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Textos sobre paz e educar para a paz de acordo com o método Montessori, que deve ser ele mesmo uma educação para a paz.

Comunicação e Montessori

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Comunicação é a base de nossas vidas com os outros, e isso inclui as crianças. Todo o tempo que passamos perto de crianças envolve comunicação. Desde a escolha do silêncio, até a postura corporal, até as palavras, os gestos e os sinais, que são as formas mais óbvias de nos comunicarmos. Se pudermos nos comunicar em paz, podemos viver em paz. Neste texto, quero abordar o assunto de dois pontos de vista. Primeiro, o da linguística, depois, o da compaixão.

Linguística

Do ponto de vista linguístico, existem quatro grandes princípios para uma conversação eficiente. Elas são chamadas de “máximas conversacionais” e foram descobertas por Paul Grice, um filósofo da linguagem britânico. Essas máximas são (1) a da quantidade, (2) a da verdade, (3) a da relevância, e (4) a da maneira. Numa conversa comum, essas máximas são respeitadas e desrespeitadas o tempo todo. Vejamos como funcionam.

A Quantidade

Quando nos comunicamos, é esperado que falemos tudo aquilo o que é importante. Ninguém espera que deixemos de dizer algo que importa em uma conversa. Acredita-se que aquilo o que dissemos era tudo o que tínhamos para dizer de importante naquele momento. Também é assim com as crianças. Sinceramente, as crianças acreditam que quando falamos com elas, dizemos tudo o que é importante dizer. A questão com as crianças é que elas têm uma capacidade menor que a do adulto para a metonímia. Para um adulto, podemos dizer uma parte da informação, e ele pode entender a informação inteira. Se dissermos “precisamos sair agora porque vai chover”, o adulto entende facilmente que “precisamos sair agora porque vai chover daqui a pouco e não queremos pegar chuva”. A criança só entende que “como vai chover, temos que sair”, e isso pode levar a um desentendimento por parte de uma criança que se recuse a sair e não se explique sobre isso, porque do ponto de vista dela é óbvio que qualquer pessoa em sã consciência optaria por exatamente por não sair, já que vai chover.

A Verdade

Em qualquer conversa comum, é necessário partir do pressuposto de que o outro está falando a verdade, ou aquilo que ele acredita ser verdadeiro. Se precisarmos ficar alertas para mentiras o tempo todo, não há conversa que possa funcionar. Isso funciona exatamente do mesmo jeito com crianças. Elas creem que aquilo que dizemos é a verdade. Acontece, no entanto, que crianças têm uma sensibilidade muito menor para a ironia. Isso significa que se você disser uma coisa querendo dizer outra, a criança interpreta sua fala como verdadeira e, percebendo que é falsa, ofende-se profundamente pela zombaria e por ter sido enganada. Por exemplo, a criança pode perguntar: “Posso comer chocolate agora?” e o adulto responder “Comer chocolate antes do almoço, filho? Aham!” ao que a criança vai pegar o chocolate, e o adulto fala mais alto: “Filho, antes do almoço você não pode comer chocolate, você sabe disso! Larga o chocolate!”. E aí temos outra situação de incompreensão grave.

A Relevância

Para participar de uma conversa, não podemos falar de qualquer coisa, mas precisamos falar daquilo que é relevante no momento – continuar no assunto da conversa, mencionar algo que ambos os participantes do papo estão vendo, ou algo assim. A criança também espera que sejamos relevantes, mas acontece com frequência de aquilo que a criança estar vivenciando no momento ser completamente diferente do que nós vivenciamos, Primeiro por uma questão de ponto de vista, e segundo porque ela pode estar ocupada com uma brincadeira enquanto nós nos ocupamos do jantar ou do uniforme da escola, de manhã. Ambos (adulto e criança) esperamos que o outro seja relevante para conosco: a gente espera que a criança entenda logo que deve vir colocar o uniforme, e a criança espera que a gente entenda logo que o urso está brigando com a coruja no chão do quarto. Cabe a nós, adultos, enxergarmos a situação completa, cedermos, interrompermos a brincadeira com educação e cuidado, e inserirmos o novo tópico de conversação. Caso contrário, nossa falta de educação é pega em flagrante e a criança recusa-se a cooperar até que, finalmente, cedamos e digamos algo como “depois você continua brincando” (que é exatamente ser relevante e falar do que ele está fazendo) “agora vem colocar a blusa” (que é inserir um novo tópico de conversa). A criança ainda pode resistir, por nossa falta de educação, mas sabemos que agora estamos mais perto do acordo.

A Maneira

Para Grice, maneira quer dizer como falamos. Não tem tanto a ver com as boas maneiras, mas sim com clareza, brevidade, e organização. Sempre esperamos que falem conosco de forma clara, organizada e direta. Quando isso não acontece, ficamos com a sensação de que a pessoa “fala difícil”, ou que alguém “não sabe conversar”. Quando falamos algo para nossas crianças de maneira nebulosa, elas não conseguem responder ou não conseguem executar. Nossa expressão precisa ser clara. Ser breve significa, entre outras coisas, não se repetir. É comum que falemos a mesma coisa para uma criança várias vezes. Especialmente na escola, quando temos pressa de sermos obedecidos por muitas crianças de uma vez, damos a mesma ordem repetidamente: “senta, senta, isso, senta, senta, vamos rápido, senta”. Em um intervalo de cinco ou seis segundos, uma mesma ordem pode ser dada cinco ou seis vezes. O efeito? O mesmo de uma ordem dada uma vez só, se for falada com calma, cuidado, clareza, atenção, e esperarmos cinco segundos para que seja obedecida. A repetição, a falta de brevidade, a frase desorganizada (“Filho, nós vamos à missa, você precisa se arrumar, então vai guardar seus brinquedos, e se veste, depois escova os dentes”) e outras falhas de comunicação do dia a dia são alguns dos fatores que mais atrapalham nossa relação com nossas crianças.

 

A Compaixão

Nossa reação imediata a tudo isso pode ser algo como: “Mas se eu tiver que prestar atenção a tudo isso, não falo mais nada!”. É exatamente por isso que Montessori pode ser chamada de “uma pedagogia do silêncio”. Montessori citava Dante e dizia: “Que todas as tuas palavras sejam contadas”. Nós não precisamos ficar sempre em silêncio, e conversar com nossas crianças, especialmente se são filhos e filhas, é de importância fundamental. Mas devemos ter em mente que uma boa comunicação não é só uma forma de facilitar a vida. Ela é sobretudo uma maneira de diminuir o sofrimento.

O monge vietnamita Thich Nhat Hanh tem uma maneira belíssima de ver a comunicação. Para ele, devemos sempre falar e ouvir buscando diminuir o sofrimento do outro. Quando ouvimos, podemos escutar o sofrimento falando por trás da raiva, do desespero, da angústia e da tristeza. Podemos perguntar o que faz o outro sofrer, podemos descobrir se poderíamos fazer alguma coisa diferente, podemos nos disponibilizar, verbalmente, a estar sempre ali, presentes, e ajudar.

Em seu livro “Good Citzens” (Bons Cidadãos, sem tradução para o português), o autor propõe que entre companheiros adultos algumas expressões de altíssima vulnerabilidade sejam usadas, por exemplo: “Por favor, diga-me, ajude-me. Eu sei bem que se não compreender você, eu não serei capaz de ser o melhor companheiro para você” Essa frase vem em uma fala maior na qual se pergunta por que o outro sofre, com a disposição total de ajudar esse sofrimento a cessar.

Se pudermos, pacificamente, tocar o sofrimento de nossas crianças – sua dificuldade de acompanhar um mundo cujo ritmo há muito ultrapassou o natural, a opressão imensa que recai sobre elas de toda parte, o desafio constante de ser o que queremos delas, na hora que queremos, enquanto elas gostariam de ser e fazer outras coisas – se pudermos entender esse sofrimento, poderemos nos comunicar com elas de forma transformadora, e ajudar, genuinamente, a diminuir o sofrimento de nossos filhos e alunos.

“O que aconteceu?”; “O que eu posso fazer para ajudar?”; “Eu estou aqui para você” são frases que podem transformar nossos diálogos, substituindo outras como “Se você chora eu não consigo entender o que você diz”; “Bom, quando você quiser conversar direito, estou te esperando” e “Você sabe que eu não gosto quando você fala chorando”. O que deve nos importar, sobretudo, é uma comunicação que diminua o sofrimento, a possibilidade de ele surgir e sua intensidade.

 

Finalização

Uma comunicação que obedeça às cinco máximas de Grice e aos princípios do diálogo de Thich Nhat Hanh tem tudo para reverter a situação apontada por Montessori há quase cem anos: “Nenhum problema social é mais universal que a opressão da criança”. Isso ainda é verdade, e permeia nosso dia a dia.

Quando formos capazes de nos abaixar, falar olhando nos olhos das crianças, falar devagar e claramente, dizer tudo o que queremos que a criança entenda, sem metonímia, ironia, sarcasmo, sem esperar que ela entenda mais do que nós dissemos, mudamos nossa realidade. Quando usarmos toda situação de comunicação para diminuir o sofrimento das crianças, ouvindo com compaixão, falando com compaixão, perguntando e pedindo com compaixão, mudamos nosso mundo.

Que sejamos capazes de uma comunicação mais verdadeira, completa e transformadora com aqueles que são, nas palavras de Montessori, o futuro, a promessa, a esperança e os construtores da humanidade.

