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Arquivo da categoria: Disciplina

Textos sobre disciplina, liberdade e comportamento infantil de acordo com o método Montessori.

Dia das Crianças e Opressão

Uma criança. Vida nova. Imune ao mal e à doença, protegida de sequestros, surras, estupro, racismo, insulto, aversão a si mesma, abandono. Sem erro. Toda bondade. Desprovida de ira. Ou assim creem eles. – God Help the Child, Toni Morrison

Quando foi que nos esquecemos do desrespeito, da opressão e dos abusos que sofremos quando éramos crianças? As palmadas, os gritos, as ordens sem sentido, o assédio na rua, a falta de controle sobre o tempo e o espaço que habitávamos.

Em algum momento bastante precoce de nossas vidas, nos distanciamos de nós e aprendemos que precisávamos viver como eles, como os adultos, porque eles eram mais poderosos e fortes, mais conhecedores e onipotentes que nós. E se nós nos conformássemos às suas ordens, vontades, abusos e tiranias, poderíamos um dia ser incríveis também. Já que, então, ainda éramos crianças, incapazes, risíveis, cômicas, inúteis.

Em 1959, no dia 20 de novembro, se declararam os Direitos da Criança, na ONU. Internacionalmente é esse o Dia da Criança, 20 de novembro. Aqui, temos além dessa, mais uma data, muito mais comemorada: 12 de outubro. Hoje. E eu tenho uma proposta. Façamos com o Dia da Criança o que fazemos com o Dia da Consciência Negra e o Dia da Mulher. Vamos tomar o Dia da Criança não para distribuir rosas, mas para discutir igualdade. Vamos tomar o dia da criança não para celebrar, mas para refletir. Em lugar de (só) presentear ou, como não poderia deixar de ser em um mundo que rouba todo o tempo para devolvê-lo em papel colorido, em lugar de (só) estarmos presentes especialmente nesse dia, singularmente nesse dia, vamos tomar a data para enfrentar. Vamos tomar a data para libertar.

A criança é um grupo social oprimido. Constantemente. A criança é oprimida por ser pequena e nova. Ela é pequena e nova em relação ao quê? A quem? Quem é que a declara pequena e nova? Quem é que a diminui? Por um instante veja esta imagem:

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Respoda, se quiser responda em voz alta, onde está a água? Onde está a comida? Onde estão os espaços mais abrigados de vento e chuva? Onde está quase toda a vida? Se para todas as perguntas você respondeu algo como “na altura do chão” ou “a poucos centímetros de altura”, parabéns. A maior parte da natureza é, como um adulto diria, pequena.

Quase tudo, antes de nossa interferência, acontece mesmo perto da terra, perto da água, perto das raízes do mundo. É nesse mundo que nós fomos preparados para viver, por muito, muito tempo de evolução. Mas aí mudamos as coisas.

Aí, nós saímos da floresta, e fizemos as vilas, depois as cidades – sim, eu estou dando imensos saltos históricos aqui – e nesses espaços, a criança não pode nada. Nesses espaços nós tiramos dela tudo o que podia fazer antes: antes, a sede podia ser resolvida na água do rio, e a higiene também, a fome nas pequenas frutas, nas folhas, nas raízes do mundo. A brincadeira acontecia entre pedras, desníveis de chão, árvores grossas e arbustos. É verdade, havia perigos, a criança precisava de proteção. Mas havia o imperativo natural da independência e, daí, de uma liberdade qualquer inevitável. Nós a roubamos.

Toda opressão é resultado de algum tipo de roubo. Nós, adultos, roubamos a natureza das crianças, e não parece que chegará logo o momento em que a devolveremos. Nós roubamos a água que fluía aos pés da criança menor de todas, e a colocamos a mais de um metro, muitas vezes, em um bebedouro que exige controle motor fino para funcionar. Nós roubamos a comida que ficava pendurada entre as folhas de um arbusto baixo e a escondemos atrás de uma grossa porta de metal fechada por tecnologia magnética, que exige força para abrir. Nós roubamos a diversão que rodeava a criança e a instalamos em prateleiras que exigem dinheiro para serem possuídas. Nós roubamos o sono que acontecia à sombra das árvores e o colocamos numa masmorra de madeira ou plástico envolta em grades, que exige nossos braços para ser acessada. Nós roubamos tudo. Nós só somos superiores à criança porque, aos poucos, roubamos tudo o que ela tinha.

Agora, todo o roubo feito, praticamos escambo. Nada mais apropriado a um colonizador que oprime. Se a criança nos obedece, tem chance de divertir-se. Se ela satisfaz nossas exigências de movimento corporal, tem permissão para beber e comer sozinha. Se ela nos dá razão para não nos preocuparmos, pode dormir quando quer. Se ela não atrapalha o horário de nossas refeições, pode satisfazer sua fome. Se, no entanto, nos desobedece, pode ser trancada na masmorra. Se ela precisa se mover mais do que permite o ambiente restrito que fizemos para nós, mas tanto quanto permitia a terra que roubamos, então fica de castigo, apanha, morre – por fora, por dentro, por vezes de todos os jeitos.

Segundo Montessori, o adulto pensa que seu poder advém do fato simples de ser adulto. Por isso, e só por isso, ele pode. Isso não é questionável porque é axiomático: é assim porque é assim porque é assim porque é assim. Mas é mentira. O poder do adulto não advém do fato de ele ser adulto. O poder do adulto advém do roubo.

O adulto roubou o espaço e, reproduzindo a lógica em que vive, na qual tem seu tempo roubado constantemente, rouba o tempo da criança. Se eu não posso, ela não pode. Ela é uma criança e precisa se acostumar, o mundo é assim. Fomos roubados, nós adultos, também, e não lutamos para que nada nos seja devolvido. Por que é que a criança deveria poder lutar?

E quando luta, quando busca fazer sua revolução, quando exige que suas necessidades sejam atendidas, reagimos como o pior dos governos: reprimimos qualquer coisa. Reagimos como o governo de Foucault, clinicamos o que não nos agrada, e chamamos especialistas que nos expliquem a birra, o escândalo, os terrible twos, tudo o que não é a imobilidade passiva e obediente que, em silêncio, desejamos. Nós não queremos ouvir a criança, nós não olhamos para suas necessidades, e se ela as exige, fazemos com ela o que se fez com as feministas por tanto tempo: trata-se de um caso grave de histeria. Vamos chamar uma especialista que, num programa televisivo nos ensine a recuperar o poder do adulto.

Maria Montessori colocou sabiamente: Nenhum problema social é tão universal quanto a opressão da criança. Essa frase fica presa à minha lousa de estudos, em casa. Abaixo dela, com a caneta da lousa, se lê “e isso precisa ser percebido”. Isso, infelizmente, não é óbvio.

Que não nos sintamos soterrados em culpa. Não tem culpa demais aquele que discrimina antes que se lhe esclareça que discrimina, antes que alguém chegue até ele e diga: “Escuta, isso, que você faz, está errado. E está errado porque essa criança é um ser humano, e não se age assim com seres humanos”. Vamos fazer do Dia das Crianças um dia simbólico de reflexão, de mudança. Vamos fazer Montessori, porque sabemos que Montessori ajuda a vida da criança, porque sabemos que Montessori é uma forma de pensar e uma forma de agir que previne e inibe a opressão. Mas vamos também refletir muito, demais mesmo, porque mesmo quem não possa conhecer Montessori imediatamente, mesmo quem não possa aplicar Montessori já e agora, mesmo esse adulto não pode oprimir a criança. Ninguém pode. Nós podemos mudar isso com um excesso de esclarecimento e com uma posição extremada: precisamos abraçar o radicalismo da compaixão.

