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Arquivo da categoria: Desenvolvimento Infantil

Textos sobre desenvolvimento infantil de acordo com o método Montessori.

O Seu Cérebro, o Cérebro do Seu Filho, e o que Fazer com Isso.

O texto que segue é uma tradução do artigo “Your Brain, Your Child’s Brain and What To Do About It”, do blog Montessori on the Double, escrito por Stephanie Woo. Nós buscamos a autorização para tradução e não recebemos resposta. De forma que, se em algum momento for exigido, esse texto sairá do ar imediatamente. Enquanto isso, optamos por trazê-lo à língua portuguesa pela qualidade das informações e a clareza de exposição de sua escrita. Veja o artigo original e o excelente Montessori on the Doube aqui.

A criança pequena tem um cérebro diferente do nosso. Digamos, totalmente diferente. E sim, é provado cientificamente.

Um exemplo: no ambiente correto, as crianças podem aprender até quatro línguas ao mesmo tempo, e entender todas elas aos três anos de idade. Como temos cérebros diferentes, aprendemos diferente. As crianças absorvem tudo de seu ambiente – sem esforço, facilmente, incoscientemente Nós, infelizmente, não aprendemos assim.

Um cérebro não é melhor que o outro. Mas como você pode ver, somos totalmente diferentes. Aqui vai outro exemplo:

As crianças são aprendizes sensoriais. Isso significa que aprendem por meio de seus sentidos. Uma criança que rasga um livro está fascinada pelas sensações do papel rasgando e amassando em suas mãos. A criança que coloca seus dedos no copo e mexe está experimentando mexer com água. A criança que faz bagunça com a comida o faz porque está aprendendo a comer.

Agora, de nosso ponto de vista, do ponto de vista dos pais que precisam colar as páginas do livro, enxugar a água, limpar a bagunça (e também todas as outras coisas que precisamos fazer como pais), pode parecer que ele está bagunçando, fazendo tudo de propósito ou, talvez, ela seja mimada e “ruim”. Com nossas mentes lógicas, racionais, adultas, supomos esse tipo de coisas.

Temos então o cérebro da criança – e temos o cérebro do adulto. Dois cérebros absolutamente distintos, tentando co-existir.

Como o adulto é maior, a Mamãe e o Papai podem dominar a criança fisicamente e removê-la daquilo que não desejam que ela faça. Mas a criança… A criança tem uma motivação interna para aprender. De fato, essa força interior é tanta, tão profunda, tão instintiva, que toda sua existência depende dela. Assim, só para você saber, dá próxima vez que ela tiver uma chance, vai fazer tudo de novo.

Então, essencialmente, temos duas possibilidades de escolha. Podemos dominar a natureza da criança (e assistir enquanto nossas rugas e cabelos brancos se multiplicam) OU nós podemos nos alinhar a ela.

Aqui vai o que aconteceu comigo há algum tempo. É hora do banho. B e M estão brincando na banheira com seus potinhos, passando a água de um pote ao outro. Bom, alguém teve a ideia genial de derramar água fora da banheira. Da primeira vez que isso aconteceu, meu marido entrou gritando: “Sem água fora da banheira!” e depois tirou os dois do banho e “os fez” limpar tudo (à exceção das crianças de dois anos, os pequenos adoram limpar e pegaram ansiosos as toalhas para limpar – então não foi a punição que o Mark tinha em mente).

Claro que isso não os impediu de repetir no dia seguinte (e no outro) quando nós, de novo, os tiramos do banho prontamente, apontamos nossos dedos para eles e aumentamos o volume de nossas vozes, para ensinar uma lição aos dois.

Até que eu entendi: eles adoram água. Adoram despejar água. Tentar pará-los é como tentar fazer uma semente não crescer ou fazer o sol não nascer de manhã.

Então decidi, em lugar de impedir, alinhar-me com a Natureza.

No dia seguinte, quando as crianças estavam na banheira, eu peguei uma lata de lixo grande e vazia e a coloquei do lado da banheira. Disse a elas: “Se vocês quiserem despejar água, podem fazê-lo dentro desta lata de lixo. Vamos ver se conseguem fazer isso sem derramar nada no chão!”.

Funcionou. Eles imediatamente encheram a grande lata de lixo com copos da água da banheira. E de forma cuidadosa. Então eu despejei a água no vaso sanitário. E eles procederam a encher o balde de novo. Antes de o encherem pela segunda vez até a metade, já tinham perdido o interesse e estavam brincando com seus animais marinhos.

As crianças vão querer brincar com água o tempo todo. Vão trabalhar com gotas, vão pegar, esfregar e agarrar enquanto comem. Vão querer tocar tudo. Vão correr e subir em tudo. Vão cantar e falar alto, mesmo quando for inapropriado. É sua Natureza. Você pode desmoronar sobre eles, pode puni-los, manipulá-los, distraí-los (e admito que haverá momentos em que você pode ter que fazer essas coisas). Mas considere trabalhar com a Natureza, pelo menos na maior parte do tempo.

Encontre formas criativas de satisfazer as necessidades das crianças. Elas vão seguir sua natureza, queira você ou não. Então encontre um caminho para que elas POSSAM fazer o que querem – permita que caminhem livremente em um novo ambiente (eles conseguem aprender a ficar longe de perigo e a manusear objetos frágeis), dê-lhes o que escalar em casa, dê-lhes pilhas de papel para rasgar, deixe que brinquem por mais vinte minutos com o chuveiro, a pia, a banheira etc.

Quando você se ouve dizendo “Não!” ou “Não faça isso!”, na maior parte das vezes, suspeito eu, é porque você não está alinhado à Natureza da criança. Então, o que quer que você tenha de fazer, encontre uma forma de se alinhar, meu amigo. É seu caminho para a paz e a sanidade.

Desenvolvimento como Independência

Há muitas formas de se compreender o que acontece com a criança do momento em que nasce até o tempo de sua maturidade total, por volta dos vinte e quatro anos de idade. Podemos pensar nisso como crescimento, como aprendizado, como experiência. É possível enxergar a sucessão de eventos da vida como uma sucessão de conquistas e de traumas, ou como uma sequência longa de causas e consequências pelas quais somos responsáveis mesmo antes de sabê-lo.

Em Montessori, enxergamos este processo longo como desenvolvimento e o desenvolvimento, deste ponto de vista, é uma sucessão de independências. O objetivo do bebê, da pequena criança, do adolescente e do adulto jovem é independer-se. Entretanto, é claro para todos que a criança que ainda não anda está em um estágio ou em um processo de independência diferente do adolescente que ainda não pode sair sozinho de casa. Ambos, porém, compartilham do mesmo ideal: a capacidade de fazer algo que ainda não fazem e deixar de depender de alguém que faz para ou com eles.

Nessa sucessão de independências, muitos processos microscópicos ocorrem. Um dia a criança se vira sozinha, no outro já engatinha. Pouco tempo depois já fica de pé, e de repente anda, de repente corre, de repente fala, e logo em seguida já lê estuda, repensa, argumenta, e nos vence nos debates. Aí lê, escreve, desenha, se apaixona, aprende um instrumento musical. Aprende a mexer no computador e então se apaixona de novo, aprende outro instrumento musical, uma língua estrangeira e, quando menos esperamos rejeita aquela sua língua materna, sem gírias, sem swing, que vai tão devagar. Depois sai, namora, escolhe uma profissão, muda de ideia. Começa a trabalhar, especializa-se em um ramo, estuda. Um dia, mora sozinha. Essas independências todas, tão pequenas, grandes e cotidianas, são sinais vitais de que o desenvolvimento vem de fato acontecendo.

