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Arquivo da categoria: Preparação de Ambientes

Textos sobre o ambiente preparado de acordo com o método Montessori e com as ideias de Maria Montessori.

Montessori e Concentração

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“A alegria e o contentamento vêm da concentração” – Thich Nhat Hanh

Se você acompanha o Lar Montessori há algum tempo, sabe da relação profunda que existe entre o método Montessori e o desenvolvimento da concentração. Essa relação não pode nunca ser esquecida ou desprezada. Montessori é explícita quando, em Mente Absorvente, declara que a concentração é o primeiro e o maior objetivo de seu método, e o surgimento da concentração, junto com os traços de caráter daí decorrentes são os únicos objetivos de seu trabalho.

A professora e pesquisadora da Universidade de Virgínia, Angeline Lillard, dedica-se, entre outras coisas, a descobrir as implicações de Montessori para o bom desenvolvimento cognitivo, social e emocional da criança pequena, utilizando-se das ferramentas da psicologia cognitiva. Em um trabalho recente (Mindfulness Practices in Education: Montessori’s Approach, 2011), Lillard expõe argumentos para defender a relação entre Montessori e o que chama de práticas de atenção. Nosso texto é baseado no artigo de Lillard, que você pode ler em inglês aqui.

Recentemente, enfrentamos uma onda de diagnósticos – verdadeiros e não-tão-verdadeiros – de crianças com Transtorno de Desvio de Atenção e Hiperatividade. À parte disso, professores reclamam o tempo todo da falta de atenção de seus alunos, e os alunos reclamam entre si de sua incapacidade de manter o foco de sua atenção por mais de alguns minutos. Há inúmeros culpados, mas decididamente enfrentamos uma pandemia de falta de concentração.

Esse texto é menos sobre a aplicação de Montessori em casa e mais sobre a aplicação de Montessori na escola. O Lar Montessori quase não faz isso. Mas dessa vez é importante. Esse texto está aqui para ajudar você a escolher a escola Montessori de seu filho. Procure uma escola que favoreça a concentração verdadeira, e então você poderá encontrar uma escola Montessori. Montessori não está em centenas de materiais em uma sala de aula, nem em professores com anos de experiência, não está em salas grandes e bastante decoradas, nem em ambientes que desejam preparar para o mercado de trabalho ou preparar as crianças para o mundo. Montessori está em escolas que buscam uma educação para a vida na vida, e que alcançam belos estados de concentração.

O ambiente escolar montessoriano é uma casa, que deve se parecer com uma casa doméstica, com mobília bonita e bem distribuída, sem excesso de móveis que impeça o movimento ou a circulação do ar. Há janelas amplas e que permanecem abertas quase sempre, permitindo o arejamento e a iluminação da sala. Os materiais nas estantes não precisam ser impecáveis (os de Montessori não eram) – eles precisam preservar suas características mais importantes e precisam estar em bom estado. Eles também não precisam ficar todos os dias exatamente no mesmo lugar, embora um bom nível de organização seja muito importante. As paredes são claras ou neutras, o chão pode ser de pedra, madeira, piso, ou algum material emborrachado, mas sempre de uma cor que não cause fortes impressões à criança, para que seja parte do ambiente e não mais um estímulo a ser absorvido. Sobre os materiais, novamente, devem ser escolhidos os melhores de que a escola puder dispor. Brinquedos tradicionais são habitualmente muito coloridos, e apresentam uma quantidade de desafios à criança que a confunde, sem ensinar ou organizar sua mente, e não levam à concentração.

Também é importante, e isso contraria o senso comum profundamente, que não haja muitos professores na sala. Uma quantidade grande de professores para poucos alunos transforma a sala em um ambiente tradicional, no qual os professores controlam tudo o que as crianças fazem, inviabilizando a liberdade de ação infantil.

Finalmente, não deve haver muitos materiais. Montessori foi explícita de novo aqui: “Enganamo-nos pensando que a criança ‘cheia de brinquedos’, sempre cercada de ajuda, ‘deveria ser a mais evoluída’. Muito pelo contrário, a multidão desordenada de objetos agrava seu estado de espírito semeando nele, novamente, o caos, oprimindo-a e desencorajando. / Os meios destinados a auxiliar a criança a pôr em ordem seu espírito e facilitar-lhe a compreensão das inúmeras coisas que a envolvem deverão ser limitados ao mínimo necessário para poupar suas forças e fazê-la avançar com segurança pelo árduo caminho do desenvolvimento” (Pedagogia Científica, p.107).

Todas essas características trabalham pelo desenvolvimento da concentração na criança pequena. Mas além delas há ainda outras. Em qualquer escola montessoriana, você encontrará crianças agindo como pequenos adultos. Servem sua comida, comem educadamente, lavam seus utensílios, secam tudo, guardam. Varrem o chão que sujaram e enxugam a água que deixaram cair. Ajudam-se mutuamente em suas tarefas diversas, cuidam do ambiente e de si mesmas e interagem livremente. A vida real que se faz presente na sala é chamada por nós de Vida Prática. Não se tratam de exercícios em bandeja somente, mas de aprendizados que podem ser estendidos a todas as ações no ambiente e que passam a fazer parte do dia a dia de cada criança.

O fato de as crianças aprenderem a como agir em sua vida, passo a passo, ajuda no desenvolvimento de suas funções executivas e joga a favor de altos níveis de concentração advindos de uma certa prática ritualística, que serve para organizar o pensamento infantil. Ensinamos tudo devagar, parte por parte, com detalhes e ênfases nos gestos, e em absoluto silêncio, para não roubar a atenção do trabalho em si. Assim, quando a criança parte para a ação, age com muito cuidado e atenção, consciente de cada detalhe de seu trabalho e – por que não dizer? – de sua existência no ambiente.

Para que os pequenos possam agir com liberdade é necessário, como se diz frequentemente, respeitar seu tempo. Montessori mediu o que isso significa e encontrou uma forma adequada de fazê-lo. Precisamos garantir períodos ininterruptos de três horas no mesmo ambiente preparado. Chamamos esse período de ciclo de três horas. É ele que permite à criança chegar na escola, começar a trabalhar com algo simples e ir numa curva ascendente até algum desafio realmente maior e que lhe exija de fato um alto grau de concentração. É como se a criança, sozinha, fizesse um aquecimento de concentração, focando sua atenção pouco a pouco, até estar pronta para o maior desafio do dia. Depois, ela ainda tem tempo para esfriar, admirar sua conquista, e proceder para mais algum trabalho que não lhe exija um nível tão alto de esforço ou simplesmente descansar e observar a sala. A presença de muitas atividades extracurriculares, ao contrário do que se pensa, não é positiva para a criança, pois quebra seu percurso de concentração e trabalho, desrespeita seu ímpeto natural de ação, fere seu direito de escolha e inibe sua liberdade. A garantia de um período de trabalho contínuo de três horas é um dos pilares práticos do método Montessori, e é o que permite o desenvolvimento pronunciado das mais diversas habilidades cognitivas.

É no momento de mais alta concentração da sala, quando o silêncio reina quase absoluto, que chamamos as crianças a um jogo breve, do qual se participa voluntariamente, e que leva a concentração a um nível que não se imaginava possível a crianças pequenas. O Jogo do Silêncio é um exercício que fazemos em sala, quando as crianças estão perfeitamente concentradas, e que as transporta para um patamar superior de apreciação da própria consciência e de reconhecimento do silêncio que nos habita, individual e coletivamente. Aproxima-se muito da contemplação ou da meditação, mas é realizado voluntariamente por crianças de três a seis anos, e mais velhas, e lhes permite um mergulho intenso na própria personalidade e no nobre valor do esforço realmente coletivo.

Todo o tempo na sala, inclusive durante o jogo do silêncio, o corpo e a mente da criança funcionam juntos. Tudo o que a criança faz, faz com as mãos e o corpo. Tudo ela sente, tudo manuseia, tudo carrega, ajeita, empurra, encontra, levanta, transporta. Seu pensamento se expressa claramente por suas mãos. Essas últimas, disse Montessori, são os instrumentos da inteligência humana, e vale pensar nesses instrumentos como instrumentos musicais, que permitem à criança tocar, em cada um de seus aprendizados, a harmonia do universo em seu constante processo de desenvolvimento. Carl Sagan, astrônomo de imenso destaque, dizia que “Nós somos uma forma de o universo conhecer a si mesmo”, e quando vemos a sincronia entre mente e mãos na atividade de uma criança pequena nos tornamos testemunhas da intimidade absoluta que há entre o universal e o fundamentalmente humano.

Qualquer interação entre professor e aluno que iniba a atividade das mãos da criança é uma privação de sua liberdade. Por isso, as apresentações de materiais duram poucos segundos, e por isso ensinamos muito pouco. No mais das vezes, permitimos que a relação entre a criança e o material lhe ajude em suas descobertas e dê suporte para sua organização mental.

