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Arquivo da categoria: Traduzidos

O Seu Cérebro, o Cérebro do Seu Filho, e o que Fazer com Isso.

O texto que segue é uma tradução do artigo “Your Brain, Your Child’s Brain and What To Do About It”, do blog Montessori on the Double, escrito por Stephanie Woo. Nós buscamos a autorização para tradução e não recebemos resposta. De forma que, se em algum momento for exigido, esse texto sairá do ar imediatamente. Enquanto isso, optamos por trazê-lo à língua portuguesa pela qualidade das informações e a clareza de exposição de sua escrita. Veja o artigo original e o excelente Montessori on the Doube aqui.

A criança pequena tem um cérebro diferente do nosso. Digamos, totalmente diferente. E sim, é provado cientificamente.

Um exemplo: no ambiente correto, as crianças podem aprender até quatro línguas ao mesmo tempo, e entender todas elas aos três anos de idade. Como temos cérebros diferentes, aprendemos diferente. As crianças absorvem tudo de seu ambiente – sem esforço, facilmente, incoscientemente Nós, infelizmente, não aprendemos assim.

Um cérebro não é melhor que o outro. Mas como você pode ver, somos totalmente diferentes. Aqui vai outro exemplo:

As crianças são aprendizes sensoriais. Isso significa que aprendem por meio de seus sentidos. Uma criança que rasga um livro está fascinada pelas sensações do papel rasgando e amassando em suas mãos. A criança que coloca seus dedos no copo e mexe está experimentando mexer com água. A criança que faz bagunça com a comida o faz porque está aprendendo a comer.

Agora, de nosso ponto de vista, do ponto de vista dos pais que precisam colar as páginas do livro, enxugar a água, limpar a bagunça (e também todas as outras coisas que precisamos fazer como pais), pode parecer que ele está bagunçando, fazendo tudo de propósito ou, talvez, ela seja mimada e “ruim”. Com nossas mentes lógicas, racionais, adultas, supomos esse tipo de coisas.

Temos então o cérebro da criança – e temos o cérebro do adulto. Dois cérebros absolutamente distintos, tentando co-existir.

Como o adulto é maior, a Mamãe e o Papai podem dominar a criança fisicamente e removê-la daquilo que não desejam que ela faça. Mas a criança… A criança tem uma motivação interna para aprender. De fato, essa força interior é tanta, tão profunda, tão instintiva, que toda sua existência depende dela. Assim, só para você saber, dá próxima vez que ela tiver uma chance, vai fazer tudo de novo.

Então, essencialmente, temos duas possibilidades de escolha. Podemos dominar a natureza da criança (e assistir enquanto nossas rugas e cabelos brancos se multiplicam) OU nós podemos nos alinhar a ela.

Aqui vai o que aconteceu comigo há algum tempo. É hora do banho. B e M estão brincando na banheira com seus potinhos, passando a água de um pote ao outro. Bom, alguém teve a ideia genial de derramar água fora da banheira. Da primeira vez que isso aconteceu, meu marido entrou gritando: “Sem água fora da banheira!” e depois tirou os dois do banho e “os fez” limpar tudo (à exceção das crianças de dois anos, os pequenos adoram limpar e pegaram ansiosos as toalhas para limpar – então não foi a punição que o Mark tinha em mente).

Claro que isso não os impediu de repetir no dia seguinte (e no outro) quando nós, de novo, os tiramos do banho prontamente, apontamos nossos dedos para eles e aumentamos o volume de nossas vozes, para ensinar uma lição aos dois.

Até que eu entendi: eles adoram água. Adoram despejar água. Tentar pará-los é como tentar fazer uma semente não crescer ou fazer o sol não nascer de manhã.

Então decidi, em lugar de impedir, alinhar-me com a Natureza.

No dia seguinte, quando as crianças estavam na banheira, eu peguei uma lata de lixo grande e vazia e a coloquei do lado da banheira. Disse a elas: “Se vocês quiserem despejar água, podem fazê-lo dentro desta lata de lixo. Vamos ver se conseguem fazer isso sem derramar nada no chão!”.