Se você quiser entender mais sobre opressão e a opressão da criança, sugerimos:

A Criança, de Maria Montessori – o livro inteiro

Mente Absorvente, de Maria Montessori – o final do livro, últimos cinco ou seis capítulos.

Readings for Diversity and Social Justice – Editora Routledge, vários autores

A Revolução do Altruísmo – Matthieu Ricard

Os Condenados da Terra – Frantz Fanon

O Segundo Sexo – Simone de Beauvoir

Microfísica do Poder – Michel Foucault

O Olho Mais Azul e God Help the Child – Toni Morrison (qualquer romance dela, na verdade)

O Pequeno Príncipe – Antoine de Saint-Exupéry

 

Erro, Liberdade e Harmonia

Publicado em

Certa vez, durante um de seus cursos, Montessori passou por uma situação que, depois, se tornou anedótica em suas obras. Uma senhora, mãe de crianças e aluna de Montessori no curso, veio até a educadora no intervalo e lhe perguntou, sem nenhuma malícia: “Senhora Montessori, quanto à liberdade, gostaria de lhe fazer uma pergunta. Quando meu filho sobe no sofá de sapatos sujos, o que eu devo fazer? Devo deixá-lo lá? ”. E Montessori respondeu, com tom imperativo: “Tire-o de lá imediatamente! ”.

Montessori enfrentava sérios problemas quando o assunto era liberdade. Em suas primeiras escolas, depois de repetir infinitas vezes para as educadoras das salas de aula que deveriam permitir a livre ação das crianças, e que elas eram livres para trabalhar, precisou enfrentar a decisão das professoras revoltadas, que simplesmente não interferiam mais, em absoluto, e deixavam que a sala se transformasse em um pandemônio, se fosse o caso. Perceber o ponto exato que se deve buscar para a liberdade da criança que se desenvolve não é fácil – é, na verdade, um dos maiores desafios de qualquer adulto preparado.

Montessori disse que a primeira distinção que a criança deve fazer é entre aquilo que é bom e o que é ruim. E é tarefa do adulto garantir que ela não confunda bondade com imobilidade e maldade com movimento. Nosso papel, portanto, no que diz respeito à disciplina e a qualquer tipo de interferência, é somente ajudar a criança nessa distinção. Nada mais. Este texto será dividido em três partes, para que possamos analisar três pontos de vista sobre a liberdade.

 

Os Erros e Suas Correções

Há dois tipos de erro na criança, e assim, trabalhamos com eles de maneiras distintas. O primeiro tipo de erro é aquele que se dá quando uma criança tenta fazer algo e não consegue. Digamos, quando tenta servir-se de suco e derruba o suco na mesa. A criança, nesse caso, percebe seu erro, ele é evidente, mostra-se com mais autoridade do que teríamos nós ao dizer para a criança “Você derramou seu suco! (de novo!)”. O suco derramado tem mais autoridade do que nós porque ele é um fato, ele é o mundo, e nós somos somente narradores ou comentaristas desagradáveis.

Quando a criança comete um erro desse tipo, nós não a corrigimos. Nós sequer tecemos qualquer comentário sobre o erro em si. Não dizemos que ela não presta atenção, nem dizemos que ela não pode mais se servir. Não a lembramos, nessa hora, de que deveria ter segurado a jarra com as duas mãos e sequer elevamos o volume da voz para dizer que ela deve secar a mesa. Simplesmente estendemos a ela um pano ou pedaço de papel-toalha para que ela seque o que molhou, ou lhe ensinamos a secar, bem lentamente, o suco derramado.

Dizer um “Eu falei!” ou “Você derrubou o suco!” não são correções. São declarações de fatos, como bem coloca Montessori em seu 1913 Rome Lectures. E nós não precisamos falar em voz alta o que o mundo fala sozinho – é redundante e é desagradável. Para a criança aprender, às vezes é necessário ensinar. E a gente ensina ensinando e não corrigindo (créditos aqui: aprendi isso com Marion e Paige, as diretoras do Centro de Educação Montessori de São Paulo).

O outro tipo de erro, o que precisa de nossa interferência, é aquele em que a criança faz mal a si mesma, a outro ser vivo ou ao ambiente. Nesses casos, precisamos interferir imediatamente e encerrar a ação da criança, buscando, é claro, fazê-lo sem brutalidade. Digamos, por exemplo, que uma criança suba em um batente de janela. Devemos retirá-la de lá imediatamente, ainda que ela não deseje sair e o demonstre muito clara e emocionalmente. Por outro lado, se uma criança está bagunçando um espaço da casa que deveria permanecer organizado, não precisamos ser tão imediatos. Podemos interromper a ação, com firmeza e objetividade, mas não precisamos intervir fisicamente. A ação verbal e a ação sobre o ambiente devem bastar, sem ser necessário agir sobre a criança. Para casos em que uma criança está agredindo outra, se reproduz o que fazemos em situações de risco, adicionando-se aqui técnicas de mediação de conflito que consistem, basicamente, em conversar com as duas crianças ao mesmo tempo, sem repreender nenhuma delas, e ouvir as versões de história que têm para contar, chegando a um consenso para a forma de agir no futuro.

 

Condições Favoráveis à Vida

“Quando dizemos”, falou Montessori em 1913, “que desejamos colocar a criança em tais condições de liberdade que suas forças criativas interiores estejam livres para se desenvolver, dizemos tudo”. Montessori preferia usar a expressão “condições favoráveis à vida” do que “liberdade”, não porque exprimissem algo diferente, mas porque a expressão transmitia com mais clareza ao grande público qual a ideia montessoriana de liberdade.

Uma criança colocada em um ambiente que lhe oferece condições favoráveis à vida pode, quase sempre, ser deixada em liberdade irrestrita. É raríssimo que precisemos intervir quando uma criança está em um local com natureza abundante, objetos interessantes de se manusear, espaço para movimento amplo e adultos que sabem orientá-la e compreendê-la. Quase sempre qualquer criança se comporta da forma mais ideal possível em ambientes assim, e não é de surpreender. Além do efeito restaurador e calmante que a natureza de fato apresenta (http://www.nytimes.com/2010/11/30/health/30brody.html), um espaço preparado dessa maneira, e seres humanos compreensivos por perto são garantia de bem estar. Quando nos sentimos bem, então, comportamo-nos muito melhor – mesmo entre adultos, havemos de convir.

Entre as condições favoráveis à vida está a não-interferência do adulto, para que a criança possa levar seu desenvolvimento a diante em seu ritmo natural e do seu jeito. Em um caso recente eu estive em uma sala de aulas em Santo André, SP, onde uma menina ia iniciar um trabalho de transferência de líquidos com uma jarra, uma garrafa e um funil. Pegou a jarra e ia transferir a água direto para a garrafa, e eu quase interferi. Hesitei, ainda bem. Foi o tempo de a menina deixar cair parte da água e decidir pegar o funil para continuar a atividade. Depois, terminando, enxugou o necessário na bandeja. Posteriormente, ainda observando a garotinha de três anos, vi que dominara a transferência sem funil, mas só para o finzinho do líquido, pois que o fluxo diminui consideravelmente no final – ela, então, usava o funil quando necessário e o abandonava quando possível. Quanto eu teria atrapalhado se tivesse interferido todas as vezes em que o funil fora deixado de lado… teria sufocado condições favoráveis à vida. Teria impedido a liberdade, e mais do que isso, teria impedido a criança de se concentrar profundamente, aprender muito e alegrar-se com o exercício.

