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Arquivo da categoria: Escola Montessoriana

Textos sobre a escola Montessori ou montessoriana, de acordo com o método Montessori.

Individualidade e Socialização na Sala Montessoriana

Ontem, dia 21 de setembro, foi Dia Internacional da Paz. Nós já havíamos publicado um texto sobre a Paz bastante recentemente e achamos que seria repetitivo fazê-lo de novo. Escolhemos, então, um tema correlato: como o trabalho individual na sala montessoriana prepara a criança a vida social. Para este assunto, porém, há duas respostas prontas dadas por Montessori ela mesma, e achamos que o melhor a fazer seria deixar que ela falasse aqui. Por isso, traduzimos o texto disponível na página da Associação Montessori Internacional e o disponibilizamos integralmente abaixo. É sempre um prazer quando podemos trazer Montessori para nosso Lar.

Duas Questões Respondidas por Maria Montessori
Este Artigo foi publicado originalmente em “Call of Education, Vol.1, No.1, 1924”

Se as crianças em uma escola Montessori trabalham mais sozinhas do que coletivamente, como serão capazes de se preparem para a vida social?

A vida social não consiste em um grupo de indivíduos permanecendo sempre muito próximos, um ao lado do outro, e nem no avanço em massa sob o comando de um capitão, como um regimento em marcha – e nem em uma sala comum de escola infantil.
A vida social do homem tem suas bases no trabalho, harmonicamente organizado, e sobre as virtudes sociais – e essas são as atitudes que se desenvolvem em um grau extraordinário entre nossas crianças. Contância no trabalho, paciência quando devem esperar, o poder de se adaptarem às inúmeras circunstâncias que se apresentam diariamente, no convívio uns com os outros, a ajuda recíproca, e assim por diante, todos são exercícios que representam uma vida social prática e real, e que nós vemos, pela primeira vez, sendo organizada entre as crianças, em uma escola.
De fato, onde as escolas costumavam estar equipadas somente para acomodar as crianças, sentadas lado a lado, e se esperava que recebessem do professor (podemos dizer que de forma quase parasítica), nossas escolas, ao contrário, têm um equipamento que é adaptado a todas as formas de trabalho necessárias em uma pequena comunidade ativa e independente.
O trabalho individual no qual a criança é capaz de isolar-se e concentrar-se, serve para aperfeiçoar sua individualidade e, quanto mais perto o homem chega da perfeição, melhor ele é capaz de se associar harmonicamente com os outros. Um movimento social forte não pode existir sem indivíduos preparados, assim como os membros de uma orquestra não podem tocar juntos harmonicamente a não ser que cada indivíduo tenha sido treinado por exercícios repetidos quando sozinho.

Nas escolas Montessorianas o trabalho é escolhido pela criança ela mesma, que busca a ocupação mais interessante e, portanto, a mais agradável para ela. Como tal preparação pode ajudá-la a tomar seu lugar na sociedade quando um dever impõe tarefas que nem sempre são agradáveis, de fato geralmente contrárias ao gosto pessoal?

Aquele que se esforça, superando dificuldades apesar de sua tarefa não ser agradável, ou, em outras palavras, aquele que sacrifica a si mesmo deve, sobretudo, ser forte. Essa questão, portanto, pressupõe uma condição que é de importância fundamental: “sine qua non” – ser forte. Os exercícios espontâneos que as crianças fazem em nossas escolas, escolhendo o trabalho que gostam e permanecendo absortas nele por um longo período, em uma atmosfera de tranquilidade, os fortifica e, desta forma estão, ainda que indiretamente, preparando-se para as eventualidades desagradáveis da vida social futura. Da mesma forma, a criança que é alimentada durante o primeiro ano de sua vida pelo leite somente, está se preaprando assim para se alimentar de comidas diferentes mais tarde. Se a nutrição da criança foi tal a permitir um desenvolvimento físico robusto e saudável, então o homem adulto será forte o suficiente para digerir comidas pesadas, mas não se tiver sido alimentado de comidas pesadas e inadequadas quando era uma criança.
Aquele que adquiriu o equilíbrio perfeito de seu corpo pode curvar-se à direita ou à esquerda, e enfrentar passos e degraus difíceis sem cair. A aquisição do equilíbrio é, portanto, uma preparação necessária para os movimentos difíceis. O mesmo é real para a vida psíquica. A criança que executa exercícios espotâneos que levam a um equilíbrio mental saudável serão capazes de se adaptarem sem perderem sua individualidade. É por meio da doença que nos preparamos para sermos fortes? Os heróis se prepararam para seus atos heróicos gradualmente desde a infância? Não – sua vida é uma grande incógnita no que diz respeito ao futuro. O que se precisa preparar no presente é a força, o equilíbrio e a saúde. Aquelas crianças que ganharam força interna em seu trabalho e pelo exercício, quando homens serão mais capazes de se adaptarem aos esforços que não acharem prazerosos.