Funcionou. Eles imediatamente encheram a grande lata de lixo com copos da água da banheira. E de forma cuidadosa. Então eu despejei a água no vaso sanitário. E eles procederam a encher o balde de novo. Antes de o encherem pela segunda vez até a metade, já tinham perdido o interesse e estavam brincando com seus animais marinhos.

As crianças vão querer brincar com água o tempo todo. Vão trabalhar com gotas, vão pegar, esfregar e agarrar enquanto comem. Vão querer tocar tudo. Vão correr e subir em tudo. Vão cantar e falar alto, mesmo quando for inapropriado. É sua Natureza. Você pode desmoronar sobre eles, pode puni-los, manipulá-los, distraí-los (e admito que haverá momentos em que você pode ter que fazer essas coisas). Mas considere trabalhar com a Natureza, pelo menos na maior parte do tempo.

Encontre formas criativas de satisfazer as necessidades das crianças. Elas vão seguir sua natureza, queira você ou não. Então encontre um caminho para que elas POSSAM fazer o que querem – permita que caminhem livremente em um novo ambiente (eles conseguem aprender a ficar longe de perigo e a manusear objetos frágeis), dê-lhes o que escalar em casa, dê-lhes pilhas de papel para rasgar, deixe que brinquem por mais vinte minutos com o chuveiro, a pia, a banheira etc.

Quando você se ouve dizendo “Não!” ou “Não faça isso!”, na maior parte das vezes, suspeito eu, é porque você não está alinhado à Natureza da criança. Então, o que quer que você tenha de fazer, encontre uma forma de se alinhar, meu amigo. É seu caminho para a paz e a sanidade.

Nosso presente para você

Neste ano, fizemos muito. Nós, do Lar Montessori, e vocês, dos lares montessorianos. Juntos, nós espalhamos Montessori para milhares de pessoas, grupos em redes sociais multiplicaram-se e cresceram aos milhares em números de membros. O Lar foi visitado mais de 150.000 vezes, e chegamos a receber 2.000 leituras em um só dia. É motivo de alegria imensa saber que, em um novo fôlego, Montessori desperta tanto interesse no Brasil. É pouco ainda, para o que queremos, mas é uma boa nova digna de comemoração.

Acreditamos que, no ano que passou, cumprimos nosso dever –

ou quase. Não escrevemos tanto quanto gostaríamos, nem realizamos as entrevistas que tensionávamos. Entretanto, conseguimos publicar um vídeo por semana, sobre os capítulos do livro Mente Absorvente, de Maria Montessori e, se você nos acompanhou com a leitura semana a semana, já conhece uma das maiores obras de da fundadora de nossa tradição de pesquisa e educação. Conseguimos, também, quase sempre, escrever um texto por semana, e diversos deles atenderam a pedidos que vieram diretamente de nossos leitores. Então, se há um tema sobre o qual você gostaria de ler em 2014, diga a nós nos comentários deste texto. Por fim, conseguimos realizar o primeiro curso de Introdução ao Método Montessori para famílias e já tivemos até um curso de aprofundamento – Fortaleza, neste sentido, é protagonista.

A agenda de 2013 está acabando, e temos mais dois textos a publicar: um sobre excesso e falta de estímulo para a criança, em casa, e outro finalizando a história dos inícios do método Montessori. No ano que vem, terminaremos nossa longa série sobre os períodos sensíveis e revisitaremos alguns dos temas mais populares do Lar, como a disciplina, a imaginação e a preparação dos ambientes. Pretendemos, também, finalmente lançar o Lar Montessori em inglês e publicar, ao menos em formato digital, uma obra introdutória ao método Montessori.

Você nos presenteou de muitas maneiras ao longo deste ano. Você nos leu, nos recomendou, você aplicou os saberes dos quais somos somente disseminadores, e não mais. Você levou a cabo a tarefa entregue por Maria Montessori ao mundo, mais de cem anos atrás. Você adaptou sua casa às necessidades do seu filho e iniciou o processo de transformar-se em um adulto melhor para ele. Você, todos os dias, o observa atentamente, registra suas observações em papel, compara-as e decide, com base em suas observações, o que fazer. Você decidiu mudar o mundo e aceitou, gentil e generosamente, nossa ajuda para isso. Você, todos os dias, de manhã à noite, se esforça por tornar a vida de seu filho melhor e para, assim, melhorar toda a civilização. Você nos presenteia com um futuro belíssimo construído por suas crianças e nos permite acompanhar você, como portadores de uma sugestão de mapa e de uma bússola.

