra vida. Sentados.

Se tivermos coragem, ou se desejarmos desafio, podemos sentar na rua. Sentar na rua com nossas crianças é transformador. Há plantas, animaizinhos, degraus, rachaduras, coisas minúsculas que para nós parecem falhas e para a criança são portais para a realidade. Há quem diga que Montessori é bolha. Bolha é o mundo em que vivemos e que nos isola da natureza e de nós mesmos. Mas é uma bolha que fica estourando o tempo todo, em cada rachadura de calçada onde uma flor pequena nasce. Quando eu era pequeno colhia uma florzinha para a minha avó – hoje eu moro onde minha avó morava e dois quarteirões para cima essa florzinha ainda nasce, nas rachaduras entre a calçada e a parede, numa casa de esquina. Mas a gente só descobre essa flor de dois jeitos: sendo criança e sentando no chão.

Montessori defendeu que o adulto deveria se livrar de toda a ira e todo o orgulho, se desfazer de toda a tirania, se vestir com caridade e humilhar-se. Se eu entendi bem, e aos pouquinhos eu vou entendendo essa proposta, nós precisamos de uma transformação profunda. Eu não proponho que ela vá ser fácil, mas acredito mesmo que ela começa conosco sentados no chão. Sentar no chão da calçada com sua criança bem pequena, enquanto ela brinca de passar um galho em barras de ferro no portão ou pula e sobe e pula de novo o degrau do desnível das calçadas de casas diferentes… Isso, aos olhos do mundo, é humilhação. Aos olhos da criança, é ser o maior e melhor humano que o mundo já viu. Aos nossos olhos, se quisermos, pode ser um revolucionário ato de amor. Amor pela criança, pela vida, pelo que existe de verdade, pelo que somos e nos esquecemos.

Assim, sentando no chão algumas vezes por dia, vamos nos dando conta de quanto nos escapa. É toda uma dimensão do mundo que foge à nossa vista. Como nossa mente não funciona em pedaços, ela aprende rápido: depois que a exploração por dimensões ignoradas começa, ela não para mais. O olhar muda em todas as coisas, em todas as direções. Ele muda para além do espaço, e vemos o tempo de outra maneira. Ele muda para além do que só existe, e vemos a vida de outra forma.

Num golpe de sorte daqueles que tiram nosso chão, estaremos sentados e veremos, frente a frente, os olhos maravilhados de nossas crianças. E aí tudo ficará espantosamente claro: a mente de iniciante delas é essa, que vive pertinho do chão. Ela não perde tempo, ela vê o tempo de perto e de perto tudo é maior. Ela não é desastrada. Os obstáculos do ponto de vista dela são outros. Ela não é preguiçosa. O mundo olhando de baixo é maior. Ela não é medrosa. O mundo visto do avesso é esquisito mesmo. E nossa visão de mundo fica de cabeça para baixo. Olhando de baixo para cima é outro mundo que se vê.

Mas é olhando de baixo para cima que vemos o céu. É olhando de baixo para cima que vemos as estrelas que nos guiam, com seu brilho nos olhos das crianças. Aprender a sentar, aprender a olhar, aprender a ver a vida com olhos de iniciante. Não é pouco, mas podemos começar sentados.

Montessori: Uma Vida de Revolução Pacífica

Publicado em

Novembro de 1907. Em um bairro muito pobre, de famílias trabalhadoras e majoritariamente analfabetas, Montessori está com a professora de uma sala de sessenta crianças, de três a seis anos, brincando à sua volta, quando pede a um garoto a quem entrega um pedaço de giz: “Desenha-me uma chaminé”, e sai, caminhando, para descobrir o que as outras crianças faziam. Minutos depois, ouve-se um grito de espanto, vindo do mesmo menino: “Eu sei escrever!”. Montessori, verificando o que ocorrera, viu que o garoto de fato tinha escrito, no chão: “chaminé”.

A isso se seguiu que dezenas de crianças de repente descobriram seu dom silencioso e, pedindo pedaços de giz, puseram-se, uma a uma, a escrever pelo chão e pelas paredes do bairro de San Lorenzo. Escreveram, e ao mundo pareceu que faziam coro ao que Montessori já há mais de dez anos dizia incansavelmente: Todos podem aprender, se permitirmos. O evento, de imensa fama por seu contexto incomum, ganhou, na mídia da época, o nome de “explosão da escrita”. Para Montessori, era mais um aspecto do que lhe parecia uma “explosão da alma”.