O Tempo que Temos Juntos

Todos concordamos: Seria incrível ter todo o tempo do mundo para usar com nossas crianças. É importante para elas que os momentos em família sejam muitos e muito bons. Dizer que só o que importa é a qualidade do tempo que se passa junto, e não a quantidade de tempo que se passa junto não é dizer a verdade. A quantidade de tempo importa também, e se o tempo for longo e de qualidade, muito melhor. É bom que haja famílias que optem – ou possam optar – por estabelecer rotinas mais flexíveis para os adultos, de forma a estar mais presentes nas vidas das crianças. É bom quando os pais podem se revezar e cuidar de seus filhos da forma como acreditam, sem depender de escolas em que não confiam e pessoas que não conhecem.

Essa, no entanto, não é a vida da maior parte de nós. Para quase todos nós, não é todo o tempo do mundo aquele que podemos dedicar a nossas crianças, mas só uma parte dele. Só uma pequena parte, às vezes. Famílias que trabalham de manhã à noite, famílias que trabalham em cidades diferentes daquela em que vivem, famílias que fazem plantões, ou que têm por obrigação estarem disponíveis para seus empregadores mais do que podem estar disponíveis para seus filhos. Não faço eco ao discurso de quem diz que “se gosta tanto de trabalhar, não devia ser mãe/pai”. Para muita gente, o trabalho é um pilar de sanidade, e muitas famílias vivem melhor (todo mundo, incluindo as crianças) quando os pais trabalham do que quando um deles deixa de trabalhar e leva a frustração da falta do exercício profissional para casa… Não é incomum que essa seja uma das principais causas da hiperestimulação de crianças.

A ideia desse texto é trazer algumas dicas. Dicas de como melhorar o tempo que passamos com nossas crianças, seja ele quanto for.

1. Fale baixo. Escute. Preste atenção. – É comum que estejamos tão ansiosos para passar algum tempo com as crianças que esqueçamos de ser tranquilos. Nós temos planos para diversão. Vivemos numa sociedade que gira no eixo de “work hard, party harder” (trabalhe muito, divirta-se mais ainda). Queremos brincar, falar alto, dar risada e fazer cócegas. Buscamos a euforia. Mas nossas crianças precisam de equilíbrio. A família muitas vezes é quem melhor entende as primeiras palavras e a fala inicial de uma criança. É muito importante deixá-la falar. Se queremos ter diálogo em nossos lares, esse diálogo precisa começar muito cedo, com respeito, com atenção e cuidado. Às vezes as crianças não querem brincar do que nós queremos brincar. Às vezes elas não querem brincar em absoluto. Só ficar em paz, agasalhadas por você, ou te mostrar alguma coisa interessante que fizeram ao longo do dia.

2. Valorize o silêncio e a observação – Aproveite esse momento de paz, de encontro, de conexão entre você e seu filho, para descobrir de que ele precisa, o que ele conquistou, o que tem despertado seu interesse recentemente, como ele tem se comportado, o que o frustra e o que o alegra. Olhe para ele, com silêncio e admiração, e busque compreendê-lo em suas ações, em suas emoções, em seus atos e no desenvolvimento de sua inteligência. Por outro lado, valorize também o silêncio e a observação que partem de sua criança. Se, na rua, ele para e abaixa para ver qualquer coisa, abaixe-se, olhe com ele. Esteja lá, mas sem interferir, sem dizer nada. Permita que essa outra conexão preciosa – entre a criança e a realidade – se estabeleça e aprofunde suas fortes raízes.

3. Brinquem com o corpo e a voz – Uma boa parte de seu tempo precisou ser entregue ao dinheiro. Inevitavelmente, você já entregou horas a corporações e marcas – no trabalho, na comida comprada, no carro dirigido, no celular. Não entregue esses poucos momentos que você tem com sua criança para mais corporações e mais marcas. Evite a televisão com desenhos fabricados por empresas imensas e de interesses escusos. Evite os tablets com propagandas constantes e perniciosas. Evite os computadores com jogos construídos para alimentar o modo de ser de uma sociedade de consumo. Brinque com aquilo que a natureza deu: o corpo e a voz. Se quiser – se vocês dois quiserem – use brinquedos. Mas use brinquedos que não brinquem sozinhos. Brinquedos que dependam de vocês para funcionar, para acontecer. Brinquedos que sem vocês sejam pedaços de qualquer coisa. Brinquedos nos quais você, e principalmente seu filho, soprem alma e vida.

4. Em casa, a casa basta – Brinquedos muito sofisticados não são uma necessidade da criança. Eles são uma necessidade dos adultos e uma necessidade das empresas. Coordenação motora, equilíbrio, desenvolvimento da fala e do raciocínio lógico… Tudo isso se desenvolve muito bem na vida, sem que sejam necessários brinquedos, softwares e vídeos especializados. O material montessoriano, inclusive, funciona muito bem na escola, onde ele é compreendido em sua inteireza, usado de maneira correta e reaproveitado, auxiliando no desenvolvimento da individualidade e na construção da vida comunitária. Em casa, ele é inútil e, a depender do comportamento do adulto, pode ajudar em formas de opressão variadas – se, por exemplo, forçamos a criança a usar as letras de lixa porque sinceramente acreditamos que será bom para ela. Em casa, use a casa. Limpe, lustre, lave, corte, cozinhe, pendure, enxugue, arrume, separe, organize. Na minha opinião, especialmente cozinhe. Cozinhar com crianças é uma grande diversão, ajuda na alimentação de todo mundo e garante que o tempo da criança será usado de forma maravilhosamente produtiva para sua personalidade: há um trabalho intenso com os sentidos e com a coordenação motora, há a sensação da independência que se desenvolve, há o prazer puro de desfrutar de um bom sabor e a sensação de conquista por comer aquilo que se fez, para dizer o mínimo.

5. Permita a independência – Quando ficamos fora de casa por períodos longos, muitas vezes nos sentimos indevidamente culpados. A sensação de culpa nunca tem boas consequências. Uma das consequências negativas é que, voltando para casa, desejamos proteger nossas crianças de tudo, inclusive de qualquer esforço. E, fazendo isso, protegemos nossas crianças da possibilidade de um desenvolvimento saudável. Permita que sua criança seja independente. Permita que ela se esforce e falhe, permita que ela faça coisas sozinha mesmo nesse curto período que vocês têm juntos. Seu filho valorizará a possibilidade de ser independente na sua presença. A chance de conquistar a vida ao seu lado. Você vai perceber pelo olhar de sua criança quanto acertou em sua escolha.

Não há muito mais o que dizer. Seu coração, seu amor e o conhecimento que você tem de seu filho vão nortear suas ações melhor do que uma imensa lista de atividades sugeridas. Num próximo texto, pretendo abordar formas de melhorar o tempo da criança enquanto ela está longe de nós, na escola ou em casa.

Dia das Crianças e Opressão

Uma criança. Vida nova. Imune ao mal e à doença, protegida de sequestros, surras, estupro, racismo, insulto, aversão a si mesma, abandono. Sem erro. Toda bondade. Desprovida de ira. Ou assim creem eles. – God Help the Child, Toni Morrison

Quando foi que nos esquecemos do desrespeito, da opressão e dos abusos que sofremos quando éramos crianças? As palmadas, os gritos, as ordens sem sentido, o assédio na rua, a falta de controle sobre o tempo e o espaço que habitávamos.

Em algum momento bastante precoce de nossas vidas, nos distanciamos de nós e aprendemos que precisávamos viver como eles, como os adultos, porque eles eram mais poderosos e fortes, mais conhecedores e onipotentes que nós. E se nós nos conformássemos às suas ordens, vontades, abusos e tiranias, poderíamos um dia ser incríveis também. Já que, então, ainda éramos crianças, incapazes, risíveis, cômicas, inúteis.

Em 1959, no dia 20 de novembro, se declararam os Direitos da Criança, na ONU. Internacionalmente é esse o Dia da Criança, 20 de novembro. Aqui, temos além dessa, mais uma data, muito mais comemorada: 12 de outubro. Hoje. E eu tenho uma proposta. Façamos com o Dia da Criança o que fazemos com o Dia da Consciência Negra e o Dia da Mulher. Vamos tomar o Dia da Criança não para distribuir rosas, mas para discutir igualdade. Vamos tomar o dia da criança não para celebrar, mas para refletir. Em lugar de (só) presentear ou, como não poderia deixar de ser em um mundo que rouba todo o tempo para devolvê-lo em papel colorido, em lugar de (só) estarmos presentes especialmente nesse dia, singularmente nesse dia, vamos tomar a data para enfrentar. Vamos tomar a data para libertar.

A criança é um grupo social oprimido. Constantemente. A criança é oprimida por ser pequena e nova. Ela é pequena e nova em relação ao quê? A quem? Quem é que a declara pequena e nova? Quem é que a diminui? Por um instante veja esta imagem:

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Respoda, se quiser responda em voz alta, onde está a água? Onde está a comida? Onde estão os espaços mais abrigados de vento e chuva? Onde está quase toda a vida? Se para todas as perguntas você respondeu algo como “na altura do chão” ou “a poucos centímetros de altura”, parabéns. A maior parte da natureza é, como um adulto diria, pequena.

Quase tudo, antes de nossa interferência, acontece mesmo perto da terra, perto da água, perto das raízes do mundo. É nesse mundo que nós fomos preparados para viver, por muito, muito tempo de evolução. Mas aí mudamos as coisas.