Quando observadas de perto em muitas crianças, em todo o mundo, e depois comparadas, percebemos que essas explosões menores fazem parte de um quadro completo que pode ser dividido em três grandes partes – e em uma quarta um pouco nebulosa. Primeiro, de zero a seis anos, a criança persegue a independência física. Em seguida, de seis a doze anos, busca sua independência intelectual. Quando a consegue – e mesmo quando não consegue – a partir dos doze e mais ou menos até os dezoito, quer conseguir sua independência social e, ao menos em teoria, entre os dezoito e os vinte e quatro anos, o adulto caça sua independência profissional, que é mais do que uma profissão, pura e simples.

A Independência Física é a primeira a ser encontrada. A criança nasce inerte, dependente de nós para sobreviver, para alimentar-se, para qualquer movimento que deseje fazer. Aos poucos, aprende a pegar, sentar, mover-se, andar, carregar, falar… Os verbos seriam infinitos, pois que a criança faz em seis anos de vida mais do que qualquer adulto faria em meio século. Para que ela seja capaz de alcançar tudo isso,basta que exista no mundo. Porém, para que o faça com maior maestria e para que seja feliz durante o processo, é necessário que nos preparemos e preparemos seu ambiente, deixando-o ordenado, belo e permitindo que estejam presentes nele somente as coisas que auxiliarão o desenvolvimento da criança – nessa época, o supérfluo só atrapalha. O ambiente físico deve respeitar a criança em seu espaço, sendo baixo em altura e permitindo o movimento, enquanto que o ambiente psico-emocional deve respeitar a criança em seu tempo, permitindo que ela demore quanto precisa para realizar suas tarefas com autonomia, enfrentando os desafios em seu ritmo.

A Independência Intelectual começa a ser perseguida uma vez que a identidade individual da criança foi construída. Até os seis anos, a criança constrói a si mesma e pode, então, em seguida, passar a buscar maneiras de compreender o mundo. Não interessam verdadeiramente as repostas à criança desta idade. O que ela realmente quer não é saber os “porquês” e os “comos”, isso muitas vezes ocorre com a criança mais nova.  Para os mais velhos e os pré-adolescentes, importa mesmo o processo de investigação. Por isso, nessa idade é importante oferecer formas de pesquisa, livros, introduzir uma ou outra ferramente virtual, permitir que haja trabalhos de montagem e desmontagem de aparelhos, e estar aberto a conversar com seu filho sobre tudo – a diversão, agora, não é mais conseguir todas as respostas certas dos pais, mas conversar com eles, verdadeiramente. Embora seja uma fase de muita ação intelectual, a criança entre seis e doze anos é tranquila, paciente, e – também por isso – habitualmente vítima do início da escola tradicional, que tende a sufocar sua sede investigativa com uma estrutura disciplinar baseada na concessão de respostas prontas para perguntas que a criança nunca fez.

A Independência Social talvez seja hoje a de pior compreensão entre os adultos. Nós desejamos que o adolescente seja submisso a nós como a criança de seis a doze anos era. Acontece, porém, que dois seis aos doze há pouca transformação e muito mais crescimento. Essa terceira fase é em tudo semelhante à primeira – acontecem mudanças físicas, intelectuais, emocionais e sociais. Essas últimas com maior ênfase e importância. O adolescente busca compreender as regras sociais, os limites da sociedade, suas exigências, sua tolerância e as suas infinitas possibilidades. O tempo todo descobre tanto e sabe tão pouco, que lhe parece sempre saber tudo. Precisa sentir que tem valor para sua comunidade e descobrir em que é bom e para que fim é bom. Nosso papel, então, é ajudá-lo a perseguir sua independência social, permitindo que tenha contato com outros de sua idade, servindo como modelos a seguir, mais do que tiranos a obedecer, e auxiliando no aprendizado de algo que lhe permita receber seus primeiros ganhos financeiros – o passaporte da autonomia social na sociedade em que vivemos.

Independência Profissional é uma possível classificação para a última independência, desta série montessoriana. As poucas páginas que Montessori escreveu sobre o tema estão, junto com as sobre adolescência, no livro “Erdkinder e As Funções da Universidade”, que se localiza também em algumas edições de “Da Infância à Adolescência”. Para este momento da vida é importante não só perceber em quepara que se é bom, mas também realmente colocar as mãos na massa de forma a dominar aquilo que se faz. Isso dá ao ser humano a sensação de poder alterar o seu ambiente segundo sua consciência e lhe desperta para a responsabilidade de sua atividade. Mais do que o aprendizado teórico-prático oferecido pelas universidades, o ser nesta fase do desenvolvimento quer compreender qual é a missão da humanidade e a sua própria. Para isso, é necessário que tenha liberdade e possibilidade de explorar atividades distintas até encontrar aquela para que serve melhor.

No dia sete de setembro, data da Independência do Brasil, parece especialmente pertinente enxergar o desenvolvimento como independência. Da mesma maneira que uma nação não se torna independente enquanto não se desenvolve – e por isso a nossa ainda caminha nessa direção – a criança necessita de muito esforço para independer-se enquanto executa o trabalho ativo de seu desenvolvimento. Aos poucos, torna-se ao mesmo tempo independentedesenvolvida. Não são tanto duas coisas que caminham juntas, mas uma mesma coisa que pode ser vista por mais de uma perspectiva. Nosso trabalho, então, é entender as necessidades de quem se desenvolve – e embora não possamos fazê-lo bem com o país, há como fazê-lo bem com a criança – e oferecer todo o apoio necessário para que a grande viagem rumo a uma existência independente possa se realizar com muita vontade, muito esforço e muita alegria.

 

Publicidade Infantil: um mapa perverso.

O Lar Montessori, concordando com Donna Goertz, a autora do Manual do Proprietário de Uma Criança Montessori, é contra a televisão para crianças pequenas. Mas sabemos que muitas famílias encontram poucas opções além da televisão ou ainda não estão preparadas para abolir este aparelho do dia a dia infantil. Assim, o Lar Montessori coloca-se, aqui, contra a publicidade infantil, e pede que este artigo seja compartilhado com veemência.

Há três motivos pelos quais somos contra a publicidade direcionada à criança: a mente absorvente, o guia interior e a saúde física da criança pequena. Por isso, este texto será dividido em três partes.

A Publicidade Excessivamente Absorvida

A criança de zero a seis anos tem um tipo especial de cérebro. Trata-se de um cérebro em formação constante, rápida e intensa. Tratam-se de conexões neuronais sendo feitas em uma velocidade virtualmente imensurável. Estas conexões são feitas com base naquilo que os sentidos da criança absorvem do ambiente e, especialmente até os três anos, esta absorção é inconsciente. Depois, e durante toda a vida, boa parte do que absorvemos ainda é inconsciente, mas a velocidade diminui e a função da consciência é bem maior.

Um cérebro em formação que se constrói com base no que absorve precisa absorver muito, e por isso Montessori chamou a fase que vai de zero a seis anos de mente absorvente. Assim, propomos este como o primeiro argumento contra qualquer forma de publicidade para a criança pequena: nenhuma criança deve ter sua formação cerebral contaminada por mensagens cuja origem seja o interesse financeiro de adultos.

Um Guia com um Mapa Perverso

Para a formação cerebral que se dá na faixa etária que se estende de zero a seis anos, e novamente com ênfase nos três primeiros, o corpo tem uma ferramenta especial: uma série de substâncias é liberada e auxilia o cérebro a escolher a quais estímulos ambientais ele deve prestar maior atenção, auxiliando assim o desenvolvimento de habilidades como o caminhar, o pegar, o falar e tudo aquilo que é desenvolvido nos primeiros anos de vida.