Essas crianças, que vinham de toda sorte de casas mal estruturadas, com famílias que podiam lhes dispensar muito pouca atenção, e muitas vezes com violência, sem organização, com pouquíssimas condições materiais, mostravam a Montessori e ao mundo o melhor da humanidade. Deixadas em liberdade para trabalhar, utilizando materiais cuidadosamente preparados para sua educação, atingiam um estado de espantoso equilíbrio emocional e psicológico, pareciam mais inteligentes, curiosas e capazes, buscavam sua independência com esforço contínuo. Aos poucos, naquela creche ignorada pelo mundo, se delineava para Montessori o segredo da infância.

Esse segredo, o estado de equilíbrio da personalidade alcançado pela criança por seus próprios e livres esforços, instalou no coração de Montessori a certeza de que as crianças poderiam ser as redentoras da humanidade, e de que o certo a fazer seria deixar tudo para trás e seguí-las aonde fosse necessário.

Não foi fácil. Montessori lutara muito para chegar onde estava: professora na Universidade de Roma, havia sido uma das primeiras mulheres a se formar em medicina na Itália, tinha renome internacional, publicara artigos e um livro e atendia clinicamente como psiquiatra. Abandonou tudo isso quando descobriu que a criança podia muito mais do que se imaginava, para, fundamentalmente, comunicar sua descoberta ao mundo.

Foi nessa pequena escola no começo do século passado que Montessori aprendeu que a paz é o estado humano natural, se a criança for deixada livre para se desenvolver e não se instalar, logo no começo da vida humana, aquilo que Montessori reconheceu em A Educação e a Paz como a raiz de todas as guerras: a que se dá entre o adulto e a criança. O adulto, ela disse em A Criança, precisava antes de tudo extirpar de sua personalidade três coisas: o orgulho, a ira e a tirania. Conjuntamente, era necessário aprender a humilhar-se e revestir-se de caridade.

De um ponto de vista, Montessori teve uma vida política intensa. Com uma inicial colaboração com o governo fascista na Itália, e um posterior arrependimento seguido de um rompimento definitivo, Montessori se viu inviabilizada de trabalhar suas ideias em sua própria pátria. Viajou por muito do mundo conhecido, e embora tenha tido seus trabalhos impedidos em todos os países de governos totalitários (como a própria Itália, a Alemanha e a União Soviética), continuou a formar professores e publicar livros em todo o período das grandes guerras.

Em um episódio especialmente fascinante, Montessori estava na Índia quando estourou a Segunda Grande Guerra, e por ser da nação errada no lugar errado, permaneceu impossibilitada de sair do país por toda a extensão do conflito. Durante todo o tempo, trabalhou, formando mais de 1.500 professores indianos e ministrando as palestras que viriam a se tornar o livro – em nossa opinião o melhor de todos eles – Mente Absorvente.

Não é na recusa ao totalitarismo, entretanto, que se firma a luta pela paz empreendida por Montessori. Essa é uma posição política que derivou inevitavelmente de suas experiências com a criança. Mas não é contra qualquer coisa que a luta pela paz se fez em Montessori. Essa busca foi sempre por uma realidade diferente daquela vivida no período de vida de Montessori, uma realidade que, pela mudança da educação da criança, permitiria um “mundo novo, cheio de milagres”. Temos algum retrato disso em suas obras.

Em seu primeiro grande trabalho pedagógico, O Método da Pedagogia Científica (sem edição em português), ela defende a utilização de uma perspectiva educacional que seja verdadeiramente racional, e se abra para observar a criança pelo que ela mostra, e não pelo que qualquer filosofia exige que ela seja. Esse caminho, para Montessori, permitiria a edificação de uma pedagogia que desse à criança toda a liberdade necessária para alcançar o melhor de si mesma. Nesse contexto, ela propunha já em 1909, os prêmios e os castigos se faziam absolutamente desnecessários. Nem os prêmios recebiam importância, ao olhar da criança apaixonada pelo trabalho em si, nem os castigos eram assim encarados, por crianças que eram ajudadas a todo momento por colegas compassivos e generosos.

Em O Manual da Doutora Montessori (sem edição em português), de 1914, ela nos propõe uma pedagogia simples, do tipo que poderia ser colocada em prática por todo mundo, e em todo o mundo. Não há qualquer complicação teórica no livro – toda a teoria do método só vai aparecendo bem aos poucos e mais tarde – e o que lemos é uma esperança para a educação da criança: com algum cuidado com o ambiente, alguma técnica e poucos materiais especificamente construídos de acordo com princípios de observação científica, Montessori garante ser possível a revolução da educação da criança. No enfoque desse livro, uma educação pautada pelo prazer de trabalhar e pela ausência de um professor que seja um corretor eterno dos erros da criança.