As atividades de Vida Prática, todo o trabalho Sensorial, o entrelaçamento entre mão e mente mesmo em estágios mais avançados da Aritmética e da Gramática, o Jogo do Silêncio, as Caminhadas na Linha, a análise dos movimentos, a simplicidade do ambiente, a liberdade para trabalhar, o ciclo de três horas, a restrição no número de materiais e de professores, tudo isso cria o ambiente perfeito para o desenvolvimento da atenção, da concentração e da consciência. “A felicidade”, disse Montessori, “não é todo o objetivo da educação. O ser humano deve ser independente em seus poderes e em seu caráter; capaz de trabalhar e afirmar seu domínio sobre tudo aquilo que depende dele”. E entretanto, todas as crianças são felizes em Montessori. Talvez Hahn esteja certo: da concentração vêm a alegria e o contentamento.

Segurança no Ambiente Preparado

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Uma das principais características do método desenvolvido por Maria Montessori é a interação profunda e constante entre a criança em desenvolvimento e o ambiente que a cerca. Essa interação acontece sempre. A criança sempre olha, repara, absorve, analisa, reproduz muito daquilo que existe em seu entorno. Isso diz respeito não só ao ambiente físico, mas também ao que há de emocional e psicológico nos adultos e outras crianças presentes no meio.

Do ponto de vista montessoriano, o ambiente deve ser preparado para a criança, de forma que possa lhe ajudar a vida. Para que um ambiente possa ajudar a vida de uma criança, precisa cumprir alguns requisitos básicos, sobre os quais conversamos constantemente aqui no Lar Montessori (veja textos sobre o ambiente preparado aqui)

Podemos entender, também, que o ambiente natural, com árvores, relevo terrestre intocado, plantas, animais, lagos, céu, vento, terra… é o melhor ambiente para uma criança se desenvolver, porque é o melhor para qualquer forma de vida, e evoluiu junto conosco, ao longo de milhões de anos. Uma criança que pode viver num ambiente natural é sempre feliz. Tem mais chance de se desenvolver perfeitamente e com esforços contentes e frequentes. Todavia, o ambiente natural não é uma opção para muitos de nós – embora, vale dizer, seja ainda importante levar as crianças a parques, praia, bosques, praças e florestas sempre que possível. Especialmente para os que vivem afastados do meio natural, Montessori desenvolveu o ambiente preparado.

Assim, ainda é importante colocar, o ambiente montessoriano não é um ambiente adaptado. Ele é um ambiente preparado para a criança a partir dos insights que podemos ter observando a natureza da criança e a natureza do mundo. Nesse sentido, quando colocamos tudo baixinho para a criança acessar, fazemos isso porque na natureza há coisas interessantes para o desenvolvimento em todas as alturas. Quando permitimos que a criança mexa com coisas que não são de criança, mas lhe ensinamos a forma perfeita e correta de fazer isso, é porque na natureza não há separação nítida entre as coisas de criança e as coisas de adulto, e o que importa é aprender a lidar com todas elas.

Há, porém, uma diferença de grande importância entre o natural e o humano, ou o urbano. Temos poucos instintos sobrando, em relação aos animais ditos irracionais, e no ambiente doméstico moderno, esses instintos nos servem de muito pouco, pois não surgiram ao longo da evolução para servir a uma casa ou apartamento de concreto, com luz artificial e geladeira. Surgiram para a grama, a caverna, o rio. Dessa maneira, quando preparamos o ambiente para a criança pequena precisamos ter em vista não só tudo o que o ambiente precisa ter de igual à natureza, mas também tudo o que ele precisa ter de diferente. Entre as diferenças está a garantia total de segurança.

Na natureza selvagem não há apartamentos. Há árvores, é bem verdade, mais altas que alguns prédios. Mas os animais que vivem nessas árvores viram-se muito bem nas alturas. Macacos saltam melhor do que nós, pássaros voam sem o auxílio de asas delta, aviões ou qualquer outra ferramenta artificial, quase nenhuma delas precisa de pista de pouso (a exceção, vale dizer, é o albatroz, que voa de forma belíssima, mas que tem dificuldades para pousar). Na natureza, quando há uma queda d’água, um buraco profundo, ou um fiorde, os animais sabem se podem ou não se atirar de lá. Os que voam podem, e atiram-se, à moda dos pássaros. Os que não podem, ficam, e sequer se aproximam muito da beirada, à moda dos elefantes.

Com os humanos acontece algo diferente e, até mesmo, estranho. Nós, naturalmente, não voamos. Entretanto não faltam exemplos de humanos no ar: paraquedas, super-heróis, asa-delta, aviões, helicópteros, homens-morcego, foguetes, bungee jump, parkour, salto em distância, salto com vara, trampolins e plataformas, saltos ornamentais, levitação cinematográfica, todo tipo de ficção científica e fantasia, escaladas, rapel… O fato é que, para um observador iniciante, humanos podem voar. E nós precisamos contar com isso ao preparar nossos ambientes para a criança. Precisamos atentar para o fato de que há alturas impróprias para uma criança, e que elas não podem ter que aprender sozinhas que pular de muito alto pode machucar. Porque a consequência do erro pode ser grave demais.

Precisamos cuidar de nossas escadas e nossas janelas, de estantes com prateleiras e de móveis muito altos, de mezaninos e de segundos andares, precisamos de cuidados para que a criança não possa errar onde o erro pode ser fatal. As crianças não sabem que não podem pular e, especialmente se veem televisão, tudo diz a elas que podem. Elas também não podem aprender às custas do erro, e elas não nascem sabendo. Instintos existem, mas em nossas sociedades, eles são rápida e totalmente suplantados por tendências culturais e esquecidos.

Na natureza há eletricidade. Há raios, há eletricidade estática. Há até peixes elétricos. Mas nenhuma dessas eletricidades é tão potencialmente danosa quanto a de uma tomada. A tomada está lá, sempre, parada, no mesmo lugar, esperando por um acidente. Na natureza as árvores podem levar descargas de raios, mas isso não acontece o tempo todo, e poucos animais procurarão, por curiosidade, uma árvore prestes a receber um raio. Com os peixes elétricos acontece o mesmo: trata-se de uma arma de defesa, e os outros animais sabem evita-la. Com a tomada é muito diferente. Ela está sempre eletrizada, e as crianças não sabem evitar.

Por isso, duas medidas podem ser utilizadas aqui. Primeiro, podemos tampar as tomadas. Se temos algumas que não usamos, podemos instalar espelhos cegos nelas, para que os buraquinhos fiquem escondidos. Outras alternativas são colocar móveis na frente das tomadas ou instalá-las no alto. Podemos também tampar só as saídas da tomada, com pecinhas pequenas de plástico. Mas nesse caso precisamos ficar atentos. Já presenciei uma criança retirando uma dessas pecinhas com um clip de papel – de metal, e muitas crianças arrancando isso com os dedos e as unhas. Funciona enquanto eles são muito pequenos, depois não mais.

Quando crescem, talvez mais do que esconder as tomadas, seja útil ensinar como lidar com elas. Bem devagar, ensinar a colocar os plugs nas tomadas, com cuidado e segurando os plugs claramente só pela parte de plástico. É válido ainda dar alertas à criança de que ela só deve usar tomadas com um adulto por perto e que nunca deve colocar os dedos ou alguma outra coisa nas tomadas, diferente dos plugs. É a vida da criança que está sendo protegida, e precisamos fazer isso direito.

Um terceiro ponto importante tem a ver com o quarto montessoriano. No quarto montessoriano, sabemos, as camas ficam no chão. Isso é necessário porque a criança precisa conseguir subir e descer da cama com a mesma facilidade que nós subimos e descemos das nossas. Por isso não vale uma cama “normal mas que ele consegue subir e descer”, porque nesse caso, se trata de uma cama sobre a qual a criança sobe com esforço demais, e isso atrapalha inclusive seu sono, pois a desperta muito. A cama precisa ser no chão, mas precisamos cuidar dessa cama.

Não são necessárias grades em volta da cama. Cair de uma cama no chão não machuca, e é importante. É caindo que a criança aprende a não cair da cama, e a controlar seus movimentos enquanto dorme. Mas outras atenções devem ser dispensadas: é necessário isolar o colchão do chão, para o frio do piso não passar para o corpo da criança durante a noite. É necessário que se limpe embaixo do colchão e que ele seja virado de tempos em tempos, que se cuide para evitar mofo. Finalmente, em cidades mais frias, é necessário cobrir muito bem a criança, com agasalhos, mais do que com cobertas, que saem durante a noite. Isso é especialmente importante porque com a cama rente ao chão, o ar frio fica na mesma região em que a criança dorme. E assegurar a temperatura de seu corpo também é proteger sua vida.