 

Disciplina e Harmonia

O mundo funciona segundo leis fixas e totais. Gravidade, inércia, seleção natural e muitas outras leis regem o funcionamento do planeta e, em alguns casos, do universo mesmo. O ser humano, para Montessori, não escapa a essas leis. Para nós, para nosso desenvolvimento e nosso desabrochar interior também há leis fixas e, até certo ponto, imutáveis. Nascemos, e nosso corpo desde bem antes do parto já vinha se formando conforme as leis inscritas em nossos cromossomos. De nada adianta tentar apressar o desenvolvimento. Ele vai acontecer em seu ritmo, e será mais saudável quanto mais esse ritmo for respeitado. Podemos atrasar o desenvolvimento da criança, criando obstáculos ou facilitando demais seu trabalho. E isso é ruim. Mas não podemos apressar nada.

Da mesma maneira que o desenvolvimento físico acontece segundo uma autoridade interior, o desenvolvimento psíquico se dará de forma natural. Obedecendo leis universais. Por esse ponto de vista, é válido dizer: a máxima liberdade é atingida quando a total obediência é alcançada. Obediência essa que se dá a todas as leis que ajudam no desenvolvimento infantil.

Montessori percebeu, e nós, educadores montessorianos, percebemos há cem anos, que toda criança que se desenvolve em um ambiente adequado à sua vida apresenta uma obediência fora do comum. E fora do comum por dois motivos. Primeiro, porque é uma obediência total e imediata: a criança em um contexto preparado para ela obedece naturalmente ao adulto que está presente nele. Segundo, porque é seletiva: a criança não obedece todo adulto só porque ele é “mais velho”. Obedece alguns adultos porque os admira e tem absoluta certeza de que todas as ordens que recebe deles visam seu melhor desenvolvimento e seu maior bem estar.

É nesse sentido que podemos dizer que a liberdade só é real quando há absoluta harmonia entre a força de vontade da criança, as suas necessidades interiores, o ambiente preparado exterior e o adulto preparado que a acompanha. Quando esta harmonia é alcançada, ocorre como em uma orquestra: de repente, percebemos que está tudo certo, que tudo cai em seu lugar, que tudo se ajusta. A criança percebe também – com alegria.

 

Paz IV: Ouvir Estrelas

Publicado em

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso. […]”
Olavo Bilac

 

De vez em quando esquecemos de ser pacíficos. Infelizmente acontece. Vez por outra violentamos nossas crianças com aquilo que abrigamos de pior em nós. Imprevisivel- mente, o adulto deixa explodir pelos olhos, pelas bocas e, desesperadamente, pelas mãos, o que há de mais enterrado e evitado em si mesmo. Permite, sem controle, que rajadas de ira e orgulho fustiguem o corpo e as emoções infantis, varrendo a alegria e o amor que desabrochavam na criança e deixando um rastro de ruína e medo.

Esse rastro é visível, e se mostra no recuo do corpo, no arregalar dos olhos, no afrouxar da boca que (quase) se abre em choro, no vermelho do rosto e na respiração acelerada. A ruína e o medo são visíveis no espetáculo triste do horror infantil, que surge quando nós, adultos, deixamos de ver na criança – por um instante, alguns momentos ou, o pior, por toda uma vida – a luz que brilha e pode iluminar os caminhos da humanidade.

Montessori escreveu em A Criança que a psique humana é como um grande oceano, e que há nela momentos de tempestade. Essa bela metáfora pode ser estendida, e deve, se quisermos compreender com um pouco mais de clareza os esforços que devemos fazer para não permitir que as ondas, as chuvas e os ventos tempestuosos façam das águas potências de destruição para aquilo que vai além de nossa consciência, e atinja os seres que mais amamos no mundo.

A criança, de várias maneiras, é uma estrela. Cada criança é uma estrela. São elas que dão ao mundo brilho quando ele se vê mergulhado na escuridão. É a criança que consegue libertar das muralhas de seriedade adulta os sorrisos mais singelos, e que recupera na fortaleza da alma os resquícios da habilidade, às vezes há muito esquecida, de sentir amor. É a criança que pode desenhar para nós, como constelações em um céu de inverno, os traços da psicologia infantil e as bases da natureza humana. É ela que consegue nos mostrar, com a clareza de uma Via-Láctea em mar aberto, de onde nós viemos. É ela que nos oferece, como um Sol a raiar todos os dias, a certeza de uma segunda chance e a garantia da possibilidade de sucesso. A criança nos oferece, sem nada exigir em retorno, tudo o que tem. Ela se entrega toda amor, e mesmo quando não recebe amor de volta, insiste quanto pode, tenta quanto consegue. É difícil apagar o brilho de uma criança, ele resiste a muito. Infelizmente, ainda assim, adultos são especialmente competentes nessa ingrata tarefa.

Habitualmente, conseguimos enxergar o brilho infantil. Não é assim tão difícil. A maior parte de nós – e todos aqueles que têm a sorte de conviver com crianças – têm lembranças que nos fazem sorrir ou lacrimejar, felizes, ao lembrar de algum relance de humanidade provocado ou demonstrado por uma criança pequena – ou, para todos os efeitos, por uma criança grande ou um adolescente.

Entretanto, há momentos piores. Há momentos de movimentação tectônica dentro de nós, quando qualquer coisa que não deveria sair do lugar é deslocada por nossa recepção de um comportamento infantil, e nossos vulcões entram em erupção. Pense em uma criança que quebre algo de valor emocional imenso, ou em uma que desafie os adultos que a cercam com frequência, ou outra que constantemente machuque colegas de escola. Comportamentos assim – e em nossas mentes, crianças assim – movimentam algo dentro de nós que, perceptivelmente, não é bom. Percebemos, se prestarmos atenção suficiente, subindo desde as maiores profundezas de nossa personalidade a ação que tomaremos em seguida. O grito, o castigo, a palmada (ah!). Sentimos isso como um calor que sobe e retorce o que encontra pelo caminho, ultrapassando as próprias fronteiras de nosso corpo em suor, vermelhidão e angústia.

Uma vez que tenhamos explodido, e você talvez já tenha visto a explosão de um vulcão, e talvez já tenha estado em uma tempestade densa, o que sobrevém não é a bonança. Depois de uma tempestade, como depois de uma guerra, não existe Paz. Existe um rastro de ruína e medo. E se confundirmos esse estado assustador com a Paz, corremos o risco sério de compreender a Paz como a ausência da guerra, e não como o equilíbrio belíssimo que possibilita o surgimento das mais sublimes manifestações de humanidade. Montessori disse:

A história humana nos mostra que, assim que o invasor consolida sua vitória, a paz significa, para os vencidos, a submissão forçada, a perda de tudo o que mais lhes importa e a impossibilidade de usufruir dos frutos de seu trabalho e de seus sucessos. […] Os vencidos são constrangidos a sacrifícios, como se, do único fato de terem sido vencidos, fossem os únicos culpados, como se merecessem uma punição.

Vemos com clareza agora a diferença abissal que existe entre a tranquilidade da paz e o drama silenciado do pós-guerra. A paz se parece com a noite estrelada, a noite silenciada do pós guerra tem um céu carregado de nuvens, trovões longínquos ocasionais e, no horizonte, uma silenciosa tempestade de raios. Na noite do pós-guerra nós não vemos as estrelas. Nós não nos encantamos mais. Nós não sabemos que direção tomar e nem para onde estamos indo. Quando o dia finalmente nasce, depois da noite de tempestades, o Sol espalha uma luz opaca, sem brilho, desce seus raios como um manto triste de luz sobre a Terra, e não oferece esperança.