Aí, nós saímos da floresta, e fizemos as vilas, depois as cidades – sim, eu estou dando imensos saltos históricos aqui – e nesses espaços, a criança não pode nada. Nesses espaços nós tiramos dela tudo o que podia fazer antes: antes, a sede podia ser resolvida na água do rio, e a higiene também, a fome nas pequenas frutas, nas folhas, nas raízes do mundo. A brincadeira acontecia entre pedras, desníveis de chão, árvores grossas e arbustos. É verdade, havia perigos, a criança precisava de proteção. Mas havia o imperativo natural da independência e, daí, de uma liberdade qualquer inevitável. Nós a roubamos.

Toda opressão é resultado de algum tipo de roubo. Nós, adultos, roubamos a natureza das crianças, e não parece que chegará logo o momento em que a devolveremos. Nós roubamos a água que fluía aos pés da criança menor de todas, e a colocamos a mais de um metro, muitas vezes, em um bebedouro que exige controle motor fino para funcionar. Nós roubamos a comida que ficava pendurada entre as folhas de um arbusto baixo e a escondemos atrás de uma grossa porta de metal fechada por tecnologia magnética, que exige força para abrir. Nós roubamos a diversão que rodeava a criança e a instalamos em prateleiras que exigem dinheiro para serem possuídas. Nós roubamos o sono que acontecia à sombra das árvores e o colocamos numa masmorra de madeira ou plástico envolta em grades, que exige nossos braços para ser acessada. Nós roubamos tudo. Nós só somos superiores à criança porque, aos poucos, roubamos tudo o que ela tinha.

Agora, todo o roubo feito, praticamos escambo. Nada mais apropriado a um colonizador que oprime. Se a criança nos obedece, tem chance de divertir-se. Se ela satisfaz nossas exigências de movimento corporal, tem permissão para beber e comer sozinha. Se ela nos dá razão para não nos preocuparmos, pode dormir quando quer. Se ela não atrapalha o horário de nossas refeições, pode satisfazer sua fome. Se, no entanto, nos desobedece, pode ser trancada na masmorra. Se ela precisa se mover mais do que permite o ambiente restrito que fizemos para nós, mas tanto quanto permitia a terra que roubamos, então fica de castigo, apanha, morre – por fora, por dentro, por vezes de todos os jeitos.

Segundo Montessori, o adulto pensa que seu poder advém do fato simples de ser adulto. Por isso, e só por isso, ele pode. Isso não é questionável porque é axiomático: é assim porque é assim porque é assim porque é assim. Mas é mentira. O poder do adulto não advém do fato de ele ser adulto. O poder do adulto advém do roubo.

O adulto roubou o espaço e, reproduzindo a lógica em que vive, na qual tem seu tempo roubado constantemente, rouba o tempo da criança. Se eu não posso, ela não pode. Ela é uma criança e precisa se acostumar, o mundo é assim. Fomos roubados, nós adultos, também, e não lutamos para que nada nos seja devolvido. Por que é que a criança deveria poder lutar?

E quando luta, quando busca fazer sua revolução, quando exige que suas necessidades sejam atendidas, reagimos como o pior dos governos: reprimimos qualquer coisa. Reagimos como o governo de Foucault, clinicamos o que não nos agrada, e chamamos especialistas que nos expliquem a birra, o escândalo, os terrible twos, tudo o que não é a imobilidade passiva e obediente que, em silêncio, desejamos. Nós não queremos ouvir a criança, nós não olhamos para suas necessidades, e se ela as exige, fazemos com ela o que se fez com as feministas por tanto tempo: trata-se de um caso grave de histeria. Vamos chamar uma especialista que, num programa televisivo nos ensine a recuperar o poder do adulto.

Maria Montessori colocou sabiamente: Nenhum problema social é tão universal quanto a opressão da criança. Essa frase fica presa à minha lousa de estudos, em casa. Abaixo dela, com a caneta da lousa, se lê “e isso precisa ser percebido”. Isso, infelizmente, não é óbvio.

Que não nos sintamos soterrados em culpa. Não tem culpa demais aquele que discrimina antes que se lhe esclareça que discrimina, antes que alguém chegue até ele e diga: “Escuta, isso, que você faz, está errado. E está errado porque essa criança é um ser humano, e não se age assim com seres humanos”. Vamos fazer do Dia das Crianças um dia simbólico de reflexão, de mudança. Vamos fazer Montessori, porque sabemos que Montessori ajuda a vida da criança, porque sabemos que Montessori é uma forma de pensar e uma forma de agir que previne e inibe a opressão. Mas vamos também refletir muito, demais mesmo, porque mesmo quem não possa conhecer Montessori imediatamente, mesmo quem não possa aplicar Montessori já e agora, mesmo esse adulto não pode oprimir a criança. Ninguém pode. Nós podemos mudar isso com um excesso de esclarecimento e com uma posição extremada: precisamos abraçar o radicalismo da compaixão.

Se você quiser entender mais sobre opressão e a opressão da criança, sugerimos:

A Criança, de Maria Montessori – o livro inteiro

Mente Absorvente, de Maria Montessori – o final do livro, últimos cinco ou seis capítulos.

Readings for Diversity and Social Justice – Editora Routledge, vários autores

A Revolução do Altruísmo – Matthieu Ricard

Os Condenados da Terra – Frantz Fanon

O Segundo Sexo – Simone de Beauvoir

Microfísica do Poder – Michel Foucault

O Olho Mais Azul e God Help the Child – Toni Morrison (qualquer romance dela, na verdade)

O Pequeno Príncipe – Antoine de Saint-Exupéry

 

Paz V: Nenhuma Forma de Violência

Este texto é dividido em tópicos. Você pode ler devagar sem se perder.

Definições de Violência

Abuso sexual. Pedofilia. Espancamento. Tortura. Isolamento. Jejum. Silenciamento. Humilhação. Mutilação. Trabalho forçado. Silenciamento. Trabalho escravo. Pobreza. Miséria. Fome. Abuso psicológico. Agressão verbal. Punições físicas. Silenciamento. Negligência. Abuso emocional. Punições psicológicas. Silenciamento. Palmada educativa. Testemunho impotente. Impotência. Violência midiática. Submissão forçada. Abandono. Silenciamento. Cada-um-sabe-o-que-é-melhor-para-o-seu-filho. A-escola-não-tem-que-se-meter. Estado ineficiente. Silenciamento.

As formas de violência que uma criança pode ter de enfrentar até chegar à vida adulta ou à maturidade podem incluir uma, duas, várias ou todas as listadas no parágrafo acima. É muito raro que se enfrente somente uma delas. Via de regra a via crucis da infância é longa, cheia de curvas, de abismos e de ladeiras íngremes e pedregosas. O fardo a carregar? A vida da civilização. O herói pequeno que é o herói gigante do mundo deve enfrentar os calabouços do sofrimento se desejar salvar a terra de seus martírios. A pequena criança, a fonte de todo o amor do mundo, deve ser mutilada se desejar fazer renascer a humanidade.

Nós testemunhamos a violência contra as crianças todos os dias. E quase sempre não fazemos nada. Quase sempre nós silenciamos, numa anuência gentil para com o agressor, escondendo a cabeça na terra para não ver o carrasco da infância. Esquecendo que todas as vezes que baixamos a cabeça, deixamos o pescoço exposto à guilhotina. E a lâmina desce na imagem do adulto futuro, que só saberá a guerra e se conhecer a paz o fará apenas como imagem poética. Sem se lembrar que a Paz é uma realidade, e merece que se lute por ela.

Números

Mais de duas mil crianças (de até quinze anos) são atendidas por mês em hospitais brasileiros por violências cometidas contra elas. Isso dá um total de mais de vinte e cinco mil crianças por ano. Se considerarmos também os adolescentes, o número sobe para mais de trinta e oito mil atendimentos anuais. E somos obrigados a considerar que os casos de agressão que chegam aos hospitais e são declarados ou descobertos compõe somente uma parcela de toda a agressão cometida contra a infância. Quase metade dessas agressões são cometidas pelos pais das crianças.

A UNICEF em documento divulgado em 2005 (faz alguns anos, é verdade. Mas a ilustração numérica não perde seu valor, dada a gravidade da situação que por certo não cedeu inteiramente até o presente), estima que havia 110.250 casos de agressão contra crianças e adolescentes no Brasil no ano 2000. Desses, cerca de 36 mil casos de violência física, 11 mil de violência sexual – predominantemente contra o sexo feminino-, 17 mil de violência psicológica e quase 45 mil de negligência. Contam-se ainda 473 casos de violência fatal. O documento detalha que famílias admitiram utilizar instrumentos para disciplinar as crianças por meio de agressões físicas e mesmo que feriram as crianças algumas vezes.

Os dois documentos, no entanto, tratam muito pouco da violência psicológica, do castigo físico (no documento da UNICEF só constam casos considerados graves e na outra referência, somente casos de atendimento hospitalar), da palmada agressiva não-confessada. Na verdade, quase nada aparece nesses documentos, e os números assustadores e terríveis que nos espantam e assustam são um levantamento brando, importante, mas quase covarde, do quadro da violência contra a criança no Brasil. Documentos sobre violência contra a infância existem em muitos países, e você pode pesquisar as estatísticas do seu. É impressionantemente difícil encontrar algo atual ou mesmo uma relativa abundância de documentos, o que evidencia um grau absurdamente alto de silêncio sobre uma das maiores tragédias da humanidade. A maior? Talvez. A ausência de números é reflexo direto da ausência de preocupação. Da ausência de debate. Da ausência de coragem e da minúscula parcela que considera a criança como gente.

