Assinatura RSS

Arquivo da categoria: Reflexões

O Tempo que Temos Juntos

Todos concordamos: Seria incrível ter todo o tempo do mundo para usar com nossas crianças. É importante para elas que os momentos em família sejam muitos e muito bons. Dizer que só o que importa é a qualidade do tempo que se passa junto, e não a quantidade de tempo que se passa junto não é dizer a verdade. A quantidade de tempo importa também, e se o tempo for longo e de qualidade, muito melhor. É bom que haja famílias que optem – ou possam optar – por estabelecer rotinas mais flexíveis para os adultos, de forma a estar mais presentes nas vidas das crianças. É bom quando os pais podem se revezar e cuidar de seus filhos da forma como acreditam, sem depender de escolas em que não confiam e pessoas que não conhecem.

Essa, no entanto, não é a vida da maior parte de nós. Para quase todos nós, não é todo o tempo do mundo aquele que podemos dedicar a nossas crianças, mas só uma parte dele. Só uma pequena parte, às vezes. Famílias que trabalham de manhã à noite, famílias que trabalham em cidades diferentes daquela em que vivem, famílias que fazem plantões, ou que têm por obrigação estarem disponíveis para seus empregadores mais do que podem estar disponíveis para seus filhos. Não faço eco ao discurso de quem diz que “se gosta tanto de trabalhar, não devia ser mãe/pai”. Para muita gente, o trabalho é um pilar de sanidade, e muitas famílias vivem melhor (todo mundo, incluindo as crianças) quando os pais trabalham do que quando um deles deixa de trabalhar e leva a frustração da falta do exercício profissional para casa… Não é incomum que essa seja uma das principais causas da hiperestimulação de crianças.

A ideia desse texto é trazer algumas dicas. Dicas de como melhorar o tempo que passamos com nossas crianças, seja ele quanto for.

1. Fale baixo. Escute. Preste atenção. – É comum que estejamos tão ansiosos para passar algum tempo com as crianças que esqueçamos de ser tranquilos. Nós temos planos para diversão. Vivemos numa sociedade que gira no eixo de “work hard, party harder” (trabalhe muito, divirta-se mais ainda). Queremos brincar, falar alto, dar risada e fazer cócegas. Buscamos a euforia. Mas nossas crianças precisam de equilíbrio. A família muitas vezes é quem melhor entende as primeiras palavras e a fala inicial de uma criança. É muito importante deixá-la falar. Se queremos ter diálogo em nossos lares, esse diálogo precisa começar muito cedo, com respeito, com atenção e cuidado. Às vezes as crianças não querem brincar do que nós queremos brincar. Às vezes elas não querem brincar em absoluto. Só ficar em paz, agasalhadas por você, ou te mostrar alguma coisa interessante que fizeram ao longo do dia.

2. Valorize o silêncio e a observação – Aproveite esse momento de paz, de encontro, de conexão entre você e seu filho, para descobrir de que ele precisa, o que ele conquistou, o que tem despertado seu interesse recentemente, como ele tem se comportado, o que o frustra e o que o alegra. Olhe para ele, com silêncio e admiração, e busque compreendê-lo em suas ações, em suas emoções, em seus atos e no desenvolvimento de sua inteligência. Por outro lado, valorize também o silêncio e a observação que partem de sua criança. Se, na rua, ele para e abaixa para ver qualquer coisa, abaixe-se, olhe com ele. Esteja lá, mas sem interferir, sem dizer nada. Permita que essa outra conexão preciosa – entre a criança e a realidade – se estabeleça e aprofunde suas fortes raízes.

3. Brinquem com o corpo e a voz – Uma boa parte de seu tempo precisou ser entregue ao dinheiro. Inevitavelmente, você já entregou horas a corporações e marcas – no trabalho, na comida comprada, no carro dirigido, no celular. Não entregue esses poucos momentos que você tem com sua criança para mais corporações e mais marcas. Evite a televisão com desenhos fabricados por empresas imensas e de interesses escusos. Evite os tablets com propagandas constantes e perniciosas. Evite os computadores com jogos construídos para alimentar o modo de ser de uma sociedade de consumo. Brinque com aquilo que a natureza deu: o corpo e a voz. Se quiser – se vocês dois quiserem – use brinquedos. Mas use brinquedos que não brinquem sozinhos. Brinquedos que dependam de vocês para funcionar, para acontecer. Brinquedos que sem vocês sejam pedaços de qualquer coisa. Brinquedos nos quais você, e principalmente seu filho, soprem alma e vida.

4. Em casa, a casa basta – Brinquedos muito sofisticados não são uma necessidade da criança. Eles são uma necessidade dos adultos e uma necessidade das empresas. Coordenação motora, equilíbrio, desenvolvimento da fala e do raciocínio lógico… Tudo isso se desenvolve muito bem na vida, sem que sejam necessários brinquedos, softwares e vídeos especializados. O material montessoriano, inclusive, funciona muito bem na escola, onde ele é compreendido em sua inteireza, usado de maneira correta e reaproveitado, auxiliando no desenvolvimento da individualidade e na construção da vida comunitária. Em casa, ele é inútil e, a depender do comportamento do adulto, pode ajudar em formas de opressão variadas – se, por exemplo, forçamos a criança a usar as letras de lixa porque sinceramente acreditamos que será bom para ela. Em casa, use a casa. Limpe, lustre, lave, corte, cozinhe, pendure, enxugue, arrume, separe, organize. Na minha opinião, especialmente cozinhe. Cozinhar com crianças é uma grande diversão, ajuda na alimentação de todo mundo e garante que o tempo da criança será usado de forma maravilhosamente produtiva para sua personalidade: há um trabalho intenso com os sentidos e com a coordenação motora, há a sensação da independência que se desenvolve, há o prazer puro de desfrutar de um bom sabor e a sensação de conquista por comer aquilo que se fez, para dizer o mínimo.

5. Permita a independência – Quando ficamos fora de casa por períodos longos, muitas vezes nos sentimos indevidamente culpados. A sensação de culpa nunca tem boas consequências. Uma das consequências negativas é que, voltando para casa, desejamos proteger nossas crianças de tudo, inclusive de qualquer esforço. E, fazendo isso, protegemos nossas crianças da possibilidade de um desenvolvimento saudável. Permita que sua criança seja independente. Permita que ela se esforce e falhe, permita que ela faça coisas sozinha mesmo nesse curto período que vocês têm juntos. Seu filho valorizará a possibilidade de ser independente na sua presença. A chance de conquistar a vida ao seu lado. Você vai perceber pelo olhar de sua criança quanto acertou em sua escolha.

Não há muito mais o que dizer. Seu coração, seu amor e o conhecimento que você tem de seu filho vão nortear suas ações melhor do que uma imensa lista de atividades sugeridas. Num próximo texto, pretendo abordar formas de melhorar o tempo da criança enquanto ela está longe de nós, na escola ou em casa.