Você nos permitiu transmitir conhecimentos fundados por Montessori de muitas formas esse ano, e para receber todos estes presentes no ano que vem é que continuaremos a trabalhar. Antes deste ano acabar, lembre-se de retornar à nossa página para ler os últimos textos de 2013.

Escolher o seu presente foi difícil. Nós não saberíamos retribuir com um presente à altura, e não saberíamos demonstrar nossa gratidão de forma suficiente. Por isso, e como sempre fazemos quando tudo fica difícil demais, retornarmos aos escritos de Maria Montessori. Nosso presente para você, neste final de ano, é a mensagem que Montessori deixou ao mundo:

O trabalho da criança não é nada mais, nada menos, do que a construção da humanidade! Dia após dia, hora a hora, de minuto a minuto, esse incessante trabalho continua. Não pode haver intervalos em suas atividades, pois isso significaria a morte. Ela deve superar todos os obstáculos em seu caminho, deve  vencer todas as dificuldades.

A humanidade, inconsciente do que faz a criança, bloqueou seu caminho de desenvolvimento com incontáveis dificuldades, de forma que o trabalho da criança através dos tempos foi retardado por gritos de lamentação e abafado por lágrimas.

Agora que sabemos o que ela sofre, agora que entendemos as consequências fatais de frustrar esse desenvolvimento que vem a formar o homem, fomos despertados à consciência de uma nova forma de cruzada social – uma campanha social em nome dos mais nobres dos seres, os menos protegidos de todos os trabalhadores – a criança.

Que a humanidade desperte! Que dê à criança condições de viver como necessita – se deve conquistar seu dever – que é sagrado – não mais por entre conflitos e lamentos, mas cheia de alegria, e auxiliada pela sociedade em que vive.

Desejamos a todos os nossos leitores As Melhores Festas, um final de ano belíssimo e um 2014 repleto de Paz, em sua casa, em sua vida, e na vida de todas as crianças com quem você convive – que possamos, o mais logo possível, estender esta Paz a todas as crianças da Terra.

Com votos de esperança, determinação e vontade,

Obrigado,

Lar Montessori

O Caminho dos Pais Pacíficos

O texto abaixo foi escrito por Leo Babauta, autor do blog Zen Habits. Leo é um dos bloggers mais conhecidos do mundo e escreve sobre a preparação espiritual do adulto. Ele defende um estilo de vida saudável no qual ser é mais importante que ter. Nós, do Lar Montessori, concordamos com quase tudo o que ele sugere e por isso decidimos traduzir este texto para nossos leitores. Os artigos do Zen Habits são abertos e livres de direitos autorais (a gente chega lá).

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O Caminho dos Pais Pacíficos

Não existe criação de filhos que seja livre de tensão. Um leitor pediu que eu compartilhasse meus pensamentos acerca de uma vida com crianças sem estresse, sendo pai de seis filhos. E embora eu tenha aprendido muito sobre ser pai, sobre encontrar alegria na paternidade, eu também sei que paternidade sem estresse não existe. Pais sempre terão tensões: nós não só temos de lidar com os escândalos, com os joelhos ralados e com a recusa a comer qualquer coisa que você prepare, mas temos de nos preocupar com acidentes, com a possibilidade de estarmos destruindo nossos filhos, com a dúvida sobre se eles serão felizes quando adultos, se conseguirão se sustentar e encontrar o amor. Isto dito, eu aprendi que é possível encontrar a paz. A paz não é um ponto sem estresse, mas um ponto em que você aceita o estresse que chega, enfrenta o desafio, e não deixa que ele se sobreponha a você. Você deixa que ele passe por você, e então você sorri, respira, e dá um abraço em seu filho. Existe um Caminho dos Pais Pacíficos, mas eu ainda não o aprendi completamente. Compartilharei o que aprendi até agora, com a ressalva de que eu nem sempre sigo o Caminho, de que eu ainda cometo erros diariamente, de que eu tenho muito para aprender e de que eu não afirmo ter todas as respostas como pai.

