A Criança que Renasce Todos os Dias

Hoje, eu perdi o nascer do Sol. Geralmente eu vejo tudo. Hoje eu estava exausto e dormi um pouco mais.

Paciência. Amanhã haverá outro.

A não ser pelo fato de que não haverá. Nenhum nascer de Sol é igual ao anterior. A sombra muda, a temperatura aqui na Terra é outra. Menos ou mais nuvens, outro ângulo…

Eu nem sempre percebo as diferenças. Mas elas estão ali, e se presto atenção, eu as vejo todas. O tempo dança como num baile de máscaras. Parece que tudo se repete. Mas, de verdade? Tudo é sempre diferente.

Isso vale para o Sol. E vale para o meu filho. E o seu.

Esses dias, lendo alguma coisa que alguém escreveu em algum lugar, dei com a frase: “Não vai ser para sempre assim. Nós dizemos para nós mesmos que vai. Mas não vai”.

No dia a dia, é fácil confundir tudo, e pensar que o que acontece agora vai se repetir amanhã. Afinal de contas, é tão parecido: o mesmo sanduíche no café da manhã, a mesma assinatura na agenda, o mesmo “Vai com Deus, filho!”, na porta da escola, e o mesmo abraço quando ele volta. As mesmas tardes fazendo as mesmas coisas. E é fácil achar que vai-ser-para-sempre-assim. Ficar cansado(a) é fácil, não é? Só de pensar em repetir o dia de hoje mais, o quê? 130 vezes esse ano?

No tempo que vivemos agora, parece fácil perceber que nada se repete.

As crianças mudam, todos os dias. Mais de uma vez por dia. Se nós prestarmos atenção, elas renascem, como o Sol.

O traço do desenho fica mais firme, e mais certeiro. Os passos ficam mais rápidos. Ou as pernas começam a se atrapalhar porque cresceram na noite passada. Ele se interessa por “como você faz a minha comida?” em um dia, e no outro não quer nem entrar na cozinha.

Mas nós, distraídos da vida, continuamos achando que todos os dias são iguais.

O nascer do Sol nos escapa, e nos escapa o renascer da Vida.

Nós vivemos na ilusão (adulta) de que o tempo precisa ser usado. Precisamos fazer coisas. Uma após a outra. Várias delas por dinheiro, ao ponto de repetirmos que “tempo é dinheiro”. Um brilhante sociólogo brasileiro disse bem: Não. Tempo não é dinheiro. “Tempo é o tecido das nossas vidas”. E nós não precisamos usar todo o tempo da vida para fazer coisas. A produtividade é uma armadilha.

A criança conhece o tempo. As crianças têm uma relação mais próxima, mais direta com a vida. Ainda não caíram no engano de achar que qualquer coisa se repete. Elas sabem, sempre, que tudo é diferente.

E elas tentam chamar nossa atenção para ver, para ser, para estar. Mas nós temos que fazer. Temos que produzir. E nós nos enganamos dizendo que fazemos isso por elas.

Mas não é por elas que passamos tanto tempo no celular, dentro de casa.

Mas não é por elas que precisamos achar um afazer doméstico depois do outro, sem intervalo.

Mas não é por elas que sentamos na frente da televisão com o computador no colo, porque não conseguimos assistir qualquer coisa sem fazer alguma coisa ao mesmo tempo.

É por nós. Porque nós acreditamos que fazer é muito importante.

Fazer é importante. Só existe uma coisa mais importante do que fazer: existir.

Precisamos observar as crianças, não só para entender as crianças e garantir que a vida delas valha a pena.

Precisamos observar as crianças porque, mais do que nós salvarmos as vidas delas, elas podem salvar a nossa. Podem nos fazer renascer também.

Se soubermos ver.


Ficar em casa o tempo todo com as crianças pode ser um desafio. O Lar Montessori tem feito transmissões várias vezes por semana, via YouTube Instagram para termos chance de olhar tudo o que estamos vivendo pelo ponto de vista de Montessori. Se além disso você quiser uma ajuda um pouco mais estruturada, veja o curso Montessori: Viver em Paz com Crianças, abaixo. São só 2h, e as aulas tem entre 5 e 8 minutos. São breves para você conseguir assistir de verdade, mas trazem alguns dos pontos mais ricos da obra de Maria Montessori. Veja alguns comentários:

Obrigada! Obrigada! Obrigada! Serei melhor mãe, serei melhor professora, serei melhor ser humano!!!

mãe e professora, sobre a aula “Por que crianças (não) fazem birra”.

Gente tô CHOCADA com essa aula. Que visão fantástica do mundo. Faz tanto sentido. Cada dia me apaixono mais por Montessori.

uma mãe, sobre a aula “A Origem dos Conflitos Entre Adultos e Crianças”.
Datas Comemorativas, Preparação do Adulto, Reflexões , , , ,

Escrito por Gabriel Salomão

Eu sou Gabriel Salomão, pesquisador e autor do Lar Montessori. Eu ajudo famílias e professores a incorporarem o método Montessori em sua vida e seu trabalho. Fui aluno de uma escola montessoriana por doze anos, e trabalhei em algumas escolas montessorianas depois, como professor e consultor. Vivo Montessori todos os dias, como pai, professor, consultor, ou pesquisador. Em 2019 terminei meu Doutorado sobre Montessori na Mídia, pela Universidade de São Paulo. Veja mais sobre meu trabalho aqui.

7 comentários

  1. Vários textos do Lar Montessori já calaram fundo a minha alma. Mas nenhum como esse!
    Simplesmente lindo!❤❤❤

  2. Eu precisava ouvir essas palavras para acreditar na pulsao da vida… Eu vou te encontrar pessoalmente e olhar nos olhos e de agradecer por me apresentar Montessori. 😢

  3. Texto excelente, me fez pensar realmente que cada dia é único, que parecido não é igual. Esse frenesi da vida moderna, vem nos tirando o encantamento de viver.

  4. sempre aprendo algo novo com os textos do blog, lição de hj? viver cada dia apreciando a diferença de cada um

  5. Caro Gabriel Salomão, você também muda, muda constantemente para melhor e nos surpreende a cada novo artigo, com uma sutileza maior e uma sapiência mais apurada que nos inspira a olhar para nós e para a criança com um novo olhar e, com amor.
    Mais uma vez obrigada.
    Apesar de termos conversado apenas duas vezes, sinto vontade de chama-lo de irmão.

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