Para quem olha de fora, a criança parece ser direcionada por uma inteligência superior, que Montessori chamou de guia interior. Este guia sabe o que fazer, mas precisa de um mapa para trabalhar. Necessita de carinho e linguagem adequada, ambientes interessantes e bons estímulos. Não há como guiar a criança para o caminho correto se o mapa estiver errado, o que nos leva ao segundo argumento do Lar Montessori contra a publicidade infantil: é perverso por parte do sistema financeiro dar a uma criança a noção errada de bem estar vinculado à aquisição de bens materiais. Isto engana o cérebro infantil forçando-o a associar conceitos como amoratençãoalegria a bens materiais que não são favoráveis ao seu desenvolvimento e a alimentos que não auxiliam a formação de seu corpo.

Necrofood

As células da criança pequena são como seu cérebro: estão aprendendo como é que se faz, e muitos de seus aprendizados serão levados para a vida toda. Assim como o sotaque que a criança adquire nos primeiros anos de vida permanece com ela mesmo que mude de região geográfica, os hábitos adquiridos pelas células permanecem com elas ainda que os hábitos alimentares mudem mais tarde. O documentário recente Muito Além do Pesoapesar de extremamente polêmico, explica que de cada quatro crianças obesas, três continuarão acima do peso na idade adulta – e isto se deve a fatores ambientais, certamente, mas também ao fato de que células que aprendem a ser gordinhas quando novas, transmitem este aprendizado às células seguintes, que tenderão a manter o mesmo padrão.

A publicidade de alimentos baseada em personagens, cores fortes, sons, e todo tipo de estímulo sensorial, assim como vinculando brinquedos a alimentos não-saudáveis ensina para a criança valores positivos acerca de algo que só é positivo para quem vende, e que sabendo do apelo que o termo pode ter, o Lar Montessori decidiu por chamar de necrofood, acreditando que se trata de comida feita para matar. Isto nos leva ao último argumento: é criminoso expor crianças em fases de formação cerebral e corporal a publicidade alimentícia que tem como objetivo o lucro de grandes empresas a despeito da saúde de nossos filhos, alunos, e do futuro da raça humana.

Novamente, o Lar Montessori pede encarecidamente o compartilhamento deste texto. Não se trata somente de uma educação montessorianalivrejusta para nossas crianças, trata-se de um futuro que todas elas merecem poder viver: um futuro em que suas decisões não sejam pautadas por ligações neuronais inconscientes contaminadas pela veiculação imprópria de publicidade infantil.

Aos nossos leitores, gostaríamos de comunicar que este texto não substitui nossa postagem semanal e que se trata de um manifesto extraordinário. O artigo de domingo tratará da Preparação Interior do Adulto.

Compreendendo Montessori: Princípios da Infância

   O Lar Montessori tem muitos artigos sobre a adaptação da casa para a criança. Com a contribuição deste blog e de alguns outros grupos e famílias, a adaptação doméstica se torna cada vez mais uma tendência, e me enche de alegria enxergar a contribuição que damos a este movimento.
   Muitas vezes, porém, com a melhor das intenções, pais, tios, professores adaptam seus ambientes à criança acreditando que acabou aí e que o ambiente por si fará tudo o que Montessori descreve em sua extensa obra. Embora seja bem verdade que a interação livre entre criança e ambiente já seja capaz de muitos milagres, é claro que há mais que isso. É claro que há muito mais que isso.
   Uso o termo milagres um pouco com um tom leve de graça. Evidentemente, não se tratam de milagres, e é justamente sobre isso que escrevemos nesta série de artigos. Espero que sejam artigos breves, bastante objetivos e sucintos e, portanto, dando brecha a muitas dúvidas (sempre bem vindas). Trataremos de três pontos principais nesta sequência de publicações: 1. Princípios de compreensão da criança em Montessori; 2. Princípios de compreensão dos materiais e do ambiente montessorianos e 3. A preparação espiritual do adulto. Esses temas já foram tratados em maior e menor profundidade aqui. Mas acho que vale uma revisão!
   1. Princípios de compreensão da criança em Montessori:
   Montessori, por meio de longas observações do comportamento da criança durante os primeiros seis anos de vida, chegou a uma conclusão que sintetizou da seguinte maneira em seu Mente Absorvente: “Se a ajuda e a salvação podem vir, vir-nos-ão apenas da criança, pois que a criança é o construtor da homem”. Montessori explicava que durante os primeiros anos de vida – inconscientemente de zero a três e conscientemente dos três aos seis – a criança absorve os estímulos de seu ambiente (conceito chamado de mente absorvente) e desta forma constrói o homem. A ideia da construção do homem foi e é compreendida de forma muito metafórica até hoje, como se fosse uma maneira poética de tratar o desenvolvimento da criança. Não é.
   Montessori, em última análise, era bastante literal e objetiva em tudo o que dizia. Com a expressão “construtora do homem” e com a “mente absorvente”, Montessori adiantava, sem saber, ideias que seriam novamente exploradas, então pela Neurociência, mais de meio século depois. Norman Doidge, em seu polêmico e elucidador livro O Cérebro que Se Transforma, explica: “O que é extraordinário durante o período crítico do córtex [aparentemente os seis primeiros anos] é que ele é tão plástico que sua estrutura pode ser alterada pela exposição a novos estímulos” e “a diferença entre a plasticidade do período crítico e a plasticidade adulta é que no período crítico os mapas cerebrais podem ser alterados pela simples exposição ao mundo externo porque ‘a maquinaria de aprendizado está continuamente ligada'”.
   Outro conceito fundamental para a compreensão da infância em Montessori é a ideia de um guia interno. Ela desenvolveu a teoria de que existe, na criança, uma orientação inata para o aprendizado daquilo que é essencial para sua sobrevivência e melhor adaptação. Por isso, segundo ela, a criança consegue aprender a linguagem humana, mas não aprende linguagens animais. E embora Montessori só trate da linguagem oral e escrita, o mesmo se pode dizer tranquilamente das línguas de sinais. A crianças as aprende com a mesma facilidade que aprende as línguas orais e a mesma área do cérebro é utilizada para as duas coisas, na posição de língua materna/natural, embora não me venha agora o local em que li sobre isso.
   Doidge também explica isso (deixem-me dizer: está sendo meu segundo contato com as neurociências, então estou aprendendo mesmo. Não posso dizer muito sem citar). O autor nos diz:

“Durante o período crítico, o BDNF ativa o núcleo basal, a parte de nosso cérebro que nos permite concentrar a atenção – e que o mantém ativo por todo o período crítico. Uma vez ativado, o núcleo basal nos ajuda não só a prestar atenção, mas a lembrar de nossa experiência. Ele permite que a diferenciação e a mudança ocorram sem muito esforço. Segundo Merzenich: ‘É como um professor no cérebro dizendo: ‘Ora, isto é muito importante – é isto que você precisa saber para a prova da vida.” Merzenich chama o núcleo basal e o sistema da atenção de “sistema modulatório da plasticidade” – o sistema neuroquímico que, quando ativado, coloca o cérebro num estado extremamente plástico”.