Dia das Crianças e Opressão

Uma criança. Vida nova. Imune ao mal e à doença, protegida de sequestros, surras, estupro, racismo, insulto, aversão a si mesma, abandono. Sem erro. Toda bondade. Desprovida de ira. Ou assim creem eles. – God Help the Child, Toni Morrison

Quando foi que nos esquecemos do desrespeito, da opressão e dos abusos que sofremos quando éramos crianças? As palmadas, os gritos, as ordens sem sentido, o assédio na rua, a falta de controle sobre o tempo e o espaço que habitávamos.

Em algum momento bastante precoce de nossas vidas, nos distanciamos de nós e aprendemos que precisávamos viver como eles, como os adultos, porque eles eram mais poderosos e fortes, mais conhecedores e onipotentes que nós. E se nós nos conformássemos às suas ordens, vontades, abusos e tiranias, poderíamos um dia ser incríveis também. Já que, então, ainda éramos crianças, incapazes, risíveis, cômicas, inúteis.

Em 1959, no dia 20 de novembro, se declararam os Direitos da Criança, na ONU. Internacionalmente é esse o Dia da Criança, 20 de novembro. Aqui, temos além dessa, mais uma data, muito mais comemorada: 12 de outubro. Hoje. E eu tenho uma proposta. Façamos com o Dia da Criança o que fazemos com o Dia da Consciência Negra e o Dia da Mulher. Vamos tomar o Dia da Criança não para distribuir rosas, mas para discutir igualdade. Vamos tomar o dia da criança não para celebrar, mas para refletir. Em lugar de (só) presentear ou, como não poderia deixar de ser em um mundo que rouba todo o tempo para devolvê-lo em papel colorido, em lugar de (só) estarmos presentes especialmente nesse dia, singularmente nesse dia, vamos tomar a data para enfrentar. Vamos tomar a data para libertar.

A criança é um grupo social oprimido. Constantemente. A criança é oprimida por ser pequena e nova. Ela é pequena e nova em relação ao quê? A quem? Quem é que a declara pequena e nova? Quem é que a diminui? Por um instante veja esta imagem:

1026337765-bushes

Respoda, se quiser responda em voz alta, onde está a água? Onde está a comida? Onde estão os espaços mais abrigados de vento e chuva? Onde está quase toda a vida? Se para todas as perguntas você respondeu algo como “na altura do chão” ou “a poucos centímetros de altura”, parabéns. A maior parte da natureza é, como um adulto diria, pequena.

Quase tudo, antes de nossa interferência, acontece mesmo perto da terra, perto da água, perto das raízes do mundo. É nesse mundo que nós fomos preparados para viver, por muito, muito tempo de evolução. Mas aí mudamos as coisas.

Aí, nós saímos da floresta, e fizemos as vilas, depois as cidades – sim, eu estou dando imensos saltos históricos aqui – e nesses espaços, a criança não pode nada. Nesses espaços nós tiramos dela tudo o que podia fazer antes: antes, a sede podia ser resolvida na água do rio, e a higiene também, a fome nas pequenas frutas, nas folhas, nas raízes do mundo. A brincadeira acontecia entre pedras, desníveis de chão, árvores grossas e arbustos. É verdade, havia perigos, a criança precisava de proteção. Mas havia o imperativo natural da independência e, daí, de uma liberdade qualquer inevitável. Nós a roubamos.

Toda opressão é resultado de algum tipo de roubo. Nós, adultos, roubamos a natureza das crianças, e não parece que chegará logo o momento em que a devolveremos. Nós roubamos a água que fluía aos pés da criança menor de todas, e a colocamos a mais de um metro, muitas vezes, em um bebedouro que exige controle motor fino para funcionar. Nós roubamos a comida que ficava pendurada entre as folhas de um arbusto baixo e a escondemos atrás de uma grossa porta de metal fechada por tecnologia magnética, que exige força para abrir. Nós roubamos a diversão que rodeava a criança e a instalamos em prateleiras que exigem dinheiro para serem possuídas. Nós roubamos o sono que acontecia à sombra das árvores e o colocamos numa masmorra de madeira ou plástico envolta em grades, que exige nossos braços para ser acessada. Nós roubamos tudo. Nós só somos superiores à criança porque, aos poucos, roubamos tudo o que ela tinha.

Agora, todo o roubo feito, praticamos escambo. Nada mais apropriado a um colonizador que oprime. Se a criança nos obedece, tem chance de divertir-se. Se ela satisfaz nossas exigências de movimento corporal, tem permissão para beber e comer sozinha. Se ela nos dá razão para não nos preocuparmos, pode dormir quando quer. Se ela não atrapalha o horário de nossas refeições, pode satisfazer sua fome. Se, no entanto, nos desobedece, pode ser trancada na masmorra. Se ela precisa se mover mais do que permite o ambiente restrito que fizemos para nós, mas tanto quanto permitia a terra que roubamos, então fica de castigo, apanha, morre – por fora, por dentro, por vezes de todos os jeitos.

Segundo Montessori, o adulto pensa que seu poder advém do fato simples de ser adulto. Por isso, e só por isso, ele pode. Isso não é questionável porque é axiomático: é assim porque é assim porque é assim porque é assim. Mas é mentira. O poder do adulto não advém do fato de ele ser adulto. O poder do adulto advém do roubo.

O adulto roubou o espaço e, reproduzindo a lógica em que vive, na qual tem seu tempo roubado constantemente, rouba o tempo da criança. Se eu não posso, ela não pode. Ela é uma criança e precisa se acostumar, o mundo é assim. Fomos roubados, nós adultos, também, e não lutamos para que nada nos seja devolvido. Por que é que a criança deveria poder lutar?

E quando luta, quando busca fazer sua revolução, quando exige que suas necessidades sejam atendidas, reagimos como o pior dos governos: reprimimos qualquer coisa. Reagimos como o governo de Foucault, clinicamos o que não nos agrada, e chamamos especialistas que nos expliquem a birra, o escândalo, os terrible twos, tudo o que não é a imobilidade passiva e obediente que, em silêncio, desejamos. Nós não queremos ouvir a criança, nós não olhamos para suas necessidades, e se ela as exige, fazemos com ela o que se fez com as feministas por tanto tempo: trata-se de um caso grave de histeria. Vamos chamar uma especialista que, num programa televisivo nos ensine a recuperar o poder do adulto.

Maria Montessori colocou sabiamente: Nenhum problema social é tão universal quanto a opressão da criança. Essa frase fica presa à minha lousa de estudos, em casa. Abaixo dela, com a caneta da lousa, se lê “e isso precisa ser percebido”. Isso, infelizmente, não é óbvio.

Que não nos sintamos soterrados em culpa. Não tem culpa demais aquele que discrimina antes que se lhe esclareça que discrimina, antes que alguém chegue até ele e diga: “Escuta, isso, que você faz, está errado. E está errado porque essa criança é um ser humano, e não se age assim com seres humanos”. Vamos fazer do Dia das Crianças um dia simbólico de reflexão, de mudança. Vamos fazer Montessori, porque sabemos que Montessori ajuda a vida da criança, porque sabemos que Montessori é uma forma de pensar e uma forma de agir que previne e inibe a opressão. Mas vamos também refletir muito, demais mesmo, porque mesmo quem não possa conhecer Montessori imediatamente, mesmo quem não possa aplicar Montessori já e agora, mesmo esse adulto não pode oprimir a criança. Ninguém pode. Nós podemos mudar isso com um excesso de esclarecimento e com uma posição extremada: precisamos abraçar o radicalismo da compaixão.