O Caminho

O Caminho só é compreendido quando se caminha nele. Aqui estão os passos que eu recomendo:

  • Cumprimente seu filho todas as manhãs, com um sorriso, um abraço, e um amável Bom Dia! É assim que deveríamos todos ser cumprimentados dia a dia.
  • Ensine seus filhos a fazerem seus próprios cafés da manhã. Isso pode começar quando eles tiverem 3 ou 4 anos. Ensine-os progressivamente a escovar seus dentes, tomar banho sozinhos, limpar seus quartos, guardar suas roupas, lavar sua louça, fazer o almoço, lavar suas roupas, limpar e tirar pó…
  • Ensinar estas habilidades às crianças exige paciência. No início eles são péssimos com essas coisas, então você precisa mostrar umas cem vezes, mas deixe-os fazer, corrija se necessário e deixe-os errar. Eles gradualmente aprenderão a ser independentes e você terá menos trabalho cuidando deles.
  • As crianças mais velhas podem aiudar as mais novas – e é bom para elas que aprendam a ser responsáveis, ajuda a criança mais nova a aprender da mais velha e tira um pouco da tensão das suas costas.
  • Leia para eles com frequência. É uma ótima maneira de criar laços, de educar, de explorar mundos imaginários.
  • Esforcem-se em conjunto. Brinquem de esconde-esconde, brinquem de pega-pega. tomem um lanche juntos, façam sucos. Brinquem com frequência porque a brincadeira é a essência da infância. Não tente forçá-los a parar de brincar.
  • Quando seu filho pedir atenção, garanta que ele receba.
  • Os pais precisam se tempo sozinhos. Acertem alguns rituais, de forma que você tenha tempo para trabalhar sozinho, tempo para a mamãe e o papai à noite, quando seu filho estiver fazendo algo sozinho.
  • Quando seu filho estiver chateado, coloque-se no lugar dele. Não julgue seu comportamento (é, chorar e gritar não é ideal), mas investigue as necessidades por trás deste comportamento. Ele precisa de atenção, de um abraço, ou só está cansado?
  • Demonstre o comportamento que você deseja que seu filho aprenda. Não grite com ele porque ele estava gritando. Não fique bravo com ele por ele perder a calma. Não fique bravo com uma criança que quer brincar no vídeo-game o dia todo se você está sempre no laptop. Seja tranquilo, seja gentil, saia com seu filho e seja ativo.
  • Quando algo complicado acontecer, e acontece, aprenda a lidar com um sorriso. Brinque, faça jogos, dê risada… Você ensinará seu filho a não levar tudo tão a sério, e que a vida deve ser aproveitada. Respire, saia de perto se você perdeu a calma, e volte quando você puder sorrir.
  • Lembre-se de que seu filho é um presente. Ele não será uma criança por muito tempo, o tempo de vocês juntos é fugaz. Cada momento que você puder estar com as crianças é um milagre, e você deve aproveitá-los. Curta ao máximo, e seja grato por cada momento.
  • Permita que seus filhos compartilhem de seus interesses. Façam biscoitos, costurem, façam exercícios, leiam, trabalhem juntos em projetos, escrevam um blog em grupo.
  • Saiba que quando você for um fiasco como pai, vai ficar tudo bem. Perdoe-se. Peça desculpas. Aprenda com o fiasco. Em outras palavras, demonstre qual o comportamento que as crianças devem aprender quando elas cometem fiascos.
  • Ensine pacientemente aos seus filhos os limites do comportamento. Deve haver limites – o que é aceitável e o que não é. Não é “tranquilo” fazer algo que machuque a você mesmo ou aos outros. Devemos tratar aos outros com gentileza e respeito. Estas não são coisas que a criança aprende imediatamente, então tenha paciência, mas coloque limites. Dentro destes limites, dê toda a liberdade possível.
  • Dê uma folga para seu filho. É muito comum que os pais lotem as vidas as crianças com aulas, esportes, dias de brincadeiras, música, clubes e coisas do tipo. Mas é difícil e estressante para a criança e para o adulto manter uma rotina assim. Deixe que a criança vá brincar lá fora. Tempo livre é necessário. Você não precisa estar ao lado dela o tempo todo também – ela precisa de um tempo sozinha exatamente como você.
  • Exercícios ajudam a lidar com o estresse. Correr sozinho é maravilhoso. Receba massagens de vez em quando.
  • Ajuda muito se os pais forem um time – um de vocês pode assumir quando o outro estiver tenso demais. Quando um de vocês perder a calma, o outro deve ser uma companhia revigorante que auxilie a readquirir a tranquilidade.
  • Mamãe e papai precisam de uma noite para namorarem mais ou menos uma vez por semana. Deixe que alguém de confiança cuide de seus filhos ou ainda, ensine os mais velhos a cuidar dos mais novos.
  • Cantem e dancem juntos.
  • Aproveite todas as oportunidades para ensinar gentileza e amor. É a melhor lição.
  • Dê um beijo de boa noite em seu filho. E agradeça por mais um dia com essa criança linda, única e maluquinha.