O ambiente preparado deve ser aquele que melhor provê meios para a criança crescer e se desenvolver com liberdade e o máximo de independência. Liberdade, aqui, não é a ausência de qualquer proteção, limite e cuidado. Não é deixar a criança à própria sorte. Isso seria uma forma de abandono que viria por aniquilar o gênero humano. O ser humano precisa de limites, precisa de proteção e precisa de cuidado, especialmente em seus primeiros anos de vida.

É falso imaginar que porque Montessori defende a liberdade, o método Montessori consiste em não fazermos nada para prepararmos o ambiente e deixarmos que a criança faça o que quiser em um ambiente que nada tem de próprio para ela. O método é uma pedagogia científica que consiste em preparar um ambiente com cuidados totais, retirar dele obstáculos ao desenvolvimento – e inclui-se aqui qualquer coisa que ameace a vida – e então observar a criança em liberdade. A segurança não é só importante em um ambiente montessoriano. Ela é uma das bases do próprio ambiente. Só em um ambiente seguro podemos, sem medo, permitir a liberdade total da criança.

É Pra Ser Simples

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A máxima elegância de qualquer sistema é seu máximo de simplicidade. Não fosse assim, seria impossível a nós o avanço da civilização. Vivêssemos nós num mundo cujo progresso dependesse de um aumento gradativo de complexidade, em algum momento, haveria um nó, e nós não conseguiríamos mais caminhar. A bem da verdade, é isso o que acontece nas grandes cidades, especialmente no que diz respeito à mobilidade urbana – um grau cada vez maior de complexidade impede que se saia de casa ou se volte para casa a qualquer horário. Mas é o oposto do que acontece com a tecnologia: aparelhos cada vez mais simples permitem que muita gente transforme a própria vida (a gente sabe que você não vai entender errado e vai continuar evitando a exposição de sua criança a telas eletrônicas de todo tipo).

Se é assim com coisas exteriores a nós, como o transporte urbano e os notebooks e celulares, que dizer então do que nos é interior? Sistemas diversos de cunho filosófico e religioso partem de uma estrutura extremamente simples, e as mais diferentes linhas de autoconhecimento vão pelo mesmo caminho. Não é coincidência que Montessori tenha chegado em um sistema de pensamento e ação de princípios gerais simplíssimos, possíveis de ser compreendidos por qualquer um.

Não é possível que nosso trabalho precise ser compreender Montessori. Isso é simples. Nosso trabalho precisa ser internalizar algumas ideias que contrariam fundamentalmente a forma de pensar moderna, esta sim, cada vez mais complexa. É notável, entretanto, quanto se conseguiu complicar Montessori desde sua morte. Ela insistiu inúmeras vezes na simplicidade científica de seu trabalho. Não na facilidade dele, mas na simplicidade dele. Um de nossos trabalhos, no Lar Montessori, é permitir que você compreenda Montessori, então, aqui vai uma explicação sintética do que Montessori compreendia como ambiente preparado. O texto foi inspirado no subcapítulo “Qualidades Fundamentais Comuns a Tudo no Ambiente que Circunda a Criança”, do livro A Descoberta da Criança, ainda sem publicação em português. Montessori falava da escola, a gente vai levar isso para casa.

 

Qualidade 1) O Controle do Erro

Tudo quanto possível no ambiente da criança deve permitir que ela perceba seus erros e imperfeições, especialmente de movimento, e melhore a partir da própria percepção, mais do que a partir da correção do adulto. Quando precisamos corrigir o tempo todo, a criança não se torna independente de nós. Ela precisa da gente, o-tempo-todo. Se o ambiente fala com ela, se ele explica para ela os pontos sobre os quais ela precisa trabalhar, então esse desenvolvimento ocorre de si-para-si, e ela é capaz de compreender-se e compreender o mundo ainda melhor, por meio desse trabalho interior.

Alguns exemplos podem ajudar a compreender. Nós costumamos rodear a criança de tudo o que não quebra, para que ela possa ter total liberdade de movimento. Entretanto, uma liberdade sem direção não leva a lugar algum. A criança que usa um copo que não quebra, joga esse copo no chão se sente alguma emoção negativa, porque sabe que nada vai acontecer. Uma criança que usa copos de vidro não age assim – ou age assim com muito menos frequência, para evitar universais – porque sabe que causará uma consequência definitiva.

A criança que mora em uma casa cujos móveis têm tecidos escuros ou impermeáveis não pode perceber a sujeira que causa quando sobe em algo de sapato ou quando deixa cair qualquer líquido. Toalhas de mesa entram nessa também. Vale a pena apostar no tecido claro, talvez num tecido protetor claro, no caso dos móveis, para que a criança possa enxergar a consequência de seu comportamento.

Quanto à mobília, o mesmo é verdadeiro. A mobília leve ajuda a criança a notar quando sua movimentação é descontrolada. Ela esbarra e as coisas se mexem, fazendo barulho. Isso a ajuda a não esbarrar da próxima vez. Mobília pesada, fixa, não mostra para a criança o resultado de suas ações.

Fala-se muito da correção e até do castigo como consequência. Está errado. Nós não “damos consequência” para a criança. Deixar a criança sem ir ao parque porque ela sujou/quebrou/derrubou não é dar consequência. É dar castigo. Consequência o ambiente mesmo dá, e com ele a criança aprende. Isso se chama controle do erro, essa consequência natural provocada pelo ambiente que responde às ações da criança.

 

Qualidade 2) Estética

A beleza não é opcional no ambiente da criança. Ela é absolutamente necessária. Uma beleza quase sublime, cuidadosa, pontual. Um amontoado de coisas sem sentido, como são quase todos os quartos infantis, e infelizmente muitos dos modernos quartos montessorianos, é feio, sem sentido e confuso. A beleza é pensada, cuidada, quase exata, e muito humana. É belo verdadeiramente o por-de-sol que poderíamos admirar por horas a fio, como fez o Pequeno Príncipe, que movia sua cadeira afim de rever o por-do-sol quarenta vezes, em um dia de especial tristeza.

É belo o céu estrelado, sob o qual nos deitamos e ao qual assistimos não fazer nada, a conversar com um amigo ou companheiro, por tempo sem fim. É linda a praia, a floresta, e é linda a flor e cada uma de suas pétalas, é belíssima a libélula que toca a água muito brevemente à caça de comida e gera círculos perfeitos, que só vão se quebrar à borda dos lagos. A criança quando encontra um pedaço de pedra no chão, um animalzinho novo, ou uma flor, e agacha-se para poder explorar e conhecer melhor, descobrir mais um detalhe do mundo, encaixar mais uma peça do infinito quebra-cabeças, que quando adultos esquecemos de completar.

É essa a beleza que devemos levar para nossos lares, se desejamos que sejam ambientes propícios ao desenvolvimento infantil. Poucos brinquedos, de cores bem definidas, atraentes com certeza e até brilhantes, mas não exageradas em número. Um dos materiais mais fundamentais dentro de Montessori é a Caixa de Cores, que contém 64 pequenos pedaços de madeira coloridos ou envoltos em seda tingida. São 64 cores, com certeza uma imensidão de cor e brilho. Mas são 64 cores que ficam dentro de uma caixa, que pode ser aberta e usada com beleza e cuidado pela criança, quando ela deseja. Não são 64 cores povoando e pululando no ambiente, a gerar tormentas mentais na criança que busca paz e tranquilidade para se desenvolver.

Essa beleza está em ambientes muito bem organizados, em objetos bonitos. Num prato de porcelana cuidadosamente acabado e em um copo muito limpo e sem riscos no vidro. Está em roupas organizadas nas gavetas do guarda-roupa e em roupas que permitam à criança apreciarem as peças do que vai vestir como se estivesse em um museu, e não tanto em frente a um muro decorado por uma profusão de pichações coloridas. Essa beleza está em quanto pensamos naquilo que deixamos à disposição da criança e quando consideramos com cuidado cada elemento do espaço onde ela viverá.

 

Qualidade 3) Atividade

Esta característica diz mais respeito aos brinquedos e objetos úteis do ambiente. Não vale o brinquedo que brinca sozinho. Lembram do cachorrinho que, bastava ligar, saia dando cambalhotas? Esse brinca sozinho, como brincam sozinhos os brinquedos em que basta apertar um botão para sair um som. Se queremos um brinquedo com som, por que não um sino? Um chocalho? Um pau de chuva?

Os materiais colocados à disposição da criança devem inspirar sua atividade. Devem servir à mais íntima necessidade de movimento, de descoberta e de organização mental. Quanto aos brinquedos que chamam a atividades demais, não servem também. Aquele, que tem quatro espaços em cima, cada um de uma cor e uma forma, mais dos espaços ao lado, além de seis peças coloridas de formatos semelhantes aos dos buracos, somados a oito pequenas portas, quatro de cada lado do brinquedo, que podem ser abertas por outras oito pequenas chaves coloridas, e que tem uma alça para que sirva como malinha onde se leva a infinidade de peças e chaves… Isso não serve para nada.