Mais tarde, em A Criança, Montessori faz seu primeiro grande apelo. Toda a humanidade, ela propõe, deve ser colocada em julgamento pelos erros que comete para com a infância. Inúmeras formas de opressão, como os castigos, o excesso de brinquedos, os elogios e a ausência de liberdade, vêm deformando a personalidade humana e impedindo seu desenvolvimento saudável e integral. A solução? Conhecer o segredo da infância. A partir do momento em que o adulto tomasse consciência da potência oculta na criança, sob a carapaça de um comportamento violento e violentado, desordenado e desordenador, consequência de maus tratos e repressões, e visse que verdadeiramente o humano pode ser equilibrado, gentil, esforçado e generoso, não mais trataria a criança como o menor entre todos, mas a veria pelo que é: a esperança e a promessa da humanidade.

Em A Educação e a Paz, lemos uma sequência de apelos aos líderes políticos do mundo todo: vimos guerras e mortes. Se queremos mudar essa realidade, não será suficiente que estabeleçamos leis e tratados, será necessário permitir à criança a realização de seus milagres. É pela revolução da infância, propõe Montessori aqui, que se salva a humanidade. Na infância, ela defende, todos os humanos são iguais. Na infância está o princípio comum de toda a civilização. Se os olhos dos governantes de todos os lugares puderem se voltar à criança com a máxima prioridade e eles souberem estimular em seus países uma educação para a liberdade, para a paz e para a vida, o mundo não precisará ver mais os horrores da guerra, pois que a criança, promessa do futuro, não fará a guerra se não sofrer da guerra com seus pais e seus professores.

Aproximando-se do fim de seu trabalho, Montessori reescreve, em uma quinta edição, sua primeira obra pedagógica, e a chama de A Descoberta da Criança (em português, Pedagogia Científica: A Descoberta da Criança). Em uma última edição, procura condensar uma quantidade de sua pedagogia que “seja suficiente para a aplicação pela professora”. Desenha-se todo um currículo de linguagem, matemática, vida prática e educação sensorial. Sobretudo, no entanto, o que aparece nessa obra de importância inominável é uma proposta revolucionária: aquela mesma simplicidade apontada no início de sua vida profissional aparece aqui outra vez: com muita observação e um pouco de bom senso, alguma técnica e material suficiente – pouco material, ela enfatiza – é possível oferecer à infância uma vida cheia de importância e dignidade. Daí, ela defende, brota a autodisciplina, e somem os problemas da escola tradicional. Todo o problema da atenção e do foco, que a escola comum luta por solucionar, já aparece solucionado nessa alternativa pedagógica, e então podemos ter preocupações muito mais elevadas, com o aperfeiçoamento das condições para o desenvolvimento do ser humano.

Em seu último livro, pequeno e forte, de título A Formação do Homem, Montessori é contundente: hoje o ambiente “devora e tritura o homem”. Para um mundo novo, será necessário que todos os seres humanos tenham domínio sobre seu ambiente, sem que alguns possam se aproveitar de outros, e que os proprietários do mundo sejam onipotentes como deuses. Desde a mais tenra infância é de fundamental importância que a humanidade se desenvolva em um ambiente de liberdade e que as fascinantes qualidades da personalidade humana possam se manifestar, excluindo, assim, do futuro, a possibilidade da continuidade da opressão social entre os adultos – essa também tem suas origens na opressão da criança, e pode então ser extirpada não por uma luta contra a opressão, ou não somente por aí, mas por uma educação a favor da liberdade, da paz e da vida.

Que neste aniversário de Montessori, algo de suas inúmeras mensagens nos fale à alma, e que possamos, em todo o ano que virá, nos dedicarmos com tudo o que somos à construção da paz no mundo por uma educação que permita milagres, que tenha suas bases no fascínio e no amor, assim como na cientificidade e no estudo profundo do segredo da criança. Que as exageradas profecias de uma mulher que, em 1907, acreditava que em uma escola livre poderia surgir um novo mundo, possam ser superadas, e que em cada casa, creche, clínica, família e escola, nos surpreendamos, o tempo todo, com o potencial infinito da criança para salvar a humanidade.