Criamos Crianças com Valores Invertidos. Finalmente.

Por tempo demais, uma noção distorcida de autoridade dominou as relações entre adultos e crianças. O adulto, cheio de orgulho de ser adulto, impôs sua vontade à criança por mais séculos do que devia. Nós dizíamos que era “pelo bem da criança”, sem perceber, como diz Maria Montessori, que ò bem da criança coincide, frequentemente, com nosso próprio conforto”. Não mais.

Alguns adultos se assustam, e dizem que se as coisas continuarem assim, as crianças se tornarão os “reizinhos da casa”. Não é verdade, claro. Elas só vão se tornar o que sempre foram: gente.

Em uma de suas principais obras, Maria Montessori declara: “A pregação em favor da criança deve permanecer numa atitude de acusação contra o adulto. Acusação sem remissão, sem exceção”.

Montessori propôs uma educação que inverte os valores fundamentais da nossa sociedade: aqueles que dizem que o adulto é superior à criança, em vontades, direitos e necessidades.

“Eis a verdadeira nova educação”, ela coloca, “fazer primeiro a descoberta da criança e realizar sua libertação; nisso consiste, pode-se dizer, o problema da existência: primeiro, existir”.

Maria Montessori, O Segredo da Infância

Por tempo demais, as crianças não puderam existir. Mas esse tempo acabou. A sociedade adulta não aceitará passivamente que a prioridade total seja dada à criança. “O que mais suscitou discussões foi a inversão de papéis”, diz Montessori, o adulto “sem autoridade, e quase sem ensinar, e a criança transformada em centro da atividade, que aprende sozinha, que é livre na escolha de suas ocupações e dos seus movimentos”.

Para alguns de nós parece utopia. E “quando não foi qualificado como utopia, pareceu exagero”.

De Montessori, aceitamos bem o ambiente e as atividades. Cadeiras e mesas baixinhas, janelas na altura dos olhos das crianças, uma cama rente ao chão. Nossa dificuldade está em aceitar o mais importante: “o adulto também faz parte do ambiente: ele deve adaptar-se às necessidades da criança e torná-la independente, de modo a não ser um obstáculo para ela”.

Em Montessori, o “respeito à personalidade infantil foi levado a um extremo nunca antes atingido”.

O mundo ainda não se transformou completamente. Mas já demos o primeiro passo na direção correta. Não vai ser fácil, porque “o ponto mais difícil é percebermos e, depois, persuadirmo-nos da coisa nova”. Mas o dia da criança vai chegar.

Até lá, seguimos educando crianças com valores invertidos. Para que elas saibam que as relações entre as pessoas não se dão por orgulho e tirania, mas por gentileza e paciência. Para que saibam que a costura das famílias não é a autoridade, mas o amor. Para que reconheçam que a escola não é lugar de submissão, mas de descoberta.

Se você ainda não inverteu seus valores, venha conosco, nós podemos ajudar. Se você já inverteu, lembre-se: a paciência, a gentileza, o amor e a descoberta servem para as relações entre adultos também. Precisamos inverter todos os valores, se quisermos ajudar as crianças a criarem “um mundo novo, cheio de milagres”.


Você não precisa inverter valores sozinha(o). O Lar Montessori pode ajudar com centenas de textos e vídeos, e com um curso perfeito para esse trabalho. Visite a página do Montessori: Viver em Paz com Crianças, e conheça nosso curso sobre convivência em família. Veja o que alguns participantes sentiram:

No segundo vídeo já enxerguei tanta coisa sobre minha filha que não conseguia entender! Incrível!!!

Tatiane de Carvalho

Estou encantada, empolgada, entusiasmada….quero mais!

Maria Carolina Casari

Este texto foi escrito a partir de citações do livro O Segredo da Infância, de Maria Montessori, em especial o capítulo A Educação da Criança.

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Escrito por Gabriel Salomão

Eu sou Gabriel Salomão, pesquisador e autor do Lar Montessori. Eu ajudo famílias e professores a incorporarem o método Montessori em sua vida e seu trabalho. Fui aluno de uma escola montessoriana por doze anos, e trabalhei em algumas escolas montessorianas depois, como professor e consultor. Vivo Montessori todos os dias, como pai, professor, consultor, ou pesquisador. Em 2019 terminei meu Doutorado sobre Montessori na Mídia, pela Universidade de São Paulo. Veja mais sobre meu trabalho aqui.

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