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Arquivo da categoria: História de Montessori

Textos sobre a história do método Montessori e a vida de Maria Montessori.

O Livro Pedagogia Científica

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Em 1909 Maria montessori publicou a obra pedagógica que iniciaria sua revolução na educação do mundo: A Pedagogia Científica. Logo, o livro foi traduzido para inúmeras línguas, recebendo leitores e admiradores em todo o mundo. Anne Sullivan, a professora de Helen Keller, chegou a dizer que o livro de Montessori era “um documento científico, um emocionante documento humano, uma profecia e uma luz” para todos os que trabalhavam com a educação de crianças pequenas.

Ao longo de toda sua vida, Maria Montessori reescreveu esse livro, ao ponto de ser possível traçar sua biografia por meio do exame das edições de Pedagogia Científica, como faz Paola Trabalzini em “Maria Montessori: Da Il Metodo a La Scoperta del Bambino”.

No fim de sua vida, somente três anos antes de falecer e quarenta anos depois da primeira edição, Montessori publica uma última versão de sua obra magna. Nessa, altera tão substancialmente o conteúdo do livro que acha por bem alterar-lhe também o título, e o livro passa a se chamar “La Scoperta del Bambino”, A Descoberta da Criança.

Eu (Gabriel), há cerca de cinco anos, buscava nos sebos de São Paulo livros de Maria Montessori, e encontrei, antes de qualquer outra obra, uma intitulada “Pedagogia Científica”. Li ávido. Só mais tarde descobri que esse não era o título da obra definitiva de Montessori, e que se quisesse saber sobre como o método ficara definido por ela ao fim de sua vida, teria de ler A Descoberta da Criança.

Conversando com diretores de escolas Montessori e outros conhecedores do método no Brasil, cheguei a uma triste conclusão, que desde então tenho espalhado para muitas pessoas: o último livro pedagógico de Montessori não foi traduzido para o português.

Ontem, revisando os índices de livros diversos de Montessori, para a organização de uma introdução ao método Montessori, livro que pretendo escrever, reparei que o subtítulo da edição brasileira de Pedagogia Científica é “A Descoberta da Criança”. Assustei-me. Há anos não retornava ao livro, e tinha definido mentalmente, e em acordo com estudiosos que admiro: o que temos em português é o primeiro, e não o último livro de Montessori.

Mesmo assim, resolvi fazer uma comparação. E comparando estrutura da obra, trechos-chave e capítulos que só foram introduzidos em 1949, ficou evidente: há anos eu e o Lar Montessori espalhamos desinformação: o livro que temos em português é uma tradução da edição definitiva de 1949. Trata-se da obra maior de Maria Montessori, em seu melhor estado. Só o título é que foi traduzido de maneira a confundir o leitor, e confundiu.

Este texto é um pedido de desculpas, mas é também renovada esperança, pois que Montessori disse ao final de A Descoberta da Criança (e isso se encontra na tradução para o inglês, e não na do português, na edição de bolso da editora Ballantine, p.319):

Acredito que a porção de nosso método descrita aqui é clara o suficiente para os professores a colocarem em prática.

Dessa forma, a renovada esperança que este pedido de desculpas pretende levar a você, leitora e leitor, é a de que é possível criar escolas montessorianas no Brasil, com muita dedicação, pois que a obra maior de Montessori se encontra em nossa língua e pode nos servir de base, matriz e fonte para todo tipo de consulta e re-aprendizagem. Podemos semear.

Como Tudo Aconteceu – Parte II

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Antes de ler este post, leia a primeira parte da história. Vai ficar ainda melhor.

Lembrem-se de que todas essas crianças eram completamente analfabetas. Seus pais também eram analfabetos e elas nasceram e cresceram no ambiente que descrevi.

O que aconteceu há mais de trinta anos será agora um eterno mistério para mim. Eu tento desde então entender o que aconteceu àquelas crianças. Certamente não havia nada do que se encontra hoje nos Lares das Crianças. Havia somente mesas grandes.

Eu lhes trouxe alguns dos materiais que havíamos utilizado para nosso trabalho em psicologia experimental, os itens que usamos hoje como materiais sensoriais e para exercícios de vida prática. Eu desejava meramente estudar as reações das crianças. Eu pedi à mulher encarregada que não interferisse com as crianças, senão eu não conseguiria observá-las. Alguém lhes trouxe papel e lápis coloridos, mas em si não foi essa a explicação dos eventos futuros. Não havia quem os amasse. Eu mesma só os visitava uma vez por semana e as crianças não se comunicavam com seus pais durante o dia.