   Montessori tratou também dos períodos sensíveis do desenvolvimento. Intervalos temporais durante os quais a criança se encontraria propensa ao desenvolvimento de uma determinada habilidade. Como disse o professor Daniel Willingham, da Universidade de Virgínia, “Montessori está muito além do que as ciências congnitivas sabem. Devagar estamos chegando lá”. Nem todos os períodos sensíveis de Montessori já foram comprovados pelas ciências do cérebro. Mas aquele que é mais enfatizado pela autora foi, e aparece no mesmo livro que usamos de apoio até agora: “Esta sensibilidade permite que os bebês e as crianças pequenas captem sem esforço novos sons e palavras durante o período crítico do desenvolvimento da linguagem, simplesmente ouvindo os pais falarem”.
   O que a neurociência chama de plasticidade extrema, Montessori chama de mente absorvente; o que hoje se entende como formação de conexões neurais, nossa médica chamava de construção do homem; aquilo que compreendemos como núcleo basal, ou BDNF, a educadora dizia ser o guia interno da criança e finalmente, aquilo que as ciências cognitivas chamam de período crítico, Montessori nomeava por período sensível. Desta forma, vemos quanto o professor Willingham fala sério quando cita Montessori e quanto esta era objetiva e verdadeira quando explicava que “A base da reforma educativa e social, necessária aos nossos dias, deve ser construída sobre o estudo científico do homem desconhecido”, em A Formação do Homem.

   Eu sei que este texto foi denso e que ele foge ao nosso padrão aqui. Eu prometo evitar isso, mas é o que acontece quando tentamos comunicar aquilo que estamos descobrindo. Espero reflexões e, se por acaso algum dos nossos leitores for estudioso da área e quiser elucidar algo nos comentários, tudo é sempre bem vindo! Se você não é estudioso(a) de ciências cognitivas, mas é mãe ou pai e quer deixar suas impressões, é claro que todos nos alegraremos com isso também!
   O próximo artigo tratará de princípios de compreensão dos materiais e do ambiente montessorianos e deve demorar mais um pouquinho para sair. Provavelmente no meio tempo alguns mais tranquilos serão publicados!
   Até breve e um abraço!
   Gabriel

Normalização II: O Equilíbrio Natural da Criança

“Para aqueles que compreendem a vida, isto
pareceria sem dúvida muito mais verdadeiro.”
(Antoine de Saint-Exupéry em O Pequeno Príncipe)

   Para os admiradores de Montessori, especialmente no início de suas realizações, o processo de recuperação do equilíbrio natural da criança que acontecia nas Casas dei Bambini era comparado a um milagre e uma conversão religiosa. Os efeitos da liberdade em um ambiente preparado conseguidos pela pedagogia científica da médica italiana a levaram a ocupar longos artigos, diversas entrevistas e belas fotografias em jornais de todo o mundo. Ainda assim, no entanto, poucas pessoas compreenderam bem como Montessori o que realmente estava acontecendo: surgia, diante dos olhos de todo o mundo, o equilíbrio natural da criança. “Eu aponto para as crianças”, Montessori dizia, “e as pessoas olham para meu dedo”.
   As crianças para quem ela apontava eram especialmente silenciosas, gostavam muito de trabalhar com os materiais didáticos e eram extremamente organizadas. Falava-se, na sala, mas baixinho, e ria-se na sala, mas com mais frequência havia sorrisos. As crianças mais novas às vezes esqueciam de guardar o que haviam utilizado, mas as mais velhas sempre lembravam, e tudo isso mantinha o clima da sala atrativo para todos os visitantes. Montessori, no entanto, reafirmava: esta é a natureza da criança. Elas são assim. Em um ambiente preparado onde sejam deixadas em liberdade, elas são naturalmente assim. O processo pelo qual elas estão passando se chama normalização, e elas são crianças normalizadas.

   Devido a dezenas de traduções e mudanças de significado da palavra normal, a ideia de normalização é sempre mal compreendida e parece aos leitores e estudantes de Montessori, assim como aos pais, que se trata de algo que o professor faz com o aluno. Na verdade, é algo que a criança faz a si mesma. Por isso,  depois de uma extensa conversa com a Profª Edimara de Lima, diretora da PRIMA – Escola Montessori de São Paulo, que tive há vários meses e sobre a qual fiquei pensando desde então, decidi adotar, no Lar Montessori, o termo “Equilíbrio Natural da Criança” para tratar do que Montessori e seus contemporâneos chamavam de criança normalizada.

   E.M. Standing (autor de “Maria Montessori: Her Life and Work“), amigo pessoal de Montessori e grande estudioso de seu método, conseguiu estabelecer uma lista de características mais comuns às crianças naturalmente equilibradas. As marcas que ele encontrou foram as seguintes:

  •  Amor à ordem;

   A criança pequena precisa de um ambiente organizado. Nos primeiros meses ela não poderá organizar nada, então, quando desorganizar algo, procure restabelecer tudo. Isso realmente faz bem, agrada e tranquiliza a criança. Quando ela for mais velha, a partir dos dois ou três anos, é bom começar a ensinar a guardar as coisas. Colocar no lugar depois de usar. Para isso, mantenha tudo o que a criança usar em uma altura que ela possa alcançar. Como as crianças gostam de ordem, guardar as coisas será algo que farão com tranquilidade. Até os seis anos, pode ser necessário lembrá-las com bastante frequência, e ajudar umas três vezes ao dia. Aos poucos, a criança aprende a guardar o que usa, e faz isso com eficiência!
  •  Amor ao trabalho;
   Assim como o amor à ordem e todas as outras características, esta é inata. No entanto, no caso do amor ao trabalho, não precisamos incentivar a criança a trabalhar. Ela faz isso com o que quer que encontre em seu caminho, naturalmente. Nosso papel aqui é orientar este trabalho de forma que ele seja mais produtivo para a formação interna do ser em desenvolvimento. Ensinar as atividades passo-a-passo, devagar e objetivamente é uma maneira de engajar a criança em atividades interessantes e garantir que ela possa fazer as coisas sozinha da próxima vez. A outra forma, tão importante quanto, é dar atividades para as quais a criança esteja preparada – assim, garantimos a possibilidade de sucesso e, ao contrário do que pensamos, a criança aprende com o acerto, e não com o erro.

  •  Concentração espontânea;
   Quando a criança é muito pequena, é comum que mantenha os olhos em um ponto fixo. Mais tarde, a vemos tentando pegar coisas com muita força de vontade. Depois, em um ambiente preparado, a vemos se esforçando por montar peças, empilhar coisas, encaixar pedaços, decifrar enigmas. A concentração espontânea é, além de uma das características mais belas, uma das que mais devem ser respeitadas. A concentração só pode ser espontânea. Dizer “preste atenção” ou “pare de fazer o que está fazendo e venha comigo” são duas formas de interromper o fluxo de concentração, e não de inciá-lo. A atividade produtiva livre é a única forma de permitir que a criança desenvolva mais esta característica natural.

  •  Apreensão da realidade;
   Isso é o que a criança está tentando fazer desde o momento em que abriu os olhos ou os ouvidos para seu ambiente. Desde a primeira vez em que sentiu o ar entrar pelas narinas ou moveu os braços e os dedos, a criança tenta compreender e internalizar a realidade que a cerca. Nossa tarefa, como pais, mães e professores, é garantir que ela consiga fazer isso. Por meio de um ambiente preparado para ela, no qual ela possa olhar coisas bonitas e interessantes, pegar e sentir todo tipo de objetos e ouvir os sons do mundo, nós oferecemos para a criança todas as possibilidades de apreensão da realidade, para que ela use à sua maneira e no seu ritmo. Assim, permitimos que ela aprenda sozinha e obedeça sua tendência normal de desenvolvimento.