Aliás, é importante dizer: não falta só gente que enxergue a criança como gente. Falta mesmo gente que enxergue a criança como bicho. É mais fácil encontrar dados sobre violência e crueldade contra animais em geral do que contra crianças – do que contra nossa espécie.

Efeitos da Violência

De acordo com artigo de Bruce D. Perry (Ph.D.), da ChildTrauma Academy, a violência contra a criança pode tomar várias formas e mesmo deixar consequências graves de vida inteira. O autor considera especialmente três tipos de violência. A violência doméstica, a violência escolar e a violência midiática. Dessas, a primeira e a segunda podem ser sofridas diretamente pela criança ou ela pode ser uma testemunha impotente do acontecimento – e se tenta interferir torna-se a vítima direta da agressão. A terceira atinge a criança que é exposta a programas de TV ou jogos violentos. Para Perry, que embasa sua fala em dezenas de pesquisas sobre os temas, a violência sofrida indiretamente, como espectadora, afeta a criança também, e também provoca efeitos danosos importantes em sua formação cerebral e em sua personalidade.

No artigo que utilizamos aqui, entendemos que presenciar ou sofrer violência de qualquer tipo ativa no cérebro o que se chama de mecanismo de lutar ou fugir. Trata-se de um mecanismo cerebral ligado ao sistema nervoso que faz com que, em situações de alto risco, o cérebro envie mensagens ao corpo para privilegiar aquilo que no corpo é necessário para uma defesa ou fuga físicas, sob prejuízo de funções como a digestão, e sensações como a tranquilidade e o equilíbrio emocional. Isso nós aprendemos no livro Neuroscience for Dummies.

De volta ao artigo, Perry explica que quando uma criança é exposta a situações que ativam o mecanismo de lutar ou fugir, mas ainda são muito pequenas para lutar ou para fugir, pedem socorro – as situações não necessariamente são agressões diretas. Esse pedido de socorro vem, geralmente, na forma do choro, mas pode vir também por expressões faciais ou movimentos corporais. Se esse pedido de socorro for atendido, tanto melhor. Se o pedido não é atendido, no entanto, a criança passa, aos poucos, a desistir de tentar. Essa derrota, para Perry, ensina a criança a se considerar desamparada. Nas palavras do artigo, trata-se de desamparo aprendido.

Os sintomas desse desamparo aprendido são extremamente frequentes para professores, e difíceis de lidar para todos os adultos. As crianças nessa situação de negligência, abandono ou abuso, frequentemente demonstram uma falta de reação emocional, passividade, conformismo e diminuição da sensibilidade à dor.

Para sobreviver a uma realidade de ameaça persistente, de uma eternidade de violências possíveis a qualquer momento, a criança desenvolve então um modelo de comportamento baseado em adaptação dissociativa. Perry explica que esse comportamento se baseia em um desligamento do mundo exterior e um mergulho nos estímulos de um mundo interior. Podem envolver: distração, tentativa de evitar o mundo, entorpecimento, sonhar acordado, fugas, fantasias, a sensação de que aquilo que o cerca não é real, despersonalização e, no limite, desmaios ou catatonia.

Em citação direta do artigo: “As crianças expostas a violência crônica reportam uma variedade de experiências dissociativas. As crianças descrevem ir a um “lugar diferente”, assumir a personagem de super-heróis ou animais, a sensação de “assistir um filme em que eu estava” ou “só flutuar” – respostas clássicas de despersonalização e desrealização (a sensação de que o mundo à volta é irreal). Observadores dizem que essas crianças são entorpecidas, robóticas ou não reagem, sonham acordadas, agem como se não estivessem ali ou tem um olhar vidrado”. Reações assim são mais comuns em crianças pequenas, mas imobilização, a falta de possibilidade de escapar ou a dor aumentam esse tipo de resposta em qualquer idade.

Uma outra possibilidade de resposta a situações de agressão crônica pode ser a que se enquadra no sistema de lutar ou fugir. Nesse caso, a criança tem respostas violentas. Em geral são crianças muito fortes, têm uma leve elevação na temperatura corporal, problemas de sono e ansiedade. Além disso, grande parte dessas crianças têm anormalidades na região cardiovascular e podem apresentar quadros de hiperatividade. Essas crianças tendem a carregar suas dificuldades para a idade adulta e se tornarem adultos impulsivos e violentos em suas reações.

Essas crianças também desenvolvem dificuldades consideráveis de aprendizado, que são relacionadas à sua atividade cerebral. Por terem sido agredidas ou testemunhas de muita violência, seus cérebros se mantêm num estado constante de alerta e perigo. Não há paz interior, e não há paz neurológica. As regiões cerebrais responsáveis por processar informações verbais, especialmente, são profundamente afetadas e não podem funcionar adequadamente, e então, as crianças agredidas ou testemunhas de violência não podem aprender. Mesmo as observações de professores nas escolas relacionam esse comportamento das crianças com dificuldades de aprendizado. Elas podem ser tão inteligentes quanto suas colegas, e isso pode ser demonstrado em uma série de testes psicológicos, mas na escola, especialmente se é necessária a utilização  do processamento de linguagem falada, elas não acompanham o que se ensina. Não aprendem.

Fugas e Barreiras

Maria Montessori, em A Criança (a edição que citamos aqui é The Secret of Childhood, em inglês, editada pela Ballantine Books, em formato de bolso), descreveu diversas formas de desvios psíquicos na criança pequena. Tratavam-se de modelos de comportamento que ela percebeu não serem normais, mas sim aparecerem como efeito de um ambiente não adequado ou de adultos que não sabiam viver adequadamente com uma criança, compreender e atender suas necessidades. As duas principais formas de desvios psíquicos descritas por Montessori são as fugas e as barreiras.

As Fugas são sinais de que a energia psíquica da criança está dissipada e se expressa em direções inúteis ou nocivas ao seu desenvolvimento. Essa criança pode ter ficado assim por viver em um ambiente inadequado, estéril ou, aprendemos agora, agressivo. Ela se refugia em um mundo interno de fantasias, utilizando paus e pedras para criar um mundo interior cindido em tudo do mundo que a cerca. Elas começam coisas que não terminam, porque não possuem estabilidade mental e concentração suficiente para terminar. Movem-se incessantemente e com muita energia, mas sem objetivo algum.

Via de regra, essas crianças “são consideradas inteligentes, mas desorganizadas, desarrumadas e indisciplinadas” (The Secreto f Childhood, p. 156). E a elas, como a todas, concedemos a prisão de só poderem brincar com brinquedos que as isolam do mundo real, alimentando-as com “um ambiente desprovido de objetivos específicos e [que], como consequência, não pode fornecer nenhum tipo de concentração real, só ilusões” (ainda p.156). Nós alimentamos as fantasias dessas crianças, seus movimentos sem controle e lhes damos brinquedos que aprofundam seu isolamento e a cisão com o mundo exterior.

O que aparentemente é um grau mais difícil de isolamento, Montessori chama de Barreiras. A criança que se tenta arrancar a força de suas fugas, ou aquela que não é bem tratada pelos adultos, e novamente, aprendemos que também aquelas vítimas ou testemunhas de violência, começa a erguer uma muralha para manter fora os adultos e aquilo que eles lhe dizem.

“Um tipo de véu”, diz Montessori, “desce sobre a mente da criança”, que age como se dissesse ao adulto: “Você fala, mas eu não escuto. Você repete e repete, mas eu não ouço você. Não posso construir meu mundo porque estou sempre ocupada em construir uma muralha para te manter fora dele” (p. 157).

Essa criança costuma ser inerte, silenciosa, em muitos sentidos é até mesmo disciplinada. Entretanto, mesmo que fosse uma criança inteligente, quando começa a erguer barreiras contra o mundo, deixam de aprender, e se isso se espalha para – na escola tradicional especialmente – as várias disciplinas, essa criança passa, aos poucos, a ser considerada de pouca inteligência e, se permanece por muito tempo nesse estado, considera-se até mesmo que tenha alguma deficiência.

Os estados descritos por Montessori nos lembram muito os estados descritos por Perry em seu artigo sobre as consequências da violência contra a criança, e são tragédias psicológicas e emocionais que, ironicamente (quase sarcasticamente, se diria), podem ser interpretadas pelo adulto como “uma criança reservada”, “uma criança quietinha” ou “uma criança obediente”, no caso das barreiras, e “muito ativo”, “muito criativo” ou “com um jeito diferente de aprender”, no caso das fugas.

Crianças reservadas existem, quietinhas também, obedientes todas são, quando respeitadas, entendidas e satisfeitas em suas necessidades mais íntimas. Existem crianças muito ativas, criativas e que aprendem de formas diferentes – especialmente de forma diferente do esquema tradicional de ensino. Mas existem crianças que estão passando por transtornos psicológicos sérios, por turbilhões emocionais sérios, por traumas psíquicos sérios. E existem adultos que confundem isso. Especialmente porque muitas, muitas crianças se enquadram em um dos aspectos descritos acima, especialmente as fugas, em época de muita televisão e tela, nós tendemos a considerar que esse comportamento, por atingir a maior parte das crianças, é natural. Ele não é.