Carta do Building the Pink Tower

   Alguns grupos no mundo estão trabalhando com força para espalhar o método Montessori para mais escolas e mais crianças. Um dos grupos com o trabalho mais belo é o Building the Pink Tower. Eles estão montando um documentário interessantíssimo e muito tocante sobre as Casas das Crianças – as salas de aula montessorianas para crianças de zero a seis anos.
   Depois de ver o belíssimo trailer no Facebook, entrei em contato com eles e pedi uma carta. Fiz um pedido especial: precisava ser uma carta que contasse a vocês a beleza da aplicação de Montessori em casa. Vina Kay, Co-Diretora do projeto, enviou-me a carta abaixo. O Lar Montessori apoia este projeto e insiste: apoie você também! Vamos construir o futuro da educação!
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    Na primeira vez que entrei em uma sala Montessori, fui levada pela paz e pela beleza do ambiente, e pelo sussurro quase silencioso das crianças ocupadas com seu trabalho. Eu soube imediatamente que era isso o que eu desejava para meus filhos. Levando meu filho mais velho para a Casa das Crianças todos os dias, indo com meu filho menor para a sala dos bebês do outro lado do corredor, eu também absorvia o ambiente. A luz suave, as cadeiras pequenas, as bandejas cuidadosamente arrumadas com os materiais – era tudo belo para mim.
    O que percebo agora é que o ambiente vivido por meus filhos na escola era exatamente o mesmo que eu criava instintivamente em casa. Os dois se sustentavam e ajudavam-se mutuamente. O mundo pelo qual eu ansiava para meus filhos – calmo, respeitoso, gentil – era o mesmo mundo que eles viam na escola. Assim foi fácil continuar a experiência interagindo com eles em casa e estruturando nosso ambiente doméstico.
    Comecei a dar a eles pequenas tarefas que podiam executar: colocar a mesa, despejar água, limpar o espelho do banheiro. Juntos fizemos massa de biscoito e pão sovado. Essas atividades de nosso dia-a-dia eram valorizadas como trabalho importante no ambiente Montessori. Maria e eu estávamos nos ajudando!
    Havia obstáculos, claro. Quando eu perguntava a meu filho por que ele não guardava seus brinquedos em casa no final do dia do mesmo jeito que guardava seus trabalhos na escola, ele respondeu: “Na escola tem um lugar certo para tudo”. Depois de um momento de reflexão, eu vi o que precisava fazer para organizar nossos armários e prateleiras. Precisava ajudá-lo a ter um ambiente que facilitasse guardar as coisas.
    Hoje, meus filhos já são adolescentes, e ainda estamos tentando descobrir uma forma de guardar as coisas, mas todos nós crescemos e nos beneficiamos da educação Montessori. Agora, eu quero compartilhar a mensagem de que uma educação para criatividade, colaboração e paz pode ser acessível a todas as crianças. A criação um mundo mais pacifico, e não só os resultados da próxima avaliação, serão nossa forma de medir o sucesso da educação.
    Building the Pink Tower (Construindo a Torre Rosa) é um projeto de documentário que objetiva reimaginar a escolar e o aprendizado pelas lentes da educação Montessori. O título de nosso projeto parte do trabalho dos pequenos estudantes das Casas das Crianças que cuidadosa e metodicamente constroem algo belo com simples blocos cor-de-rosa. Sabemos que muita reflexão e planejamento foram necessários para apresentar às crianças esses blocos cor-de-rosa, e da mesma maneira, reconhecemos a vontade e o esforço necessários para abrir as portas a uma educação significativa.
    Acreditamos que um documentário que conte a história da educação e do aprendizado de forma bela, que leve os espectadores até salas de aula confortáveis e acolhedoras, que capture as vozes e expressões de crianças fazendo suas próprias descobertas, seja a melhor forma de mostrar ao mundo o potencial da educação Montessori. Nosso projeto levará algum tempo, e esperamos construir mais que um filme ou um debate: um movimento de paixões compartilhadas para tornar a educação significativa para as crianças. Acreditamos que a educação tem um futuro.
    Junte-se a nós neste movimento. Há muitas formas de ajudar. Precisamos de recursos para tornar este filme tão belo quanto a educação que desejamos para todas as crianças. Visite nosso website e faça uma doação. Assista ao nosso trailer e compartilhe com outros, boca-a-boca, por redes sociais e em reuniões. Curta nossa página no Facebook , siga-nos no Twitter, conheça-nos no Google+ e seja uma voz nesta conversa. Compartilhe nossa visão de educação.
 