Nenhum adulto tem um só objeto com mais de dezessete opções de ação. Cada coisa tem seu propósito no mundo. Um brinquedo de encaixes é bem vindo. Um com dezesseis encaixes diferentes, coloridos, que abrem-e-fecham, é muito. É necessário pensar em brinquedos que permitam à criança que aja, e não que se ocupe. E é diferente.

Quando ela vai à cozinha, encontra as panelas e as derruba todas de uma vez do armário, para depois sair andando à busca de outras novidades, isso é uma criança só se ocupando. Quando ela retira os potes do armário e começa a encaixar um no outro, ou a tentar tampar um por um, isso é ação, com propósito, com finalidade real, e que ajuda no desenvolvimento. Isso leva a criança a um grau de concentração lindo de ver, e que nós devemos ajudar a surgir por meio dos brinquedos, objetos e materiais adequados.

 

Qualidade 4) Limites

Imagine-se por um momento em uma floresta. Sem trilha e sem bússola. No fim da tarde. Imagine que você pergunta a alguém a direção em que deve seguir para chegar a um local determinado, e imagine também que a pessoa lhe oriente corretamente: “Basta seguir reto, até amanhã cedo, você chega”. Você começa a andar. A probabilidade de você se perder e não chegar nunca, havemos de concordar, é altíssima. Para a criança, a vida é assim.

Se a criança tem coisas demais em seu ambiente, caminhar na direção de seu desenvolvimento é um desafio difícil demais, complexo demais. Não é simples. E precisa ser simples. Por isso, devem figurar nesse ambiente umas poucas coisas, que ajudem no momento do seu desenvolvimento, que sejam exatas para suas necessidades. Para entender exatamente essas necessidades, refira-se a textos sobre Períodos Sensíveis e sobre desenvolvimento do movimento das mãos, aqui no Lar Montessori e em outras páginas.

É muito difícil aceitar que a relação entre melhor desenvolvimentomais atividades ou mais auxílio não é direta, e ela não é direta. Em uma floresta como a que falamos acima, não é necessário derrubar todas as árvores, fazer uma estrada e colocar sinalização a cada dois metros. Só é necessário abrir uma trilha visível e colocar algumas placas de madeira ou pedra. Quem sabe baste uma bússola e um mapa. Mas é necessário alguma coisa.

E essa alguma coisa tem como finalidade colocar ordem na mente do caminhante. Ajudá-lo a organizar seu ambiente mentalmente. O excesso de brinquedos ou materiais (em casa ou na escola) é prejudicial, é como se além de todas as árvores, plantas e caminhos possíveis na floresta, ainda tivéssemos muitos rios e uma plaquinha com o nome de cada árvore por onde passamos. É informação, é caminho possível, mas é confuso, e só dificulta. É muito mais fácil se orientar em um bosque, por exemplo, ou em uma floresta aberta, e com uma bússola e uma trilha que, porque diminuem a quantidade de opções, facilitam a tomada de decisões corretas.

 

Como uma conclusão.

Montessori não é para ser um problema a mais na sua vida, uma árvore a mais em uma floresta na qual você está perdido. Não é para ser uma referência a mais na multiplicidade de referências sobre criação de crianças a que você tem acesso, gerando mais dúvidas e mais confusão, e piorando o chão firme, e não tão firme, sobre o qual você pisa para criar seus filhos.

A ideia de Montessori é ser uma trilha, um conjunto de placas, e uma bússola. Um caminho simples, belo, cheio de atrativos interessantes e ocasiões de encanto, mas um caminho simples, compreensível, que você pode percorrer. Porque Montessori dá certo com qualquer criança, em qualquer ambiente, em qualquer lugar do mundo em qualquer época (e é necessário muita coragem para dizer isso, mas também uma certeza absolutamente científica do que se diz), por causa de tudo isso, é possível afirmar para você: invista um pouco do seu tempo para entender Montessori.

Supere a fase de achar que tudo isso é complexo demais, e estude mais um pouco. Debaixo de uma quantidade imensa de informações, você vai encontrar um sistema muito bem definido, construído sobre sólidas bases de investigação científica, e um método que pode realmente ajudar você a simplificar sua vida e sua forma de criar as crianças. Durante esse processo, conte conosco. E depois desse processo, volte para contar como está sendo usar essa bússola, caminhar por essa trilha, e se encantar com cada sorriso aberto, olhar fascinado e disposição contente de seu filho em relação à vida e ao mundo, todos os dias.

 

ambiente

O que Realmente Importa

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Montessori cresceu muito no Brasil nos últimos dois anos. E é de se comemorar. Chegamos à UOL, à Globo News e a diversos sites internacionais de notícias. Verdadeiramente, hoje se vê Montessori, cada vez mais, sendo parte das discussões sobre educação e sobre criação de crianças pequenas. Hoje, em terras brasileiras, entretanto, demos dois destaques principais quanto ao método Montessori aplicado à realidade familiar e doméstica: primeiro, o “quarto montessoriano”, depois, as “atividades”. Este texto é uma tentativa de voltar ao que realmente importa: a Ajuda à Vida.

O ambiente preparado é mais do que o quarto. E é mais do que o colchão no chão. O quarto pode ser um começo, um primeiro passo, e é um sinal de verdadeira vontade de revolucionar a criação de sua criança, de colocar em prática de fato aquilo que você sabe e aquilo em que você acredita. Por isso, ele é tão importante. O quarto também é o local onde a criança passará mais tempo em seus primeiros meses de vida, porque ela vai dormir bastante e quando acordar vai ficar por lá durante um tempo ainda, trabalhando com os materiais, objetos e brinquedos que você deixar lá para ela. O quarto importa. Mas o que importa de verdade é mais que o quarto, e é o que chamamos em Montessori de ambiente.

O ambiente é a casa toda, e tudo o que se puder adaptar ainda fora da casa. Ambiente é onde a gente vive. Na natureza há coisas interessantes a todas as alturas, galhos no chão, flores rasteiras, animais que caminham ou voam baixo, relevo natural irregular. No meio urbano, tudo o que é interessante foi levantado, e tudo fica a mais de um metrô do chão. Mesmo assim, de vez em quando, quando caminhamos pela rua ou enquanto trabalhamos em casa, a criança encontra algo pequeno, discreto, que passou despercebido e está perto do chão. Nos faz lembrar Drummond:

“É feia. Mas é uma flor. Venceu o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio”.

Poderia ser algo bonito! Algo realmente interessante, algo que fosse feito especialmente para alegrar os sentidos e fazer a vida mais valiosa. Como poderia nos lembrar Blake:

“Ver um Mundo num Grão de Areia
E um Céu numa Flor silvestre,
Ter o Infinito na palma da sua mão
E a Eternidade numa hora.”

O ambiente preparado é a tentativa de trazer o infinito para a palma da mão, o universo para as pontas dos dedos, a eternidade para perto dos olhos. Em casa, podemos preparar a sala, com uma pequena cadeira para a criança ler seus livros, em companhia da poltrona ou do sofá, onde leem os mais velhos. Na hipótese de você ainda não ter aberto mão de sua televisão e de sua criança ainda assistir à programação diária com a família, essa cadeira também dá a ela a oportunidade de se sentir confortável e não precisar sentar-se no sofá com as pernas distantes do chão. Podemos preparar o banheiro, e é tão simples, com um banquinho firme e de base grande o suficiente para os dois pés da criança, com um apoio mais baixinho no box para o sabonete e o shampoo, ou mesmo no chão, com um gancho para a toalha da criança, que pode ser daqueles de ventosa, para prender no azulejo. O sabonete pode ser cortado num formato de ampulheta, para que a criança possa segurar com firmeza, e pronto, o banho e o escovar de dentes terão um espaço muito melhor para acontecer.

A cozinha é todo um mundo, e pode-se ter uma gaveta especial para os pertences da criança, uma prateleira na geladeira, aquela mais baixinha, para lanches seus, potes com sua comida, pedaços de frutas e mesmo uma jarra de suco. Podemos disponibilizar para a criança dois pratos de cerâmica para suas refeições, lanches e sobremesas, um copo de vidro e um de metal, ou só um dos dois, talheres de metal e guardanapos. À sua altura ainda pode haver uma jarra com água fresca ou um filtro pequeno, panos para secar quando derramar água fora do copo e uma vassourinha com pá, para varrer os grãos ou farelos que ficarem para fora do prato – os farelos da mesa ela pode limpar com um guardanapo mesmo ou com um “papa migalhas“. Um lixo de cozinha que a criança possa acessar, além do pouco higiênico lixo sobre a pia, também é uma boa escolha. Por fim, mais um banquinho ou escada baixinha, para a criança poder lavar sua louça ou colocá-la na pia, e também para que possa observar o que você cozinha, com você por perto, e não fique ao redor do fogão com perigosa curiosidade. São excelentes inovações em seu ambiente mais divertido da casa.