Quando castigamos nossas crianças, quando as maltratamos de qualquer maneira, quando gritamos, quando as isolamos do convívio social e quando, embora cada vez mais raro, batemos em nossas crianças, contribuímos anonimamente para uma imensa tempestade que assola o mundo. Tornamo-nos nuvens carregadas de barulho, água fria e eletricidade, prontas a desabar sobre qualquer coisa. Quando nos deixamos, vulcões, entrar em erupção feroz diante dos olhos daqueles que, indubitavelmente ainda, mais amamos no mundo, projetamos nos céus imensas nuvens de poeira, gás e fogo, e derramamos sobre a terra línguas imensas de lava e vapor. Esse imenso conjunto de desequilíbrios, essas nuvens-ira, esses trovões-orgulho, essa lava-tirania e todo esse fogo-poder nos impedem, mais cedo do que esperávamos, de enxergar na criança a esperança, a promessa e o futuro. Impedem-nos de ver estrelas.

Há no mundo montessoriano uma senhora que é uma lanterna quando nos encontramos entre confusos trovões, chuva e noite. Seu nome é Donna Goertz e ela escreveu o livro “Children Who Are Not Yet Peaceful: Preventing Exclusion in the Early Elementary Classroom” (algo como Crianças que Ainda Não São Pacíficas: Prevenindo a Exclusão na Sala de Ensino Fundamental I, a ser traduzido para o português). Também é dela o texto que traduzimos aqui, chamado “Manual do Proprietário de Uma Criança Montessori”, que se você não leu precisa ler agora (é, agora. Você pode voltar aqui depois e terminar este texto).  Donna Goertz escreveu:

A solução de problemas em conjunto pelo adulto e a criança leva ao empenho das energias inatas da criança e de seus instintos vitais de autopreservação, e forma uma parceria poderosa em benefício da criança. A punição estrutura uma relação de adversidade entre adulto e criança, dentro da qual as motivações urgentes e implacáveis dos interesses pessoais da criança são colocadas em conflito com a orientação legítima e essencial da criança pelo adulto.

Quando erguemos a estrutura da relação de adversidade entre adulto e criança, estamos nos cegando para o brilho da infância e impedindo terminantemente a comunicação entre nós, grandes, fortes e poderosos, e a criança, pequena, frágil e cheia de maravilhas. Nós precisamos, finalmente, ouvir estrelas.

Precisamos olhar para a criança e encontrar nela o que há de bom. Precisamos, ao perceber os tremores vindos de nossas profundezas, olhar com mais concentração, mais vontade, mais atenção ainda para a criança, e precisamos encontrar nela o que há de bom. Em seu livro, Donna também nos fala de um exercício que ela mesma coloca em prática com frequência. Todas as vezes que uma criança recorrentemente causa problemas na sala, ou que um adulto responsável tem dificuldade de lidar com ela, deve sentar-se para observá-la e anotar coisas boas sobre ela e coisas que ela sabe fazer bem. Pois é por meio dessas coisas positivas e habilidades desenvolvidas que encontramos a chave para ajudar uma criança a sair de um esconderijo onde tenha entrado, por qualquer motivo.

Uma criança não se esconde só por efeito de nossas tempestades. Elas podem se esconder como reação a alguma mudança inevitável, ou como forma de não lidar com algum desafio difícil demais. De dentro de seu esconderijo, então, com pouquíssimo brilho, começam a causar no mundo problemas que nos levam a reagir com toda a imensidão de que só um adulto é capaz. De dentro de um local extremamente turbulento, escuro, isolado e misterioso, a criança pode agir de forma incompreensível e provocar verdadeiros desabamentos sobre si mesma, enterrando-se assim cada vez mais e mais fundo.

Aqui, nesse ponto difícil e delicado, temos dois papéis. Ambos desafiadores, ambos delicados. O primeiro é uma reforma interior intensa e profunda para ser capaz de ouvir estrelas, e perceber a presença da criança lá no fundo de seu esconderijo, e perceber a presença brilhante dela, embora o brilho não seja visível. O segundo é resgatá-la, por meio daquilo que ela tem de bom e sabe fazer bem, e trazê-la de volta à superfície, de volta ao firmamento, ajudá-la a redescobrir seu lugar entre as inúmeras constelações e guia-la, sendo ao mesmo tempo guiado por ela, à Paz que nos inunda verdadeiramente, na ausência de qualquer tempestade.

É possível evitar a ruína e o medo, e nós precisamos fazer todo o possível para isso – pelo ambiente da criança, pelo nosso comportamento, por um nível muito alto de compreensão e um amor muito profundo. Mas tanto quanto isso, é possível resgatar uma criança de uma realidade de ruína e medo, se nós pudermos reconhecer o que causou isso – e mais ainda se formos nós os causadores – e estivermos, como aponta com destreza Donna Goertz, dispostos a superar a alienação e os atritos por meio de esperança e amor inabaláveis.

Se pudermos fazer isso, todos os nossos esforços serão válidos. Cada pequeníssima conquista nossa significará o mundo para nossas crianças. Falharemos, e retomaremos a tarefa, e cada um de nossos acertos será valorizado da mesma maneira que nossas falhas serão, na infinita tolerância infantil, repetidamente perdoadas. Vale a pena. Não perdemos o senso, e em dias nos quais a comunicação é ao mesmo tempo tanta e tão pouca, nunca foi tão necessário treinar os ouvidos para ouvir estrelas.

Paz I – Fala Pacífica

Comunicamos muito. Comunicamos verdadeiramente o tempo todo. Algumas vezes usando as cordas vocais ou sinais das mãos. Algumas digitando. Lendo, escrevendo, tirando fotos. Comunicamos demais. E fazêmo-lo bastante com as crianças também. Sendo uma de nossas ações mais frequentes, a comunicação é a fonte de muitos de nossos afetos, é o que garante as relações que mantemos com nossos pares, é o que sustenta a socialização, e, infelizmente, é o que gera as guerras. Mas felizmente, é o que pode gerar a paz. Há formas de falar com a criança que garantem paz, garantem bem estar, exprimem respeito e reverência. São essas as formas que investigaremos aqui.

Fala Pacífica

O modo de falar pacífico é na verdade óbvio, e pode ser descoberto por cada um de nós, isoladamente, sem muito do auxílio de um texto. Feche seus olhos e imagine uma fala de paz. Deverá vir à sua mente uma voz talvez conhecida, em um ritmo e volume que serão associados diretamente a uma sensação interna de tranquilidade e de certeza de que está tudo bem. Essa fala tem algumas características e, de forma interessante, se assemelha muitíssimo à forma de dizer aconselhada por Montessori aqueles que lidam com a Criança.

Imagine-se por um momento descobrindo uma trilha na floresta, sendo guiado por alguém de sua confiança.

Se o seu guia fala muito alto, ele não permite que você preste atenção ao caminho. É importante que ele fale em um volume que permita a você reconhecer o som das folhas e dos galhos se movendo ao vento, o som das águas correndo entre pedras, dos animais caminhando, pulando e cantando nos galhos. Falar muito alto distrai você, monopoliza sua atenção para o guia e, depois de algum tempo, sequer há trilha à sua volta, você só percebe a fala dele à sua frente.

Com a criança funciona do mesmo jeito. Se falamos muito alto, tiramos dela a chance de apreciar os outros sons do mundo. De uma maneira ou de outra, nos colocamos acima do mundo que a cerca e trazemos toda sua atenção para nós. Por isso, em Montessori, falamos baixo (1). Quando não estamos ensinando nada à criança, falamos baixo perto dela para não atrapalhar seus esforços individuais. E quando estamos ensinando algo, falamos baixo e falamos pouco, para que ela fique atenta à informação principal e, se for o caso, às ações de nossas mãos, muitas vezes mais importantes do que os sons de nossa boca.