  •  Amor ao silêncio e ao trabalho solitário;
   Parece um pouco assustador, à primeira vista, que uma das características da criança seja querer ficar quieta e trabalhar sozinha durante alguns períodos, às vezes bem longos, de seu dia. Na verdade, no entanto, encontramos esta mesma característica naqueles que se esforçam pelo bem da humanidade: nos cientistas e nos monges. Desligar a televisão, falar baixo com o cônjuge ou irmãos mais velhos e não interromper seu filho são as melhores formas de garantir que ele possa continuar a formar um ser humano internamente. Procure não o forçar a trabalhar em grupo. Durante os primeiros seis anos isso pode ser chato. Trabalhar individualmente não o fará mais egoísta – ao contrário, o ajudará a se tornar um pequeno ser humano completo e que, portanto, poderá doar-se com mais vontade mais tarde.

  •  Sublimação do instinto de possessividade;
   É diferente gostar dos objetos e querer tê-los só para si. Admirar objetos, cuidar deles e querê-los em ordem e bom estado é natural da criança. Recusar-se a dividir, ou amar os objetos mais do que os trabalhos que se pode realizar com eles não são atitudes naturais nem comuns e em geral tratam-se de comportamentos incentivados por aqueles que circundam a criança. Objetos não devem ser queridos por si, mas pelo que permitem realizar – mesmo no caso de uma obra de arte, não deve ser ela o mais importante, mas a beleza e o aprendizado que transmite. Ajudamos a criança com isso quando não damos valor excessivo aos objetos e enfatizamos mais as vivências do que as posses no dia a dia. Criar plantas e animais, assim como dividir brinquedos com irmãos e amigos também ajuda.

  •  Poder de agir por escolha;
   A criança, quando nasce, age por princípios naturais de desenvolvimento e por tendências de comportamento inatas. Só com o tempo é que consegue desenvolver a capacidade de agir por escolha. O desenvolvimento desta habilidade é natural, e tende a acontecer mesmo sem nossa ajuda. Podemos ajudar, porém, com o jogo do silêncio e várias outras atividades das quais a criança goste e nas quais o objetivo principal seja conter um determinado tipo de comportamento. Somente aprendendo a conter um comportamento a criança (e mesmo o adulto) aprende a agir por escolha e não por vontade inconsciente. Estas atividades, no entanto, precisam ser feitas de forma agradável, mesmo divertida, e nunca violentando a liberdade da criança.

  •  Obediência;
   Parece contraditório defender a liberdade da criança e ao mesmo tempo explicar porque a obediência é natural. Mas não há nenhuma contradição. Primeiro, porque se é natural, faz parte de sua liberdade e, segundo, porque não falamos de uma obediência cega e despropositada. A obediência é um desenvolvimento importante a adorado pela criança porque ela percebe – embora inconscientemente – que é capaz de determinar seus atos e de agir em consonância mesmo com a vontade de outra pessoa, criando assim o princípio do sentimento de comunidade dentro de si, ao mesmo tempo que aumenta seu poder de agir por escolha. Não ajudamos a criança lhe dando todo tipo de ordens o tempo todo, isso nunca deve ser um hábito. Mas pedir favores de vez em quando, determinar rotinas e brincar de desafiar seu filho a fazer algumas coisas – como brincadeiras, jogos, e não ordens com desobediência sujeita a punições – podem ser excelentes maneiras de incentivá-lo a desenvolver suas capacidades.

  •  Independência e iniciativa;
   Se você segue o Lar Montessori há algum tempo, ou se vem criando seu filho com liberdade – conhecendo ou não os princípios montessorianos – sabe que independência e iniciativa são evidências de uma criança que vem se desenvolvendo com tranquilidade e respeito. Não há uma forma só de incentivar isso, mas tudo o que publicamos no Lar ajudará com essa parte. O ambiente preparado, a liberdade e o respeito são as melhores formas de permitir à criança desenvolver a liberdade e a iniciativa. Eles gostam de descobrir como fazer, e gostam muito de fazer. Tudo o que nos cabe é ajudar com tudo o que pudermos.

  •  Auto-disciplina espontânea;
   Porque a criança desenvolve as capacidades latentes e inatas de obediência, amor ao silêncio, ao trabalho, à ordem, ação por escolha, independência e iniciativa, é claro como água que o primeiro resultado é a auto-disciplina espontânea. Para ajudar nesta etapa do desenvolvimento, é muito bom que desenvolvamos uma rotina fácil, leve e repetida, que consigamos lidar bem com a autoridade e que haja liberdade e respeito ao tempo e às preferências da criança. São assuntos complexos, já abordados no Lar, mas que exigem mesmo um longo período de tentativas. Como a auto-disciplina é um dos dois maiores resultados da recuperação do equilíbrio natural da criança, ela depende de todo o resto para acontecer. Atente para o resto, e ela, como todas as características, surgirá naturalmente.

  •  Alegria.
   Chegamos ao final, nada surpreendente, da nossa lista. Este é o ponto culminante de um desenvolvimento saudável. A cultura ocidental por vezes nos faz achar que o sofrimento, a dor e o mal estar emocional e psicológico são necessários. Não são. A cultura oriental, com a qual Montessori conviveu durante dois dos mais importantes anos de sua vida, nos ensina que os acontecimentos são necessários, mas que sofrer ou não por eles depende da maturidade psicológico-emocional daqueles envolvidos nos acontecimentos. A alegria não vem da ausência de acontecimentos desagradáveis – eles existem. Vem, antes, da capacidade humana de agir por escolha, de conseguir sublimar o instinto de possessividade e de ser alegre, por causa e apesar de tudo.
   Por sorte, no entanto, acontecem mais coisas boas que coisas ruins, e na maior parte do tempo a criança não tem nenhum motivo para ficar triste ou para aprender a lidar com acontecimentos desagradáveis. Na maior parte do tempo, em liberdade e em um ambiente preparado, a criança tem tudo que seu corpo e sua psique pedem, tudo o que é necessário para desenvolver-se física, psicológica e emocionalmente e, por isso, é contente, sente-se satisfeita consigo e com o mundo e em geral sorri bastante. A alegria de uma criança que passou pelo processo de recuperar seu equilíbrio natural é radiante, mas nem por isso é escandalosa. Percebemos essa alegria na tranquilidade, no bem estar ameno e nas pequenas e suaves comemorações a cada desafio que consegue superar.


Será fantástico saber como estão sendo as coisas na sua casa e saber a sua opinião sobre o processo que comentamos aqui. O que você achou da mudança de nome que nós sugerimos? Quais dessas características são mais marcantes no seu filho? Como você lida com situações nas quais seu filho precisa ficar algum tempo em ambientes que não são preparados para ele? Quando falar das crianças, por favor, nos conte a idade delas, para sabermos sobre quem estamos conversando!
Um grande abraço!