As crianças estavam quietas, não tinham interferência da professora ou dos pais, mas seu ambiente contrastava vivamente com aquele ao qual estavam acostumadas. Comparado ao de sua antiga vida, parecia fantasticamente belo. As paredes eram brancas, havia um espaço externo com grama, apesar de ninguém ter plantado flores lá ainda. Mas sobretudo era belo que todos eles tivessem belas ocupações nas quais ninguém, ninguém mesmo, interferia. Eram deixados sozinhos e aos poucos as crianças começaram a trabalhar com concentração, e a transformação pela qual passavam era notável. De tímidas e selvagens como eram, as crianças se tornaram sociáveis e comunicativas. Mostravam uma relação diferente umas com as outras, sobre a qual escrevi em meus livros. Suas personalidades se desenvolviam, estranho como possa parecer, mostravam extraordinária capacidade de entendimento, atividade, vivacidade e confiança. Eram felizes e contentes.

Esse fato foi notado depois de um tempo pelas mães que nos vinham falar sobre isso. Como as crianças não tinham ninguém para lhes ensinar ou interferir em suas ações, agiam espontaneamente, suas maneiras eram naturais.

Mas o que havia de mais surpreendente quanto a essas estranhas crianças do Quarteirão de San Lorenzo era sua gratidão evidente. Eu fui tão surpreendida por isso quanto todos os demais. Quando eu entrava na sala, todas as crianças saltavam para me cumprimentar e dar-me as boas vindas. Ninguém as havia ensinado nenhuma forma de bom comportamento. E a coisa mais estranha de todas era que embora ninguém cuidasse deles fisicamente, eles desabrochavam em saúde como se tivessem sido alimentados secretamente com alguma comida nutritiva. E de fato tinham, mas em seu espírito. Essas crianças começaram a notar coisas em suas casas, uma mancha nos vestidos de suas mães, bagunça em seus quartos. Falaram às suas mães para não pendurarem as roupas molhadas nas janelas, mas para colocarem flores lá. Sua influência se espalhou em seus lares, e algum tempo depois também esses se transformaram.

Seis meses depois da inauguração do Lar das Crianças, algumas das mães vieram a mim, e pediram que tendo feito tanto por suas crianças, e elas mesmas não podendo fazer nada sobre isso porque eram analfabetas, eu ensinasse as crianças a escrever e a ler.

Inicialmente, eu não queria, sendo tão preconceituosa quanto todos os outros quanto às crianças serem muito novas para isso. Mas eu dei a eles o alfabeto da maneira que contei a vocês. Como isso também era novidade para mim, eu analisei as palavras para eles e mostrei que cada som das palavras tinha um símbolo pelo qual podia ser materializado. Foi então que a explosão da escrita ocorreu.

As notícias se espalharam e todo o mundo se interessou pelas atividades de escrita dessas crianças tão pequenas a quem ninguém havia ensinado. As pessoas perceberam que confrontavam-se com um fenômeno que não podia ser explicado, pois além de escrever as crianças trabalhavam o tempo todo sem serem forçadas a fazê-lo. Era uma grande revelação, mas essa não era a única contribuição das crianças. Foram também elas que criaram a lição do silêncio. Pareciam um novo tipo de criança. Sua fama se espalhou e por conseguinte todo tipo de gente visitava o Lar das Crianças, incluindo ministros de Estado e suas esposas, com quem as crianças se comportavam bela e graciosamente, sem ninguém os incitar, de maneira que até os jornais da Itália e de fora se entusiasmaram. Assim as notícias se espalharam, até que a Rainha se interessou. Ela veio àquele quarteirão, tão mal afamado que era considerado a porta do inferno, para ver por si mesma as crianças sobre quem ouvira maravilhas.

A que se devia o prodígio? Ninguém podia dizer claramente. Mas me conquistou para sempre, porque penetrou meu coração como uma nova luz. Um dia os vi com olhos que os enxergavam de forma diferente e me perguntei: “Quem são vocês? Vocês são as mesmas crianças que eram antes?” E disse a mim mesma: “Talvez vocês sejam aquelas crianças de quem se disse que vinham para salvar a humanidade. Se é assim, devo seguir vocês”. Desde então, eu sou aquela que tenta compreender sua mensagem para segui-las.

E para segui-las, eu mudei toda minha vida. Eu tinha quase quarenta anos. Tinha à minha frente uma carreira, um cargo de docência na Universidade. Mas eu deixei tudo, porque me senti compelida a segui-las, e a encontrar outros que as seguissem, porque eu vi que nelas repousava o segredo da alma.

Vocês devem compreender que o que aconteceu era algo tão formidável e tão perturbador que sua importância nunca poderia ser suficientemente reconhecida. Que isso nunca será suficientemente estudado é certo, pois que é o segredo da vida ela mesma. Não podemos conhecer completamente suas causas. Não é possível que tenha acontecido em decorrência de meu método, porque à época meu método não existia ainda. Essa é a prova mais clara de que foi uma revelação emanada das próprias crianças.