Ainda quanto ao guia, lhe agradaria se ele falasse sempre de forma tranquila (2), certamente. O sossego na voz nos dá a certeza de que está tudo bem e de que podemos estar seguros quanto à pessoa em quem confiamos. Quando alteramos nossa voz com as crianças, na escola, em casa, e em espaços públicos, denunciamos nosso próprio desequilíbrio – que existe, a criança sabe que existe, e tudo bem também. Entretanto, é bom que ela saiba que não é um copo quebrando (e portanto sua falta de segurança motora), ou um choro longo (e portanto seu desespero emocional), ou um atraso para a escola (e portanto seu ritmo natural, diferente do nosso) que provocam abalos sísmicos em nossas emoções. Deixemos o desequilíbrio para situações nas quais de fato não consigamos nos manter estruturados. Nas outras, no dia a dia, a voz tranquila é o sinal de que vamos dar um jeito, de que os adultos estão aí para ajudar.

Já falamos em outros textos sobre a necessidade de uma fala clara (3), bem articulada. Especialmente para a criança pequena, isso importa para a aquisição de vocabulário. Falar de forma bastante clara é nitidamente de auxílio para a compreensão da criança e para a vocalização posterior dos termos que você usou. Ela te entende melhor e consegue incorporar palavras e estruturas de frases que você usa.

Quando falamos, enfim, com a criança, precisamos respeitar suas necessidades mais básicas, para que a comunicação funcione. Por isso, é importante falar pausadamente (4), dando tempo para a criança processar (exatamente como você gostaria que seu guia fizesse, se houvesse um tronco, uma cobra ou uma teia de aranha em seu caminho. Você gostaria que ele avisasse antes e devagar). Caso contrário, exatamente como aconteceria na trilha, a criança tropeça. Ela não consegue fazer exatamente o que esperávamos, ela se atrapalha. Falar uma vez, claramente. Esperar. Repetir apontando com a mão, se possível. Esperar. Geralmente, uma fala e uma repetição, com ritmo pausado, resolvem muita coisa.

Alguém disse que noventa porcento dos problemas da humanidade são problemas de comunicação. E parece bem verdade. Falássemos mais lentamente uns com os outros, sem o rodamoinho de mensagens, falas, músicas, anúncios em que vivemos, possivelmente teríamos uma vida com uma quantidade de mal-entendidos muito menor. Também por isso é tão importante que falemos com a criança de forma pacífica. Ela previne conflitos. Não é possível brigar com ninguém falando de forma tranquila, clara, pausada e baixa. Falar devagar nos dá o tempo necessário para pensar no que estamos dizendo, e ter de manter a voz tranquila, baixa e clara nos faz falar mais devagar. Assim, portanto, se garante menos problemas em casa, menos problemas de comunicação e, por que dizer diferente, menos problemas para a humanidade.

É um desafio, e ninguém discorda disso. É um dos maiores desafios que encontramos ao entrar em sala de aula, e não resta dúvidas de que em casa serão necessárias repetidas tentativas. Mesmo assim, vale a pena. Você terá um lar mais tranquilo, emocionalmente mais seguro, com um nível de tensão muito reduzido e, vale dizer, uma criança que fala baixo, grita pouco e tem prazer em uma comunicação que, se é admirável em adultos, é ainda mais bela vista entre os pequenos líderes da civilização.

O Buraco Negro e as Estrelas: Formas de Disciplina

Alguns chamam de fé, alguns de amor.
Alguns de orientação superior.
Vocês são o motivo de nos encontrarmos,
então obrigado, estrelas.

Desde sempre, e provavelmente para sempre, o homem buscou espaços solitários, silenciosos e tranquilos para pensar. Montessori nos fala sobre isso quando descreve o Jogo do Silêncio. A quietude e a solidão, a introspecção e a individualidade são fundamentais para as crianças muito pequenas. O trabalho delas, sabemos, é construir a si mesmas, e desenvolver dentro de si todo o aparato físico, emocional e psicológico para a interação social futura.

De todos os lugares buscados pelo ser humano para pensar, porém, o último é o cárcere involuntário. Há quem encontre alegria na clausura, mais ou menos da mesma maneira que a criança encontra prazer em uma cabana, um canto, um buraco, ou um espaço apertado. O espaço pequeno oferece de fato alguma segurança. Mas só quando encontrado por busca voluntária. Nunca quando imposto sobre a criança pela força dominadora e invencível do adulto.

O castigo, muitas vezes imposto na forma do isolamento, chamado eufemisticamente de cantinho do pensamento é uma forma de opressão à criança das mais cruéis praticáveis por um adulto. Explico: a casa onde habita uma criança, ou a escola que ela frequenta, são espaços cheios de afeto, preenchidos por amor. A criança é, de fato, a grande fonte de amor da humanidade. Ela nos faz amar quando pensávamos que isso não mais seria possível e desperta o melhor de nós em um mundo que nos faz reagir sempre com o que temos de menos bom. A casa onde habita uma criança é símbolo maior deste amor. Quase toda a casa.

cantinho do pensamento é um espaço da casa, o único, onde não existe afeto. Não há materiais nem brinquedos, não há interação, música, não há mundo. Os sentidos muitas vezes são isolados (especialmente nas formas exageradas do cantinho, nas quais a criança é virada para a parede, ou colocada em um cômodo sozinha). Montessori aprecia comparar a sociedade em microescala e em larga escala. Há um outro local social, em escala maior, que serve-nos também como cantinho do pensamento: trata-se do cárcere.

Colocar uma criança de castigo é tão eficiente quando encarcerar um adulto. Em 2011, no Brasil, de cada dez presos adultos, sete retornavam ao crime depois de sair do cárcere. Prender, colocar para pensar, e aguardar a mudança do comportamento pelo castigo não funciona. Por dois motivos: primeiro, porque ficar de castigo pensando é pensar no erro, e pensar no erro é reforçar o erro – o cárcere, como o cantinho, é uma escola de erros. O segundo é que o meio em que se está depois do castigo é o mesmo meio de antes do castigo, e geralmente – se não determina – o meio favorece a reincidência no erro. Se as condições sociais não se transformam, o erro não desaparece, e o mesmo ocorre com a criança.

Dissemos certa vez no Lar Montessori: ” O castigo reforça o erro, faz a criança pensar sobre o que fez de errado, e o que fizemos de errado não nos ensina. Ensina-nos, antes, repetir o comportamento certo, tanto o nosso quanto o alheio. Buscar alternativas dentro do que sabemos ser correto ou desejável. É sobre isto que devemos meditar, e não sobre o erro. Quando uma criança é colocada no quarto sem televisão, ou quando é privada de algum de seus prazeres por ter cometido um erro, existem dois sentimentos possíveis: o surgimento da raiva e o sentimento de culpa. Nenhum dos dois é produtivo para o aprendizado.” Para complementar esta passagem, sugerimos a leitura do artigo recente do Centro de Educação Montessori de São Paulo sobre vergonha.

Colocar a criança inteira de castigo é dizer a ela: “Você é ruim” “Você, e tudo o que existe em você, precisa ser esgotado, escondido, reprimido, para que o mundo continue a girar”. E nós sabemos que nada disso é verdade. Foi a ação da criança que nos desagradou – e não a criança inteira. Nunca pode ser a criança inteira.

Se é a ação da criança o erro que encontramos, devemos primeiro pensar se é um erro ou uma necessidade. Uma criança que chore porque não pode escolher, ou porque não pode pegar, ou porque não pode ficar no chão, ou porque teve a decoração de sua casa alterada – qualquer uma dessas crianças e desses choros representa uma necessidade, e não um erro. Muito menos um capricho.