O Equilíbrio Natural da Criança

Para Montessori, e para qualquer observador atento, é notável que o comportamento natural da criança nada tem de fantasioso, indisciplinado, descentrado ou desordenado. Também não tem nada de inerte, de medo constante ou de ensimesmado. O comportamento natural da criança é equilibrado. A criança em seu estado de Equilíbrio Natural é concentrada, alegre, silenciosa, esforçada, organizada, alegre, não-possessiva, tranquila, autodisciplinada, obediente, alegre. Alegre. E essa alegria não pula e grita o tempo todo. Ela sorri. Ela é serena e simples. Ela transborda paz profunda no brilho dos olhos e na luz do sorriso. Você pode ler mais sobre o Equilíbrio Natural da Criança aqui no Lar Montessori e no blog do Centro de Educação Montessori de São Paulo, além de nos livros de Montessori, é claro, onde você encontra o assunto sob o título de Normalização.

Como uma Conclusão

 

Por favor, leia novamente o primeiro parágrafo de nosso texto:

Abuso sexual. Pedofilia. Espancamento. Tortura. Isolamento. Jejum. Silenciamento. Humilhação. Mutilação. Trabalho forçado. Silenciamento. Trabalho escravo. Pobreza. Miséria. Fome. Abuso psicológico. Agressão verbal. Punições físicas. Silenciamento. Negligência. Abuso emocional. Punições psicológicas. Silenciamento. Palmada educativa. Testemunho impotente. Impotência. Violência midiática. Submissão forçada. Abandono. Silenciamento. Cada-um-sabe-o-que-é-melhor-para-o-seu-filho. A-escola-não-tem-que-se-meter. Estado ineficiente. Silenciamento.

Todas essas formas de violência atingem crianças todos os dias. Diretamente ou na forma de espetáculo terrível presenciado. Quando crianças tentam defender seus irmãos ou suas mães, apanham, são humilhadas ou severamente, criminosamente, punidas. Nenhuma forma de violência contra a criança pode ser admitida. Nós, no Lar Montessori e, acreditamos, no Movimento Montessori do Brasil, não compactuamos e não compactuaremos com nenhuma forma de violência. Isolamento, humilhação verbal, punições físicas e negligência, violência midiática, submissão forçada e estado ineficiente, omissão de profissionais e instituições, impotência e abuso emocional também são formas de violência. Nós não compactuaremos com crimes contra a infância e, por extensão, crimes contra a humanidade.

Nós queremos chamar você – isso não é exatamente um convite, porque sabemos que não é agradável – para estar conosco. Queremos chamar você para atuarmos juntos. No ano de 2015 pretendemos lançar duas páginas virtuais que serão braços do Lar Montessori. Uma delas será sobre o Jogo do Silêncio. A outra será sobre violência e sobre Paz. Nós queremos sua ajuda – não financeira, mas de esforço e trabalho – para estender os ideais de Montessori e os direitos que ela defendeu por toda a vida para as crianças, a todas as crianças. Abaixo, deixamos uma citação integralmente retirada do Observatório da Infância, que explica como devemos agir em casos de agressão ou violência contra crianças. Agradecemos imensamente sua leitura, e pedimos seu comentário, sua posição, sua não-omissão quanto aquela que, com alguma facilidade, pode ser chamada de a maior tragédia da humanidade.

Citamos integralmente o Observatório da Infância no parágrafo que segue:

Pelo Artigo 13 do Estatuto da Criança e do Adolescente-ECA, “os casos de suspeita ou confirmação de maus-tratos contra criança ou adolescente serão obrigatoriamente comunicados ao Conselho Tutelar da respectiva localidade, sem prejuízo de outras providências legais”. As autoridades que podem receber as denúncias, além dos Conselhos Tutelares, são: o Juiz da Infância e da Juventude (antigo Juiz de Menores), a polícia, o Promotor de Justiça da Infância e da Juventude, os Centros de Defesa da Criança e do Adolescente e os Programas SOS-Criança. Essas denúncias podem ser feitas por qualquer cidadão, mas são obrigatórias para alguns profissionais. A esse respeito, o Artigo 245 do ECA prevê punições: “Deixar o médico, professor ou responsável por estabelecimento de atenção à saúde e de ensino fundamental, pré-escola ou creche, de comunicar à autoridade competente os casos de que tenha conhecimento, envolvendo suspeita ou confirmação de maus-tratos contra criança ou adolescente”. A penalidade para a omissão é de “multa de 3 a 20 salários mínimos, aplicando-se o dobro em caso de reincidência”. O Código Penal prevê outras punições.

Paz IV: Ouvir Estrelas

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“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso. […]”
Olavo Bilac

 

De vez em quando esquecemos de ser pacíficos. Infelizmente acontece. Vez por outra violentamos nossas crianças com aquilo que abrigamos de pior em nós. Imprevisivel- mente, o adulto deixa explodir pelos olhos, pelas bocas e, desesperadamente, pelas mãos, o que há de mais enterrado e evitado em si mesmo. Permite, sem controle, que rajadas de ira e orgulho fustiguem o corpo e as emoções infantis, varrendo a alegria e o amor que desabrochavam na criança e deixando um rastro de ruína e medo.

Esse rastro é visível, e se mostra no recuo do corpo, no arregalar dos olhos, no afrouxar da boca que (quase) se abre em choro, no vermelho do rosto e na respiração acelerada. A ruína e o medo são visíveis no espetáculo triste do horror infantil, que surge quando nós, adultos, deixamos de ver na criança – por um instante, alguns momentos ou, o pior, por toda uma vida – a luz que brilha e pode iluminar os caminhos da humanidade.

Montessori escreveu em A Criança que a psique humana é como um grande oceano, e que há nela momentos de tempestade. Essa bela metáfora pode ser estendida, e deve, se quisermos compreender com um pouco mais de clareza os esforços que devemos fazer para não permitir que as ondas, as chuvas e os ventos tempestuosos façam das águas potências de destruição para aquilo que vai além de nossa consciência, e atinja os seres que mais amamos no mundo.

A criança, de várias maneiras, é uma estrela. Cada criança é uma estrela. São elas que dão ao mundo brilho quando ele se vê mergulhado na escuridão. É a criança que consegue libertar das muralhas de seriedade adulta os sorrisos mais singelos, e que recupera na fortaleza da alma os resquícios da habilidade, às vezes há muito esquecida, de sentir amor. É a criança que pode desenhar para nós, como constelações em um céu de inverno, os traços da psicologia infantil e as bases da natureza humana. É ela que consegue nos mostrar, com a clareza de uma Via-Láctea em mar aberto, de onde nós viemos. É ela que nos oferece, como um Sol a raiar todos os dias, a certeza de uma segunda chance e a garantia da possibilidade de sucesso. A criança nos oferece, sem nada exigir em retorno, tudo o que tem. Ela se entrega toda amor, e mesmo quando não recebe amor de volta, insiste quanto pode, tenta quanto consegue. É difícil apagar o brilho de uma criança, ele resiste a muito. Infelizmente, ainda assim, adultos são especialmente competentes nessa ingrata tarefa.

Habitualmente, conseguimos enxergar o brilho infantil. Não é assim tão difícil. A maior parte de nós – e todos aqueles que têm a sorte de conviver com crianças – têm lembranças que nos fazem sorrir ou lacrimejar, felizes, ao lembrar de algum relance de humanidade provocado ou demonstrado por uma criança pequena – ou, para todos os efeitos, por uma criança grande ou um adolescente.

Entretanto, há momentos piores. Há momentos de movimentação tectônica dentro de nós, quando qualquer coisa que não deveria sair do lugar é deslocada por nossa recepção de um comportamento infantil, e nossos vulcões entram em erupção. Pense em uma criança que quebre algo de valor emocional imenso, ou em uma que desafie os adultos que a cercam com frequência, ou outra que constantemente machuque colegas de escola. Comportamentos assim – e em nossas mentes, crianças assim – movimentam algo dentro de nós que, perceptivelmente, não é bom. Percebemos, se prestarmos atenção suficiente, subindo desde as maiores profundezas de nossa personalidade a ação que tomaremos em seguida. O grito, o castigo, a palmada (ah!). Sentimos isso como um calor que sobe e retorce o que encontra pelo caminho, ultrapassando as próprias fronteiras de nosso corpo em suor, vermelhidão e angústia.

Uma vez que tenhamos explodido, e você talvez já tenha visto a explosão de um vulcão, e talvez já tenha estado em uma tempestade densa, o que sobrevém não é a bonança. Depois de uma tempestade, como depois de uma guerra, não existe Paz. Existe um rastro de ruína e medo. E se confundirmos esse estado assustador com a Paz, corremos o risco sério de compreender a Paz como a ausência da guerra, e não como o equilíbrio belíssimo que possibilita o surgimento das mais sublimes manifestações de humanidade. Montessori disse:

A história humana nos mostra que, assim que o invasor consolida sua vitória, a paz significa, para os vencidos, a submissão forçada, a perda de tudo o que mais lhes importa e a impossibilidade de usufruir dos frutos de seu trabalho e de seus sucessos. […] Os vencidos são constrangidos a sacrifícios, como se, do único fato de terem sido vencidos, fossem os únicos culpados, como se merecessem uma punição.

Vemos com clareza agora a diferença abissal que existe entre a tranquilidade da paz e o drama silenciado do pós-guerra. A paz se parece com a noite estrelada, a noite silenciada do pós guerra tem um céu carregado de nuvens, trovões longínquos ocasionais e, no horizonte, uma silenciosa tempestade de raios. Na noite do pós-guerra nós não vemos as estrelas. Nós não nos encantamos mais. Nós não sabemos que direção tomar e nem para onde estamos indo. Quando o dia finalmente nasce, depois da noite de tempestades, o Sol espalha uma luz opaca, sem brilho, desce seus raios como um manto triste de luz sobre a Terra, e não oferece esperança.