Meu método educacional cresceu dessas, assim como de muitas outras revelações, cedidas pelas crianças. Vocês sabem pelo que lhes contei, que todos os detalhes incluídos no método vieram dos esforços de seguir a criança. O novo caminho nos foi mostrado. Ninguém sabe exatamente como isso surgiu, somente veio a ser e nos mostrou o novo percurso.

Não tem nada a ver com nenhum método do passado, nem com nenhum método do futuro. Permanece solitariamente como a contribuição da própria criança. Talvez a primeira deste gênero, que foi construída por ela passo a passo.

Não poderia ter vindo de um adulto. A ideia, o princípio mesmo, de que o adulto devesse se retirar para dar lugar à criança, nunca poderia ter vindo do adulto.

Qualquer um que deseje seguir meu método deve compreender que não deve reverenciar-me, mas seguir a criança como seu líder.

Nosso presente para você

Neste ano, fizemos muito. Nós, do Lar Montessori, e vocês, dos lares montessorianos. Juntos, nós espalhamos Montessori para milhares de pessoas, grupos em redes sociais multiplicaram-se e cresceram aos milhares em números de membros. O Lar foi visitado mais de 150.000 vezes, e chegamos a receber 2.000 leituras em um só dia. É motivo de alegria imensa saber que, em um novo fôlego, Montessori desperta tanto interesse no Brasil. É pouco ainda, para o que queremos, mas é uma boa nova digna de comemoração.

Acreditamos que, no ano que passou, cumprimos nosso dever –

ou quase. Não escrevemos tanto quanto gostaríamos, nem realizamos as entrevistas que tensionávamos. Entretanto, conseguimos publicar um vídeo por semana, sobre os capítulos do livro Mente Absorvente, de Maria Montessori e, se você nos acompanhou com a leitura semana a semana, já conhece uma das maiores obras de da fundadora de nossa tradição de pesquisa e educação. Conseguimos, também, quase sempre, escrever um texto por semana, e diversos deles atenderam a pedidos que vieram diretamente de nossos leitores. Então, se há um tema sobre o qual você gostaria de ler em 2014, diga a nós nos comentários deste texto. Por fim, conseguimos realizar o primeiro curso de Introdução ao Método Montessori para famílias e já tivemos até um curso de aprofundamento – Fortaleza, neste sentido, é protagonista.

A agenda de 2013 está acabando, e temos mais dois textos a publicar: um sobre excesso e falta de estímulo para a criança, em casa, e outro finalizando a história dos inícios do método Montessori. No ano que vem, terminaremos nossa longa série sobre os períodos sensíveis e revisitaremos alguns dos temas mais populares do Lar, como a disciplina, a imaginação e a preparação dos ambientes. Pretendemos, também, finalmente lançar o Lar Montessori em inglês e publicar, ao menos em formato digital, uma obra introdutória ao método Montessori.

Você nos presenteou de muitas maneiras ao longo deste ano. Você nos leu, nos recomendou, você aplicou os saberes dos quais somos somente disseminadores, e não mais. Você levou a cabo a tarefa entregue por Maria Montessori ao mundo, mais de cem anos atrás. Você adaptou sua casa às necessidades do seu filho e iniciou o processo de transformar-se em um adulto melhor para ele. Você, todos os dias, o observa atentamente, registra suas observações em papel, compara-as e decide, com base em suas observações, o que fazer. Você decidiu mudar o mundo e aceitou, gentil e generosamente, nossa ajuda para isso. Você, todos os dias, de manhã à noite, se esforça por tornar a vida de seu filho melhor e para, assim, melhorar toda a civilização. Você nos presenteia com um futuro belíssimo construído por suas crianças e nos permite acompanhar você, como portadores de uma sugestão de mapa e de uma bússola.

Você nos permitiu transmitir conhecimentos fundados por Montessori de muitas formas esse ano, e para receber todos estes presentes no ano que vem é que continuaremos a trabalhar. Antes deste ano acabar, lembre-se de retornar à nossa página para ler os últimos textos de 2013.

Escolher o seu presente foi difícil. Nós não saberíamos retribuir com um presente à altura, e não saberíamos demonstrar nossa gratidão de forma suficiente. Por isso, e como sempre fazemos quando tudo fica difícil demais, retornarmos aos escritos de Maria Montessori. Nosso presente para você, neste final de ano, é a mensagem que Montessori deixou ao mundo:

O trabalho da criança não é nada mais, nada menos, do que a construção da humanidade! Dia após dia, hora a hora, de minuto a minuto, esse incessante trabalho continua. Não pode haver intervalos em suas atividades, pois isso significaria a morte. Ela deve superar todos os obstáculos em seu caminho, deve  vencer todas as dificuldades.

A humanidade, inconsciente do que faz a criança, bloqueou seu caminho de desenvolvimento com incontáveis dificuldades, de forma que o trabalho da criança através dos tempos foi retardado por gritos de lamentação e abafado por lágrimas.