Os Dez Princípios do Educador Montessoriano

Publicado em
Por Maria Montessori


1 – Nunca toque a criança, a menos que seja convidado por ela de alguma maneira.


2 – Nunca fale mal da criança em sua presença ou ausência.


3 – Concentre-se em fortalecer e ajudar o desenvolvimento daquilo que é bom na criança, para que sua presença deixe cada vez menos espaço para o que é ruim.


4 – Seja ativo na preparação do ambiente. Tome cuidado constante e seja meticuloso com ele. Ajude a criança a estabelecer relações construtivas com ele. Mostre o local adequado onde são guardados os meios de desenvolvimento e demonstre seu uso apropriado.


5 – Esteja sempre pronto a responder à criança que precisa de você e sempre escute e responda à criança que a você recorre.


6 – Respeite a criança que comete um erro e pode corrigir-se mais tarde, mas impeça com firmeza e imediatismo todas as más utilizações do ambiente e qualquer ação que coloque a criança em risco, assim como seu desenvolvimento ou os dos outros.


7 – Respeite a criança que descansa, assiste ao trabalho dos outros ou pondera sobre o que ela mesma fez ou fará. Não a chame, nem a force a outras formas de atividade.


8 – Ajude aqueles que estão à procura de atividade e não conseguem encontrar.


9 – Seja incansável na repetição das apresentações para a criança que as recusou antes, ajudando a criança a adquirir o que ainda não possui e a superar imperfeições. Faça-o avivando o ambiente com cuidado, limites e silêncio, com palavras suaves e presença amável. Faça com que a criança que busca possa sentir sua presença, e esconda-se da criança que já encontrou o que buscava.


10 – Sempre trate a criança com a melhor das boas maneiras, oferecendo o melhor que houver em você e à sua disposição.



Você pode consultar a versão disponível em inglês na página da Association Montessori Internationale

O que acontece em Montessori

garcia-marquezGabriel Garcia Márquez, Nobel de Literatura e autor de Cem Anos de Solidão e Amor nos Tempos do Cólera, diz em sua autobiografia, Viver para Contar: ““Não creio que haja um método melhor que o montessoriano para sensibilizar as crianças sobre as belezas do mundo e para despertar sua curiosidade para os segredos da vida””.

Além de Márquez, o método Montessori conta com outros ex-alunos interessantes: Larry Page e Sergey Brin, fundadores do Google, são seus representantes mais conhecidos. No entanto, figuram entre outros os criadores da Amazon e da Wikipedia. Recentemente, um amigo me disse: Puxa, a Internet não foi inventada por um montessoriano, mas tudo o que usamos nela foi.

De fato, à exceção do Facebook, os grandes serviços virtuais de hoje são fruto de montessorianos: Google, Google Maps, Gmail, YouTube, Vimeo, Wikipedia, Amazon. O iPod, o iPad e o iPhone não são, mas seu criador, Steve Jobs, ajudou pessoalmente na criação de aplicativos montessorianos para os três aparelhos, apoiando o casal que teve a ideia de criá-los e estimulando-os a ir em frente. Os aplicativos montessorianos, logo em seguida, figuravam entre os melhores da App Store.

Sigmund Freud teria dito a Montessori que “Se todas as crianças fossem às suas escolas, os divãs dos psicanalistas estariam vazios”, e Anna Freud, filha doIMG_5903 psicanalista, tornou-se professora montessoriana. Mahatma Gandhi apoiava Montessori e a irmã do atual Dalai Lama, Jetsun Pema, dirige uma escola montessoriana.