Se você quiser entender mais sobre opressão e a opressão da criança, sugerimos:

A Criança, de Maria Montessori – o livro inteiro

Mente Absorvente, de Maria Montessori – o final do livro, últimos cinco ou seis capítulos.

Readings for Diversity and Social Justice – Editora Routledge, vários autores

A Revolução do Altruísmo – Matthieu Ricard

Os Condenados da Terra – Frantz Fanon

O Segundo Sexo – Simone de Beauvoir

Microfísica do Poder – Michel Foucault

O Olho Mais Azul e God Help the Child – Toni Morrison (qualquer romance dela, na verdade)

O Pequeno Príncipe – Antoine de Saint-Exupéry

 

Suficiente

Publicado em

“Imperfeições […]
são lembretes de que estamos nessa juntos”
-Brené Brown

A humanidade está em julgamento. Montessori disse isso em 1936, no seu livro A Criança. A humanidade está em julgamento pelos males perpetrados contra a infância, sucintamente. E nós, adultos, estamos todos na posição de réus. A pergunta que fica é: quem nos julga? E a resposta que sobra é: A Criança. E a Criança, invariavelmente, nos declara inocentes. Se nós somos inocentes aos olhos da infância, e somos réus, o que em nós mesmos permite que nos declaremos culpados?

É verdade. O adulto oprime a criança. E por isso deve ser sumariamente condenado. É verdade, ele inibe seu desenvolvimento. Culpado de novo. É verdade também que destrói a capacidade inata da criança para amar o esforço, o trabalho e a concentração. Mais três vezes culpado. Deforma a sensação de alegria e transforma em obediência servil a bela autodisciplina infantil. Culpado ainda outras duas vezes. Construímos ambientes que fazem recuar a criança pequena. Culpados. Interrompemos todo o trabalho a que ela se dedica. Culpados. Moldamos sua rotina de acordo com nossos horários e não com o seu tempo. Culpados. Culpados. Culpados.

Entretanto a criança nos perdoa. E o que faz com que ela seja capaz de perdoar nossos erros é a mesma coisa que faz com que ela perdoe aos seus próprios e levante a cada vez que cai, até aprender a andar. É o mesmo que faz com que ela tente de novo e de novo e de novo até conquistar cada nova habilidade ao longo de seus primeiros anos de vida. Ela nos perdoa porque tem compaixão por nós. E perdoa-se porque tem compaixão por si mesma. Em outros termos: ela se perdoa e nos perdoa porque se sabe suficiente e nos sabe suficientes também.

A criança tem dentro de si os segredos para o estado de supremo equilíbrio da humanidade. E nós só muito recentemente descobrimos que a autocompaixão é um dos aspectos mais importantes para que nos sintamos bem conosco mesmos (veja aqui) e para que vivamos uma vida mais completa (veja aqui e aqui). A compaixão também é importante para o resto do mundo (veja isso aqui). É aqui que entra a pena à qual devemos nos submeter por sermos culpados por todos aqueles crimes contra a humanidade.

Ser culpado de tanto não é pouco. Não é leve. Não deixa tranquilas nossas consciências se nós realmente compreendemos o extremo a que levamos o sofrimento imenso da infância. Só há, porém, um caminho de saída: confiar na criança e observá-la, para que sejamos capazes de compreender suas necessidades, preparar o ambiente e permitir que ela seja livre nele, de forma útil e engajada.

A criança, se é deixada livre, erra. E precisa ser perdoada por seus erros. Já dissemos no Lar Montessori que se você não gritaria com um amigo por ele derrubar vinho na toalha durante a ceia de fim de ano, então você também não deve gritar com seu filho quando ele derruba o suco do almoço. Seu amigo já está no mundo há algumas dezenas de anos. Seu filho está aqui há muito menos tempo, e ainda está aprendendo. Se você não grita com o adulto, não grita com a criança. Se não bate no adulto, não bate na criança – a criança não pode se defender.

O oposto, no entanto, também é verdadeiro. Se você já está tentando construir, todos os dias, em todos os momentos de sua vida, um lar pacífico, se está partindo para uma linha de disciplina positiva, se acredita na elevação da personalidade infantil em um ambiente no qual não sofra nenhum tipo de violência… Se você acredita em tudo isso para a criança, precisa acreditar em tudo isso para o adulto. Se você acredita em uma vida sem violência para o seu filho, precisa acreditar em uma vida sem violência para você. Se você deseja que seu filho ame a si mesmo e consiga lidar com seus erros e se perdoar, você precisa desejar isso para você mesmo. Permitir isso para você mesmo, talvez seja mais adequado.

Brené Brown é uma pesquisadora que aparece de vez em quando nos textos do Lar Montessori, e não é sem mérito. Ela desenvolveu uma pesquisa realmente bela, muito bem construída, sobre vulnerabilidade e vergonha. Você pode ver a pesquisa dela em dois dos links acima (ah, sim, veja os links acima! Um é um texto curto e os outros três são vídeos nos quais você pode ativar legendas em português, e os vídeos vão realmente mudar a forma como você vê algumas coisas).

Em seu livro A Coragem de Ser Imperfeito, Brown detalha os resultados de sua pesquisa e chega a duas conclusões – entre muitas outras -, que vamos explicar de forma exageradamente sucinta em dois parágrafos cada uma.

Vivemos em uma cultura de nunca o suficiente. Tudo o que fazemos é pouco perto do que achamos que deveríamos conseguir fazer. Perto do que somos levados a acreditar que precisamos ser capazes de fazer. Nós não trabalhamos o suficiente, não ganhamos o suficiente, não ficamos tempo suficiente com nossos filhos, não nos alimentamos bem o suficiente, não economizamos o suficiente, não curtimos a vida o suficiente, não nos arriscamos o suficiente, não somos tranquilos o suficiente. A lista é infinita, e nos fere a cada dia. Nos leva o sono das noites e a tranquilidade das manhãs, repõe tudo com stress, ansiedade, medo. A insegurança resultante de não sermos o suficiente nos aterroriza tanto que precisamos vestir uma armadura contra ela. Essa armadura nos protege dos ferimentos. Mas também nos protege do amor. E essa armadura nos protege da compaixão. Vinda dos outros, para os outros, ou de nós para nós mesmos.