Agora que sabemos o que ela sofre, agora que entendemos as consequências fatais de frustrar esse desenvolvimento que vem a formar o homem, fomos despertados à consciência de uma nova forma de cruzada social – uma campanha social em nome dos mais nobres dos seres, os menos protegidos de todos os trabalhadores – a criança.

Que a humanidade desperte! Que dê à criança condições de viver como necessita – se deve conquistar seu dever – que é sagrado – não mais por entre conflitos e lamentos, mas cheia de alegria, e auxiliada pela sociedade em que vive.

Desejamos a todos os nossos leitores As Melhores Festas, um final de ano belíssimo e um 2014 repleto de Paz, em sua casa, em sua vida, e na vida de todas as crianças com quem você convive – que possamos, o mais logo possível, estender esta Paz a todas as crianças da Terra.

Com votos de esperança, determinação e vontade,

Obrigado,

Lar Montessori

Como Tudo Aconteceu

sanlorenzo1907

É chegado dezembro, o mês das retrospectivas, das lembranças e dos votos para o futuro. Achamos por bem iniciar o último mês de 2013 com a lembrança mais especial que podemos ter: a história do início do método Montessori. A Associação Montessori Internacional publica alguns documentos preciosos de Maria Montessori. O que se segue é a primeira parte de um “resumo de uma fala de Maria Montessori a seus alunos em 6 de janeiro de 1942, celebrando o aniversário da inauguração do primeiro Lar das Crianças”. Publicaremos a segunda parte dessa emocionante fala de Montessori na semana que vem.

Como Tudo Aconteceu – Maria Montessori, 1942

Hoje é o aniversário da abertura do primeiro Lar das Crianças. Quando eu lhes falar brevemente como isso começou, as poucas palavras desta história parecerão um conto de fadas, mas sua mensagem pode ser provar útil também.

Muitas vezes as pessoas perguntam, com a dúvida em suas mentes, se o método é adequado a crianças pobres e se ele pode ser de alguma forma adaptado a elas.

Para que vocês possam responder tais questões, eu gostaria de lhes dar uma pequena ideia de como nosso trabalho começou, da forma indireta como se ergueu.

Aconteceu de maneira estranha. Eu pensei muito sobre isso e tentei entender as razões para isso. Eu não sei se é uma indicação do destino, ou se foi estabelecido pelo destino mesmo. Tudo o que sei é que tem a ver com o Lar em si. Pode parecer curioso que eu me expresse dessa maneira, mas o faço para tornar clara a história que se seguiu.

Há muitos anos, Roma era a capital de um Estado em rápido desenvolvimento, que se manifestava em uma febre de construções. Todo pequeno espaço disponível era utilizado para se construir casas, cada pequeno quarteirão vazio. Um dos muitos era limitado de um lado por um dos antigos muros de Roma, que já havia passado por muitas batalhas, e do outro lado era limitado pelo cemitério moderno. Essa área era o último espaço a ser preenchido, com certeza em decorrência das superstições de que não seria auspicioso viver perto dos mortos, assim como por medo de fantasmas e também por razões higiênicas.

Mas possivelmente pela bela e histórica situação, uma construtora decidiu apostar seu dinheiro em um edifício nesse lugar. Era um esquema imenso, cinco casas do tamanho de palácios, com cinco ou seis andares. Mas a ideia era grande demais, a empresa foi à falência antes de terminar a construção, e o esquema falhou. O trabalho foi interrompido e abandonado. Havia somente as paredes com buracos para janelas e portas, não havia encanamentos e os edifícios permaneciam como um tipo de esqueleto.

Por muitos anos esse esqueleto imenso permaneceu abandonado. Tornou-se abrigo para mendigos sem teto, esconderijo para os mal-feitores que não desejavam ser reconhecidos e que, se descobertos, poderiam escapar facilmente naquele labirinto. Criminosos de todo tipo, ladrões e assassinos refugiavam-se ali. As pessoas viviam lá nas mesmas condições em que viviam os homens das pedras em suas cavernas.

Todos os que eram sem teto, e aqueles que desejavam se esconder, encontravam abrigo entre aquelas paredes. Nem mesmo a polícia se aproximava deles, ou ousava fazê-lo, pois que não conhecia os caminhos entre aquelas paredes de crime e terror.

Lentamente, o número cresceu, até que milhares de pessoas se amontoavam nesses prédios abandonados. Pessoas eram encontradas mortas, assassinadas, ou vítimas de enfermidades, o lugar se tornava um repositório de doenças para toda a região, e um centro de crime e das formas mais baixas de prostituição.