Pessoas menos distantes de nós, como Severn Cullis-Suzuky, a menina de 13 anos que surpreendeu a todos na ECO 92 e que hoje figura em um dos vídeos mais vistos do YouTube, também estudou em uma escola Montessori, e começou com suas amigas, aos nove anos de idade, uma organização para a proteção do meio ambiente.

Ainda mais perto de nós, Ivan Lavander, meu amigo e ex-aluno da Prima-Escola Montessori de São Paulo, descobriu, aos dezessete anos de idade, antes de iniciar a graduação, um antibiótico nos ovos da aranha armadeira. Isto lhe rendeu quatro primeiras colocações na Feira Brasileira de Ciências e Engenharia, realizada na Escoa Politécnica da USP, em março de 2009. Ivan, em seguida, recebeu a segunda colocação na Feira Internacional de Ciências e Tecnologia (Intel Isef), que aconteceu em Nevada, nos Estados Unidos, em 2009 – Foi a premiação mais alta concedida a um estudante brasileiro no evento americano.

Ainda assim, mesmo com todas essas figuras impressionantes e tantos feitos e apoiadores relacionados ao método, Maria Montessori insistia que não era ela que fazia as coisas. Seu método não tornava as crianças melhores. Até hoje, não torna. Montessori, ao contrário do que se pensa, não cria gênios. Montessori os deixa agir.

A doutora dizia com frequência: “aponto para as crianças, e as pessoas olham para o meu dedo”. Tudo o que fazemos em Montessori é remover obstáculos e, em um ambiente preparado com adultos preparados, permitir que as crianças se desenvolvam o máximo possível na direção em que sua inteligência as conduzir. Brin, Márquez, Suzuki e Ivan não chegaram onde chegaram porque Montessori os fez geniais. O que aconteceu foi que eles começaram a agir e ninguém os impediu.

ConviteNas escolas montessorianas não existem notas de 0 a 10. E isso tem um motivo bem claro: dar uma nota numérica é estabelecer um mínimo e estabelecer um máximo, de forma um tanto quanto arbitrária. Por mais que o mínimo precise ser estabelecido para se obedecer a parâmetros legais, o máximo não o necessita. Quando se tem uma nota 10, o máximo que se pode atingir é aquilo que o professor espera – não é possível surpreendê-lo. Em Montessori, precisa ser.

O que acontece em Montessori é que damos toda a pista de decolagem para a criança: tiramos tudo de seu caminho, lhe damos as orientações necessárias com exatidão e objetividade, colocamos limites claros, precisos, exatamente onde eles precisam existir e prevenimos todo tipo de acidente e gastos supérfluos de combustível. Aí, em seguida, esperamos a criança decolar.

Acontece o inevitável: as crianças decolam. E também inevitavelmente todas são felizes. Algumas crianças são um 14-Bis, outras são um Boing 747, outras ainda são aviões-caça, e há aquelas que são aviões comuns. Nós não comparamos um Boing com um caça, eles não são o mesmo avião, é impossível dizer que um seja melhor que o outro: eles são diferentes. Assim, todas as crianças podem ser felizes atingindo o seu máximo, e não um máximo imposto pelo controlador de vôo, que por sua vez não ajuda a guiar o avião, somente o orienta pelo melhor caminho.

Há dias em que as crianças não querem voar muito alto, e alguns em que desejam testar-se ao máximo. Essa variedade é possível, é observada e é respeitada. Acima de tudo, a criança é compreendida. É isto o que acontece em Montessori.

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Normalização II: O Equilíbrio Natural da Criança

“Para aqueles que compreendem a vida, isto
pareceria sem dúvida muito mais verdadeiro.”
(Antoine de Saint-Exupéry em O Pequeno Príncipe)