Caso se trate de fato de um erro – uma criança que tenha batido em outra, xingado, gritado, então podemos pensar em formas de remediar o ocorrido, não para dar uma consequência ao ato da criança (o mundo dá consequências, nós só damos castigos mesmo), mas para ensiná-la, de fato, como o mundo funciona. O primeiro passo é parar a criança. Isso pode ser feito de qualquer maneira, mas devemos buscar a mais pacífica possível – quero dizer, a menos física: se você puder usar só palavras é melhor, se não puder, use o menos possível a contenção manual. O segundo passo é mostrar que ela é amada, querida, e respeitada: isso quer dizer sentar com os olhos na altura dos olhos dela, encostar-lhe gentilmente uma mão, falar baixo e falar de forma séria. O terceiro passo é conversar.

A conversa deve ser clara, simples, direta, e ensinante – mais do que um julgamento, a criança precisa de uma aula. Devemos explicar o que ela fez (“Você quebrou o vaso”, “Você xingou a sua tia”, “Você bateu no seu irmão”) e não julgar (nunca “você foi um mau menino”, “você é mal educado”, “você se acha muito esperto”). E em seguida explicar porque aquilo é ruim – também de forma objetiva, clara e simples, sem julgamentos e sem estender demais a fala. A criança pode realmente desligar a conexão que existe entre o que ela fez e o que você diz, se você falar demais.

Em seguida, não coloque a criança de castigo. Redirecione sua atenção. Convide-a para uma atividade que você sabe que ela aprecia. Uma atividade na qual ela use mãos, mente e coração. Algo que goste de fazer, que envolva um pequeno desafio (ela talvez ainda esteja tensa com o que fez, e não consigo fazer algo difícil demais) e que faça necessário o uso das mãos. Algo, especialmente, que nada tenha a ver com o que estava fazendo quando cometeu o erro.

Mais tarde, um ou dois dias depois, com o erro esquecido, ensinaremos a forma correta de fazer. Se a criança quebrou algo, ensinaremos – sem mencionar o erro – a carregar coisas sem quebrar. Se ela bateu em alguém porque queria passar, ensinaremos a pedir licença. Se xingou, ensinaremos a ser gentil. Se subiu no sofá de sapatos, ensinaremos a tirá-los.

Vale dizer: regras em casa só são respeitadas por crianças maiores de três anos. As menores decoram comportamentos, rituais, repetem rotinas. Regras, de forma verbal e abstrata, só vão funcionar mais tarde. Você pode começar a dizê-las cedo, mas o mais importante vai ser a forma de fazer, o ritual e a repetição da ação em si. As regras, uma vez que existam em sua casa, nunca devem ser “regras negativas”, mas sim “regras ativas”. Isso quer dizer que em vez de ditar “Você não pode xingar ninguém”, devemos dizer “Você deve tratar a todos com respeito e gentileza” e, então, ensinar devagar, aos poucos, formas de ser gentil.

Tanto enquanto a criança é pequena como quando ela cresce, o trabalho de aperfeiçoamento do comportamento não é simples, não é rápido. Exige de nós uma preparação interna, psicológica, mesmo espiritual, para compreender a criança como um ser que necessita, acima de tudo, de ajuda. A bronca, o castigo e a lição de moral não ajudam. Elas incomodam, ferem, diminuem e humilham, mas não ajudam. É bem verdade, momentaneamente, o castigo funciona – todo mundo tem medo de um buraco negro de afeto e tenta evitá-lo ao máximo. Mas a médio prazo o erro volta, se o meio social não se altera, a reincidência é certa.

Prepare o ambiente de sua casa, prepare as rotinas, os rituais, os tempos e os espaços da vida de sua criança. Acima de tudo, prepare-se. Erros acontecem, eles surgem, eles surgem para nós o tempo todo. Em lugar de os encararmos como inimigos a derrotar, encaremo-los como amigos a conhecer. Vamos descobrir o erro, entender o que gera o erro, observar quando e porque surge, e portanto como pode ser evitado. É um trabalho longo, e a meio caminho os erros surgirão, repetidamente. Não podemos cansar, nós somos maiores, responsáveis e cheios de todas as responsabilidades. É nosso trabalho ajudar a criança a compreender e agir corretamente. Uma vez que de fato aprenda a forma correta, ela talvez não erre nunca mais.

Há duas formas de trabalhar a disciplina. Uma é contar, como os marinheiros antigos, com estrelas que nos guiem: o adulto, a rotina, os rituais, poucas e simples regras básicas sempre respeitadas por todos. Outra é trabalhar com buracos negros onde jogamos tudo aquilo que nos dá medo: o descontrole infantil, nossa ira, nosso orgulho, o desequilíbrio de todos nós. É melhor trabalhar com as estrelas. Diferente dos buracos negros, elas estarão sempre visíveis, são belas e espalham luz. De fato, orientam caminhos e ajudam a vida. Dá mais trabalho. Os buracos negros atraem, são espaços gravitacionais fortes. Mas as estrelas iluminam.

Manual do Proprietário de uma Criança Montessori

Texto de Donna Bryant Goertz, disponível em http://mariamontessori.com/mm/?p=1674 – Tradução de Gabriel Merched Salomão distribuída com autorização da autora

Queridos pais,

Eu quero ser como vocês. Eu quero ser exatamente como vocês, mas quero me tornar como vocês do meu jeito, no meu tempo, pelos meus esforços. Quero assistir a vocês e imitar vocês. Eu não quero ouvir vocês, a não ser por umas poucas palavras de cada vez – a menos que vocês não saibam que eu estou ouvindo. Eu quero trabalho, quero realmente me esforçar com algo muito difícil, algo que eu não consiga fazer imediatamente. Eu quero que vocês deixem o caminho livre para os meus esforços, e quero que me dêem os materiais e ferramentas necessárias para que o sucesso seja possível depois das dificuldades iniciais. Eu quero que vocês me observem e vejam se eu preciso de uma ferramenta melhor, um instrumento mais do meu tamanho, uma escada mais alta e mais segura, uma mesinha mais baixa, uma caixa que eu mesmo possa abrir, uma estante mais baixa, ou uma demonstração mais clara de algum processo. Eu não quero que vocês façam para mim, ou me apressem, sintam pena ou me parabenizem. Só fiquem calmos e me mostrem como fazer as coisas devagar, muito devagar.

Eu vou querer fazer um trabalho todinho de uma vez e sozinho porque eu vejo vocês fazendo, mas isso não funciona para mim. Sejam firmes e coloquem limites para mim nessa hora. Eu preciso que vocês me dêem pequenas partes do trabalho inteiro e me deixem repetir de novo e de novo, até que eu faça tudo perfeitamente. Vocês dividem o trabalho em partes que serão muito difíceis, mas possíveis de fazer com bastante esforço, com muitas repetições e com muita concentração.

Eu quero pensar como vocês, comportar-me como vocês, e ter os mesmos valores que vocês. Eu quero conseguir tudo isso pelo meu trabalho, imitando vocês. Falem devagar. Usem poucas e sábias palavras; Movimentem-se devagar; Façam as coisas em câmera lenta para que eu possa absorvê-las e imitá-las.

Se vocês confiarem em mim e me respeitarem, preparando meu ambiente doméstico e me dando liberdade dentro dele, eu vou me disciplinar e cooperar com vocês mais pronta e frequentemente. Quanto mais vocês se disciplinarem, mais eu vou me disciplinar. Quanto mais vocês obedecerem as leis do meu desenvolvimento, mais eu obedecerei vocês.

Nós temos tanta sorte, eu e vocês, que dentro de mim haja um plano secreto para o meu jeito de ser como vocês. Eu sou guiado pelo meu plano secreto. Eu sou feliz e estou seguro o seguindo. É irresistível para mim. Se vocês interferirem com o trabalho de me revelar de acordo com meu plano secreto e tentarem me forçar a ser como vocês do jeito de vocês, no tempo de vocês e pelo esforço de vocês, eu vou esquecer de trabalhar no meu plano secreto e vou começar a lutar contra vocês. Eu decidirei levantar guerra contra vocês e contra tudo o que vocês defendem. É minha natureza. É meu jeito de me proteger. Podem chamar isso de integridade.