Claro, há o quarto, mas nós já falamos dele no Lar, e há uma profusão de informações, algumas de muito boa qualidade, circulando na internet. Não retornaremos ao quarto agora. E há, também, o resto da casa: um quintal, uma varanda, um escritório. No Lar Montessori nós não pensamos em Home School, por isso, quando sugerimos adaptações da casa, pensamos que a casa basta, a preparação dela serve somente à vida da criança, é para que a criança viva melhor em casa que nós mudamos tudo. Isso faz diferença no nosso próximo ponto: as atividades.

Montessori nunca chamou seus materiais de atividades. Chamava-os de trabalho e há diferença. O trabalho é aquilo que a criança faz porque seu corpo e sua mente pedem, e que satisfaz suas necessidades internas de desenvolvimento. O trabalho não é aquilo que nós achamos interessante, ou aquilo que nos diverte. É aquilo que chama a atenção da criança espontaneamente e a faz concentrar-se e controlar seus movimentos e impulsos, em direção a uma finalidade superior à do movimento descontrolado e impulsivo. O trabalho une mão, mente e coração e leva a criança a um estado de sublime tranquilidade, de autodisciplina feliz, de organização alegre, de bem estar sereno. Não é necessário preparar atividades novas todos os dias. Recreação é assim, e a escola tradicional é assim. Na educação montessoriana, a regularidade é importante, coisas semelhantes acontecerem é importante, rotina importa.

Você precisa ter alguns trabalhos pela sua casa, e talvez alguns brinquedos – alguns brinquedos são melhores do que outros. E ter dois ou três trabalhos por cômodo pode ser uma boa ideia. Um caderno de desenhos na sala, acompanhado de três lápis de cor ou três giz de cera, por exemplo, uma cesta de tesouros no quarto, e mais uma cesta com três livros interessantes. Na cozinha, uma tábua de cortar com ingredientes para uma salada ao lado, e uma faca, para uma criança que já sabe usar a faca com destreza – para uma mais nova, quem sabe algo com uma colher ou uma transferência de líquidos. Na varanda, você pode pensar em uma pequena horta de temperos e em um cavalete de pintura com duas ou três cores de tinta (uma só no começo, mais depois). Os trabalhos pelos quais seu filho se interessar podem permanecer nas estantes, aqueles que não importam saem e dão lugar a outros, apropriados à idade dele.

Evidentemente, não colocamos tudo à disposição da criança em um dia só, não adaptamos a casa toda de uma vez e adicionamos todos os trabalhos em uma noite, como uma surpresa de aniversário. Isso é demais para a mente infantil. Nós vamos devagar, um dia colocamos os pratos e os copos na prateleira de baixo, e mostramos como carregar tudo com as duas mãos, devagar e com cuidado. No outro dia mostramos como usar o banquinho do banheiro e colocamos o sabonete e o shampoo mais para baixo. Desde os primeiros meses, podemos ter a cesta dos tesouros no quarto, podemos ter o colchão no chão e o espelho desde as primeiras semanas, e podemos inserir a cadeira na sala no mesmo dia em que inserimos os livros, e apresentar os dois de forma relacionada. Aos pouquinhos, podemos apresentar todas as novidades de forma que façam sentido e a criança saiba sempre onde encontrá-las e onde as colocar de volta quando terminar de usar.

Com os trabalhos, funciona do mesmo jeito, é necessário apresentar, bem devagar, parando as mãos a cada trecho do trabalho, para que a criança possa acompanhar nossos movimentos com atenção. É necessária uma postura nobre, de silêncio e certeza, de austeridade e confiança, pois que cada trabalho que para nós é simples e banal é, para a criança, a chance de se construir como humano e de ajudar no caminhar da civilização. Depois, quando terminamos a apresentação, guardamos o trabalho e perguntamos se a criança quer fazer. Se quiser, deixamos que faça e saímos de perto. Nós usamos um pequeno tapete que pode ser desenrolado em qualquer lugar da casa, e trabalhamos em cima dele. Ajuda a criança no controle do espaço a utilizar. No caso de fazer o trabalho sobre uma mesa, o tapete deixa de ser necessário.

Quando o ambiente está todo preparado, e nós estamos usando esse ambiente adequadamente, como adultos preparados, então podemos nos retirar, deixar a criança trabalhar – engatinhar sozinha na direção de uma bola, segurar-se sozinha para se levantar, servir-se sozinha de suco ou comida, lavar sozinha a louça, tomar boa parte de seu banho sozinha e ler, transpor líquidos, cortar sozinha. Podemos nos retirar da cena e observar. Podemos sair de perto e ver como a criança trabalha, o que ela apresenta como dificuldade e, se apresenta facilidades, cogitar qual provavelmente será seu próximo interesse ou como um trabalho semelhante àquele pode ser mais difícil ou mais complexo.

O método Montessori não existe. Ele é o método da Pedagogia Científica e o método da Ajuda à Vida. Método Montessori é a forma como convencionamos chamar as formas de demonstrar respeito e reverência pela infância e as formas de auxiliar os criadores da humanidade em seu trabalho, formas essas desenvolvidas cientificamente por Maria Montessori, que acabou por emprestar involuntariamente seu nome ao método.

Quando uma ideia se espalha, e a ideia é boa, é hora de comemorar. Mas é necessário ter atenção para que não acabemos por transformar uma ideia que funciona em um paralelo mais poético daquilo que é a forma de trabalho tradicional. O método de Ajuda à Vida desenvolvido por Maria Montessori é radicalmente distinto do tradicional, diferente até as raízes. Se desejamos os efeitos possibilitados pelo método Montessori – equilíbrio emocional, socialização saudável, paz de espírito e de comportamento, funções executivas bem desenvolvidas, controle motor amadurecido, tranquilidade – então precisamos de fato nos atentar a quais foram as descobertas de Montessori, o que ela realmente disse que ajudava, e o que realmente funciona. É necessário ter atenção para que possamos, em um mundo que mistura o radical ao tradicional todo o tempo, nos ater ao que cremos e vemos ser verdadeiro, e trabalhar conforme percebemos, em mente e coração, que é melhor para nossas crianças.

Os Sussurros do Ambiente

Ambientes falam. Quantas vezes entramos em casas nas quais, apesar de nos sabermos bem recebidos, não nos sentimos bem e desejamos ir embora o mais breve possível? Ambientes ricamente ornamentados e projetados com cuidado artístico nem sempre – diria, aliás, raramente – nos deixam tão à vontade, livres e abertos quanto casas aconchegantes, imperfeitas, mas nas quais notamos carinho e amor em todos os detalhes do ambiente. É claro que é possível unir o projeto cuidadoso com o amor, mas o segundo é mais importante que o primeiro.

A criança, exatamente como nós, e talvez mais ainda, dada a sua sensibilidade não-contaminada por excessos de estímulos aos quais nos submetemos todos os dias, escuta o ambiente. Ela sabe os segredos do ambiente e sente quando há carinho nele. O ambiente e a criança se comunicam muito intimamente, de forma natural e inconsciente. A criança aprende a viver, claro, por observação do adulto, mas também por exploração do ambiente. E em muitos casos mais por exploração do que por observação. A criança aprende agindo, ainda mais do que o adulto – e só pode agir no ambiente.

Este texto é sobre significados. Sobre o que queremos dizer para a criança quando construímos um ambiente para ela. Seja o quarto, seja a adaptação do resto da casa às suas necessidades, seja uma sala escolar. Trabalharemos aqui com o respeito como significado fundamental. Por que não o amor? Vale perguntar. Ao que dizemos: o amor é subjetivo demais. É possível sentir amor sem respeitar as necessidades alheias. Não é possível sentir respeito sem respeitar as necessidades alheias. E mais importante: o respeito pelas necessidades da criança talvez seja a forma mais bela de lhe transmitir amor.