   Para os admiradores de Montessori, especialmente no início de suas realizações, o processo de recuperação do equilíbrio natural da criança que acontecia nas Casas dei Bambini era comparado a um milagre e uma conversão religiosa. Os efeitos da liberdade em um ambiente preparado conseguidos pela pedagogia científica da médica italiana a levaram a ocupar longos artigos, diversas entrevistas e belas fotografias em jornais de todo o mundo. Ainda assim, no entanto, poucas pessoas compreenderam bem como Montessori o que realmente estava acontecendo: surgia, diante dos olhos de todo o mundo, o equilíbrio natural da criança. “Eu aponto para as crianças”, Montessori dizia, “e as pessoas olham para meu dedo”.
   As crianças para quem ela apontava eram especialmente silenciosas, gostavam muito de trabalhar com os materiais didáticos e eram extremamente organizadas. Falava-se, na sala, mas baixinho, e ria-se na sala, mas com mais frequência havia sorrisos. As crianças mais novas às vezes esqueciam de guardar o que haviam utilizado, mas as mais velhas sempre lembravam, e tudo isso mantinha o clima da sala atrativo para todos os visitantes. Montessori, no entanto, reafirmava: esta é a natureza da criança. Elas são assim. Em um ambiente preparado onde sejam deixadas em liberdade, elas são naturalmente assim. O processo pelo qual elas estão passando se chama normalização, e elas são crianças normalizadas.

   Devido a dezenas de traduções e mudanças de significado da palavra normal, a ideia de normalização é sempre mal compreendida e parece aos leitores e estudantes de Montessori, assim como aos pais, que se trata de algo que o professor faz com o aluno. Na verdade, é algo que a criança faz a si mesma. Por isso,  depois de uma extensa conversa com a Profª Edimara de Lima, diretora da PRIMA – Escola Montessori de São Paulo, que tive há vários meses e sobre a qual fiquei pensando desde então, decidi adotar, no Lar Montessori, o termo “Equilíbrio Natural da Criança” para tratar do que Montessori e seus contemporâneos chamavam de criança normalizada.

   E.M. Standing (autor de “Maria Montessori: Her Life and Work“), amigo pessoal de Montessori e grande estudioso de seu método, conseguiu estabelecer uma lista de características mais comuns às crianças naturalmente equilibradas. As marcas que ele encontrou foram as seguintes:

  •  Amor à ordem;

   A criança pequena precisa de um ambiente organizado. Nos primeiros meses ela não poderá organizar nada, então, quando desorganizar algo, procure restabelecer tudo. Isso realmente faz bem, agrada e tranquiliza a criança. Quando ela for mais velha, a partir dos dois ou três anos, é bom começar a ensinar a guardar as coisas. Colocar no lugar depois de usar. Para isso, mantenha tudo o que a criança usar em uma altura que ela possa alcançar. Como as crianças gostam de ordem, guardar as coisas será algo que farão com tranquilidade. Até os seis anos, pode ser necessário lembrá-las com bastante frequência, e ajudar umas três vezes ao dia. Aos poucos, a criança aprende a guardar o que usa, e faz isso com eficiência!
  •  Amor ao trabalho;
   Assim como o amor à ordem e todas as outras características, esta é inata. No entanto, no caso do amor ao trabalho, não precisamos incentivar a criança a trabalhar. Ela faz isso com o que quer que encontre em seu caminho, naturalmente. Nosso papel aqui é orientar este trabalho de forma que ele seja mais produtivo para a formação interna do ser em desenvolvimento. Ensinar as atividades passo-a-passo, devagar e objetivamente é uma maneira de engajar a criança em atividades interessantes e garantir que ela possa fazer as coisas sozinha da próxima vez. A outra forma, tão importante quanto, é dar atividades para as quais a criança esteja preparada – assim, garantimos a possibilidade de sucesso e, ao contrário do que pensamos, a criança aprende com o acerto, e não com o erro.

  •  Concentração espontânea;
   Quando a criança é muito pequena, é comum que mantenha os olhos em um ponto fixo. Mais tarde, a vemos tentando pegar coisas com muita força de vontade. Depois, em um ambiente preparado, a vemos se esforçando por montar peças, empilhar coisas, encaixar pedaços, decifrar enigmas. A concentração espontânea é, além de uma das características mais belas, uma das que mais devem ser respeitadas. A concentração só pode ser espontânea. Dizer “preste atenção” ou “pare de fazer o que está fazendo e venha comigo” são duas formas de interromper o fluxo de concentração, e não de inciá-lo. A atividade produtiva livre é a única forma de permitir que a criança desenvolva mais esta característica natural.

