Sempre Foi Assim. Mas desta geração não passa!

A cada geração só um pequeno grupo pode mudar o destino de toda a humanidade: os adultos com crianças pequenas.

Eu dou cursos no Brasil todo, e eventualmente fora também. Em todos os lugares eu escuto alguém dizer: “Meus pais fizeram assim comigo, e deu certo” ou “Foi assim comigo, e eu estou aqui”. E as duas coisas são verdadeiras. Deu certo o suficiente. E estamos aqui.

Mas será que poderia ter dado mais certo? Quer dizer, será que além de sobreviver nós poderíamos ser felizes de verdade? Será que além de uma casa e um emprego (que já é bastante…) nós poderíamos gostar, diariamente, dessa coisa que é a vida?

Muitos de nossos pais bateram em nós. Nos colocaram de castigo. Nos deixaram por dias inteiros na frente da televisão. Mas também fizeram coisas que pareciam carinho: nos elogiaram até dizer chega. Deixavam-nos comer o que quiséssemos, sempre. Compravam o que pedíssemos.

E com isso, ficamos amedrontados, viciados em distração, dependentes da aprovação alheia, habituados a uma alimentação ruim, e consumistas. Olhamos para tudo isso e pensamos: deu certo. Onde foi que deu certo? É difícil admitir que não deu certo, porque aí precisamos fazer duas coisas:

  1. Aceitar de verdade, e completamente, que nossos pais (e os pais deles) erraram feio;
  2. Começar o enorme trabalho de reparação.

Nossos pais não erraram por crueldade, nem por planejamento. Foi sem querer. Por ignorância, falta de tempo, necessidade. Mas erraram. E nós somos resultado de seu amor e de seus erros.

Mas agora que nós conhecemos e reconhecemos esses erros, temos a responsabilidade de começar a consertar, e isso dá trabalho.

Precisamos ler, estudar, observar nossos filhos constantemente, e adotar uma postura diferente. Não a de quem está continuando uma tradição de família, repetindo o que já foi feito antes. Mas uma de quem está começando uma tradição, para mudar as coisas, para ir em outra direção.

Devemos ter toda a compaixão do mundo para com nossos pais e avós. Eles foram as vítimas que nós somos. Mas não tinham a informação que nós temos. Mas precisamos ter ainda mais compaixão com nossos filhos e todas as gerações que vêm depois, e dizer para nós mesmos:

Desta geração não passa!

Desta geração a violência física não passa!

Desta geração os abusos verbais não passam!

Desta geração o consumismo não passa!

Desta geração os elogios excessivos, a manipulação da autoestima, não passa!

Desta geração as críticas e correções excessivas não passam!

Montessori disse que a opressão da criança é o maior de todos os problemas sociais. A cada geração, só um pequeno grupo pode mudar o destino da humanidade: os adultos com crianças pequenas.

Embora você esteja começando um caminho novo, você não está sozinha(o). Nós estamos juntos. E esse nós é bem grande. Inclui gente do mundo todo, de todas as classes sociais e todas as culturas. Somos milhares, talvez milhões. Mais milhões do que milhares. E nós podemos mudar tudo. Basta tomar uma decisão.

A decisão é:

“Eu sei que a tradição é enorme. Eu carrego a tradição na minha memória inconsciente, nos meus hábitos automáticos, nos meus medos e nos meus desejos. A tradição faz parte de mim como meu DNA. Ela é enorme, e pesa como uma centena de séculos nos meus ombros. Mas eu vou escolher. E tudo o que eu sei que é ruim, tudo o que eu quero mudar, tudo o que as crianças merecem que seja diferente… tudo isso acaba aqui. Desta geração não passa!”

Desta geração em diante, as crianças vão ser livres. E o mundo vai ser novo.


O Lar Montessori só existe porque há quase dez anos eu escolhi confiar nos adultos. Eu confio nas famílias, e na força que um adulto tem quando deseja um mundo melhor para as crianças. E eu quero que todo mundo tenha acesso a tudo que Montessori nos deixou para fazer a vida das crianças melhor. Por isso, de tempos em tempos produzo cursos online sobre Montessori. Um deles, que é lindo e transformador, é o Viver em Paz com Crianças. Veja o que uma aluna disse há pouco tempo:

Me encheu de esperança em alcançar a paz com meus filhos e outras crianças. Agora tenho muito a praticar e irei rever todas as aulas, acho que várias vezes. Obrigada!!

Cristina Alves Tavares

Escrito por gabrielmsalomao

"A preparação que nosso método exige do professor é o auto-exame, a renúncia à tirania. Deve expelir do coração a ira e o orgulho, deve saber humilhar-se e revestir-se de caridade. Estas são as disposições que seu espírito deve adquirir, a base da balança, o indispensável ponto de apoio para seu equilíbrio. Nisso consiste a preparação interior, o ponto de partida e a meta." Maria Montessori, em A Criança

4 comentários

  1. Olá Gabriel!

    Não sei se é porque fui pai com quase quarenta anos e nessa idade a gente é mais equilibrado emocionalmente, mas eu não consigo entender como eu chegaria ao ponto de bater em minha filha.

    É que eu a amo tanto, mas tanto, que eu acho que não sou capaz de sentir a ira necessária pra fazer isso.

    Eu acho muito contraditório ferir uma pessoa pela qual eu autenticamente daria a minha vida. Me parece não fazer sentido.

    Confesso que o medo do futuro me atormentar. Perguntas como “Será mesmo que eu estou fazendo a coisa certa?” ou “Não pagarei um preço alto por isso no futuro?” sempre me visitam.

    Mas daí eu lembro da justificativa usada para bater numa criança que é ensinar os limites… e logo penso numa infinidade de outras possibilidades que Montessori nos dá.

    Não consigo acreditar nas “palmadas de amor”. Tenho minhas dúvidas que alguém que recorra à violência física não esteja sentido raiva naquele momento. Nunca é só para disciplinar. Provavelmente é também um escape de emoções pra o adulto.

  2. Um excelente texto.. uma excelente reflexão. Dessa geração não passa! Que a mudança seja cada em cada um. Adulto! Pais! Profesores!

  3. Boa tarde, Gabriel, sempre leio seus textos. Enriquecedores!
    Me esclareça, por favor, como lidar com as distrações? No trecho que você diz “viciados em distração”, achei uma novidade incômoda.
    Abraços!

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