Essa mesma cultura faz com que desejemos que nossos filhos aprendam tudo cada vez mais cedo. Colocamo-los em escolas de esportes, artes, línguas, pouco depois de seu primeiro aniversário. Não confiamos na capacidade da criança de se desenvolver o suficiente seguindo seus impulsos interiores, nem mesmo no período logo após o nascimento. Queremos que aprendam a ler e a escrever cada vez mais cedo – e se isso não for feito com a naturalidade total do método Montessori, pode ser desagradável, forçado e cansativo, estressante e pressionador. Queremos que nossas crianças sejam melhores do que as outras. Que estejam à frente da média de desenvolvimento de sua idade. E vale perguntar: se todos nós desejamos estar à frente da média, que média sobra? Aqueles que estão na média, que aprenderam a falar, andar, comer, escrever e contar na idade média estão condenados ao fracasso? Aqueles que aprenderam antes, destinados ao sucesso? Que sucesso? Qual é o sucesso que é suficiente em nosso mundo?

A outra descoberta de Brené Brown diz que, se desejamos uma vida completa, vivida de coração inteiro, precisamos nos saber suficientes. Isso não significa, nem pode significar, autoindulgência, falsa autoestima ou narcisismo. Na verdade isso é o oposto da autoindulgência, da falsa autoestima e do narcisismo. Se somos suficientes não somos perfeitos, mas estamos tentando. Se somos suficientes não fazemos vista-grossa para nossos erros, mas os reconhecemos e nos sabemos suficientes para evitar aquele erro no futuro, e suficientes para pedir desculpas sinceras. Se somos suficientes não nos adoramos acima do resto do mundo, e nos achamos um pouquinho mais perfeitos do que os outros 6.999.999.999 de humanos. Somos iguais, mas sabemos que somos suficientes para, primeiro, estarmos na humanidade e, segundo, trabalharmos pelo seu desenvolvimento saudável, equilibrado, justo e feliz.

Todos nós, os suficientes, os insuficientes, os autoindulgentes, os narcisistas, os perfeccionistas, os que têm e os que não têm boa autoestima, todos nós erramos a valer. A diferença fundamental é que alguns de nós sentem que cometem erros e outros sentem que são erros. Se você tem filhos, sabe que em alguns momentos nós sentimos que somos erros. Mas nós não somos, e isso é muito importante. Isso é muito importante porque se formos erros não podemos fazer nada para mudar. Essa é a criança que acredita que é burra ou é desastrada. Esse é o adulto que se acredita insuficiente, incapaz, errado, torto. Por outro lado, se cometermos erros, podemos reconhece-los, podemos trabalhar sobre eles, podemos nos desligar deles, observarmos de longe, podemos compreender. Nós podemos mudar. Se nós somos erros, não temos como mudar isso. Se nós cometemos erros, podemos ser suficientes para mudar nossas atitudes, aspectos de nossas vidas ou de nossas personalidades que nos permitam cometer menos erros.

Isso vale para a criança. Isso vale para o amigo que derramou vinho em sua toalha. Isso vale para você, todos os dias de sua vida. De agora até sempre. A compaixão é o maior dom concedido à personalidade humana, ou conquistado por ela ao longo de milhões de anos de evolução. A criança é compassiva. Ela perdoa e perdoa-se. Ela permite que tentemos de novo, renova as esperanças dia após dia. Ela se permite tentar de novo, renova as próprias esperanças incessantemente. Devagar, uma respiração de cada vez, nós podemos tentar aprender.

Da próxima vez que você for dar uma bronca em sua criança, tire três segundos para uma inspiração profunda, e pense: “Ele é o suficiente”. Da próxima vez que você for dar uma bronca em você mesmo, ou em você mesma, tire cinco segundos para uma inspiração profunda, e sussurre (em voz baixa, mas com voz real): “Eu sou o suficiente”. Isso não é autoajuda barata. Em seguida, considere cada uma de suas atitudes inadequadas, comprometa-se a alterar cada uma delas.

Você, eu e todos os adultos ainda estamos no banco dos réus. Mas nossa pena não é de castigos psicológicos. Nós fomos condenados à graça de trabalhar pelo progresso da humanidade, e nos foi concedida a alegria de termos como parceiros pequenos novatos muito experientes, por mais contraditório que pareça. Nós podemos respirar profundamente agora, e reconhecermos em nós e em nossos parceiros pessoas suficientes para a jornada da vida.

Montessori e Concentração

Publicado em

“A alegria e o contentamento vêm da concentração” – Thich Nhat Hanh

Se você acompanha o Lar Montessori há algum tempo, sabe da relação profunda que existe entre o método Montessori e o desenvolvimento da concentração. Essa relação não pode nunca ser esquecida ou desprezada. Montessori é explícita quando, em Mente Absorvente, declara que a concentração é o primeiro e o maior objetivo de seu método, e o surgimento da concentração, junto com os traços de caráter daí decorrentes são os únicos objetivos de seu trabalho.

A professora e pesquisadora da Universidade de Virgínia, Angeline Lillard, dedica-se, entre outras coisas, a descobrir as implicações de Montessori para o bom desenvolvimento cognitivo, social e emocional da criança pequena, utilizando-se das ferramentas da psicologia cognitiva. Em um trabalho recente (Mindfulness Practices in Education: Montessori’s Approach, 2011), Lillard expõe argumentos para defender a relação entre Montessori e o que chama de práticas de atenção. Nosso texto é baseado no artigo de Lillard, que você pode ler em inglês aqui.

Recentemente, enfrentamos uma onda de diagnósticos – verdadeiros e não-tão-verdadeiros – de crianças com Transtorno de Desvio de Atenção e Hiperatividade. À parte disso, professores reclamam o tempo todo da falta de atenção de seus alunos, e os alunos reclamam entre si de sua incapacidade de manter o foco de sua atenção por mais de alguns minutos. Há inúmeros culpados, mas decididamente enfrentamos uma pandemia de falta de concentração.

Esse texto é menos sobre a aplicação de Montessori em casa e mais sobre a aplicação de Montessori na escola. O Lar Montessori quase não faz isso. Mas dessa vez é importante. Esse texto está aqui para ajudar você a escolher a escola Montessori de seu filho. Procure uma escola que favoreça a concentração verdadeira, e então você poderá encontrar uma escola Montessori. Montessori não está em centenas de materiais em uma sala de aula, nem em professores com anos de experiência, não está em salas grandes e bastante decoradas, nem em ambientes que desejam preparar para o mercado de trabalho ou preparar as crianças para o mundo. Montessori está em escolas que buscam uma educação para a vida na vida, e que alcançam belos estados de concentração.

O ambiente escolar montessoriano é uma casa, que deve se parecer com uma casa doméstica, com mobília bonita e bem distribuída, sem excesso de móveis que impeça o movimento ou a circulação do ar. Há janelas amplas e que permanecem abertas quase sempre, permitindo o arejamento e a iluminação da sala. Os materiais nas estantes não precisam ser impecáveis (os de Montessori não eram) – eles precisam preservar suas características mais importantes e precisam estar em bom estado. Eles também não precisam ficar todos os dias exatamente no mesmo lugar, embora um bom nível de organização seja muito importante. As paredes são claras ou neutras, o chão pode ser de pedra, madeira, piso, ou algum material emborrachado, mas sempre de uma cor que não cause fortes impressões à criança, para que seja parte do ambiente e não mais um estímulo a ser absorvido. Sobre os materiais, novamente, devem ser escolhidos os melhores de que a escola puder dispor. Brinquedos tradicionais são habitualmente muito coloridos, e apresentam uma quantidade de desafios à criança que a confunde, sem ensinar ou organizar sua mente, e não levam à concentração.

