O Cidadão Esquecido

 

Estamos em um momento que flutua entre especial e amedrontador na história do Brasil. Alguns dizem que é um momento histórico único, outros dizem que não se trata de momento histórico nenhum. Entre os extremos, tentamos encontrar um rumo, uma prioridade, uma direção para a qual remar afim de, quem sabe, encontrarmos um futuro melhor. Para Montessori, esta direção é a criança. Abaixo, traduzimos um dos documentos mais especiais da Association Montessori Internationale.
Em 1947 Maria Montessori escreveu uma carta que foi enviada a todos os governos. Excertos desta carta seguem abaixo.
Minha vida foi empreendida na pesquisa da verdade. Pelo estudo da criança eu investiguei a natureza humana em suas origens, tanto no Oriente quanto no Ocidente, e embora haja quarenta anos desde que comecei meu trabalho, a infância parece para mim uma fonte infindáel de revelações e – permitam-me dizer – de esperança.
A infância me mostrou que a humanidade é uma só. Todas as crianças falam – não importam sua etnia ou as circunstâncias de sua família – mais ou menos na mesma idade. Os dentes mudam etc, em períodos fixos de sua vida. Em outros aspectos também, especialmente no campo psíquico, são assim semelhantes, assim sensíveis.
As crianças são as construtoras dos seres humanos que edificam, adquirindo do ambiente a linguagem, a religião, os costumes e as peculiaridades não só de sua etinia, não só da nação, mas até do bairro da cidade onde se desenvolvem.
A infância constrói com o que encontra. Se o material é pobre, a construção também é pobre. No que concerne à civilização, as crianças estão no nível dos caçadores-coletores.
Para edificarem a si mesmas, devem pegar por acaso o que quer que encontrem no ambiente.
A criança é o cidadão esquecido, e ainda assim, se os governantes e os educadores viessem a reconhecer a força incrível que existe na criança – para o bem e para o mal – eu sinto que eles dariam à infância prioridade sobre todo o resto.
Todos os problemas da humanidade dependem do ser humano; se o ser humano não for considerado em sua construção, os problemas jamais serão resolvidos.
Nenhuma criança é Bolchevique, ou Fascista, ou Democrata. Todas elas se tornam o que as circunstâncias ou o ambiente fazem delas.
Em nossos dias, quando, apesar das terríveis lições de duas guerras mundiais, o futuro parece tão negro quanto sempre foi, eu sinto em meu íntimo que um outro campo deve ser explorado, além daqueles da economia e da ideologia. É o estudo do SER HUMANO – não da pessoa adulta sobre a qual todo apelo é vão. Ela, insegura economicamente, permanence confusa no turbilhão de ideias conflitantes e atira-se, ora para um lado, ora para outro.
O ser humano deve ser cultivado desde o início da vida, quando os grandes poderes da natureza estão agindo. É então que se pode esperar um planejamento para uma melhor compreensão internacional.
—–
Aos que desejarem saber a posição política do Lar Montessori, é a que segue:
A criança é o cidadão esquecido, e ainda assim, se os governantes e os educadores viessem a reconhecer a força incrível que existe na criança – para o bem e para o mal – eu sinto que eles dariam à infância prioridade sobre todo o resto.

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