Normalização I: O Respeito pela Criança

Este texto faz parte de uma série de dois artigos sobre normalização. Este é sobre o respeito à criança. O próximo será sobre a normalização em si, que já foi chamada de milagre da educação e conversão natural da criança, ambas denominações errôneas para um processo que nada mais é além da recuperação, por parte da criança, de tendências que lhe são naturais. Seja bem vindo, e antes de ler este texto, leia o Manual da Criança Montessori, disponível aqui no Lar!
   “Montessori segue os caminhos da Natureza”, disse E.M. Standing, explicando o ponto de apoio mais importante de todo o método Montessori. Temos sempre de lembrar que a Natureza sabe o que faz, e que os maiores milagres só podem ser operados pela natureza sendo deixada em liberdade para agir dentro e fora da criança. A natureza aprisionada perde sua magia – vemos isso claramente nos pássaros que nascem livres e são engaiolados, nos peixes capturados do mar, nas meninas e meninos que são colocados, contra a vontade, em clausuras e mosteiros.
Nasce daí uma obediência que pode ser interpretada como virtude, mas também nasce daí a diminuição da vontade de viver, e os seres vivos aprisionados deixam de emanar aquela energia que é tão bela de se ver numa criança livre, em um pássaro em liberdade ou em uma mata virgem: a Natureza livre não recebe esta liberdade de ninguém, ela nasce assim e só com esta liberdade mantida é que pode operar as maiores maravilhas do mundo.
A criança nasce livre. Se nós a mantivermos livre, ela, como todos os outros seres da natureza, agirá conforme sua capacidade e exigirá do mundo conforme sua necessidade. Se for deixada em liberdade, não irá querer mais do que precisa, não irá rejeitar o pouco de que precisa, irá se comportar como seu ambiente natural permite: com amor ao silêncio, amor ao esforço-aprendizado e amor à ordem interna e externa. Estas são as direções inatas da criança que Montessori percebeu por suas observações e que Standing tão sabiamente sumarizou em seu “Maria Montessori: Her Life and Work”.
Qualquer pai, mãe, irmão ou professor percebe algumas coisas em crianças muito pequenas: elas gostam de silêncio ou sons bastante suaves, mas o barulho incomoda muito, quase machucando. Gente falando muito alto com elas também é ruim, assim como pessoas muito bem intencionadas que falam com “voz de bebê”, ou pessoas ainda melhor intencionadas que lhes presenteiam com DVDs de programas de televisão, desenhos animados ou programas educativos. Elas gostam de silêncio, músicas baixas, suaves e tranquilas, sons da natureza e a voz humana em volume e quantidade moderada.
Todos nós também sabemos que crianças são curiosas. É por isso que não deixamos medicamentos ao alcance de crianças, que tomamos cuidado com brinquedos com peças pequenas que podem ser engolidas, que procuramos esconder todas as tomadas, colocar uma portinha na escada, ficar sempre de olho quando o fogo está aceso, e também é por isso que perdemos a calma com seus “por quês?”, “comos?” e “quandos?”. Evitamos que coloquem coisas na boca e que coloquem a mão em animais perigosos ou peçonhentos.
Por último, sabemos intuitivamente que as crianças amam a ordem, embora nem sempre respeitemos isso. Sabemos que gostam de roupas claras e suaves, que seus quartos lhes agradam mais quando tem poucas coisas, que elas não precisam de muitos brinquedos, de muitos objetos ou de muitos materiais, que lhes basta muito pouco para se sentirem realmente bem e que tudo de que necessitam é que esse pouco seja muito bem escolhido, muito limpo e muito bem organizado. Nada precisa ser muito, ser grande ou ser caro, basta que seja muito bem cuidado e organizadinho.
   Acontece, porém, que como não respeitamos sempre essas necessidades da criança, acabamos por reprimir (e eu não gosto muito dessa palavra, mas é isso) a natureza dela e forçamo-la a adotar posturas artificiais diante do mundo. É por isso que crianças que nasceram amando o silêncio acabam gostando de programas de televisão e desenhos animados irrealistas e violentos, é por isso que os pequenos bebês curiosos aos poucos se tornam cansados e apáticos diante do mundo e crescem como alunos que perguntam se “vai cair na prova” em vez de perguntar “Por quê?” e é também por isso que aquelas criancinhas que adoravam tudo no seu lugar acabam por largar tudo no meio do caminho e por jogar tudo no chão em sinal de protesto.
O respeito à natureza da criança vem de duas formas bastante simples, na verdade, e que englobam todas as outras formas menores: respeito pelo espaço e pelo tempo.
   O respeito pelo espaço da criança é manifestado pela escolha sábia daquilo que será útil. Não é útil comprar dez brinquedos antes de a criança nascer. Nem é útil que ela tenha vários brinquedos de um mesmo tipo ou qualquer coisa assim. Este tipo de presente alimenta uma forma nada natural de vontade de possuir.
É útil dar à criança aquilo que suas atividades ou manifestações pedem. Quando ela começa a querer ouvir sons mais de perto ou a provocar sons com o corpo e com o que está em volta, é interessante lhe dar pequenos instrumentos, chocalhos, o violão da família, ou mesmo permitir que batuque em potes, móveis da casa e lhe oferecer músicas clássicas, instrumentais e sons da natureza. Da mesma forma podemos estimular todos os outros sentidos.
Outro ponto muito importante para o respeito ao espaço é organizar a casa. Casas com crianças precisam ser casas arrumadas. Eu sei que é difícil, mas é assim que tem que ser. É da sua capacidade de organizar o caos que advirá a capacidade da criança de manter tudo organizado. A ordem lhe agrada, e agrada muito, mas ela só sabe que gosta de ver tudo organizado, não nasce sabendo organizar. Então, precisamos guardar as coisas que ela desarruma durante alguns anos, depois, aos poucos, podemos ensiná-la a guardar também. Tu-do or-ga-ni-za-di-nho!
Para tudo ficar em ordem e essa ordem poder ser percebida, não pode haver muita coisa. Um quarto de criança montessoriano é um quarto clean, minimalista (aprendi a palavra esses dias e adorei), quase vazio. Tem o necessário, e o necessário sempre é pouco.
O último ponto muito importante de respeito ao espaço da criança é que a casa inteira deve ser o ambiente dela (menos a cozinha, porque no começo é um ambiente perigoso demais. Aos poucos esse pode ser explorando junto com você e aos dois anos o acesso já pode ser livre). Não deve haver um quarto completamente adaptado ao seu tamanho e todos os outros com coisas grandes e inalcançáveis. Se você não conseguiu adaptar a casa toda ainda, feche as portas ou coloque grades nos ambientes não adaptados, assim você lembra que precisa adaptar o mais rápido possível e ela não se frustra por ser mais baixa que todo o resto do mundo.
   O respeito pelo tempo da criança é ainda mais simples: basta compreender que o ritmo dela é completamente diferente do seu. Algumas coisas, para você, são rotineiras e desimportantes. Para ela, nada é um hábito. Ela acabou de chegar no mundo, ainda não sabe como as coisas funcionam. Fechar o zíper é uma experiência sensorial, amarrar o tênis é um desafio motor, subir em uma escadinha é uma aventura cheia de suspense.
Dizer para ela ir mais rápido não adianta, porque não faz o menor sentido. Ela não entende porque alguma coisa é mais importante do que aquilo que ela está fazendo no momento. E na verdade ela está certa, nada é mais importante. Ela está construindo um ser humano lá dentro dela. Está desenvolvendo as habilidades necessárias para a manutenção da civilização. Ela é responsável pelo trabalho mais nobre do mundo e deve ser respeitada e admirada por isso. Hierarquicamente, a criança sempre estará acima de nós, porque é ela que nos cria.

Precisamos organizar o nosso tempo para que possamos respeitar o tempo dela. Se sabemos que demora demais para comer, precisamos começar a almoçar mais cedo. Se demora muito para se vestir, teremos de marcar o passeio para mais tarde. Ela vai demorar bastante para muita coisa, quase sempre, e vai querer repetir tudo de que gostar. A repetição é fundamental e agradável para ela. Permita.