Também é importante, e isso contraria o senso comum profundamente, que não haja muitos professores na sala. Uma quantidade grande de professores para poucos alunos transforma a sala em um ambiente tradicional, no qual os professores controlam tudo o que as crianças fazem, inviabilizando a liberdade de ação infantil.

Finalmente, não deve haver muitos materiais. Montessori foi explícita de novo aqui: “Enganamo-nos pensando que a criança ‘cheia de brinquedos’, sempre cercada de ajuda, ‘deveria ser a mais evoluída’. Muito pelo contrário, a multidão desordenada de objetos agrava seu estado de espírito semeando nele, novamente, o caos, oprimindo-a e desencorajando. / Os meios destinados a auxiliar a criança a pôr em ordem seu espírito e facilitar-lhe a compreensão das inúmeras coisas que a envolvem deverão ser limitados ao mínimo necessário para poupar suas forças e fazê-la avançar com segurança pelo árduo caminho do desenvolvimento” (Pedagogia Científica, p.107).

Todas essas características trabalham pelo desenvolvimento da concentração na criança pequena. Mas além delas há ainda outras. Em qualquer escola montessoriana, você encontrará crianças agindo como pequenos adultos. Servem sua comida, comem educadamente, lavam seus utensílios, secam tudo, guardam. Varrem o chão que sujaram e enxugam a água que deixaram cair. Ajudam-se mutuamente em suas tarefas diversas, cuidam do ambiente e de si mesmas e interagem livremente. A vida real que se faz presente na sala é chamada por nós de Vida Prática. Não se tratam de exercícios em bandeja somente, mas de aprendizados que podem ser estendidos a todas as ações no ambiente e que passam a fazer parte do dia a dia de cada criança.

O fato de as crianças aprenderem a como agir em sua vida, passo a passo, ajuda no desenvolvimento de suas funções executivas e joga a favor de altos níveis de concentração advindos de uma certa prática ritualística, que serve para organizar o pensamento infantil. Ensinamos tudo devagar, parte por parte, com detalhes e ênfases nos gestos, e em absoluto silêncio, para não roubar a atenção do trabalho em si. Assim, quando a criança parte para a ação, age com muito cuidado e atenção, consciente de cada detalhe de seu trabalho e – por que não dizer? – de sua existência no ambiente.

Para que os pequenos possam agir com liberdade é necessário, como se diz frequentemente, respeitar seu tempo. Montessori mediu o que isso significa e encontrou uma forma adequada de fazê-lo. Precisamos garantir períodos ininterruptos de três horas no mesmo ambiente preparado. Chamamos esse período de ciclo de três horas. É ele que permite à criança chegar na escola, começar a trabalhar com algo simples e ir numa curva ascendente até algum desafio realmente maior e que lhe exija de fato um alto grau de concentração. É como se a criança, sozinha, fizesse um aquecimento de concentração, focando sua atenção pouco a pouco, até estar pronta para o maior desafio do dia. Depois, ela ainda tem tempo para esfriar, admirar sua conquista, e proceder para mais algum trabalho que não lhe exija um nível tão alto de esforço ou simplesmente descansar e observar a sala. A presença de muitas atividades extracurriculares, ao contrário do que se pensa, não é positiva para a criança, pois quebra seu percurso de concentração e trabalho, desrespeita seu ímpeto natural de ação, fere seu direito de escolha e inibe sua liberdade. A garantia de um período de trabalho contínuo de três horas é um dos pilares práticos do método Montessori, e é o que permite o desenvolvimento pronunciado das mais diversas habilidades cognitivas.

É no momento de mais alta concentração da sala, quando o silêncio reina quase absoluto, que chamamos as crianças a um jogo breve, do qual se participa voluntariamente, e que leva a concentração a um nível que não se imaginava possível a crianças pequenas. O Jogo do Silêncio é um exercício que fazemos em sala, quando as crianças estão perfeitamente concentradas, e que as transporta para um patamar superior de apreciação da própria consciência e de reconhecimento do silêncio que nos habita, individual e coletivamente. Aproxima-se muito da contemplação ou da meditação, mas é realizado voluntariamente por crianças de três a seis anos, e mais velhas, e lhes permite um mergulho intenso na própria personalidade e no nobre valor do esforço realmente coletivo.

Todo o tempo na sala, inclusive durante o jogo do silêncio, o corpo e a mente da criança funcionam juntos. Tudo o que a criança faz, faz com as mãos e o corpo. Tudo ela sente, tudo manuseia, tudo carrega, ajeita, empurra, encontra, levanta, transporta. Seu pensamento se expressa claramente por suas mãos. Essas últimas, disse Montessori, são os instrumentos da inteligência humana, e vale pensar nesses instrumentos como instrumentos musicais, que permitem à criança tocar, em cada um de seus aprendizados, a harmonia do universo em seu constante processo de desenvolvimento. Carl Sagan, astrônomo de imenso destaque, dizia que “Nós somos uma forma de o universo conhecer a si mesmo”, e quando vemos a sincronia entre mente e mãos na atividade de uma criança pequena nos tornamos testemunhas da intimidade absoluta que há entre o universal e o fundamentalmente humano.

Qualquer interação entre professor e aluno que iniba a atividade das mãos da criança é uma privação de sua liberdade. Por isso, as apresentações de materiais duram poucos segundos, e por isso ensinamos muito pouco. No mais das vezes, permitimos que a relação entre a criança e o material lhe ajude em suas descobertas e dê suporte para sua organização mental.

As atividades de Vida Prática, todo o trabalho Sensorial, o entrelaçamento entre mão e mente mesmo em estágios mais avançados da Aritmética e da Gramática, o Jogo do Silêncio, as Caminhadas na Linha, a análise dos movimentos, a simplicidade do ambiente, a liberdade para trabalhar, o ciclo de três horas, a restrição no número de materiais e de professores, tudo isso cria o ambiente perfeito para o desenvolvimento da atenção, da concentração e da consciência. “A felicidade”, disse Montessori, “não é todo o objetivo da educação. O ser humano deve ser independente em seus poderes e em seu caráter; capaz de trabalhar e afirmar seu domínio sobre tudo aquilo que depende dele”. E entretanto, todas as crianças são felizes em Montessori. Talvez Hahn esteja certo: da concentração vêm a alegria e o contentamento.

Reflexões Sobre a Infância Líquida

Publicado em

Em 1949 Maria Montessori escreveu:  O mundo civilizado torna-se um imenso campo de concentração onde todos as pessoas que nascem são relegadas e feitas escravas, diminuídas em seus valores, alienadas em seus impulsos criativos, subtraídas dos estímulos vivificantes que cada pessoa tem direito de encontrar entre os que amam. Para Montessori, na metade do século XX, a humanidade enfrentava uma escravização – em outros termos, era escrava de seu ambiente: “É o ambiente que devora e tritura o homem”.