Quando castigamos nossas crianças, quando as maltratamos de qualquer maneira, quando gritamos, quando as isolamos do convívio social e quando, embora cada vez mais raro, batemos em nossas crianças, contribuímos anonimamente para uma imensa tempestade que assola o mundo. Tornamo-nos nuvens carregadas de barulho, água fria e eletricidade, prontas a desabar sobre qualquer coisa. Quando nos deixamos, vulcões, entrar em erupção feroz diante dos olhos daqueles que, indubitavelmente ainda, mais amamos no mundo, projetamos nos céus imensas nuvens de poeira, gás e fogo, e derramamos sobre a terra línguas imensas de lava e vapor. Esse imenso conjunto de desequilíbrios, essas nuvens-ira, esses trovões-orgulho, essa lava-tirania e todo esse fogo-poder nos impedem, mais cedo do que esperávamos, de enxergar na criança a esperança, a promessa e o futuro. Impedem-nos de ver estrelas.

Há no mundo montessoriano uma senhora que é uma lanterna quando nos encontramos entre confusos trovões, chuva e noite. Seu nome é Donna Goertz e ela escreveu o livro “Children Who Are Not Yet Peaceful: Preventing Exclusion in the Early Elementary Classroom” (algo como Crianças que Ainda Não São Pacíficas: Prevenindo a Exclusão na Sala de Ensino Fundamental I, a ser traduzido para o português). Também é dela o texto que traduzimos aqui, chamado “Manual do Proprietário de Uma Criança Montessori”, que se você não leu precisa ler agora (é, agora. Você pode voltar aqui depois e terminar este texto).  Donna Goertz escreveu:

A solução de problemas em conjunto pelo adulto e a criança leva ao empenho das energias inatas da criança e de seus instintos vitais de autopreservação, e forma uma parceria poderosa em benefício da criança. A punição estrutura uma relação de adversidade entre adulto e criança, dentro da qual as motivações urgentes e implacáveis dos interesses pessoais da criança são colocadas em conflito com a orientação legítima e essencial da criança pelo adulto.

Quando erguemos a estrutura da relação de adversidade entre adulto e criança, estamos nos cegando para o brilho da infância e impedindo terminantemente a comunicação entre nós, grandes, fortes e poderosos, e a criança, pequena, frágil e cheia de maravilhas. Nós precisamos, finalmente, ouvir estrelas.

Precisamos olhar para a criança e encontrar nela o que há de bom. Precisamos, ao perceber os tremores vindos de nossas profundezas, olhar com mais concentração, mais vontade, mais atenção ainda para a criança, e precisamos encontrar nela o que há de bom. Em seu livro, Donna também nos fala de um exercício que ela mesma coloca em prática com frequência. Todas as vezes que uma criança recorrentemente causa problemas na sala, ou que um adulto responsável tem dificuldade de lidar com ela, deve sentar-se para observá-la e anotar coisas boas sobre ela e coisas que ela sabe fazer bem. Pois é por meio dessas coisas positivas e habilidades desenvolvidas que encontramos a chave para ajudar uma criança a sair de um esconderijo onde tenha entrado, por qualquer motivo.

Uma criança não se esconde só por efeito de nossas tempestades. Elas podem se esconder como reação a alguma mudança inevitável, ou como forma de não lidar com algum desafio difícil demais. De dentro de seu esconderijo, então, com pouquíssimo brilho, começam a causar no mundo problemas que nos levam a reagir com toda a imensidão de que só um adulto é capaz. De dentro de um local extremamente turbulento, escuro, isolado e misterioso, a criança pode agir de forma incompreensível e provocar verdadeiros desabamentos sobre si mesma, enterrando-se assim cada vez mais e mais fundo.

Aqui, nesse ponto difícil e delicado, temos dois papéis. Ambos desafiadores, ambos delicados. O primeiro é uma reforma interior intensa e profunda para ser capaz de ouvir estrelas, e perceber a presença da criança lá no fundo de seu esconderijo, e perceber a presença brilhante dela, embora o brilho não seja visível. O segundo é resgatá-la, por meio daquilo que ela tem de bom e sabe fazer bem, e trazê-la de volta à superfície, de volta ao firmamento, ajudá-la a redescobrir seu lugar entre as inúmeras constelações e guia-la, sendo ao mesmo tempo guiado por ela, à Paz que nos inunda verdadeiramente, na ausência de qualquer tempestade.

É possível evitar a ruína e o medo, e nós precisamos fazer todo o possível para isso – pelo ambiente da criança, pelo nosso comportamento, por um nível muito alto de compreensão e um amor muito profundo. Mas tanto quanto isso, é possível resgatar uma criança de uma realidade de ruína e medo, se nós pudermos reconhecer o que causou isso – e mais ainda se formos nós os causadores – e estivermos, como aponta com destreza Donna Goertz, dispostos a superar a alienação e os atritos por meio de esperança e amor inabaláveis.

Se pudermos fazer isso, todos os nossos esforços serão válidos. Cada pequeníssima conquista nossa significará o mundo para nossas crianças. Falharemos, e retomaremos a tarefa, e cada um de nossos acertos será valorizado da mesma maneira que nossas falhas serão, na infinita tolerância infantil, repetidamente perdoadas. Vale a pena. Não perdemos o senso, e em dias nos quais a comunicação é ao mesmo tempo tanta e tão pouca, nunca foi tão necessário treinar os ouvidos para ouvir estrelas.

Paz III: O Silêncio

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O silêncio nos atemoriza. Para quase todos nós, durante quase todo o tempo, o silêncio é como uma caverna escura: nós não sabemos o que mora lá, o que é que vamos encontrar se aceitarmos o contrato de ousadia e mistério, e adentrarmos o invisível. Por isso, acendemos lanternas: falamos muito, escrevemos muito, trocamos mensagens, colocamos fones de ouvido e música de fundo. O silêncio, como a escuridão, foi acuado e nós fomos soterrados pelo barulho. Milan Kundera, o escritor genial, expressou isso de forma sintética:

(Sim, sei, vocês não sabem de que estou falando porque a beleza desapareceu há muito tempo. Ela desapareceu sob a superfície do barulho – barulho das palavras, barulho dos carros, barulho da música – no qual vivemos constantemente. Está submersa como a Atlântida. Dela só restou uma palavra cujo sentido é a cada ano menos inteligível.)

Porque no silêncio total, na absoluta ausência de som, que dá espaço para que qualquer som, e qualquer sentido, venha a surgir, é que reside toda a beleza do que é fundamentalmente humano. Por essa razão, é no aprendizado do silêncio que mora uma das principais características da educação montessoriana e da preparação do adulto que deseja auxiliar a vida das crianças.

Na última edição de sua obra pedagógica, A Descoberta da Criança, Montessori introduz um capítulo especial: Elevação. É um capítulo que trata especialmente do exercício do silêncio nos ambientes montessorianos. Possivelmente, sua longa estada na Índia lhe tenha auxiliado na percepção da importância desse exercício, que já era presente e importante desde 1907, quando foi feito pela primeira vez. Nesse capítulo, Montessori diz:

O silêncio da imobilidade, por outro lado, deixa a vida comum e o trabalho suspensos, e não tem objetivo prático. Toda sua importância e seu fascínio advêm do fato de que pela suspensão da rotina habitual da vida, este silêncio eleva o indivíduo a um patamar superior. Aqui, não há questão de utilidade, a única atração é a do autodomínio.

Esse silêncio, tão belo, precisa ser explicado. Não se trata, é claro, do silêncio opressor das escolas tradicionais, nem do silêncio imposto dos regimes totalitários – difere inclusive do silêncio educado das crianças bem criadas. Não é nada disso. Trata-se de um silêncio conquistado com muito esforço, pela educação do movimento, pela (re)aquisição do equilíbrio humano natural. Por isso, precisa ser caracterizado como “uma conquista positiva, que precisa ser atingida por meio do conhecimento e da experiência”.

Para isso, é necessário que haja liberdade de movimento, e é necessário que haja tudo aquilo que descrevemos em nosso último artigo, quando falávamos sobre o controle do erro. O controle do erro ajudará a criança a controlar a si mesma. Somente depois que ela já está em um estado de perfeito equilíbrio é que nós entramos com o jogo do silêncio.

O jogo consiste em convidar a criança ao silêncio, como se a convidássemos para conhecer um dos locais mais belos do mundo – e de fato, não é falso o convite. Depois, conversarmos com a criança sobre o que faz barulho em nós. Quando nos mexemos, quando respiramos, quando mexemos qualquer parte do corpo. E em seguida, convidamos a criança a não fazer barulho nenhum.

Esse silêncio pode durar por muito tempo, e as crianças se esforçarão ao máximo para não produzir som algum. Ao final, depois de alguns minutos, você pode se colocar em um cômodo adjacente, ou atrás da porta, e chamar as crianças pelo nome, para que elas, ainda buscando o silêncio total, saiam do cômodo e venham até você.

Montessori escreveu:

A atenção da criança é direcionada aos seus menores movimentos e ela é ensinada a controlar seus atos em todos os detalhes, para obter a imobilidade absoluta, que leva ao silêncio.