A receita de quarto montessoriano vem se espalhando com rapidez na internet, e isso, ao mesmo tempo, alegra e preocupa. Uma vez que algo se espalha demais, tem a tendência de se tornar irreconhecível em sua origem. É uma característica do mundo moderno e do sistema econômico vigente transformar ideias e práticas alternativas em formas tradicionais de consumo. No caso de Montessori, preocupa mais, pois, tratando-se de uma pedagogia que teve seu início no bairro mais pobre da Itália, transforma-se hoje em uma mercadoria cara, e em uma imensidão de produtos excessivamente coloridos, em projetos profissionalizados. Duas máximas de Montessori orientarão nosso pensamento ao longo deste texto:

O objetivo do ambiente preparado é, tanto quanto possível, tornar a criança em desenvolvimento independente do adulto – A Criança

…naqueles países nos quais a indústria de brinquedos é menos avançada, você encontrará crianças com gostos muito diferentes. São também mais tranquilas, mais razoáveis e felizes. Seu único plano é tomar parte nas atividades que as rodeiam. São como pessoas comuns, usando e manipulado as mesmas coisas que os adultos – Mente Absorvente

O ambiente precisa dizer à criança:

  1. Você é livre
  2. Você pode tentar
  3. Você é tão importante quanto o adulto

Dizer para a criança que ela é livre é simples. Exige de nós o planejamento para que ela só tenha acesso ao que pode acessar. Dizendo melhor: é necessário que coloquemos o que ela não pode pegar em uma altura na qual ela também não possa ver. Parece absurdo, de início, restringir a vida do adulto. É uma criança, diríamos, é deve aprender que não pode pegar tudo. E entretanto, nós podemos. Nós pegamos em tudo o que vemos, em lojas, casas, nos mais diversos locais. A criança vê isso acontecer, e é difícil para ela entender porque justamente ela não pode. Por isso, é tão importante organizar o ambiente de forma que a criança tenha acesso a muita coisa. Se ela tem um ambiente dela, com seus pertences, e pertences belos como os do adulto, fica tranquila. Se os seus pertences são excessivamente coloridos, plásticos, barulhentos e se fazem tudo por ela – como os brinquedos modernos, que não necessitam da participação da criança e fazem dela mera espectadora – então ela desejará o mundo do adulto, porque é muito melhor do que o dela. E aí nós tentaremos restringir seu acesso, e aí ela não é livre.

Para que a criança seja livre e sinta isso, a cama precisa estar no chão ou precisa ser de uma altura que lhe permita subir e descer com facilidade, exatamente como é sua cama para você. Você não precisa escalar o estrado e o colchão quando quer dormir, e ela também não o deseja. Quanto ao berço, embora tenhamos discutido o aspecto anteriormente, vale salientar: nós não dormiríamos em um – quando um adulto precisa dormir em algo parecido a um berço, chamamos a esse espaço solitária. Em uma cama colocada no chão, a criança escuta o ambiente a lhe dizer:

…você é livre para respeitar suas necessidades biológicas mais essenciais. Se você precisar dormir, venha cá, e você pode dormir quando e quanto quiser. Você é bem-vinda. Quando acorda, a criança escuta sua cama lhe dizer: descanse um pouquinho mais, pelo tempo que quiser, e quando desejar você pode sair, pode ir para o chão, explorar e absorver mais do mundo, para poder se desenvolver e se transformar em um adulto equilibrado e feliz.

Além da cama, são necessários móveis baixos, banquinhos, estantes com seus pertences, e pertences de alta qualidade (e vale reforçar: não há necessidade de pertences caros. A criança precisa do mesmo copo de vidro que você usa, só que menor, para as mãozinhas dela. Ela precisa do mesmo prato de porcelana, só que ela usa o de sobremesa para a refeição principal e o pires de chá para a sobremesa). Os brinquedos da criança, em casa, são simples, não custam quase nada, e são belíssimos. Duas jarras (daquelas pequenas, de leite) de porcelana com água colorida dentro, por exemplo, rendem um longo período de concentração. Se jarras forem muito difíceis, use duas canecas, bonitas, lisas, ou com uma estampa bela e quase neutra.

Esse ambiente, de objetos belos ao seu alcance, de estantes baixinhas e prateleiras acessíveis, sussurra:

…venha. Você pode trabalhar aqui. Esse mundo também é seu. Manipule os objetos que disponho para você, explore-os, mas o faça de forma lenta, cuidadosa, senão tudo quebra. Tenha cuidado para poder continuar a trabalhar com tudo. Se for difícil, mas você achar que consegue, você pode tentar. E se for difícil, mas você quiser insistir sem ajuda, você pode tentar. Eu ficarei aqui, em silêncio absoluto, esperando você terminar.

Uma jarra d’água colocada na altura da criança para que ela se sirva, uma vasilha com pedaços de frutas ou de pão, dizem a ela:

…você é livre para comer quando sentir fome, livre para respeitar as suas necessidades biológicas mais essenciais. Você é livre para demorar quando quiser para se servir e para beber quanta água achar que precisa. Você pode tentar se servir quantas vezes quiser, ninguém virá lhe recriminar por ser difícil. Esse é seu ambiente, e você é realmente livre aqui.

Se você precisar escolher para sua criança entre dois brinquedos ou materiais, escolha o menos colorido, o mais natural, o menos plástico, o menos sonoro (à exceção de instrumentos musicais de qualidade, evidentemente) e o que acenda menos luzinhas. Se não houver uma opção de cores tranquilas ou neutras, de material natural (vidro, porcelana, metal, madeira), e silenciosa, pense com muito cuidado se é necessário comprar alguma coisa. Geralmente, vale dizer, não é. Compramos para a criança, para o quarto da criança, algo que não ficaria feio se o ambiente fosse adulto. Compramos para ela algo que não a torne menos nobre do que nós somos.

Em todos os encontros de famílias promovidos pelo Lar Montessori e seus diversos excelentes parceiros, escuto pelo menos uma vez um depoimento semelhante a: eu dava água no copo de plástico com tampinha para meu filho, e era tranquilo, ele gostava. Aí um dia estava sem copo de plástico e dei no de vidro mesmo. Agora ele não quer mais usar copo se não for de vidro. É claro. Da mesma maneira que há copos melhores para cada tipo de vinho, há copos melhores para água, suco, chá e leite.

Não precisamos comprar uma infinidade de copos, mas precisamos disponibilizar um bom copo de vidro, por exemplo, ou mesmo uma boa caneca, para o chá e o leite, de forma a permitir que esses objetos confabulem com nossas crianças e lhes confessem:

…sabe, você é muito importante. Tão importante que tem copos iguais aos dos seus pais (ou professores), pode se servir quando deseja e possui objetos bonitos. Os adultos que rodeiam você têm mais cuidado em escolher objetos para você do que para eles. Eles realmente olham com cuidado antes de te trazer alguma coisa.

Quando queremos ajudar nossa criança a desenvolver uma habilidade que ela mostra que quer desenvolver – parear formas ou cores, sequenciar tamanhos, enfiar objetos pequenos em orifícios pequenos – não precisamos investir fortunas, antes de pensar com cuidado. O que precisamos é garantir que cada uma dessas atividades vá dizer à criança que ela é livre, que ela pode tentar, e que ela é tão importante quando os adultos.

Um pareamento de cores pode ser feito de várias maneiras. Podemos utilizar dois catálogos de tintas (aqueles, distribuídos gratuitamente) e recortas os retângulos coloridos. Podemos imprimir quadradinhos e plastificá-los. Podemos usar lápis de cor e tiras coloridas de papel. Para pequenos orifícios, podemos usar uma tampa (plástica, quem sabe, mas ainda melhor se de madeira) com um recorte ou um furo, podemos usar telas em tecido com orifícios maiores para um primeiro bordado, e se quisermos guiar esse bordado, podemos desenhar sobre o tecido com canetas hidrográficas, sem precisar comprar os moldes excessivamente coloridos que encontramos em lojas de brinquedos. Para sequências de tamanhos não precisamos de um material montessoriano, em casa. Podemos usar cabos de vassouras serrados em diversos pontos, ou caixinhas de tamanhos diferentes (de preferência com o mesmo formato) embrulhadas no mesmo papel ou pintadas da mesma cor.

O que importa é que cada um desses materiais se coloque à disposição da criança, como que a lhe comunicar:

…estamos aqui para você, o tempo todo, você é livre para ir e vir quando quiser, escolher o que preferir, e devolver aqui para poder usar mais depois. Nós precisamos ficar organizados, porque você precisa nos ter à sua disposição o tempo todo. Você precisa ser livre para nos usar pelo tempo que quiser e repetir seu trabalho conosco quantas vezes achar prazeroso. Você pode tentar de novo, pode tentar fazer de outro jeito – desde que você também nos respeite – e pode deixar de usar um de nós quando não nos achar mais interessantes. Nós fomos escolhidos ou confeccionados com cuidado pelos adultos que vivem com você, nós somos resultado de muito trabalho mental e físico e somos seus, porque você é importante, você é realmente importante e nobre. Sabe, criança, você precisa ser livre, precisa poder trabalhar, e precisa saber que você importa porque, afinal de contas, você é o construtor da humanidade futura. Você é a esperança do mundo.

Do Pouco e do Muito

Por nove meses, células se uniram e multiplicaram, formaram-se e se transformaram, e deram origem a um pequeno bebê dentro do útero materno. O feto lá permaneceu e se desenvolveu até o fim do período de gestação. Foram nove longos meses, em um só ambiente: molhado, quente, silencioso, escuro, tranquilo. Nove meses sem precisar se esforçar para nada, pois que tudo acontecia ao bebê, e não por causa dele – e então, essa criança vem ao mundo.