Outros já o haviam notado à época, já haviam percebido que a educação, como todo o resto da sociedade, era opressora demais, e decidiram por abolir toda forma de limite no ambiente escolar, em experiências pedagógicas interessantes, porém ineficientes. Montessori as avalia assim: “As tentativas da assim dita educação moderna, que procuram simplesmente livrar as crianças das supostas repressões não são o melhor caminho. Deixar o aluno fazer aquilo que quer, diverti-lo com leves ocupações, leva-lo quase a um estado de natureza selvagem não é suficiente”. Tudo isso está em A Formação do Homem.

Cerca de vinte anos antes, outro grande pilar da investigação do humano publicava O Mal-Estar na Civilização. No livro, Freud coloca (e aqui reforço minha sempre presente ignorância sonora acerca da obra completa de Freud) a importância da repressão social, especialmente de ordem moral, sobre o sofrimento humano. Trago os dois exemplos para iniciar uma linha de pensamento. À época, a grande busca dos pensadores era por compreender de que maneiras se podia buscar mais liberdade.

O horror do nazismo na Alemanha e do fascismo na Itália começava a despontar pela época do livro de Freud, e quando da escrita de Montessori, Stalin devastava vidas na União Soviética. O mundo da época havia feito uma opção pela segurança, pela certeza e pela fixidez que havia, por um lado, gerado os regimes totalitários e, por outro, estruturas familiares e escolares extremamente rígidas.

De lá para cá muito mudou. Iniciamos uma incessante busca por liberdade, por mudança, por educações alternativas e por formas de trabalho diferentes. Hoje, uma parte nada desprezível da população global trabalho como nômade, de qualquer lugar, a qualquer momento. Algumas famílias inclusive optam por viver em nomadismo, e cada vez mais se foge daquilo que é fixo ou eterno. Os casamentos (para o bem ou para o mal) são cada vez menos frequentes, e cada vez menos duradouros, mas encontrar um par ou uma companhia para uma noite é cada vez mais fácil. Em nossos tempos, não se aceita bem que se gaste muito dinheiro em bens materiais, mas viajar, sair do lugar, é onde todo o dinheiro pode ir. A Geração Y (que é o nome dado ao grupo populacional do qual eu faço parte) muda de empregos muito rapidamente, e busca oportunidades que não envolvam compromissos de longo prazo… Enfim, nos nossos tempos nós não aceitamos ficar parados, não aceitamos compromissos, não aceitamos não sair do lugar.

Zingmunt Bauman fala sobre isso em seu livro Modernidade Líquida (calma, você não entrou no blog errado, vamos chegar nas crianças no próximo parágrafo). Para ele, na sociedade de hoje nós não mais sofremos pela falta de liberdade, mas pelo excesso dela. Para que possamos ser completamente livres, nos fazemos gradativamente mais solitários. Especialmente quanto aos laços afetivos, ele coloca, separamo-nos de nossos afetos quando “não estamos mais felizes juntos”, em uma velocidade pouco vista antes de nossa época. Substituímos afetos reais por afetos virtuais – mais fáceis de desfazer – e, o mais possível, experiências duradouras por objetos que possam ser trocados quando se tornam tediosos ou duradouros demais.

A criança entra nesse rodamoinho de liberdade desprovida das ferramentas de artificialismo necessárias para lidar com ele. Ela não sabe ter laços que possam ser rapidamente desfeitos, não sabe mudar o tempo todo, não sabe não ter rotina, e não sabe trocar experiências por objetos. Esses são os quatro sofrimentos da criança na modernidade líquida, pelo que eu pude notar até agora. Adicionados de um quinto, um pouco mais grave: o adulto inserido nessa modernidade, desejando ardentemente ser livre, usa das ferramentas que tiver à mão para que a criança não atrapalhe sua liberdade.

1. Laços – Pelo que pude pensar até o momento, isso se dá muito mais na escola que em casa. Exige-se da criança, no ambiente escolar, que rompa relações com uma brutalidade ímpar. Ao final de um ano escolar, uma criança pode ser aprovada ou repetir. Se é aprovada, vai para a sala seguinte com todos os seus colegas, ou quase todos eles, mas é forçada a deixar para trás o professor (ou professora, quase sempre) que admirava ou a quem se afeiçoou. Se é reprovada, talvez continue com a mesma professora, mas deve então abandonar todos os seus colegas. Em um tempo no qual as salas eram conjuntas – como são ainda nas zonas rurais – ou quando as crianças de uma mesma escola moravam bem perto e brincavam juntas, isso era um problema, mas não afetava necessariamente os laços. Hoje, num tempo no qual se vai com frequência da escola para casa e da casa para a escola, ou para ainda outras atividades extraescolares, o rompimento de laços é uma tristeza recorrente. Vale ainda dizer: segundo o Laboratório de Desenvolvimento Infantil de Harvard, ter o mesmo cuidador por mais anos é positivo para o desenvolvimento de algumas funções cruciais no cérebro da criança.

2. Mudança de local – Para nós, adultos, mudar pode ser renovação, pode ser sinônimo de novos ares, de esperança e de oportunidades. Para a criança, mudança é uma coisa só: confusão. Mudar o tempo todo, viajar sem avisar, ou viajar demais, geram confusão na mente da criança. Ela está tentando formar um retrato mental de seu mundo, entender o lugar de cada coisa, o que é adequado e o que não é, como se mover no espaço. Repare que a criança pequena esbarra em muita coisa. Ter a mobília sempre no mesmo lugar é um alívio para quem está aprendendo a se movimentar. Mudar as coisas, que para nós é cada vez mais essencial, é danoso para a criança pequena. De novo aqui, Harvard diz que ambientes estruturados e previsíveis ajudam no bom desenvolvimento cerebral dos pequenos.

3. Rotina – O medo moderno da permanência no mesmo lugar se estende à rotina. Temos medo de fazer tudo igual para sempre, embora inúmeras gerações tenham nos precedido e construído a civilização exatamente assim – repetindo incansavelmente a mesma coisa, e melhorando lentamente. Nosso medo da rotina nos leva a uma flexibilidade considerável, mas leva a criança a uma instabilidade quase total – ao ponto de algumas famílias buscarem escolas para as quais as crianças possam ir só quando necessário, transformando a escola, mais ainda, em um depósito sempre à mão para as crianças. Como nossa liberdade não pode ser travada pelas necessidades dos pequenos, e como as restrições que eles nos colocam são cada vez menos aceitas, ou entram conosco num imprevisível tabuleiro de mudanças ou são relegados a outros cuidadores, que possam fazer tudo sempre igual. A rotina, sabemos, é um dos pilares da construção da personalidade da criança.