  •  Apreensão da realidade;
   Isso é o que a criança está tentando fazer desde o momento em que abriu os olhos ou os ouvidos para seu ambiente. Desde a primeira vez em que sentiu o ar entrar pelas narinas ou moveu os braços e os dedos, a criança tenta compreender e internalizar a realidade que a cerca. Nossa tarefa, como pais, mães e professores, é garantir que ela consiga fazer isso. Por meio de um ambiente preparado para ela, no qual ela possa olhar coisas bonitas e interessantes, pegar e sentir todo tipo de objetos e ouvir os sons do mundo, nós oferecemos para a criança todas as possibilidades de apreensão da realidade, para que ela use à sua maneira e no seu ritmo. Assim, permitimos que ela aprenda sozinha e obedeça sua tendência normal de desenvolvimento.

  •  Amor ao silêncio e ao trabalho solitário;
   Parece um pouco assustador, à primeira vista, que uma das características da criança seja querer ficar quieta e trabalhar sozinha durante alguns períodos, às vezes bem longos, de seu dia. Na verdade, no entanto, encontramos esta mesma característica naqueles que se esforçam pelo bem da humanidade: nos cientistas e nos monges. Desligar a televisão, falar baixo com o cônjuge ou irmãos mais velhos e não interromper seu filho são as melhores formas de garantir que ele possa continuar a formar um ser humano internamente. Procure não o forçar a trabalhar em grupo. Durante os primeiros seis anos isso pode ser chato. Trabalhar individualmente não o fará mais egoísta – ao contrário, o ajudará a se tornar um pequeno ser humano completo e que, portanto, poderá doar-se com mais vontade mais tarde.

  •  Sublimação do instinto de possessividade;
   É diferente gostar dos objetos e querer tê-los só para si. Admirar objetos, cuidar deles e querê-los em ordem e bom estado é natural da criança. Recusar-se a dividir, ou amar os objetos mais do que os trabalhos que se pode realizar com eles não são atitudes naturais nem comuns e em geral tratam-se de comportamentos incentivados por aqueles que circundam a criança. Objetos não devem ser queridos por si, mas pelo que permitem realizar – mesmo no caso de uma obra de arte, não deve ser ela o mais importante, mas a beleza e o aprendizado que transmite. Ajudamos a criança com isso quando não damos valor excessivo aos objetos e enfatizamos mais as vivências do que as posses no dia a dia. Criar plantas e animais, assim como dividir brinquedos com irmãos e amigos também ajuda.

  •  Poder de agir por escolha;
   A criança, quando nasce, age por princípios naturais de desenvolvimento e por tendências de comportamento inatas. Só com o tempo é que consegue desenvolver a capacidade de agir por escolha. O desenvolvimento desta habilidade é natural, e tende a acontecer mesmo sem nossa ajuda. Podemos ajudar, porém, com o jogo do silêncio e várias outras atividades das quais a criança goste e nas quais o objetivo principal seja conter um determinado tipo de comportamento. Somente aprendendo a conter um comportamento a criança (e mesmo o adulto) aprende a agir por escolha e não por vontade inconsciente. Estas atividades, no entanto, precisam ser feitas de forma agradável, mesmo divertida, e nunca violentando a liberdade da criança.

  •  Obediência;
   Parece contraditório defender a liberdade da criança e ao mesmo tempo explicar porque a obediência é natural. Mas não há nenhuma contradição. Primeiro, porque se é natural, faz parte de sua liberdade e, segundo, porque não falamos de uma obediência cega e despropositada. A obediência é um desenvolvimento importante a adorado pela criança porque ela percebe – embora inconscientemente – que é capaz de determinar seus atos e de agir em consonância mesmo com a vontade de outra pessoa, criando assim o princípio do sentimento de comunidade dentro de si, ao mesmo tempo que aumenta seu poder de agir por escolha. Não ajudamos a criança lhe dando todo tipo de ordens o tempo todo, isso nunca deve ser um hábito. Mas pedir favores de vez em quando, determinar rotinas e brincar de desafiar seu filho a fazer algumas coisas – como brincadeiras, jogos, e não ordens com desobediência sujeita a punições – podem ser excelentes maneiras de incentivá-lo a desenvolver suas capacidades.