O “Quarteirão de San Lorenzo” ficou conhecido como a vergonha da Itália. As pessoas tinham medo demais de fazer qualquer coisa sobre isso, ninguém sabia o que acontecia entre aquelas paredes escuras. Não havia pequenas lojas para provisões por perto, nenhum vendedor itinerante que fosse até lá comercializar algo. Até mesmo os trabalhadores mais inferiores e o pescador mais pobre se pareceriam com príncipes em comparação, pois mesmo que pobres, teriam pelo menos uma forma honesta de viver, enquanto que os que vivam naquela escuridão não tinham trabalho, nenhuma forma de pagar, e sua própria vida se derivava do crime.

A questão da limpeza desta fossa de inumanidade exigia uma solução. Outra construtora de banqueiros muito ricos analisou o problema e decidiu que, considerando que as paredes já estavam erguidas, somente um pequeno gasto seria necessário para fazer frutificar qualquer capital investido. O distrito, dada sua má reputação, não se tornaria nunca um bairro nobre, então somente pequenas renovações eram necessárias para tornar o espaço habitável para aquelas pessoas já tão desafortunadas. Considerando a questão como uma aventura de negócios, começaram com uma construção que eles descobriram que abrigaria mil pessoas. Eles usaram um pouco de cal, colocaram algumas portas e janelas e inseriram canos e esgoto.

Estimava-se que na área vivessem pelo menos dez mil pessoas, então como descriminar quais entre elas seriam as melhores? Escolheram as casadas que, pela relação que tinham umas com a outras, seriam as mais humanas. Aconteceu que havia somente umas poucas crianças. Parece talvez lógico que, em uma situação tal, apesar de haver milhares de homens e mulheres, havia somente cinquenta crianças.

Mas essas crianças, selvagens e não-civilizadas como eram, apresentavam um sério problema de dano às casas. Deixadas sozinhas enquanto suas famílias iam trabalhar, eram livres para levar a cabo qualquer capricho. Então o diretor do empreendimento decidiu que a única maneira sensata de mantê-las longe de travessuras era reunir todas as crianças e confiná-las.

Um cômodo foi reservado com esta finalidade, lembrando em tudo uma prisão infantil. Esperava-se que uma pessoa com coragem social suficiente fosse encontrada para enfrentar o problema.

Em minha qualidade de médica de higiene, procuraram-me para que me interessasse pelo trabalho. Tendo considerado a situação, eu demandava que pelo menos as condições mais básicas de higiene, alimentação e saneamento fossem disponibilizadas.

À época, era moda entre as senhoras de sociedade interessarem-se por melhorias sociais. Foram procuradas para algo como uma coleta de fundos, porque nos confrontamos com o estranho problema de que, embora os banqueiros houvessem concordado em investir seu dinheiro para melhorar as condições habitacionais, não estavam nada interessados em educação. Não se podia esperar nenhum retorno financeiro de um dinheiro investido em qualquer coisa com propósitos educacionais.

Apesar de a sociedade ter abraçado o ideal de melhorar as condições desse povo desafortunado, as crianças haviam sido esquecidas. Não havia brinquedos, nem professor. Não havia nada para elas. Eu consegui encontrar uma mulher de quarenta anos, cuja ajuda pedi e a quem confiei a responsabilidade do trabalho.

No dia 6 de janeiro de 1907, esse cômodo foi inaugurado para reunir cinquenta crianças. O cômodo já estava em uso há algum tempo, mas a inauguração foi nessa data. Por toda a Itália o dia 6 de janeiro é tido como “o” dia de festas para as crianças. Foi nesse dia que os Três Reis Magos chegaram ao Menino Jesus e ofereceram a ele seus presentes. É celebrado como a Festa da Epifania [no Brasil, Dia de Reis].

Era impressionante à época esse interesse social imbuído com a ideia de que dar casas higiênicas aos sem teto seria a forma de purificar o núcleo negativo deste meio, constituído de um grupo de dez mil criminosos e deplorável humanidade. Eu também estava imbuída desse sentimento.

Mas enquanto todos tinham em mente que dando saneamento e moradia as pessoas seriam purificadas, ninguém levava em consideração as crianças. Ninguém havia pensado em trazer brinquedos ou comida para elas. Quando as crianças, variando de dois a seis anos, entraram [no Lar das Crianças], estavam vestidas com roupas pesadas, grossas e azuis. Estavam com medo e presas pelo tecido duro que vestiam, não podiam mover seus braços ou suas pernas livremente. Para levá-las a se mover juntas, fazia-se com que segurassem as mãos. A primeira criança era puxada contra a vontade, arrastando atrás de si a fila com todas as outras. Todas choravam miseravelmente. A simpatia das senhoras da sociedade foi despertada e elas expressaram a esperança de que em alguns meses as crianças melhorariam.