Dependendo da minha personalidade, eu promoverei uma guerra mais aberta ou mais encobertamente. Eu brigarei mais ativa ou passivamente. Uma quantidade imensa de minha energia, do meu talento e inteligência será desperdiçada. Vocês vão ganhar no final, provavelmente, mas eu serei só uma versão mais fraca, uma substituição pobre, um molde tosco daquilo que eu sou capaz de ser, e vocês vão ficar exaustos. Por favor, aliviem a tensão para todos nós preparando o ambiente em casa para que eu possa executar meu trabalho de criar um ser humano e vocês possam se manter no trabalho de educar um. Eu farei o que faço melhor e vocês farão o que fazem melhor.

Eu sou capaz de ser o melhor exemplo de suas melhores qualidades e valores expressos do meu jeitinho. Se vocês prepararem a casa cuidadosa e completamente para mim, mantiverem meus materiais em ordem e em bom estado, colocarem limites claros e firmes, derem-me períodos longos e lentos para trabalhar no meu plano secreto, eu farei o trabalho de desenvolver um novo ser humano – eu! Eu mencionei que preciso dos materiais em todos os ambientes da casa? Eu preciso de materias disponíveis para acesso rápido e fácil, sempre que eu estiver em casa e onde quer que vocês estejam. Eu preciso ter a opção de trabalhar e brincar perto de vocês. Na maior parte do tempo, eu preciso fazer as atividades perto da estante ao qual elas pertencem para que eu crie o hábito de guardá-las depois de usar.

Meu plano secreto para me desenvolver é executado totalmente pela mão – mãos, digo, as minhas duas, para ser exato. Eu sou um bom artista, um excelente artesão e preciso das melhores ferramentas e materiais. Não me dê coisas inúteis e em excesso, só uns bons materiais que sejam completos e estejam em bom estado. O excesso é pior que desnecessário; é perturbador. Atrapalha meu processo criativo. Me deixa irritado e eu coopero menos com vocês. Eu sei que é difícil de acreditar que por meio das atividades que eu escolho e executo independentemente e em estado de profunda concentração eu esteja desenvolvendo meu caráter, mas é verdade. Eu não posso fazer um bom caráter com um excesso de coisas inúteis e no meio da bagunça.

Minha casa é meu estúdio e meu ateliê, então por favor, certifiquem-se de que ele seja calmo e pacífico. Coloquem músicas leves e tranquilas para tocar enquanto eu estiver acordado. Assistam televisão só depois que eu estiver dormindo. Enquanto estou acordado, faço todo o barulho de que preciso. Ah, e eu preciso que tudo fique em ordem. Eu não posso dar o melhor de mim na bagunça. Eu não sei como ordenar as coisas sozinho, mas eu preciso da ordem, então eu preciso que vocês arrumem tudo para mim pelo menos três vezes por dia. Se vocês ordenarem as coisas para mim de um jeito prático e que seja esteticamente prazeroso e faça sentido para o meu raciocínio lógico, eu vou, devagarinho, imitar vocês mais e mais.

Em algum momento, vocês poderão me mandar colocar as coisas no lugar sozinho, quando eu tiver uns seis anos, desde que vocês se lembrem de checar tudo comigo até os nove anos. Eu não consigo lidar com o acúmulo de um dia inteiro de coisas para guardar, e muito menos o de uma semana inteira. Eu certamente nunca serei capaz de lidar com um mês de bagunça. Se vocês se distraírem e esquecerem de me ajudar a guardar tudo durante o dia e a bagunça se acumular, vocês vão ter que guardar tudo à noite.

Eu odeio ser tão exigente, mas eu preciso ter todos os meus objetos organizados e dispostos em conjuntos completos que eu possa alcançar, de forma que eu possa pegá-los sozinho. Se eu tiver de pedir para vocês toda vez que precisar de alguma coisa, eu vou começar a me sentir um capitão, um general ou um inválido chorão. Parem e pensem, eu realmente poderia assumir um ou outro desses papéis. Nenhum de nós deseja isso. Eu preciso de independência como eu preciso de oxigênio. Ela me faz apresentar o melhor de mim. O tempo que vocês gastam organizando meu ambiente será o tempo que vocês economizarão não tendo que lidar com meu lado petulante, rebelde e teimoso.

A televisão é uma grande interrupção no meu desenvolvimento. Desculpe! Eu sei que vocês não querem ouvir isso: eu preciso de muitas atividades manuais e preciso de muito tempo de processamento. A TV me distrai das atividades mais importantes e enche minha cabeça com mais do que eu tenho tempo para processar. Leiam para mim todos os dias, porque a leitura vai devagar, e me dá tempo para processar junto. A TV me amontoa com mais do que eu sei usar, então ou eu desligo ou fico frenético. Eu sei que vocês podem achar que alguns programas são bons para mim, e vocês podem achar que merecem a folga que a TV dá para vocês, mas nós todos pagamos um preço alto para cada meia hora que eu assistir.

Eu não resisto à TV, mas tudo bem, porque qualquer criança de três a seis anos tem pais, e é para isso que os pais servem. A TV me deixa distraído, irritado, e me faz não cooperar com vocês. Quanto mais eu assistir, mais eu quero assistir, e aí surgem problemas entre nós. Se vocês não conseguem dizer não para o hábito de ver TV agora, onde está meu exemplo para dizer não para outros maus hábitos mais tarde? Além disso, quanto mais eu vejo TV, menos eu quero ser como vocês. Lembrem-se, eu imito o que assisto. Ah sim, cuidado também com os jogos de videogame e computador pelos quais eu vou implorar e que todos os meus amigos têm. Sei que vocês conseguem!

Geralmente, eu vou estar tão concentrado nos meus trabalhos e brincadeiras que não vou ouvir vocês quando falarem comigo. Não piorem as coisas falando de longe ou repetindo o que vocês disseram. Abaixem-se até o nível dos meus olhos, pertinho do meu rosto, consigam minha atenção e olhem nos meus olhos antes de falar. Então, façam das suas palavras poucas, firmes e respeitáveis. Vocês vão economizar muito sofrimento desnecessário se lembrarem de fazer assim. Eu sei que não vai ser fácil lembrar, mas se vocês se esforçarem bastante, podem fazer disso um hábito. Afinal, se vocês não fizerem o que devem, como podem esperar que eu faça o que devo?

Se você não tiverem tempo, energia ou, odeio dizer isso, autodisciplina para seguir aquilo que vocês dizem, não digam. Ameaças vãs e promessas vazias me fazem desprezar vocês. Vocês ficam parecendo bobos, arbitrários e fracos. Eu sei que eu ajo como se quisesse conduzir o universo sozinho, mas é só bravata. Eu realmente preciso de pais para conduzirem meu mundo. Quando eu não posso confiar que vocês querem dizer o que dizem, eu não posso acreditar em vocês. Isso me faz sentir inseguro e eu chego a alguns extremos. É assustador porque eu amo vocês demais. Eu preciso respeitar vocês e acreditar que vocês querem dizer o que dizem. Vocês são a parte mais importante do meu ambiente em casa.

Vocês se alegrarão de saber que parte do meu plano secreto pede que eu ajude com a casa e o jardim. Não, não pode ser quando vocês quiserem, quando vocês tiverem tempo ou estiverem com vontade. Tem que ser quando eu me interessar. Desculpe, não dá para negociar isso. Afinal, sou eu quem está criando um ser humano aqui. Vocês só estão educando um. Bom, eu acho que não serei de nenhuma ajuda, na verdade, não imediatamente ou diretamente. Vai ser uma complicação. Eu preciso do equipamento no tamanho certo, de demonstrações cuidadosas e de muito tempo e paciência.