Vina Kay
Co-Produtora/Co-Diretora
Building the Pink Tower




Os vídeos do Building the Pink Tower estão disponíveis no YouTube e no Vímeo, nos endereços abaixo:
Trailer no Vimeo: http://vimeo.com/39504864
Um olhar sobre uma sala Montessori: http://www.youtube.com/watch?v=S0HlI7dmOzU

Manual do Proprietário de uma Criança Montessori

Texto de Donna Bryant Goertz, disponível em http://mariamontessori.com/mm/?p=1674 – Tradução de Gabriel Merched Salomão distribuída com autorização da autora

Queridos pais,

Eu quero ser como vocês. Eu quero ser exatamente como vocês, mas quero me tornar como vocês do meu jeito, no meu tempo, pelos meus esforços. Quero assistir a vocês e imitar vocês. Eu não quero ouvir vocês, a não ser por umas poucas palavras de cada vez – a menos que vocês não saibam que eu estou ouvindo. Eu quero trabalho, quero realmente me esforçar com algo muito difícil, algo que eu não consiga fazer imediatamente. Eu quero que vocês deixem o caminho livre para os meus esforços, e quero que me dêem os materiais e ferramentas necessárias para que o sucesso seja possível depois das dificuldades iniciais. Eu quero que vocês me observem e vejam se eu preciso de uma ferramenta melhor, um instrumento mais do meu tamanho, uma escada mais alta e mais segura, uma mesinha mais baixa, uma caixa que eu mesmo possa abrir, uma estante mais baixa, ou uma demonstração mais clara de algum processo. Eu não quero que vocês façam para mim, ou me apressem, sintam pena ou me parabenizem. Só fiquem calmos e me mostrem como fazer as coisas devagar, muito devagar.

Eu vou querer fazer um trabalho todinho de uma vez e sozinho porque eu vejo vocês fazendo, mas isso não funciona para mim. Sejam firmes e coloquem limites para mim nessa hora. Eu preciso que vocês me dêem pequenas partes do trabalho inteiro e me deixem repetir de novo e de novo, até que eu faça tudo perfeitamente. Vocês dividem o trabalho em partes que serão muito difíceis, mas possíveis de fazer com bastante esforço, com muitas repetições e com muita concentração.

Eu quero pensar como vocês, comportar-me como vocês, e ter os mesmos valores que vocês. Eu quero conseguir tudo isso pelo meu trabalho, imitando vocês. Falem devagar. Usem poucas e sábias palavras; Movimentem-se devagar; Façam as coisas em câmera lenta para que eu possa absorvê-las e imitá-las.

Se vocês confiarem em mim e me respeitarem, preparando meu ambiente doméstico e me dando liberdade dentro dele, eu vou me disciplinar e cooperar com vocês mais pronta e frequentemente. Quanto mais vocês se disciplinarem, mais eu vou me disciplinar. Quanto mais vocês obedecerem as leis do meu desenvolvimento, mais eu obedecerei vocês.