Respeitar o tempo não significa desistir da rotina. Veja o texto sobre rotina e ritual para entender melhor esse assunto, mas saiba desde já: estabelecer um horário para dormir é bom, mas isso não deve ser forçado demais. A criança pode indicar devagar qual a hora mais apropriada para seu sono, ou você pode induzir devagar um horário necessário para a família. A mesma coisa para comer. Pode haver horários para as refeições, mas eles precisam respeitar o apetite dos pequenos. 
  Tenho certeza de que fazendo tudo isso você estará respeitando a natureza da criança que vive com você. E uma natureza respeitada leva inevitavelmente a uma vida mais prazerosa, mais cheia de energia, de sorrisos, de alegrias e de contentamento. Haverá episódios de manha, de rebeldia. Analise essas situações, tente entender porque elas aconteceram. Não se vingue com broncas fortes demais ou palmadas. Entre vocês dois, você tem de ser o ser humano que sabe mais e o mais maduro. Ela está aprendendo, e está criando, lá nas profundezas de sua natureza, um próximo ser humano, sábio e maduro também.

Manual do Proprietário de uma Criança Montessori

Texto de Donna Bryant Goertz, disponível em http://mariamontessori.com/mm/?p=1674 – Tradução de Gabriel Merched Salomão distribuída com autorização da autora

Queridos pais,

Eu quero ser como vocês. Eu quero ser exatamente como vocês, mas quero me tornar como vocês do meu jeito, no meu tempo, pelos meus esforços. Quero assistir a vocês e imitar vocês. Eu não quero ouvir vocês, a não ser por umas poucas palavras de cada vez – a menos que vocês não saibam que eu estou ouvindo. Eu quero trabalho, quero realmente me esforçar com algo muito difícil, algo que eu não consiga fazer imediatamente. Eu quero que vocês deixem o caminho livre para os meus esforços, e quero que me dêem os materiais e ferramentas necessárias para que o sucesso seja possível depois das dificuldades iniciais. Eu quero que vocês me observem e vejam se eu preciso de uma ferramenta melhor, um instrumento mais do meu tamanho, uma escada mais alta e mais segura, uma mesinha mais baixa, uma caixa que eu mesmo possa abrir, uma estante mais baixa, ou uma demonstração mais clara de algum processo. Eu não quero que vocês façam para mim, ou me apressem, sintam pena ou me parabenizem. Só fiquem calmos e me mostrem como fazer as coisas devagar, muito devagar.

Eu vou querer fazer um trabalho todinho de uma vez e sozinho porque eu vejo vocês fazendo, mas isso não funciona para mim. Sejam firmes e coloquem limites para mim nessa hora. Eu preciso que vocês me dêem pequenas partes do trabalho inteiro e me deixem repetir de novo e de novo, até que eu faça tudo perfeitamente. Vocês dividem o trabalho em partes que serão muito difíceis, mas possíveis de fazer com bastante esforço, com muitas repetições e com muita concentração.

Eu quero pensar como vocês, comportar-me como vocês, e ter os mesmos valores que vocês. Eu quero conseguir tudo isso pelo meu trabalho, imitando vocês. Falem devagar. Usem poucas e sábias palavras; Movimentem-se devagar; Façam as coisas em câmera lenta para que eu possa absorvê-las e imitá-las.

Se vocês confiarem em mim e me respeitarem, preparando meu ambiente doméstico e me dando liberdade dentro dele, eu vou me disciplinar e cooperar com vocês mais pronta e frequentemente. Quanto mais vocês se disciplinarem, mais eu vou me disciplinar. Quanto mais vocês obedecerem as leis do meu desenvolvimento, mais eu obedecerei vocês.

Nós temos tanta sorte, eu e vocês, que dentro de mim haja um plano secreto para o meu jeito de ser como vocês. Eu sou guiado pelo meu plano secreto. Eu sou feliz e estou seguro o seguindo. É irresistível para mim. Se vocês interferirem com o trabalho de me revelar de acordo com meu plano secreto e tentarem me forçar a ser como vocês do jeito de vocês, no tempo de vocês e pelo esforço de vocês, eu vou esquecer de trabalhar no meu plano secreto e vou começar a lutar contra vocês. Eu decidirei levantar guerra contra vocês e contra tudo o que vocês defendem. É minha natureza. É meu jeito de me proteger. Podem chamar isso de integridade.

Dependendo da minha personalidade, eu promoverei uma guerra mais aberta ou mais encobertamente. Eu brigarei mais ativa ou passivamente. Uma quantidade imensa de minha energia, do meu talento e inteligência será desperdiçada. Vocês vão ganhar no final, provavelmente, mas eu serei só uma versão mais fraca, uma substituição pobre, um molde tosco daquilo que eu sou capaz de ser, e vocês vão ficar exaustos. Por favor, aliviem a tensão para todos nós preparando o ambiente em casa para que eu possa executar meu trabalho de criar um ser humano e vocês possam se manter no trabalho de educar um. Eu farei o que faço melhor e vocês farão o que fazem melhor.

Eu sou capaz de ser o melhor exemplo de suas melhores qualidades e valores expressos do meu jeitinho. Se vocês prepararem a casa cuidadosa e completamente para mim, mantiverem meus materiais em ordem e em bom estado, colocarem limites claros e firmes, derem-me períodos longos e lentos para trabalhar no meu plano secreto, eu farei o trabalho de desenvolver um novo ser humano – eu! Eu mencionei que preciso dos materiais em todos os ambientes da casa? Eu preciso de materias disponíveis para acesso rápido e fácil, sempre que eu estiver em casa e onde quer que vocês estejam. Eu preciso ter a opção de trabalhar e brincar perto de vocês. Na maior parte do tempo, eu preciso fazer as atividades perto da estante ao qual elas pertencem para que eu crie o hábito de guardá-las depois de usar.

Meu plano secreto para me desenvolver é executado totalmente pela mão – mãos, digo, as minhas duas, para ser exato. Eu sou um bom artista, um excelente artesão e preciso das melhores ferramentas e materiais. Não me dê coisas inúteis e em excesso, só uns bons materiais que sejam completos e estejam em bom estado. O excesso é pior que desnecessário; é perturbador. Atrapalha meu processo criativo. Me deixa irritado e eu coopero menos com vocês. Eu sei que é difícil de acreditar que por meio das atividades que eu escolho e executo independentemente e em estado de profunda concentração eu esteja desenvolvendo meu caráter, mas é verdade. Eu não posso fazer um bom caráter com um excesso de coisas inúteis e no meio da bagunça.

Minha casa é meu estúdio e meu ateliê, então por favor, certifiquem-se de que ele seja calmo e pacífico. Coloquem músicas leves e tranquilas para tocar enquanto eu estiver acordado. Assistam televisão só depois que eu estiver dormindo. Enquanto estou acordado, faço todo o barulho de que preciso. Ah, e eu preciso que tudo fique em ordem. Eu não posso dar o melhor de mim na bagunça. Eu não sei como ordenar as coisas sozinho, mas eu preciso da ordem, então eu preciso que vocês arrumem tudo para mim pelo menos três vezes por dia. Se vocês ordenarem as coisas para mim de um jeito prático e que seja esteticamente prazeroso e faça sentido para o meu raciocínio lógico, eu vou, devagarinho, imitar vocês mais e mais.

Em algum momento, vocês poderão me mandar colocar as coisas no lugar sozinho, quando eu tiver uns seis anos, desde que vocês se lembrem de checar tudo comigo até os nove anos. Eu não consigo lidar com o acúmulo de um dia inteiro de coisas para guardar, e muito menos o de uma semana inteira. Eu certamente nunca serei capaz de lidar com um mês de bagunça. Se vocês se distraírem e esquecerem de me ajudar a guardar tudo durante o dia e a bagunça se acumular, vocês vão ter que guardar tudo à noite.