Uma das grandes referências populares em silêncio no mundo talvez seja Leo Babauta. Ele é pai de seis filhos e autor de um dos textos mais lidos já publicados aqui no Lar Montessori, O Caminho dos Pais Pacíficos, e que tem tudo a ver com esta série. Leo tem um texto sobre silêncio.

No texto, que é livre de direitos autorais, Leo faz uma linda lista de formas por meio das quais podemos encontrar silêncio em nossas vidas. Os itens são:

  • Prefira subtrair a adicionar.
  • Aprenda a ser feliz com pouco, ou nada.
  • Perceba que o silêncio é belo.
  • Encontre a você mesmo no espaço vazio que resulta disso.
  • Esvazie um cômodo e não coloque de volta nada, a não ser o que produza quietude.
  • Fale pouco, ouça mais, contemple ainda mais.
  • Caminhe em silêncio. Veja as folhas se agitarem, caírem em silêncio, sussurrarem no vento.
  • Sente-se e não faça nada. Ouça sua mente fazer barulho no silêncio, permita que o barulho diminua.
  • Evite vídeos, iPods, livros, a Internet, gadgets portáteis,  redes sociais e outras fontes de barulho.
  • Fique em silêncio, para que a vida possa falar.

A criança faz silêncio naturalmente. Basta assistir uma criança pequena concentrada em uma atividade que esteja a executar com as mãos, ou fascinada por qualquer fenômeno do mundo, por um animal, uma planta, uma história. Na criança habita o silêncio por excelência, e só ela é capaz de nos ensinar verdadeiramente o que significa ficar quieto. Um ficar quieto que não é produto de repressão adulta, mas da mais íntima vontade e do mais íntimo impulso infantil.

O silêncio – esse silêncio, voluntário, cheio de esforço, cheio de vontade, cheio de autodomínio – é a porta de entrada para a paz. É como uma muralha imensa, forte, grande, firme, de bases sólidas, que precisa ser transposta para que a paz seja alcançada, interiormente, em família, e na escola. Sem silêncio a paz é impossível. E essa muralha precisa ser atravessada. Ou demolida. E para isso basta um sopro, ou menos. Basta ser capaz de fazer nada. De fazer silêncio.

Você encontra abaixo uma série de vídeos e links, infelizmente metade em inglês, que nos permitem pensar o silêncio em nossas vidas. O primeiro link é para o texto de Leo Babauta, mencionado acima – e o último é para um guia muito rápido de meditação laica.

Criando Silêncio a partir do Caos (inglês): http://zenhabits.net/create-silence/

O Júbilo da Quietude (inglês): http://www.nytimes.com/2012/01/01/opinion/sunday/the-joy-of-quiet.html?_r=2&ref=general&src=me&pagewanted=all&

Aprendendo a Sentar Sozinho (inglês): http://zenhabits.net/alone/

O que as telas estão fazendo conosco (vídeo belíssimo em inglês, mas vale ver mesmo sem entender a língua): https://www.youtube.com/watch?v=5T1-O6pSSHA

Sonoramente descontrolados (reportagem de capa da Revista da Cutura desse mês): http://www.revistadacultura.com.br/revistadacultura/detalhe/14-04-01/Sonoramente_descontrolados.aspx

Meditação em um instante (vídeo legendado): https://www.youtube.com/watch?v=IPrOlrYHsoQ

Paz II: Compaixão

A Compaixão é o radicalismo de nossa era. (S.S. o Dalai Lama)

Antes de iniciar este texto, senti-me, guardadas todas as proporções, como Gandhi ao receber de uma mãe o pedido para dizer ao seu filho que não comesse mais açúcar. O líder espiritual respondeu que deveriam voltar, mãe e filho, em uma semana. Voltaram, e a mãe lembrou Gandhi de seu pedido, ao que o homem disse à criança: “Você não deve mais comer açúcar”. E a mãe, curiosa, lhe perguntou: “Senhor, perdão, mas por que pediu uma semana para dizer algo tão simples ao meu filho?”. E Gandhi lhe disse: “Ah, há uma semana eu mesmo ainda comia açúcar”.

A compaixão é um imenso desafio, o maior, talvez, de uma vida interior. Não seria certo falar dela sem experimentá-la ou busca-la ao máximo. Por isso, antes de começar a série Paz, comecei meu treino para me tornar um ser humano mais compassivo. Pela imensidão do desafio, decidi compartilhá-lo, em breve, num outro blog. Não é Montessori, é a busca interior a que me propus, para que pudesse ser honesto na continuidade do meu trabalho e, bom, para me aproximar, um pouco que seja, um pouquinho só, da perfeição total da criança.

Introdução

No Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, paixão significa sofrimento. E não é de espantar. Na raiz da palavra, tem origem comum a patologia, o estado de – talvez – maior sofrimento humano. A compaixão, por sua vez, é o sofrimento compartilhado, a capacidade humana de sentir o que outro indivíduo sente, de ser tocado na mesma intensidade que um terceiro por um sofrimento que não diz respeito diretamente a si mesmo.

Quando choramos durante um filme, quando sentimos pesar os ombros pelos infortúnios do mundo, quando as notícias do jornal da noite nos colocam em um estado de desânimo silencioso, sentimos compaixão. A compaixão nasce da experiência direta em relação ao sofrimento do outro.

Joan Halifax, ativista da compaixão, como me agrada chama-la, disse em sua incrível palestra no TED que compaixão é “a capacidade humana de olhar claramente para a natureza do sofrimento” – trata-se de algo que temos dentro de nós. Todos nós somos capazes de compaixão, e isso é muito importante, porque é difícil desenvolvê-la, então ter absoluta certeza de que é possível ajuda no primeiro passo do caminho.

De todos os seres da Terra, aqueles que falam mais rapidamente ao nosso coração são as crianças. Não é para menos. As crianças são a manifestação viva do amor. A materialização do conceito e do sentimento abstratos do amor puro e incondicional. A criança nos traz o sorriso de volta, é impossível continuar impassível diante do sorriso sincero de uma criança, como se de fato uma luz entrasse pelos nossos olhos e pudesse nos iluminar por dentro. A criança é, portanto, de todos os seres do mundo, a maior merecedora de compaixão, pela luz que nos traz, pela pureza de seu ser, pelo potencial e esperança de transformação que representa para a humanidade.

Infelizmente, a criança é também, entre todos os seres, o que mais necessita de nossa compaixão. Montessori nos disse: “Nenhum problema social é tão universal quanto a opressão à criança”. A criança é o mais frágil de todos os seres. Nenhum filhote animal demora tanto para ser independente quanto a criança – e é nisso que mora seu imenso potencial, em poder formar-se no mundo e não antes dele, em poder adaptar-se e, portanto, transformar-se, em seus primeiros tempos fora do útero, e não só durante seu desenvolvimento embrionário. A criança é, de todos, o ser que mais necessita de nossa compaixão para poder, de fato, desenvolver-se bem.

É por compaixão que nos levantamos a qualquer momento para descobrir de que precisa a criança, e por compaixão que a aquecemos no frio. É por compaixão que permanecemos com ela pelo tempo que for necessário e pensamos nela quando estamos ausentes. Entendemos, ao menos em parte, seu sofrimento, e muito mais do que isso, o sentimos dentro de nós. Entretanto, pela forma como muitas vezes convivemos com a criança, é notável a distância a que estamos de uma compaixão completa, por assim dizer, um olhar claro o suficiente na direção de seu sofrimento, uma compreensão inteira da dimensão de dor que habita a vida da criança. E é sobre isso que trata este texto.

Todos nós, e a criança em muito maior intensidade, atravessamos basicamente três categorias de sofrimento: físico, emocional e mental. Por isso, a seguir, nosso texto será dividido em três:

1.      Sofrimento físico da criança.

À época de Montessori, as crianças eram obrigadas a permanecer paradas sobre bancos. Muitas vezes sem encosto no qual pudessem descansar as costas, e quase sempre altos demais para que seus pés alcançassem o chão. Isso, claro, além de levar a um sofrimento desmedido e a um nível de dor terrível, criava condições ideais para o desenvolvimento de problemas sérios de coluna. Problemas estes que a pedagogia e a medicina – pareceria nem sempre sábia – resolveram com exercícios e aparelhos de alongamento, os quais as crianças deveriam fazer ou frequentar um número de vezes por dia ou semana, afim de acostumarem a coluna e não guardarem resquícios de problemas físicos. O sintoma do problema, assim, desaparecia dos olhares adultos – mas o sofrimento dos bancos, evidentemente, permanecia.

Hoje, encontramos o mesmo infeliz fenômeno a repetir-se incansavelmente em nossa sociedade quando, por exemplo, deixa-se que a criança chore até cansar, porque não podemos nos dar por vencidos. E retornaremos a isso quando tratarmos do sofrimento emocional, mas vale dizer aqui: quantas e quantas vezes esse choro, esse desespero, não se deve de fato a um sofrimento físico? Quantas vezes o choro de um bebê durante a noite não se deve a um desconforto físico que pode ser resolvido com uma ajeitadinha, um carinho, comida (leite materno), uma janela fechada ou aberta? E quantas vezes ignoramos esse sofrimento, quantos de nós não resistem e aderem às desumanas teorias de que se deixarmos o bebê chorar até cansar, volta a dormir?

É verdade, recomenda-se em Montessori não atender imediatamente a um suspiro ou uma agitação breve do bebê. Pode ser que ele se agite por instantes e retorne ao sono reparador de antes, sem precisar ser ainda mais acordado por nós. Mas jamais se espera quando se percebe sofrimento, não se pode, sob nenhuma hipótese, ignorar o sofrimento genuíno da criança.