  •  Independência e iniciativa;
   Se você segue o Lar Montessori há algum tempo, ou se vem criando seu filho com liberdade – conhecendo ou não os princípios montessorianos – sabe que independência e iniciativa são evidências de uma criança que vem se desenvolvendo com tranquilidade e respeito. Não há uma forma só de incentivar isso, mas tudo o que publicamos no Lar ajudará com essa parte. O ambiente preparado, a liberdade e o respeito são as melhores formas de permitir à criança desenvolver a liberdade e a iniciativa. Eles gostam de descobrir como fazer, e gostam muito de fazer. Tudo o que nos cabe é ajudar com tudo o que pudermos.

  •  Auto-disciplina espontânea;
   Porque a criança desenvolve as capacidades latentes e inatas de obediência, amor ao silêncio, ao trabalho, à ordem, ação por escolha, independência e iniciativa, é claro como água que o primeiro resultado é a auto-disciplina espontânea. Para ajudar nesta etapa do desenvolvimento, é muito bom que desenvolvamos uma rotina fácil, leve e repetida, que consigamos lidar bem com a autoridade e que haja liberdade e respeito ao tempo e às preferências da criança. São assuntos complexos, já abordados no Lar, mas que exigem mesmo um longo período de tentativas. Como a auto-disciplina é um dos dois maiores resultados da recuperação do equilíbrio natural da criança, ela depende de todo o resto para acontecer. Atente para o resto, e ela, como todas as características, surgirá naturalmente.

  •  Alegria.
   Chegamos ao final, nada surpreendente, da nossa lista. Este é o ponto culminante de um desenvolvimento saudável. A cultura ocidental por vezes nos faz achar que o sofrimento, a dor e o mal estar emocional e psicológico são necessários. Não são. A cultura oriental, com a qual Montessori conviveu durante dois dos mais importantes anos de sua vida, nos ensina que os acontecimentos são necessários, mas que sofrer ou não por eles depende da maturidade psicológico-emocional daqueles envolvidos nos acontecimentos. A alegria não vem da ausência de acontecimentos desagradáveis – eles existem. Vem, antes, da capacidade humana de agir por escolha, de conseguir sublimar o instinto de possessividade e de ser alegre, por causa e apesar de tudo.
   Por sorte, no entanto, acontecem mais coisas boas que coisas ruins, e na maior parte do tempo a criança não tem nenhum motivo para ficar triste ou para aprender a lidar com acontecimentos desagradáveis. Na maior parte do tempo, em liberdade e em um ambiente preparado, a criança tem tudo que seu corpo e sua psique pedem, tudo o que é necessário para desenvolver-se física, psicológica e emocionalmente e, por isso, é contente, sente-se satisfeita consigo e com o mundo e em geral sorri bastante. A alegria de uma criança que passou pelo processo de recuperar seu equilíbrio natural é radiante, mas nem por isso é escandalosa. Percebemos essa alegria na tranquilidade, no bem estar ameno e nas pequenas e suaves comemorações a cada desafio que consegue superar.


Será fantástico saber como estão sendo as coisas na sua casa e saber a sua opinião sobre o processo que comentamos aqui. O que você achou da mudança de nome que nós sugerimos? Quais dessas características são mais marcantes no seu filho? Como você lida com situações nas quais seu filho precisa ficar algum tempo em ambientes que não são preparados para ele? Quando falar das crianças, por favor, nos conte a idade delas, para sabermos sobre quem estamos conversando!
Um grande abraço!