Eu odeio ser tão exigente, mas eu preciso ter todos os meus objetos organizados e dispostos em conjuntos completos que eu possa alcançar, de forma que eu possa pegá-los sozinho. Se eu tiver de pedir para vocês toda vez que precisar de alguma coisa, eu vou começar a me sentir um capitão, um general ou um inválido chorão. Parem e pensem, eu realmente poderia assumir um ou outro desses papéis. Nenhum de nós deseja isso. Eu preciso de independência como eu preciso de oxigênio. Ela me faz apresentar o melhor de mim. O tempo que vocês gastam organizando meu ambiente será o tempo que vocês economizarão não tendo que lidar com meu lado petulante, rebelde e teimoso.

A televisão é uma grande interrupção no meu desenvolvimento. Desculpe! Eu sei que vocês não querem ouvir isso: eu preciso de muitas atividades manuais e preciso de muito tempo de processamento. A TV me distrai das atividades mais importantes e enche minha cabeça com mais do que eu tenho tempo para processar. Leiam para mim todos os dias, porque a leitura vai devagar, e me dá tempo para processar junto. A TV me amontoa com mais do que eu sei usar, então ou eu desligo ou fico frenético. Eu sei que vocês podem achar que alguns programas são bons para mim, e vocês podem achar que merecem a folga que a TV dá para vocês, mas nós todos pagamos um preço alto para cada meia hora que eu assistir.

Eu não resisto à TV, mas tudo bem, porque qualquer criança de três a seis anos tem pais, e é para isso que os pais servem. A TV me deixa distraído, irritado, e me faz não cooperar com vocês. Quanto mais eu assistir, mais eu quero assistir, e aí surgem problemas entre nós. Se vocês não conseguem dizer não para o hábito de ver TV agora, onde está meu exemplo para dizer não para outros maus hábitos mais tarde? Além disso, quanto mais eu vejo TV, menos eu quero ser como vocês. Lembrem-se, eu imito o que assisto. Ah sim, cuidado também com os jogos de videogame e computador pelos quais eu vou implorar e que todos os meus amigos têm. Sei que vocês conseguem!

Geralmente, eu vou estar tão concentrado nos meus trabalhos e brincadeiras que não vou ouvir vocês quando falarem comigo. Não piorem as coisas falando de longe ou repetindo o que vocês disseram. Abaixem-se até o nível dos meus olhos, pertinho do meu rosto, consigam minha atenção e olhem nos meus olhos antes de falar. Então, façam das suas palavras poucas, firmes e respeitáveis. Vocês vão economizar muito sofrimento desnecessário se lembrarem de fazer assim. Eu sei que não vai ser fácil lembrar, mas se vocês se esforçarem bastante, podem fazer disso um hábito. Afinal, se vocês não fizerem o que devem, como podem esperar que eu faça o que devo?

Se você não tiverem tempo, energia ou, odeio dizer isso, autodisciplina para seguir aquilo que vocês dizem, não digam. Ameaças vãs e promessas vazias me fazem desprezar vocês. Vocês ficam parecendo bobos, arbitrários e fracos. Eu sei que eu ajo como se quisesse conduzir o universo sozinho, mas é só bravata. Eu realmente preciso de pais para conduzirem meu mundo. Quando eu não posso confiar que vocês querem dizer o que dizem, eu não posso acreditar em vocês. Isso me faz sentir inseguro e eu chego a alguns extremos. É assustador porque eu amo vocês demais. Eu preciso respeitar vocês e acreditar que vocês querem dizer o que dizem. Vocês são a parte mais importante do meu ambiente em casa.

Vocês se alegrarão de saber que parte do meu plano secreto pede que eu ajude com a casa e o jardim. Não, não pode ser quando vocês quiserem, quando vocês tiverem tempo ou estiverem com vontade. Tem que ser quando eu me interessar. Desculpe, não dá para negociar isso. Afinal, sou eu quem está criando um ser humano aqui. Vocês só estão educando um. Bom, eu acho que não serei de nenhuma ajuda, na verdade, não imediatamente ou diretamente. Vai ser uma complicação. Eu preciso do equipamento no tamanho certo, de demonstrações cuidadosas e de muito tempo e paciência.

Assim que eu tiver dominado uma habilidade, e me tornar capaz de realmente ajudar, vou cansar e escolher não fazer aquilo de novo. Aí eu vou querer aprender algo novo, que exija ainda mais habilidade e desenvoltura e vocês vão ter de começar tudo de novo. Isso vai acontecer mais ou menos uma vez por semana pelos próximos seis anos e vai ocupar bastante do seu tempo tão valioso e escasso. No longo prazo, no entanto, vai ser de grande ajuda, porque eu vou me sentir tão envolvido com a casa e com a família que serei muito mais razoável e cooperativo quanto aos nossos valores e regras. Eu também serei tão capaz, independente e auto-suficiente quando eu tiver uns nove anos que é bastante razoável esperar que eu faça minha parte na casa e no jardim. Eu terei desenvolvido obediência.

Eu sei que minhas necessidades são grandes e muitas. Eu sei que estou pedindo muito de vocês, mas vocês são tudo que eu tenho de verdade. Eu amo vocês e eu sei que vocês me amam além da razão e dos limites. Se eu não puder contar com vocês, com quem eu contarei? Mas não vamos fantasiar. Não precisa ser perfeito. Eu sou forte e resistente. Eu sobreviverei e farei o melhor. Só achei que vocês poderiam querer ter o capítulo sobre Cuidados Básicos com o Ambiente Doméstico do Manual do Proprietário sobre uma Criança Montessori. Vocês podem fazer os próximos três anos serem muito mais divertidos para nós todos se cuidarem de mim conforme minhas necessidades. Ei, nós podemos combinar que vamos satisfazer 50% das minhas necessidades? Ok, Ok, 25% e não se fala mais nisso.

Amor, abraços e beijos,

Seu filho de três a seis anos.

 

PS: Eu sei que tenho muita sorte. Não são muitos os filhos cujos pais vão realmente ouvir e atentar para suas necessidades em vez de ceder às teimosias e chororôs. Talvez eles temam que seus filhos deixem de amá-los. Talvez temam que seus filhos não sejam populares. Eu vou guardar isso para o Capítulo Seis.

Quanto mais eu assistir TV, mais eu vou reclamar por tédio, porque aos poucos eu vou perder minha tendência natural a seguir meus Períodos Sensíveis – sabem, aquela atração a certas atividades durante períodos determinados do desenvolvimento. Sem a interferência da TV, uma incansável sensação de insatisfação criativa me leva a explorar o ambiente, focar minha atenção em uma atividade, concentrar-me nela, e repeti-la. Sob a influência da TV, a mesma sensação incansável se torna um monstro de cara feia chamado “tédio”, que tiraniza a vocês e a mim, desgasta nossa relação e compromete meu melhor desenvolvimento.

 

dbg

Donna Bryant Goertz, fundadora da Austin Montessori School, em Austin, Texas, atua  como uma fonte para escolas ao redor do mundo. O livro de Donna, “Children Who are Not Yet Peaceful: Preventing Exclusion in the Early Elementary Classroom” baseia-se em seus trinta anos de experiência guiando uma comunidade de trinta e cinco crianças entre seis e nove anos. Ela recebeu seu diploma de Ensino Básico Montessori da Fondazione Centro Internazionale Studi Montessoriani, em Bérgamo, Itália, e seu diploma de assistente para a infância pelo The Montessori Institute of Denver, no Colorado.