4. Coisas – Nossa sociedade trocou, em grande parte, experiências por coisas. Ao extremo de haver hoje, companhias que vendem experiências, em caixinhas mesmo, você compra em livrarias. Mas mais do que isso, nós hoje precisamos ter comprado para ter vivido. Quantas vezes, entre adultos, dizemos que “não fizemos nada” no final de semana, porque não saímos de casa? Não é real. Descansamos, assistimos televisão, cuidamos das crianças, cozinhamos em família… Com as crianças é igual. Colocamo-las em inúmeras atividades diárias, além da escola, que começa cada vez mais cedo, e quando estão em casa damos a elas brinquedos e mais brinquedos, para que não corramos o risco de elas decidirem brincar com as coisas de adulto. Nossas panelas, batatas, roupas, toalhas, caixas em geral que são sempre tão mais interessantes do que os multicoloridos encaixes sonoros de plástico que lhes oferecemos. Precisamos com alguma urgência realizar um esforço intenso e parar um pouco, e valorizar um pouco mais de perto, um pouco mais de verdade, um pouco mais… As experiências em si. O que a criança faz, e não com o que ela faz ou o que é que ela tem.

5. Nossa Liberdade – A liberdade é hoje nosso bem maior e mais precioso. A liberdade de podermos fazer o que quisermos e quando quisermos, e de não precisarmos oferecer explicações de nossas atitudes a nenhum outro membro do corpo social. Uma criança, porém, é um membro do corpo social que, de alguma maneira, sempre nos exige explicações. Se mudamos algo, se estamos ausentes, se a submetemos a ambientes inadequados à sua pouquíssima idade, ela nos exige explicações: chora, tem insônias, fica ansiosa, tensa, triste, agitada. A criança não nos permite um passo em falso sem uma reação. Mas nos perdoa a todos os passos em falso tão rápido quanto pode. Para que não precisemos abrir mão de nossas liberdades, lançamos mão de escolas em período integral, cuidadores, incontáveis atividades extraescolares sob o pretexto de um preparo para um mercado de trabalho que sequer sabemos como estará quando nossas crianças forem adultas, e do qual não sabemos se elas participarão. E lançamos mão de telas eletrônicas em todos os lugares. Uma grande, na sala, uma menor em cada cômodo da casa, e uma portátil, para salas de espera, transportes, aeroportos, encontros com amigos. Nossos aliados são alienantes. Nos permitem nossa intensa liberdade sob pena de uma carga de responsabilidades e stress que infância alguma deveria enfrentar, ou sob a condenação da capacidade de atenção de uma criança pequena, já que sabemos hoje quão mal faz a televisão aos cérebros de nossos pequeninos.

A modernidade líquida vem condenando a criança de uma forma distinta daquela usada pelas fases anteriores da história. Mas agora nós temos algo a nosso favor: temos amplo acesso à informação, e podemos saber o que estamos fazendo. Montessori nos disse, em Mente Absorvente, que suas descobertas e a mudança que propunha seriam uma revolução sem igual, talvez a última revolução, e não deixaria de transformar nenhum aspecto de toda a sociedade. De fato, se enxergamos nas descobertas de Montessori algo acertado, é uma responsabilidade imensa e uma série consideravelmente grande de desafios que precisamos enfrentar. Mas temos a vantagem de poder assistir, dia a dia, o tempo todo, cada um dos pequenos e imensuráveis resultados de nossa mudança de atitude. A criança merece que nós abramos mão de um pouquinho de nossa liberdade, e ela merece ser preservada do mal-estar inerente à modernidade líquida, tanto quanto possível. Ela nos mostrará a recompensa de nossos esforços de várias formas. Algumas imediatas e mais perceptíveis talvez sejam sua respiração tranquila, seu rosto sorridente e seu olhar, genuinamente feliz.

Ao Gabo, por amor

Publicado em

Há algumas horas faleceu o ex-aluno montessoriano mais querido da América Latina. Talvez o mais querido no mundo. De certo, aquele que prestou a maior homenagem ao método Montessori. Gabriel García Márquez, em Viver para Contá-la, sua autobiografia, diz:

Em teoria é difícil entender esses prazeres subjetivos. Mas aqueles que os tenham vivido compreenderão de imediato. […] Não creio que haja método melhor que o montessoriano para sensibilizar as crianças às belezas do mundo e para lhes despertar a curiosidade para os segredos da vida.

E continuou: “Custou-me muito aprender a ler. Não me parecia lógico que a letra m se chamasse eme, e contudo com a vogal seguinte não se dissesse emea, mas ma. Era-me impossível ler assim. Por fim, quando cheguei ao Montessori a professora não me ensinou os nomes, mas os sons das consoantes. Assim pude ler o primeiro livro que encontrei em um canto cheio de carvão e poeira no depósito da casa. Estava descosturado e incompleto, mas me absorveu de um modo tão intenso que o noivo de Sara soltou, ao passar, uma premonição aterradora: “Caralho! Esse garoto vai ser escritor”. Dito por ele, que vivia de escrever, me causou uma impressão forte. Passaram-se muitos anos antes que eu descobrisse que o livro era As Mil e Uma Noites“.

Gabo, como era chamado pelos que tinha a sorte de lhe serem próximos – e pelo coração de alguns de nós, foi autor de belíssimas obras, das quais somente li integralmente O Amor Nos Tempos do Cólera, meu livro favorito desde os quatorze anos. Ele também escreveu Cem Anos de Solidão, que li parcialmente, mas que lerei inteiro agora, e que encanta a cada palavra. Esse foi seu livro mais lido no mundo, e embora tenha recebido o Nobel de Literatura em 1982 pelo conjunto de sua obra, Cem Anos de Solidão destaca-se imensamente.

É de O Amor nos Tempos do Cólera, porém, a melhor aula que já recebi de Educação Cósmica. O livro começa com a frase:

Era inevitável: o cheiro das amêndoas amargas lhe lembrava sempre o destino dos amores contrariados.

O cheiro de amêndoas amargas vinha do cianureto de ouro. O amor contrariado deu em suicídio. Mas a poesia é de García Márquez. O único que compôs um poema químico em prosa na primeira linha de um romance. Este, também, de primeira linha. Eu li e não entendi, mas achei bonito. A minha professora de Química, três anos depois, foi quem resolveu o mistério, quando mencionou que o cianeto (cianureto, antigamente) tinha cheiro de amêndoas amargas, e matava. Serei eternamente grato à Fátima, a professora de Química, mas um admirador eterno de Gabo, o ex-aluno de Montessori que me ensinou o que é Educação Cósmica.

Não me esquecerei, e não nos esqueceremos nunca, do homem que criou a comunidade que perdeu a memória. Lembraremos dele como o casal, que esperou mais de meio século para se amar por toda a vida. Nosso coração retomará o tecido de sua prosa, sempre.

Obrigado, Gabo. Você me ensinou muito mais do que Montessori. Você me ensinou o amor e a eternidade.

Muito em breve nos veremos – lhe digo.

Por amor.

Gabo-art

Desenvolvimento como Independência

Há muitas formas de se compreender o que acontece com a criança do momento em que nasce até o tempo de sua maturidade total, por volta dos vinte e quatro anos de idade. Podemos pensar nisso como crescimento, como aprendizado, como experiência. É possível enxergar a sucessão de eventos da vida como uma sucessão de conquistas e de traumas, ou como uma sequência longa de causas e consequências pelas quais somos responsáveis mesmo antes de sabê-lo.