Normalização I: O Respeito pela Criança

Este texto faz parte de uma série de dois artigos sobre normalização. Este é sobre o respeito à criança. O próximo será sobre a normalização em si, que já foi chamada de milagre da educação e conversão natural da criança, ambas denominações errôneas para um processo que nada mais é além da recuperação, por parte da criança, de tendências que lhe são naturais. Seja bem vindo, e antes de ler este texto, leia o Manual da Criança Montessori, disponível aqui no Lar!
   “Montessori segue os caminhos da Natureza”, disse E.M. Standing, explicando o ponto de apoio mais importante de todo o método Montessori. Temos sempre de lembrar que a Natureza sabe o que faz, e que os maiores milagres só podem ser operados pela natureza sendo deixada em liberdade para agir dentro e fora da criança. A natureza aprisionada perde sua magia – vemos isso claramente nos pássaros que nascem livres e são engaiolados, nos peixes capturados do mar, nas meninas e meninos que são colocados, contra a vontade, em clausuras e mosteiros.
Nasce daí uma obediência que pode ser interpretada como virtude, mas também nasce daí a diminuição da vontade de viver, e os seres vivos aprisionados deixam de emanar aquela energia que é tão bela de se ver numa criança livre, em um pássaro em liberdade ou em uma mata virgem: a Natureza livre não recebe esta liberdade de ninguém, ela nasce assim e só com esta liberdade mantida é que pode operar as maiores maravilhas do mundo.
A criança nasce livre. Se nós a mantivermos livre, ela, como todos os outros seres da natureza, agirá conforme sua capacidade e exigirá do mundo conforme sua necessidade. Se for deixada em liberdade, não irá querer mais do que precisa, não irá rejeitar o pouco de que precisa, irá se comportar como seu ambiente natural permite: com amor ao silêncio, amor ao esforço-aprendizado e amor à ordem interna e externa. Estas são as direções inatas da criança que Montessori percebeu por suas observações e que Standing tão sabiamente sumarizou em seu “Maria Montessori: Her Life and Work”.
Qualquer pai, mãe, irmão ou professor percebe algumas coisas em crianças muito pequenas: elas gostam de silêncio ou sons bastante suaves, mas o barulho incomoda muito, quase machucando. Gente falando muito alto com elas também é ruim, assim como pessoas muito bem intencionadas que falam com “voz de bebê”, ou pessoas ainda melhor intencionadas que lhes presenteiam com DVDs de programas de televisão, desenhos animados ou programas educativos. Elas gostam de silêncio, músicas baixas, suaves e tranquilas, sons da natureza e a voz humana em volume e quantidade moderada.
Todos nós também sabemos que crianças são curiosas. É por isso que não deixamos medicamentos ao alcance de crianças, que tomamos cuidado com brinquedos com peças pequenas que podem ser engolidas, que procuramos esconder todas as tomadas, colocar uma portinha na escada, ficar sempre de olho quando o fogo está aceso, e também é por isso que perdemos a calma com seus “por quês?”, “comos?” e “quandos?”. Evitamos que coloquem coisas na boca e que coloquem a mão em animais perigosos ou peçonhentos.
Por último, sabemos intuitivamente que as crianças amam a ordem, embora nem sempre respeitemos isso. Sabemos que gostam de roupas claras e suaves, que seus quartos lhes agradam mais quando tem poucas coisas, que elas não precisam de muitos brinquedos, de muitos objetos ou de muitos materiais, que lhes basta muito pouco para se sentirem realmente bem e que tudo de que necessitam é que esse pouco seja muito bem escolhido, muito limpo e muito bem organizado. Nada precisa ser muito, ser grande ou ser caro, basta que seja muito bem cuidado e organizadinho.
   Acontece, porém, que como não respeitamos sempre essas necessidades da criança, acabamos por reprimir (e eu não gosto muito dessa palavra, mas é isso) a natureza dela e forçamo-la a adotar posturas artificiais diante do mundo. É por isso que crianças que nasceram amando o silêncio acabam gostando de programas de televisão e desenhos animados irrealistas e violentos, é por isso que os pequenos bebês curiosos aos poucos se tornam cansados e apáticos diante do mundo e crescem como alunos que perguntam se “vai cair na prova” em vez de perguntar “Por quê?” e é também por isso que aquelas criancinhas que adoravam tudo no seu lugar acabam por largar tudo no meio do caminho e por jogar tudo no chão em sinal de protesto.
O respeito à natureza da criança vem de duas formas bastante simples, na verdade, e que englobam todas as outras formas menores: respeito pelo espaço e pelo tempo.
   O respeito pelo espaço da criança é manifestado pela escolha sábia daquilo que será útil. Não é útil comprar dez brinquedos antes de a criança nascer. Nem é útil que ela tenha vários brinquedos de um mesmo tipo ou qualquer coisa assim. Este tipo de presente alimenta uma forma nada natural de vontade de possuir.
É útil dar à criança aquilo que suas atividades ou manifestações pedem. Quando ela começa a querer ouvir sons mais de perto ou a provocar sons com o corpo e com o que está em volta, é interessante lhe dar pequenos instrumentos, chocalhos, o violão da família, ou mesmo permitir que batuque em potes, móveis da casa e lhe oferecer músicas clássicas, instrumentais e sons da natureza. Da mesma forma podemos estimular todos os outros sentidos.
Outro ponto muito importante para o respeito ao espaço é organizar a casa. Casas com crianças precisam ser casas arrumadas. Eu sei que é difícil, mas é assim que tem que ser. É da sua capacidade de organizar o caos que advirá a capacidade da criança de manter tudo organizado. A ordem lhe agrada, e agrada muito, mas ela só sabe que gosta de ver tudo organizado, não nasce sabendo organizar. Então, precisamos guardar as coisas que ela desarruma durante alguns anos, depois, aos poucos, podemos ensiná-la a guardar também. Tu-do or-ga-ni-za-di-nho!
Para tudo ficar em ordem e essa ordem poder ser percebida, não pode haver muita coisa. Um quarto de criança montessoriano é um quarto clean, minimalista (aprendi a palavra esses dias e adorei), quase vazio. Tem o necessário, e o necessário sempre é pouco.
O último ponto muito importante de respeito ao espaço da criança é que a casa inteira deve ser o ambiente dela (menos a cozinha, porque no começo é um ambiente perigoso demais. Aos poucos esse pode ser explorando junto com você e aos dois anos o acesso já pode ser livre). Não deve haver um quarto completamente adaptado ao seu tamanho e todos os outros com coisas grandes e inalcançáveis. Se você não conseguiu adaptar a casa toda ainda, feche as portas ou coloque grades nos ambientes não adaptados, assim você lembra que precisa adaptar o mais rápido possível e ela não se frustra por ser mais baixa que todo o resto do mundo.
   O respeito pelo tempo da criança é ainda mais simples: basta compreender que o ritmo dela é completamente diferente do seu. Algumas coisas, para você, são rotineiras e desimportantes. Para ela, nada é um hábito. Ela acabou de chegar no mundo, ainda não sabe como as coisas funcionam. Fechar o zíper é uma experiência sensorial, amarrar o tênis é um desafio motor, subir em uma escadinha é uma aventura cheia de suspense.
Dizer para ela ir mais rápido não adianta, porque não faz o menor sentido. Ela não entende porque alguma coisa é mais importante do que aquilo que ela está fazendo no momento. E na verdade ela está certa, nada é mais importante. Ela está construindo um ser humano lá dentro dela. Está desenvolvendo as habilidades necessárias para a manutenção da civilização. Ela é responsável pelo trabalho mais nobre do mundo e deve ser respeitada e admirada por isso. Hierarquicamente, a criança sempre estará acima de nós, porque é ela que nos cria.