Foi-me pedido que fizesse um discurso para a ocasião. Mais cedo no mesmo dia, lembrando-me de que estávamos na Festa da Epifania, eu tive de ler a lição em meu livro de missas. Quando fiz o discurso, eu a li como um presságio para o trabalho que viria:

“Levanta-te, resplandece, Oh, Jerusalém, pois tua luz chegou, e a glória do Senhor ergue-se sobre ti. Porque eis que a escuridão descerá sobre a terra, e brumas sobre as pessoas, mas o Senhor se levantará sobre ti, e Sua glória brilhará sobre ti. E os gentis irão andar em tua luz, e reis no brilho de tua ascensão. Levanta teus olhos, olha em volta e vê, todos esses unidos, vieram a ti, seus filhos virão de longe, e suas filhas se criarão ao seu lado. Então verás, e serás rico, e teu coração se maravilhará e crescerá, quando as multidões dos mares se converterem a ti, a força dos gentis virá a ti. As multidões de camelos te cobrirão, os dromedários de Midiã e Efá; todos aqueles de Sabá virão, trazendo ouro e incenso, e manifestando louvores ao Senhor”.

Eu não sei o que me sobreveio, mas tive uma visão inspirada por isso, estava inflamada e dizia que este trabalho que estávamos tomando se mostraria muito importante e um dia as pessoas viriam de todos os lugares para vê-lo.

Reportando esta nova extravagância da sociedade, a imprensa mencionou que “a Dr.ª Montessori fez um belo discurso, mas que exagero o que ela disse!”

Foi então que o verdadeiro trabalho teve início.

A Vida de Maria Montessori

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Este texto também está disponível na página “Maria Montessori“, acima.

Aos nossos leitores: a série sobre Períodos Sensíveis vai continuar em breve!

Maria Montessori é nossa precursora. Ela resumiu sua vida em uma frase, sucintamente relembrada por seu neto, Mário Montessori Jr.: “Eu descobri a criança“.  Ela é mundialmente conhecida por ter criado o método Montessori (chamado por ela de Pedagogia Científica) e ter revolucionado a forma como a criança é compreendida e respeitada. Em quase todos os países do mundo há escolas montessorianas e diversas iniciativas educacionais revolucionárias tiveram suas bases nas descobertas de Montessori. O recente documentário Educação Proibida figura diversas escolas montessorianas, entre aquelas que visita, e entrevista pelo menos cinco professores montessorianos.

Veja um exemplo de sala montessoriana:

Nascida em 1870, em Chiaravalle, Itália, Maria Montessori, não decidiu cedo que seria educadora. Na verdade, até o final de sua graduação, estava decidia a seguir outras carreiras. Quando adolescente, apaixonada por Matemática, escolheu cursar o ensino técnico de Engenharia e, com o apoio da mãe e as reticências do pai, foi uma de duas garotas em uma escola frequentada exclusivamente por meninos. Terminou o curso com sucesso, mas então já estava decidida, para alívio de seu pai, a abandonar a Engenharia. Apaixonara-se, no entanto, por biologia, e decidira ser médica.

Novamente sua mãe, que tinha ares feministas e desejava que sua filha tivesse uma boa carreira, apoiou sua decisão. O pai não a impediu, mas não a apoiou no início. Houve necessidade de se conversar com o reitor da universidade para que uma mulher pudesse fazer o curso. Ao contrário do que se pensa, Montessori não foi a primeira mulher a se formar médica na Itália, mas a terceira. Isso, entratando, não diminui em nada seu mérito. Foi a segunda mulher a exercer a profissão de médica na Itália e durante toda a graduação sofreu a segregação típica da sociedade da época.

Entre os problemas enfrentados no curso superior de Medicina, um dos piores eram as sessões de dissecação, que ela precisava fazer sozinha, à noite, pois não podia executá-las junto com os homens da sala. Em uma de suas experiências, em uma sala abafada, abria um cadáver circundada por esqueletos e partes humanas conservadas in vitro. O cheiro do corpo que estudava a deixou tonta, e Montessori olhou em volta, com terror. Segundo ela, neste momento quase desistiu de ser médica. Para respirar um pouco de ar, foi até uma das janelas da sala, e quando lá estava, avistou na rua uma senhora caminhando, provavelmente para casa, e pensou que desejava de fato ter uma profissão diferente do magistério – destino de todas as mulheres que não se conformavam em tomar conta de casa. Consta que retornou então ao cadáver que estudava e não pensou novamente em abandonar sua carreira.

Formada, em 10 de julho de 1896, Dr.ª Montessori foi trabalhar na Psiquiatria. Em diversas visitas a asilos, percebeu que o tratamento dispensado às crianças era desumano e, em sua busca por compreender as crianças e seu desenvolvimento, chegou aos escritos de Itard, acerca de Victor, o Menino Selvagem de Aveyron. Suas pesquisas sobre Itard a levaram a Séguin, estudioso das crianças portadoas de necessidades especiais e dos tratamentos que podiam ser dispensados a elas. Montessori encantou-se sobremaneira com as informações de Séguin sobre a sensibilidade sensorial da criança pequena e com os materiais que o pesquisador havia desenvolvido. Tão encantada que, manualmente, traduziu todo um livro de Séguin para o italiano, afim de absorvê-lo em sua completude. A partir do estudo da obra de Ségui surgiram muitos dos que seriam, mais tarde, os materiais de desenvolvimento, utilizados em salas montessorianas por todo o mundo.