Nós, adultos, temos a imensa sorte de, na maior parte do tempo, esquecermos de nosso corpo. Não pensamos nele, não lembramos a todo instante: “puxa, tenho uma mão, e dois pés, meço 1,70m, sinto sabores em todas as regiões da língua…”. A saúde faz isso conosco, e só passamos a pensar em nosso corpo quando sofremos de falta de saúde. A criança tem um fascínio pelo próprio corpo que está relacionado diretamente ao esforço que ela precisa fazer para utilizá-lo e compreendê-lo minimamente. Por isso, o sofrimento da criança quanto ao corpo não deve ser ignorado como birra infantil, má vontade, ser desastrada, não. O sofrimento infantil da criança quanto ao seu corpo deve ser encarado com a mesma seriedade que se encara um doente em recuperação. Ele tem todas as chances de ficar bom e se tornar independente novamente, mas enquanto isso, precisa de toda nossa ajuda, merece todo o nosso respeito, e, por seus esforços contínuos para melhorar e independer-se, devemos a ele (ou a ela, à criança), toda a nossa admiração e reverência.

Quantas vezes o desespero infantil se deve a um objeto colocado alto demais? À vontade de tomar banho, comer ou beber sozinho? Quantas vezes se deve à vontade simples de beber em um copo de vidro? Todos esses sofrimentos são físicos, como são físicos os sofrimentos de uma roupa apertada e que não permita a movimentação livre da criança, de ter de comer em horas estipuladas pelo pediatra ou pelo livro do autor nunca visto, em vez de a família, a criança, os adultos que a acompanham fora de casa? Esses sofrimentos são físicos, ou de origem física, e jamais permitiríamos que um adulto comum fosse submetido ao tratamento desumano que dispensamos tantas vezes às nossas crianças. Justo a elas, que nos fazem sorrir com um olhar simples, e nos fazem encontrar de novo a beleza da vida.

2. Sofrimento emocional da criança

A criança não tem certezas. Mas isso não é novidade para você já há algum tempo. Novidade talvez seja o fato de que ela, especialmente enquanto muito pequena, não tem certeza nenhuma. A criança precisa da organização de seu mundo, de um modus operandi, de uma rotina, de ordem em seus ambientes físicos, de repetição de atividades, para ter certeza de que o mundo continua em sua órbita. Ela não parte do pressuposto de que o Sol vai nascer amanhã, e por isso se surpreende tantas vezes com a mesma coisa. Ela torce para que tudo aconteça como ela prevê, e quando acontece, alegra-se. Não toma nada por dado ou garantido.

Por isso, é tão importante que ela saiba, tenha total certeza, de nosso amor. Quando gritamos com a criança, quando, em tempos medievais e terras distantes, se batia nas crianças pequenas (prática hoje extinta, dada sua monstruosidade), ignoramos o fato de que ela não tem certeza de nosso amor. Dissemos no texto imediatamente anterior a este que a forma mais bela de transmitir amor a uma criança talvez seja demonstrar respeito às suas necessidades. Não é necessário – nem bom – abraçar a criança todo o tempo, interrompendo o que quer que ela esteja fazendo, para demonstrar carinho, despejar beijos e sussurrar declarações de amor. Ela sabe que você a ama enquanto você demonstra isso por meio de seu respeito e seu cuidado com todas as necessidades dela. E, puxa, como ela nos ama de volta!

Quando (perdão, perdão às famílias que não têm outra opção, mas é preciso criar), quando deixamos nossas crianças em escolas que não respeitam suas necessidades, entregamo-las nas mãos de pessoas que não sabem olhar para elas com compaixão, com amor, com imenso respeito e reverência, ela não tem certeza de muita coisa sobre nossos sentimentos. E por isso chora desesperadamente. A adaptação em escolas montessorianas é habitualmente simples, porque a criança sente que não foi abandonada, percebe que, de alguém que lhe ama, foi deixada nas mãos de gente que também ama. Ela não teme a escola montessoriana, e por isso é tão mais simples ficar nela. Evidentemente, mesmo isso varia muitíssimo, mas o padrão existe, e merece ser considerado.

Quando uma criança chora no escuro de seu quarto, no silêncio da noite, e pede por nós sem saber articular nossos nomes, ela demonstra seu desespero em volume alto, e pede socorro. Não atender a esse chamado, ignorar esse chamado, é permitir que a imensa e dolorosa dúvida surja em sua mente: onde eles estão? Onde estão aqueles que me permitem viver? Para onde foram? Por que eu estou aqui, sozinho?

As crianças choram muito menos em quartos montessorianos, especialmente a partir do momento em que sabem engatinhar. Elas acordam, por vezes, no meio da noite. Mas não se encontram em uma jaula, e sim em um ambiente que sussurra para elas o quanto são amadas, respeitadas e queridas. Um ambiente que faz estar presente o adulto que o preparou. Se, ainda assim, sentem-se sozinhas, a partir de uma cama baixa podem ir até o quartos dos pais – prática impossível a partir do berço, ou possível com um grau indesejável de risco. O quarto montessoriano permite à criança viver com muito menos sofrimento. A casa montessoriana leva isso a um extremo ainda mais positivo.

3. Sofrimento mental da criança

A criança não é tão racional quanto era de esperar, e nos lembra a sofrida canção de Oswaldo Montenegro:

Não, não sou tão racional
Como era de esperar
E a lúcida palavra que eu ia dizer
Transforma-se num sopro em pura intuição
E por qualquer razão
Eu fico à mercê
P’ra onde dessa vez, meu coração vai me levar?

Para a criança, pode ser muito difícil dizer o que quer, de que precisa, o que quer dizer. Seu cérebro demora mais para processar informações (ele está construindo as pontes entre os neurônios, como uma tribo que ainda está construindo suas trilhas e não consegue transportar cargas de um lugar ao outro com rapidez) e por isso também é mais difícil para ela escutar o que nós dizemos. Seu ouvido funciona, e não é necessário nem positivo gritar. Mas seu cérebro está se fazendo, e por isso é necessário ter paciência.

Tente imaginar como é acordar logo cedo, com a cabeça lenta e com sono, e começar a receber ordens. Agora, imagine que esse será o ritmo de seu cérebro o dia inteiro. Não é de surpreender que depois de darmos a mesma ordem três vezes em um espaço de tempo muito curto e num volume de voz elevado a criança comece a chorar – esse é o mesmo desespero que nos faz ficar mal humorados logo cedo quando ouvimos muitas coisas ao mesmo tempo e ainda não entramos no nosso ritmo. A criança vai entrar no ritmo. Mas demora. Alguns anos. Enquanto isso, precisamos entrar no ritmo dela. Não há outra opção, sem gerar sofrimento.

“A compaixão e o amor”, nos disse o mesmo Dalai Lama, “não são luxos na sociedade moderna. São necessidades”. Quando falamos da criança, isso faz ainda mais sentido. Se tratarmos a compaixão e amor pela criança como luxo teremos… Bem, o mundo que temos hoje. Na sociedade moderna, em que já se percebeu a necessidade urgente de mudança, e se vem percebendo que a única possibilidade para essa mudança é a infância de agora, torna-se finalmente verdade o que disse o Lama: a compaixão é uma necessidade do tempo presente.

A criança precisa se esforçar para pensar, e isso não lhe traz sofrimento algum. Mas quando atrapalhamos o seu pensamento, aí ela sofre, como um artista que fosse interrompido em seu momento de máxima inspiração, um Isaac Newton a quem se roubasse o instante em que descobre a gravidade. E para pensar, a criança precisa de muita repetição. Ela não tem certezas, lembramos, e precisa confirmar tudo infinitas vezes, até realmente interiorizar como é que o mundo funciona – como é, frequentemente, que seu próprio corpo, aquilo que ela conhece de eu, o que define sua identidade, como é que se próprio corpo funciona.

Como uma conclusão

A compaixão é uma necessidade. E se uso Dalai Lama e Joan Halifax, isso se deve ao fato de ele ter dito algo que nos permite compreender tão melhor a criança. Se você quer começar a estudar a compaixão, você pode começar pela edição da Vida Simples, de janeiro de 2014, além da palestra que já assinalamos acima. Se você quer, porém, criar um mundo de paz, então além disso, vale a pena ler A Criança, de Maria Montessori, o livro em que ela expõe O Segredo da Infância (é esse o título do livro em italiano) e nos permite abrir os olhos, de uma vez por todas, para a urgente necessidade de se compreender os sofrimentos da criança, e de aliviar sua imensa carga de dor.

Se aos adultos que admiramos não gostamos de ver sofrer, que dizer das crianças que amamos tanto ou mais que a nós mesmos. Este texto foi só um primeiro passo, ou melhor ainda, só um indicador de onde começa a trilha. Ela começa com um olhar claro na direção do sofrimento da criança. E de lá avança rumo à Paz na Terra. É de A Criança uma das frases mais recorrentes deste blog, e é com ela que finalizamos:

“A preparação que nosso método exige do professor é o autoexame, a renúncia à tirania. Deve expelir do coração a ira e o orgulho, deve saber humilhar-se e revestir-se de caridade. Estas são as disposições que seu espírito deve adquirir, a base da balança, o indispensável ponto de apoio para seu equilíbrio. Nisso consiste a preparação interior, o ponto de partida e a meta”.