Assim que eu tiver dominado uma habilidade, e me tornar capaz de realmente ajudar, vou cansar e escolher não fazer aquilo de novo. Aí eu vou querer aprender algo novo, que exija ainda mais habilidade e desenvoltura e vocês vão ter de começar tudo de novo. Isso vai acontecer mais ou menos uma vez por semana pelos próximos seis anos e vai ocupar bastante do seu tempo tão valioso e escasso. No longo prazo, no entanto, vai ser de grande ajuda, porque eu vou me sentir tão envolvido com a casa e com a família que serei muito mais razoável e cooperativo quanto aos nossos valores e regras. Eu também serei tão capaz, independente e auto-suficiente quando eu tiver uns nove anos que é bastante razoável esperar que eu faça minha parte na casa e no jardim. Eu terei desenvolvido obediência.

Eu sei que minhas necessidades são grandes e muitas. Eu sei que estou pedindo muito de vocês, mas vocês são tudo que eu tenho de verdade. Eu amo vocês e eu sei que vocês me amam além da razão e dos limites. Se eu não puder contar com vocês, com quem eu contarei? Mas não vamos fantasiar. Não precisa ser perfeito. Eu sou forte e resistente. Eu sobreviverei e farei o melhor. Só achei que vocês poderiam querer ter o capítulo sobre Cuidados Básicos com o Ambiente Doméstico do Manual do Proprietário sobre uma Criança Montessori. Vocês podem fazer os próximos três anos serem muito mais divertidos para nós todos se cuidarem de mim conforme minhas necessidades. Ei, nós podemos combinar que vamos satisfazer 50% das minhas necessidades? Ok, Ok, 25% e não se fala mais nisso.

Amor, abraços e beijos,

Seu filho de três a seis anos.

 

PS: Eu sei que tenho muita sorte. Não são muitos os filhos cujos pais vão realmente ouvir e atentar para suas necessidades em vez de ceder às teimosias e chororôs. Talvez eles temam que seus filhos deixem de amá-los. Talvez temam que seus filhos não sejam populares. Eu vou guardar isso para o Capítulo Seis.

Quanto mais eu assistir TV, mais eu vou reclamar por tédio, porque aos poucos eu vou perder minha tendência natural a seguir meus Períodos Sensíveis – sabem, aquela atração a certas atividades durante períodos determinados do desenvolvimento. Sem a interferência da TV, uma incansável sensação de insatisfação criativa me leva a explorar o ambiente, focar minha atenção em uma atividade, concentrar-me nela, e repeti-la. Sob a influência da TV, a mesma sensação incansável se torna um monstro de cara feia chamado “tédio”, que tiraniza a vocês e a mim, desgasta nossa relação e compromete meu melhor desenvolvimento.

 

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Donna Bryant Goertz, fundadora da Austin Montessori School, em Austin, Texas, atua  como uma fonte para escolas ao redor do mundo. O livro de Donna, “Children Who are Not Yet Peaceful: Preventing Exclusion in the Early Elementary Classroom” baseia-se em seus trinta anos de experiência guiando uma comunidade de trinta e cinco crianças entre seis e nove anos. Ela recebeu seu diploma de Ensino Básico Montessori da Fondazione Centro Internazionale Studi Montessoriani, em Bérgamo, Itália, e seu diploma de assistente para a infância pelo The Montessori Institute of Denver, no Colorado.

 

Ordem em Família III: Rotina e Ritual

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“-Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração… É preciso ritos.” (Antoine de Saint-Exupéry em O Pequeno Príncipe)

 
 
Jacqueline Cossentino, pesquisadora de Educação e doutora por Harvard, passou algum tempo pesquisando uma escola Montessori e percebeu algo interessantíssimo que publicou em um artigo chamado “Habilidade de Ritualização: Uma visão não-montessoriana do Método Montessori”. Jaqueline sugeriu que dois itens que fazem parte da ordem do ambiente montessoriano e a utilização do tempo e o comportamento das pessoas. É uma visão extremamente valiosa.
 
Montessori descobriu que uma das tendências da infância é ter afeição à ordem, em todos os sentidos. Já escrevemos aqui no Lar o quando é importante que o ambiente onde vive a criança seja muito bem organizado, e nas últimas semanas explicamos como é importante que a fala dos pais seja clara e precisa. Toda essa organização se estende para a utilização do tempo com a família e para o comportamento dos pais.
 
A previsibilidade gera um imenso conforto para a criança, pois possibilita a sensação de certeza e a sensação de domínio sobre a vida e o mundo, que é muito importante para o desenvolvimento da personalidade, especialmente no que diz respeito à auto-estima e auto-confiança.
 
A utilização de agendas pode ser
uma boa ideia com crianças maiores.
A agenda da criança precisa ser bastante bem definida, inicialmente pelos pais, a partir da observação dos horários naturais da criança. É importante permitir que ela expresse como funciona seu relógio biológico e que a partir dele uma rotina seja criada. Quando a criança estiver indo para a escola ou fazendo atividades como ballet ou esportes, torna-se relevante que estas tenham um dia e um momento também. A brincadeira com os pais, é claro, pode acontecer a qualquer momento, mas que haja um momento diário de estar junto ainda que os pais estejam cansados demais para brincar, que seja para conversar, estar perto, ler uma história. Isso não deve ser acidental nem incidental, deve ser muito bem programado pelos pais, mesmo que a criança não tenha acesso à programação. A regularidade a ensinará quando esperar os pais para algo e quando não, por exemplo, evitando assim a frustração pela ausência deles.
 
A utilização de rituais também traz a sensação de domínio sobre o mundo (e aliás, é exatamente para isso que os rituais servem desde tempos imemoriais) e torna possível à criança organizar suas atitudes diante das diversas ações mais frequentes de seu dia-a-dia. Desde coisas muito simples, execute as ações com ele sempre na mesma ordem. Para se trocar, por exemplo, a ordem pode ser “sapato-meia-calça-cueca/calcinha/fralda-camiseta” ou o contrário, mas faça sempre do mesmo jeito. Na hora do banho também, ensaboe sempre determinadas partes do corpo primeiro e outras depois, e enxague na mesma ordem. Ao servir a comida, procure organizar os pratos em ordens semelhantes sempre, ex: “salada-prato quente-fruta”. Quando é que se escova os dentes? Como é que se escova os dentes? Ensine-o a fazê-lo em uma só ordem, para que a sequência seja gravada.
 
De manhã cedo como se faz? Levanta-se, lava-se o rosto e coloca-se a roupa? Utilize sempre a mesma sequência. Para nós, adultos, variar pode ser interessante, mas para a criança é confuso. Na hora de dormir, coloca-se o pijama primeiro, e depois se escova os dentes e se deseja boa noite? Antes de dormir o que se faz? Reza-se, lê-se? Inicialmente parece que é muito para pensar de uma só vez, mas você vai perceber que na verdade já tende a fazer tudo do mesmo jeito todos os dias, é mais uma questão de organizar os detalhes.
 
Seu filho ou sua filha terão uma compreensão muito maior da própria vida se puderem contar como foram seus dias, e isso funciona melhor quando existe uma ordem para suas ações. Assim, eles perceberão que dominam tudo o que fazem, e que conhecem o momento de cada afazer, e que sabem exatamente como cada ação de seu dia-a-dia é executada, sem confusão e sem muitas exceções. Isso tenderá a auxiliar a criança a se conhecer melhor, a confiar mais em suas capacidades de ação e a construir sua própria liberdade. Muito boa sorte!