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Aos vinte e oito anos, Montessori defendeu no Congresso Médico Nacional, em Turim, a tese de que a causa principal dos atrasos apresentados pelas crianças portadoras de distúrbios de comportamento e aprendizagem era o seu ambiente ausente de estímulos para o desenvolvimento adequado.Data deste congresso uma das histórias famosas da vida de Montessori. Conta-se que, tendo terminado sua exposição, um médico da plateia pede a palavra e lhe pergunta: “Por que preocupa-se a senhora com estas crianças? Não sabe que elas não podem aprender?” – ao que Montessori respondeu: “Elas podem. São os senhores que não permitem”. No ano seguinte, ainda, apresentou, no Congresso Nacional de Pedagogia uma visão social e econômica baseada em medidas educacionais. [1]

Montessori envolveu-se com a Liga para a Educação de Crianças com Retardo (por forte que hoje nos pareça o nome, à época não seria considerado assim) e lá conheceu o médico Giusseppe Montesano, com quem foi escolhida para a co-direção de uma nova instituição: a Escola Ortofrênica. Ortofrenia é o nome que se dava aos processos de tratamento das necessidades especiais apresentadas pelas crianças. Nessa instituição, o trabalho prioritário era o treinamento de professores. Porém, na sala ao lado daquela destinada ao treinamento, ficavam as crianças retiradas do asilo por Montesano e Montessori, e que eram, ao mesmo tempo, alunas e objetos de pesquisa.

Nesta sala, Montessori observou que as crianças se interessavam por qualquer coisa que pudessem sentir, com qualquer um de seus cinco sentidos. Lembrando-se bem do que aprendera com a obra de Séguin, Montessori emprega osmateriais sensoriais do pesquisador, somados a algumas inovações suas. Por observação das crianças, Montessori aos poucos desenvolveu alterações nos materiais originais e criou diversos outros, novos.

Por meio da utilização desses materiais, as crianças internadas na escola aprenderam tanto e se desenvolveram tão bem, que Montessori sentiu-se confiante para inscrevê-los nos testes nacionais de educação da Itália. E nos exames, os alunos de Montessori, que enfrentavam as mais variadas dificuldades para aprender, se saíra melhor do que boa parte da população infantil italiana, que tinha a congnição perfeita e era educada em escolas normais.

Abismada diante do absurdo quadro à sua frente, Montessori pergunta-se o que há de tão errado com as escolas tradicionais, para que crianças que teriam tudo para obterem resultados excelentes nos testes se saíssem com resultaos piores do que os de suas crianças, para quem todas as atividades apresentavam imensos desafios. Assim, Montessori, que já havia cursado Pedagogia neste meio tempo, decide dedicar-se integralmente à Educação – a carreira que evitara desde menina.

Em 1901, Montessori deixou a Escola Ortofrênica e começou a estudar com maior profundidade a pedagogia e a antropologia, até que em 1904, assumiu o posto de professora da Escola de Pedagogia da Universidade de Roma, onde fica até 1908.

Quase no fim de seu período como docente, surge a oportunidade pela qual esperava para trabalhar com crianças cujo desenvolvimento não apresentava nenhuma característica especial, para poder testar sua intuição acerca do aprendizado por meio dos sentidos. Em 1907, uma empreiteira associada ao governo de Roma está construindo um conjunto habitacional popular no bairro pobre de San Lorenzo, e percebe a necessidade de se confinar as crianças em um espaço determinado, para que não sujem, pichem ou estraguem a obra comprada pelo poder público. Assim, Montessori é convidada para desenvolver o projeto educacional do local.

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Era para ser uma creche sem maiores pretensões, mas a Casa dei Bambini (literalmente Lar das Crianças) iria se mostrar o palco da maior revolução educacional do mundo. Na Casa, havia mobília de escritório cujas pernas Montessori mandara cortar, para adequar ao tamanho das crianças, e – trancados em um armário – ficavam os materiais sensoriais desenvolvidos por Montessori. Quando houve materiais suficientes para que todas as crianças pudessem usá-los todo o tempo, elas se acalmaram e mostraram-se absolutamente concentradas, tranquilas e felizes. Depois de algum tempo na Casa, Montessori aceitou, sob pressão dos pais das crianças, ensiná-las a escrever por seu método e, para sua surpresa, aprenderam tão bem que, um dia, descobriram sozinhas que “sabiam escrever” e sairam pelos quarteirões de San Lorenzo escrevendo no chão e nas paredes.