Precisamos organizar o nosso tempo para que possamos respeitar o tempo dela. Se sabemos que demora demais para comer, precisamos começar a almoçar mais cedo. Se demora muito para se vestir, teremos de marcar o passeio para mais tarde. Ela vai demorar bastante para muita coisa, quase sempre, e vai querer repetir tudo de que gostar. A repetição é fundamental e agradável para ela. Permita.

Respeitar o tempo não significa desistir da rotina. Veja o texto sobre rotina e ritual para entender melhor esse assunto, mas saiba desde já: estabelecer um horário para dormir é bom, mas isso não deve ser forçado demais. A criança pode indicar devagar qual a hora mais apropriada para seu sono, ou você pode induzir devagar um horário necessário para a família. A mesma coisa para comer. Pode haver horários para as refeições, mas eles precisam respeitar o apetite dos pequenos. 
  Tenho certeza de que fazendo tudo isso você estará respeitando a natureza da criança que vive com você. E uma natureza respeitada leva inevitavelmente a uma vida mais prazerosa, mais cheia de energia, de sorrisos, de alegrias e de contentamento. Haverá episódios de manha, de rebeldia. Analise essas situações, tente entender porque elas aconteceram. Não se vingue com broncas fortes demais ou palmadas. Entre vocês dois, você tem de ser o ser humano que sabe mais e o mais maduro. Ela está aprendendo, e está criando, lá nas profundezas de sua natureza, um próximo ser humano, sábio e maduro também.