Em Montessori, enxergamos este processo longo como desenvolvimento e o desenvolvimento, deste ponto de vista, é uma sucessão de independências. O objetivo do bebê, da pequena criança, do adolescente e do adulto jovem é independer-se. Entretanto, é claro para todos que a criança que ainda não anda está em um estágio ou em um processo de independência diferente do adolescente que ainda não pode sair sozinho de casa. Ambos, porém, compartilham do mesmo ideal: a capacidade de fazer algo que ainda não fazem e deixar de depender de alguém que faz para ou com eles.

Nessa sucessão de independências, muitos processos microscópicos ocorrem. Um dia a criança se vira sozinha, no outro já engatinha. Pouco tempo depois já fica de pé, e de repente anda, de repente corre, de repente fala, e logo em seguida já lê estuda, repensa, argumenta, e nos vence nos debates. Aí lê, escreve, desenha, se apaixona, aprende um instrumento musical. Aprende a mexer no computador e então se apaixona de novo, aprende outro instrumento musical, uma língua estrangeira e, quando menos esperamos rejeita aquela sua língua materna, sem gírias, sem swing, que vai tão devagar. Depois sai, namora, escolhe uma profissão, muda de ideia. Começa a trabalhar, especializa-se em um ramo, estuda. Um dia, mora sozinha. Essas independências todas, tão pequenas, grandes e cotidianas, são sinais vitais de que o desenvolvimento vem de fato acontecendo.

Quando observadas de perto em muitas crianças, em todo o mundo, e depois comparadas, percebemos que essas explosões menores fazem parte de um quadro completo que pode ser dividido em três grandes partes – e em uma quarta um pouco nebulosa. Primeiro, de zero a seis anos, a criança persegue a independência física. Em seguida, de seis a doze anos, busca sua independência intelectual. Quando a consegue – e mesmo quando não consegue – a partir dos doze e mais ou menos até os dezoito, quer conseguir sua independência social e, ao menos em teoria, entre os dezoito e os vinte e quatro anos, o adulto caça sua independência profissional, que é mais do que uma profissão, pura e simples.

A Independência Física é a primeira a ser encontrada. A criança nasce inerte, dependente de nós para sobreviver, para alimentar-se, para qualquer movimento que deseje fazer. Aos poucos, aprende a pegar, sentar, mover-se, andar, carregar, falar… Os verbos seriam infinitos, pois que a criança faz em seis anos de vida mais do que qualquer adulto faria em meio século. Para que ela seja capaz de alcançar tudo isso,basta que exista no mundo. Porém, para que o faça com maior maestria e para que seja feliz durante o processo, é necessário que nos preparemos e preparemos seu ambiente, deixando-o ordenado, belo e permitindo que estejam presentes nele somente as coisas que auxiliarão o desenvolvimento da criança – nessa época, o supérfluo só atrapalha. O ambiente físico deve respeitar a criança em seu espaço, sendo baixo em altura e permitindo o movimento, enquanto que o ambiente psico-emocional deve respeitar a criança em seu tempo, permitindo que ela demore quanto precisa para realizar suas tarefas com autonomia, enfrentando os desafios em seu ritmo.

A Independência Intelectual começa a ser perseguida uma vez que a identidade individual da criança foi construída. Até os seis anos, a criança constrói a si mesma e pode, então, em seguida, passar a buscar maneiras de compreender o mundo. Não interessam verdadeiramente as repostas à criança desta idade. O que ela realmente quer não é saber os “porquês” e os “comos”, isso muitas vezes ocorre com a criança mais nova.  Para os mais velhos e os pré-adolescentes, importa mesmo o processo de investigação. Por isso, nessa idade é importante oferecer formas de pesquisa, livros, introduzir uma ou outra ferramente virtual, permitir que haja trabalhos de montagem e desmontagem de aparelhos, e estar aberto a conversar com seu filho sobre tudo – a diversão, agora, não é mais conseguir todas as respostas certas dos pais, mas conversar com eles, verdadeiramente. Embora seja uma fase de muita ação intelectual, a criança entre seis e doze anos é tranquila, paciente, e – também por isso – habitualmente vítima do início da escola tradicional, que tende a sufocar sua sede investigativa com uma estrutura disciplinar baseada na concessão de respostas prontas para perguntas que a criança nunca fez.

A Independência Social talvez seja hoje a de pior compreensão entre os adultos. Nós desejamos que o adolescente seja submisso a nós como a criança de seis a doze anos era. Acontece, porém, que dois seis aos doze há pouca transformação e muito mais crescimento. Essa terceira fase é em tudo semelhante à primeira – acontecem mudanças físicas, intelectuais, emocionais e sociais. Essas últimas com maior ênfase e importância. O adolescente busca compreender as regras sociais, os limites da sociedade, suas exigências, sua tolerância e as suas infinitas possibilidades. O tempo todo descobre tanto e sabe tão pouco, que lhe parece sempre saber tudo. Precisa sentir que tem valor para sua comunidade e descobrir em que é bom e para que fim é bom. Nosso papel, então, é ajudá-lo a perseguir sua independência social, permitindo que tenha contato com outros de sua idade, servindo como modelos a seguir, mais do que tiranos a obedecer, e auxiliando no aprendizado de algo que lhe permita receber seus primeiros ganhos financeiros – o passaporte da autonomia social na sociedade em que vivemos.

Independência Profissional é uma possível classificação para a última independência, desta série montessoriana. As poucas páginas que Montessori escreveu sobre o tema estão, junto com as sobre adolescência, no livro “Erdkinder e As Funções da Universidade”, que se localiza também em algumas edições de “Da Infância à Adolescência”. Para este momento da vida é importante não só perceber em quepara que se é bom, mas também realmente colocar as mãos na massa de forma a dominar aquilo que se faz. Isso dá ao ser humano a sensação de poder alterar o seu ambiente segundo sua consciência e lhe desperta para a responsabilidade de sua atividade. Mais do que o aprendizado teórico-prático oferecido pelas universidades, o ser nesta fase do desenvolvimento quer compreender qual é a missão da humanidade e a sua própria. Para isso, é necessário que tenha liberdade e possibilidade de explorar atividades distintas até encontrar aquela para que serve melhor.

No dia sete de setembro, data da Independência do Brasil, parece especialmente pertinente enxergar o desenvolvimento como independência. Da mesma maneira que uma nação não se torna independente enquanto não se desenvolve – e por isso a nossa ainda caminha nessa direção – a criança necessita de muito esforço para independer-se enquanto executa o trabalho ativo de seu desenvolvimento. Aos poucos, torna-se ao mesmo tempo independentedesenvolvida. Não são tanto duas coisas que caminham juntas, mas uma mesma coisa que pode ser vista por mais de uma perspectiva. Nosso trabalho, então, é entender as necessidades de quem se desenvolve – e embora não possamos fazê-lo bem com o país, há como fazê-lo bem com a criança – e oferecer todo o apoio necessário para que a grande viagem rumo a uma existência independente possa se realizar com muita vontade, muito esforço e muita alegria.