Aos dos fenômenos educacionais acima, Montessori chamou “Normalização” (chamado hoje de Equilíbrio Natural da Criança, por nós) e “Explosão da Escrita”. As duas descobertas a deixaram boquiaberta e a levaram para as capas dos jornais e revistas de todo o mundo. Com dois anos de Casa, em 1909, Montessori vai passar vinte e um dias em uma fazenda nas proximidades de Roma e lá, escreve O Método da Pedagogia Científica Aplicado à Educação Infantil na Casa das Crianças. [2] Obra de cunho absolutamente acadêmico e analítico, na qual Montessori expõe, pela primeira vez, seu método completo. Em português o livro se chama Pedagogia Científica e em inglês foi traduzido para o termo que se eternizaria, entitulado O Método Montessori.

Daí em diante, seguem-se viagens pelo mundo, nas quais Montessori miistra cursos e palestras sobre seu método, espalhando por todos os lugares as descobertas que fizera, abrindo escolas, treinando professores, escrevendo livros e publicando artigos e entrevistas por onde passava.

Em 1912, foi para os Estados Unidos, para lecionar em Nova Iorque e Los Angeles. Em 1915, apresentou na Panama Pacific International Exposition uma sala montessoriana com paredes de vidro, dentro da qual crianças e uma professora trabalhavam tranquilamente. A sala ganhou duas medalhas de ouro da feira, onde eram expostas diversas invenções e descobertas do mundo todo.

Em 1916 foi para Barcelona e manteve-se em viagens entre EUA, Barcelona e Londres até 1918. Depois deste ano, não retornou mais aos Estados Unidos. Ao que se tem registro, no fim dos anos 1920, lecionava em Londres e continuava viajando.

Maria Montessori em 1913

Em 1929, no primeiro Congresso Montessori Internacional, em Elsionre, Dinamarca, Montessori e seu filho, Mário, fundam a Associação Montessori Internacional. O objetivo da sociedade era vistoriar as atividades de escolas e sociedades por todo o mundo e supervisionar o treinamento de professores. Entre os patrocinadores iniciais desta Associação encontravam-se Sigmund Freud, Jean Piaget e Rabindranath Tagore – o último, excelente poeta indiano e Prêmio Nobel de Literatura.

Na Itália, seu método prosperava e Mussolini desejava absorvê-la para seu regime, dizendo até que “A Itália teve três grandes M, Mussolini, Marconi e Montessori”. Entretanto, ao mesmo tempo que desejava tê-la a seu lado, Mussolini diminuia a liberdade inerente às escolas montessorianas. Isso fez com que a educadora deixasse seu país natal em 1934 e todas as escolas com seu método fossem fechadas lá – o mesmo aconteceu na Alemanha hitlerista, na União Soviética e na China ditatorial. Nessa fuga, foi para Barcelona, mas em dois anos, 1936, estourou a Guerra Civil espanhola e Montessori fugiu de lá também, dessa vez para a Holanda.

Permaneceu na Holanda durante algum tempo, até que em 1939 foi chamada para dar um curso na Índia. Ela foi, mas não pode voltar como previa. Ficou, como prisioneira do exército britânico, quando estourou a Segunda Grande Guerra. Seu filho foi enviado para um campo de internação forçada até que no aniversário de setenta anos de Montessori, no ano seguinte, foi solto, a pedido de Montessori, por uma autoridade indiana. A educadora ainda teve de ficar na Índia por sete anos, no entanto, até 1946, quando pôde voltar.

Em 1947, com setenta e seis anos, Montessori falou para a UNESCO sobre “Educação e Paz” e em 1949 recebeu a primeira de três indicações ao Prêmio Nobel da Paz. Sua última atividade registrada é em 1951, com oitenta e um anos, quando participou do 9º Congresso Montessori Internacional. Em 1952, na Holanda, morreu de hemorragia cerebral, com oitenta e um anos, na companhia de Mário Montessori, seu filho, a quem deixou o legado de seu trabalho.

Abaixo, veja a linha do tempo com os principais livros publicados de Maria Montessori:

linha do tempo

Para a composição deste resumo biográfico, contamos com as informações cedidas durante o curso de formação do Centro de Educação Montessori de São Paulo. Também, utilizamos as seguintes páginas virtuais:

[1] Montessori Austrália – http://montessori.org.au/montessori/biography.htm

[2] Wikipedia – http://en.wikipedia.org/wiki/Maria_Montessori

[3] Montessori Centenary: http://www.montessoricentenary.org/photos/

> Para saber mais sobre a vida e a obra de Maria Montessori:

Filmes:

Maria Montessori: Uma Vida dedicada às Crianças

Grandes Educadores – Maria Montessori

Livros:

Maria Montessori – Coleção Educadores, publicado pelo Ministério da Educação

Maria Montessori: Her Life and Work, de E.M. Standing

Maria Montessori: A Biography, de Rita Kramer