Pode vir de muitas formas, algumas mais bruscas, outras mais tranquilas. Pode nascer de diversas formas de parto, em ambientes variados, assistido por pessoas mais ou menos preparadas de maneiras as mais distintas. Entretanto, vem ao mundo sempre. E vale dizer: não significa que não estivesse no mundo antes, mas que antes estava em um mundo outro: todo confortável, no qual a pequeníssima criança era aparentemente passiva e dependente, no qual era de fato, ainda, parte de outro corpo. Um mundo intra-uterino, intra-materno. E em pouco tempo, durante um processo que dura muito menos do que toda sua estada nesse confortável mundo pequeno, a criança é transportada – por forças mais, ou menos, alheias à sua vontade – ao mundo extra-uterino, extra-materno. Um mundo em que tudo é grande, seco, quase sempre mais frio do que no útero, mais iluminado e no qual até respirar dá trabalho.

Nosso trabalho, principalmente nos seis primeiros anos da vida da criança, e com ainda maior ênfase nos trinta e seis meses iniciais, é garantir que essa transição seja, no começo, suportável e, depois, agradável. Garantir que a descoberta do mundo seja boa, seja interessante, seja verdadeiramente maravilhosa. Para isso, são necessários dois cuidados. Primeiro, é necessário cuidar para que não haja uma privação grande demais das belezas que o mundo pode apresentar. Depois, e com tanta importância quanto, é necessário atentar para que se não apresente estímulos demais à criança pois, ao contrário do que se pensa, não é melhor pecar pelo excesso do que pela falta. Aqui falaremos primeiro do pouco, depois do muito.

O Pouco

Priva a criança de mundo quem a encarcera em seu berço, quem a priva de contato com seu ambiente e sua família por grades e panos, quem restringe seu mundo a um móbile – por belo que seja – pendurado sobre sua cabeça e tantas vezes fora do alcance de sua visão e suas mãos. Priva de maravilhas quem não a leva à natureza e não lhe permite brincar no chão, sujar-se na terra, pegar no mundo, explorar a vida.

O caminho do pouco é geralmente trilhado por quem, em êxtase de amor, confunde cuidado e medo. Oferecer pouco à criança, privá-la de muito, é chamado por quase todos de proteção. Mas a proteção e a privação são coisas distintas. Proteger é garantir que evitaremos todo o mal possível. Privar é, em nome da proteção, excluir também o que é bom da vida de uma criança.

Quando a colocamos em um berço por medo de que caia do colchão no chão, em vez de permitir que algumas pequenas quedas, sobre uma almofada ou manta dobrada aconteçam, e que a criança possa deitar e dormir sempre que sentir sono, privamos a criança de descobrir seu ritmo de vigília e descanso. Quando trancamos todos os armários, mesmo os que não contém nada realmente nocivo, por medo de que a criança quebre, faça barulho, se machuque, ou mexa no que não deve, privâmo-la de aprender a lidar com o que quebra, a trabalhar em silêncio com o que produz som ou a ter cuidado com o que necessita.

O remédio para o pouco é olhar o mundo pelos olhos da criança. Saber que ela necessita mexer, pegar, explorar, olhar para tudo o que é comum para nós e perceber quão incomum tudo seria se tivéssemos chegado ao mundo há cinco meses, um ano e meio, dois e nove, três. Olhar para tudo que nos circunda como se nunca tivéssemos visto o que é familiar nos permite perceber, ainda que em menor escala, o maravilhamento da criança diante da realidade. Aquele pedaço de casca de árvore que ela quer levar para casa, a pedra que pegou no parque, a formiga que caminhava e que ela parou para observar a caminho da padaria – isso tem nome, e se chama mundo, se chama vida.

A criança precisa pegar em flores, precisa deitar no chão, precisa encaixar as panelas com as quais você trabalha todos os dias, e precisa virar as páginas de livros bonitos e bem encadernados como os que você lê. A vida que ela testemunha é a da natureza, a da cidade e a da família, e ela quer investigar tudo, viver todas, conhecer. É claro que é nosso trabalho primeiro zelar por sua segurança física e emocional, mas isso não quer dizer esconder dela o mundo, mas lhe mostrar como lidar com ele, e encaminhar sua vida de forma que ela possa descobrir quanto possível. Claro, antes, é necessário amar a vida e o mundo, mas isso é trabalho para começar hoje e continuar pelo resto da vida – enquanto isso, procure adotar os olhos de sua criança, e olhar para a vida como se tudo começasse hoje.

O Muito

Sobrecarrega a criança quem acredita que ela precisa de algo além do mundo, quem se permite pensar tão grande, imponente e importante que todo contato com a realidade deve ser por si mediado. Sobrecarrega a criança quem não permite que ela esteja sozinha nunca, e não permite que empreenda seu corpo, sua mente, sua alma, em tarefas que despertam todo seu interesse, e que nós mal podemos compreender. Sobrecarrega a criança quem a expõe a novidades todos os dias, sem perceber que os dias todos são por si cheios de novidades alheias à nossa vontade.

O caminho do muito costuma ser trilhado por quem se orgulha de apresentar o mundo à criança, e se percebe doando amor, atenção e carinho na preparação de atividades que levam mais em conta o maravilhamento do adulto com algo novo, uma linha pedagógica e uma alternativa didática ou lúdica, do que a necessidade da criança, sua curiosidade, seu interesse. Usualmente, adultos verdadeiramente cegos de amor são os que trilham o caminha do muito, pois não conseguem olhar para a criança e enxergar o que ela, sozinha, mostra que quer e precisa fazer, e portanto empreendem verdadeiras caças a tesouros educacionais e recreativos, para tornar o mundo mais perfeito do que é.

O caminho do muito é belo, e parece motivo de orgulho. Seu único defeito é não levar a lugar algum. Só adianta entregar à criança aquilo que seu desenvolvimento exige. Mais do que isso é inócuo, na melhor nas hipóteses e, na pior, nocivo.

Quando passamos nossas noites a preparar atividades, como passam as noites a preparar aulas maravilhosas os professores mais dedicados, e não nos lembramos de olhar para a criança para saber se aquilo de que ela necessita em algo se aproxima do que fazemos. Quando permanecemos junto da criança durante atividades inteiras porque ela não gosta de trabalhar sozinha, mas não percebemos que na verdade o que falta é uma atividade que lhe desperte tanto interesse que ela de fato nos esqueça, mergulhada em trabalho, esforço e empenho. Quando, finalmente, adaptamos a casa inteira, mas dispomos a ela um tal número de brinquedos e atividades e não nos ocupamos em verificar o que verdadeiramente lhe agrada, com o que ela brinca e trabalha – quando não nos preocupamos em retirar o excesso.

Quando, metaforicamente, tomamos cuidado ao “ponto” da massinha que fazemos para que a criança brinque, mas não atentamos para o “ponto” do ambiente, a partir do qual nasce harmonia, paz, concentração, sossego. Quando, finalmente, mudamos o mundo, mas, vendados por dentro, não olhamos para nós, e nos esquecemos num oceano de orgulho feliz, acreditando-nos perfeitos e infinitamente criativos, sem perceber que a criatividade que importa não é a nossa, mas a da criança, e que tudo o que ela nos exige são olhos para ver e reparar em suas necessidades e suas claras demonstrações de o que precisa e quer fazer.

O remédio para o muito é olhar o mundo pelos olhos da criança. Saber que ela necessita mexer, pegar, explorar, olhar para tudo o que é comum para nós e perceber quão incomum tudo seria se tivéssemos chegado ao mundo há cinco meses, um ano e meio, dois e nove, três. Olhar para tudo que nos circunda como se nunca tivéssemos visto o que é familiar nos permite perceber, ainda que em menor escala, o maravilhamento da criança diante da realidade. Aquele pedaço de casca de árvore que ela quer levar para casa, a pedra que pegou no parque, a formiga que caminhava e que ela parou para observar a caminho da padaria – isso tem nome, e se chama mundo, se chama vida. – Sim, você leu certo. Nós repetimos o remédio do pouco, porque as enfermidades são todas distintas, mas a saúde é só uma.

Para alguém que acabou de chegar, não é necessário trazer novidades todos os dias. Quando um amigo de outra cidade, ou outro país, nos visita com tempo de sobra, nós lhe apresentamos o que há de mais bonito, mas também lhe damos tempo para descansar. E se ele nos diz que gostaria de passar mais algumas horas em um parque, em um museu, ou num café, fazemos isso de bom grado, felizes por estarmos proporcionando momentos agradáveis. Permitimos também, se somos gentis, que tenha momentos sem nossa presença, momentos para aproveitar sozinho seus prazeres íntimos, para explorar e descobrir. E quando já conhece a cidade o suficiente, permitimos que se locomova sozinho, somente nos comunicando de tempos em tempos que está bem e em segurança.

