O Caminho da Paciência com as Crianças

Uma das coisas mais belas que se aprende com Montessori é que por trás de cada comportamento existe uma necessidade. Às vezes, quando tenho dúvidas sobre o comportamento de uma criança, uma de minhas formadoras me pergunta: “Do que ele precisa, Gabriel?”. Eu respondo, com uma impressão inicial, e ela pergunta de novo: “Do que ele precisa, Gabriel?”. Por trás de um comportamento, sempre existe uma necessidade. Quero contar uma história.

Eu tinha um aluno que passava horas no jardim, fingindo que cozinhava. Fingir que se cozinha não é um problema para ninguém. Não me incomoda e não atrapalha a sala. Mas, diz Montessori, fingir sempre indica uma necessidade ou um desejo. O garoto passava horas (dias inteiros!) fingindo que cozinhava no jardim, sem entrar na sala. Um dia, quando ele estava desocupado, o convidamos para fazer biscoitos. Ele aceitou. No dia seguinte, o convite foi para fazer salada de frutas com as frutas de nosso pomar. Aceitou de novo. Ele repetia pouco os biscoitos, mas fez salada de frutas por dias e dias seguidos. Uma mudança aconteceu.

Ele parou de fingir, e passou a ficar mais na sala. Ia ao jardim, passava algum tempo, voltava, trabalhava, ia ao jardim. Depois, aprendeu do que precisava: trabalhava muito no jardim. Uma vez que satisfez as duas necessidades: cozinhar e ficar no jardim, não precisava mais fingir, nem ter desculpas para ficar fora.

Por trás de um comportamento sempre existe uma necessidade.

Por isso, apressar as coisas não funciona. Obrigar funciona pouco e dá errado com frequência. O menino poderia obedecer à ordem de ficar na sala. Mas com qual proveito? O que ele aprenderia? Que parte de sua vida seria melhor e mais livre? Existe sempre outro caminho. Às vezes, o caminho que encontramos é o caminho errado, como aconteceu com um aluno adolescente que tive.

Ele era novo na escola e nem sempre tinha sucesso nas relações sociais. Brigava, e às vezes fisicamente. Isso era incomum na escola e nós buscávamos uma maneira de o ajudar a se encontrar. Com adolescentes, dar importância e voz costuma funcionar bem, então ele foi nomeado líder de um grupo de pesquisa sobre plantas da escola. O grupo trabalhava no jardim, entre as plantas, e eu passei lá algumas vezes, só para ver tudo indo de mal a pior, sem ninguém conseguir decidir o que seria feito, ou como. Depois de horas, passei de novo, e todos estavam trabalhando muito bem. Perguntei: “Como você conseguiu resolver tudo?”. Ele respondeu: “Eu não consegui. A Mariana conseguiu. Eu percebi que ela estava dizendo coisas que podiam funcionar, e perguntei se ela queria ser a líder. Ela quis. Tudo bem?”. Claro que tudo bem. Mariana (nome fictício) tinha dez anos. Ele tinha quinze. Mas a necessidade dele não era liderar.

Ele precisava aprender a estar em grupo. E Mariana talvez pudesse ensinar. Eu não percebi, ele percebeu. Por trás de um comportamento sempre existe uma necessidade.

Por isso, regras rígidas demais, e exigir ser obedecido são caminhos cegos. Quando decidimos que nossa voz é a voz mais importante, colocamos uma venda nos olhos e um tampão nos ouvidos. Não ouvimos nem vemos, só falamos. Temos medo de ser desobedecidos, e para proteger nosso orgulho, usamos a ira e a tirania. A paciência é o antídoto mais poderoso que existe para a tirania. E a gente treina paciência esperando, mesmo quando dói.

Eu trabalho com consultorias há anos. Em uma escola, tive uma professora que gritava e chacoalhava crianças. Eu não achei que ela pudesse mudar, mas eu não tinha poder nenhum, então expliquei o que podia, sugeri algumas técnicas, e fui obrigado a esperar – ser obrigado a esperar é bom. Não ter outra escolha é bom. Voltei em seis meses, e não encontrei a professora na escola. Perguntei se ela havia sido demitida, e a diretora me mostrou onde ela estava. Gentil, abaixada, conversando com uma criança. Eu não me aguentei (homem de pouca fé!) e perguntei à professora o que aconteceu. Ela disse:

– Não adianta, né, Gabriel? Gritar, mandar, não adianta, né? A gente fala, e a gente espera, a gente aproveita e olha para tentar entender, né? Do que ela precisa. Aí, se a gente conseguir falar com ela do jeito certo, ela vai fazer. A gente tem que olhar, né? E esperar…. Não adianta, né?

Não adianta. Ela e Montessori definiram a educação montessoriana do mesmo jeito: olhar e esperar. Montessori foi uma psiquiatra revolucionária. Essa senhora foi uma professora revolucionária.

Porque a revolução verdadeira, aquela de que a gente precisa mais, é essa: olhar e esperar. Por trás de um comportamento, sempre existe uma necessidade.


Paciência é importante para você, mas ter um pouco de ajuda para desenvolver seria bom? Eu passei pelo caminho de desenvolver paciência, com alunos, com professores, e em família. E eu conversei com centenas de famílias sobre as principais necessidades que os adultos têm para viverem melhor com crianças. Depois de anos conversando e estudando, fiz um curso que condensa o mais importante que aprendi. Olha o que alguns alunos disseram:

Amei a primeira experiência em Montessori. Está me ajudando muito com meu filho. Gratidão, querido Gabriel!

Tatiane Olivo, Mãe

Saber o que motiva a criança em suas ações, sem dúvida é algo esclarecedor e facilitador na hora de dar o que ela realmente precisa. Com essas poucas aulas, já é possível melhorar a relação com minha filha de um ano e quase dois meses.

Denise de Araújo, Mãe

A foto de divulgação desta publicação é de jessikawoo.

Escrito por gabrielmsalomao

"A preparação que nosso método exige do professor é o auto-exame, a renúncia à tirania. Deve expelir do coração a ira e o orgulho, deve saber humilhar-se e revestir-se de caridade. Estas são as disposições que seu espírito deve adquirir, a base da balança, o indispensável ponto de apoio para seu equilíbrio. Nisso consiste a preparação interior, o ponto de partida e a meta." Maria Montessori, em A Criança

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