A criança é uma recém chegada ao mundo. Não é nosso trabalho mostrar todo o mundo a ela. Ele se mostra sozinho. Nosso trabalho é ajudá-la a organizar, a explorar com sucesso. Nosso trabalho é dar o apoio e o preparo necessários, deixando-a à própria boa sorte depois. Quatro, cinco brinquedos, ou materiais, ou atividades, ou trabalhos, ou objetos por cômodo, não mais. À exceção de uma cesta de livros, com quatro ou cinco livros, ou de uma pequena prateleira com um aquário ou duas, três fotografias interessantes, bastam poucos objetos de cada vez para que a criança trabalhe e brinque em paz. De resto, a casa basta.

A criança tem verdadeira paixão pelos afazeres domésticos, e se soubermos auxiliá-la na realização de pequenas tarefas pelas quais demonstra interesse, não precisamos de novas atividades todos os dias. Dois brinquedos na sala, uma prateleira de coisas úteis na cozinha, uma gaveta de roupas no quarto, mais uns quatro brinquedos, talvez uma área de artes na varanda com dois potes pequenos de tinta, um cavalete e dois pincéis. Um banquinho leve e forte. Muita natureza, muito tempo, muito tempo, e amor. É tudo de que a criança precisa. Um amor que observe e que possa, assim, enxergar o invisível, perceber as necessidades da criança e proporcionar atividades que de fato lhe atraiam, escondendo, doando ou desfazendo-se de tudo o que não desperta o interesse espontâneo da criança.

Se algo não interessa à criança, não há nenhum motivo pelo qual o objeto deva existir ao seu dispor. Brinquedos que ela abandona para brincar com as frutas, raízes e verduras da cozinha, objetos que ela esquece porque está passando água de um copo para outro no banheiro, atividades planejadas com carinho às quais ela não olha, porque as plantas do quintal, da praça ou dos vasos lhe interessam mais. Tudo isso é dispensável. Indispensáveis são as frutas, as raízes, as verduras, os copos com água, as plantas do quintal. Indispensáveis são as panelas para encaixar, é o fio de tecido no qual ela coloca as miçangas encontradas em um potinho que pertencia a você. Indispensável é a blusa de zíper com que ela não cansa de brincar, e a parede e o chão que ela aprecia sentir com as mãos porque têm texturas incríveis.

Todo o material montessoriano é uma adaptação do mundo a um ambiente artificial, somado a um grande conjunto de abstrações materializadas – essas necessárias à escola, mas não à casa, por serem artifícios de aprendizado formal escolar. O contato com a natureza, com o mundo, com a casa de verdade, dá conta de muito do que se tem em uma escola Montessori. É necessário respeitar a criança, seu tempo, e por meio de seus olhos, enxergar o mundo como uma fonte inexaurível de novidades, que nos permite não planejar tanto, e nos dá a chance de observar mais, para planejar melhor, para apresentar melhor, para perceber com maior exatidão o momento exato do presente exato – do presente que se vive, e do presente que se dá.

O Muito e o Pouco

O muito e o pouco são descaminhos. São enfermidades. Ambos são produtos de nossos defeitos adultos. Em geral têm sua origem no orgulho – acreditamo-nos superiores à criança e por isso as protegemos de tudo, e as privamos de tanto, ou acreditamo-nos superiores à criança e por isso nos julgamos responsáveis por fazê-la ver um mundo que ela, desde cedo, enxerga com muito mais cuidado do que nós.

O remédio é sempre o mesmo, olhar o mundo pelos olhos da criança. O remédio é interior, e não há texto que resolva. “A preparação que nosso método exige“, dizia Montessori sobre o adulto, “é o auto-exame, a renúncia à tirania. Deve expelir do coração a ira e o orgulho, deve saber humilhar-se e revestir-se de caridade. Estas são as disposições que seu espírito deve adquirir, a base da balança, o indispensável ponto de apoio para seu equilíbrio. Nisso consiste a preparação interior, o ponto de partida e a meta”.

Desejamos estar aqui, entre o muito e pouco, buscando com você esse (in)exato caminho intermediário, essa (im)perfeita trilha, pela qual caminha a criança, e através da qual nos é necessário segui-la, mas segui-la como líderes, diria Montessori.

A Decoração do Quarto da Criança: Um Caso de Amor

Bem antes de uma criança nascer, ela já é amada. Os pais pensam nela, cantam para ela, conversam, acariciam, beijam, compram e modificam suas rotinas e seus lares para recebê-la. Algumas famílias até chegam a ler livros e blogs para entender melhor como fazer tudo isso!

Entre muitas outras formas de expressar este amor, uma é por meio do cuidado imenso que temos ao montar os quartos dos pequenos. Famílias montessorianas e não-montessorianas exercem o amor da mesma maneira: pensando em tudo que a criança poderá gostar de ter por perto. Enquanto famílias não-montessorianas costumam decorar o quarto com muitas cores, móveis e brinquedos, nós temos por hábito um quarto minimalista e essencial, mas todos declaramos nosso amor por meio da decoração do quarto.

A criança, como se percebesse e compreendesse esta declaração, ama seu quarto também. Desde o momento em que chega em casa desenvolve uma relação de exploração, aprendizado e aconchego com o ambiente que foi totalmente preparado para ela, com carinho e atenção. A criança sente este amor e o retribui, amando aos pais e ao ambiente.

Uma das características comuns a todas as crianças é o amor à ordem. Com alguma atenção, este amor pode se converter em ações concretas, por parte da criança, mas isto só acontece mais tarde. No começo, este amor se manifesta por meio da tranquilidade quando as pessoas, o ambiente e a utilização do tempo são organizados e sempre semelhantes.

Montessori conta uma história interessante sobre isso. Diz que certa vez estava caminhando com um grupo de pessoas, entre as quais estava uma mãe com a filha nos braços. Esta mãe estava agasalhada, mas depois de algum tempo de caminhada sentiu calor, e retirou o véu que lhe cobria a cabeça e o tronco, dando-o para que alguém o carregasse. A criança começou a chorar. Depois de várias tentativas de acalmar esta pequena, Montessori ofereceu-se para segurar a criança e sugeriu à senhora que colocasse o véu novamente. A criança ainda chorava no colo de Montessori, mas assim que sua mãe agasalhou-se, parou de chorar. Montessori, então, explicava, ao final da história: a criança sabe que véus devem estar à cabeça e aos ombros, e não são feitos para que sejam carregados aos braços. A criança estava com uma imagem organizada do véu, quando a mãe o retirou, confundindo-a.

Algo muito semelhante acontece no quarto das crianças. Há uma organização que foi estabelecida antes que ela chegasse. Esta organização pode ser alterada para acomodar-se melhor à criança, conforme ela cresce, mas é necessário, primeiro, que haja uma organização. E em segundo, que ela seja mantida e respeitada pela família sempre que possível. Mudar a cama de lugar, trocar a pintura ou o papel de parede, adicionar ou retirar móveis aos quais a criança se acostumou e tantas outras mudanças que, aos nossos olhos, são pequeníssimas, podem causar transtornos de confusão para a criança pequena.

Quando amamos um ser humano, por exemplo um cônjuge, e esta pessoa muda de humor ou de comportamento, dizemos, intrigados: “Você está diferente. Aconteceu algo?”. Em última e trágica instância esta mudança pode levar ao fim de relacionamentos muito antigos, inclusive, e a tratamentos médicos específicos. Com a criança, exatamente a mesma coisa acontece: ela ama o quarto, e ama a ordem do quarto, mas ainda não desenvolveu a nossa capacidade de reconhecer padrões por trás de pequenas diferenças. A criança pequena não consegue perceber que o véu não está sobre a cabeça porque está calor. Ele não está sobre a cabeça e isto é grave o suficiente.

Da mesma maneira, os pequenos não compreendem que a cama mudou de lugar porque… Ou que as estantes estão do outro lado do quarto porque… O que importa para ela é que estão no lugar errado, e todo o esquema mental, todo o mapa, todo o imenso trabalho de abstração que ela teve de desenvolver por amor ao seu ambiente, para conhecê-lo profundamente, está ultrapassado, e deu lugar à mesma imensa confusão que ela levou tanto tempo para colocar em ordem dentro de si.

A relação da criança com os ambientes, assim como a relação dela conosco, com os adultos, é de amor, em seu estado puro e simples. E assim como ama, em nós, o nosso silêncio e nosso conhecimento, ama nos ambientes a liberdade e a ordem. É nosso papel garantir que esta relação seja frutífera e gere poucos desentendimentos. Nós somos os guardiões da ordem, nos primeiros tempos de vida da criança, e é nosso papel auxiliá-la a conhecer e sentir-se segura nos locais em que é livre e deve ser feliz.