Nós temos tanta sorte, eu e vocês, que dentro de mim haja um plano secreto para o meu jeito de ser como vocês. Eu sou guiado pelo meu plano secreto. Eu sou feliz e estou seguro o seguindo. É irresistível para mim. Se vocês interferirem com o trabalho de me revelar de acordo com meu plano secreto e tentarem me forçar a ser como vocês do jeito de vocês, no tempo de vocês e pelo esforço de vocês, eu vou esquecer de trabalhar no meu plano secreto e vou começar a lutar contra vocês. Eu decidirei levantar guerra contra vocês e contra tudo o que vocês defendem. É minha natureza. É meu jeito de me proteger. Podem chamar isso de integridade.

Dependendo da minha personalidade, eu promoverei uma guerra mais aberta ou mais encobertamente. Eu brigarei mais ativa ou passivamente. Uma quantidade imensa de minha energia, do meu talento e inteligência será desperdiçada. Vocês vão ganhar no final, provavelmente, mas eu serei só uma versão mais fraca, uma substituição pobre, um molde tosco daquilo que eu sou capaz de ser, e vocês vão ficar exaustos. Por favor, aliviem a tensão para todos nós preparando o ambiente em casa para que eu possa executar meu trabalho de criar um ser humano e vocês possam se manter no trabalho de educar um. Eu farei o que faço melhor e vocês farão o que fazem melhor.

Eu sou capaz de ser o melhor exemplo de suas melhores qualidades e valores expressos do meu jeitinho. Se vocês prepararem a casa cuidadosa e completamente para mim, mantiverem meus materiais em ordem e em bom estado, colocarem limites claros e firmes, derem-me períodos longos e lentos para trabalhar no meu plano secreto, eu farei o trabalho de desenvolver um novo ser humano – eu! Eu mencionei que preciso dos materiais em todos os ambientes da casa? Eu preciso de materias disponíveis para acesso rápido e fácil, sempre que eu estiver em casa e onde quer que vocês estejam. Eu preciso ter a opção de trabalhar e brincar perto de vocês. Na maior parte do tempo, eu preciso fazer as atividades perto da estante ao qual elas pertencem para que eu crie o hábito de guardá-las depois de usar.

Meu plano secreto para me desenvolver é executado totalmente pela mão – mãos, digo, as minhas duas, para ser exato. Eu sou um bom artista, um excelente artesão e preciso das melhores ferramentas e materiais. Não me dê coisas inúteis e em excesso, só uns bons materiais que sejam completos e estejam em bom estado. O excesso é pior que desnecessário; é perturbador. Atrapalha meu processo criativo. Me deixa irritado e eu coopero menos com vocês. Eu sei que é difícil de acreditar que por meio das atividades que eu escolho e executo independentemente e em estado de profunda concentração eu esteja desenvolvendo meu caráter, mas é verdade. Eu não posso fazer um bom caráter com um excesso de coisas inúteis e no meio da bagunça.

Minha casa é meu estúdio e meu ateliê, então por favor, certifiquem-se de que ele seja calmo e pacífico. Coloquem músicas leves e tranquilas para tocar enquanto eu estiver acordado. Assistam televisão só depois que eu estiver dormindo. Enquanto estou acordado, faço todo o barulho de que preciso. Ah, e eu preciso que tudo fique em ordem. Eu não posso dar o melhor de mim na bagunça. Eu não sei como ordenar as coisas sozinho, mas eu preciso da ordem, então eu preciso que vocês arrumem tudo para mim pelo menos três vezes por dia. Se vocês ordenarem as coisas para mim de um jeito prático e que seja esteticamente prazeroso e faça sentido para o meu raciocínio lógico, eu vou, devagarinho, imitar vocês mais e mais.

Em algum momento, vocês poderão me mandar colocar as coisas no lugar sozinho, quando eu tiver uns seis anos, desde que vocês se lembrem de checar tudo comigo até os nove anos. Eu não consigo lidar com o acúmulo de um dia inteiro de coisas para guardar, e muito menos o de uma semana inteira. Eu certamente nunca serei capaz de lidar com um mês de bagunça. Se vocês se distraírem e esquecerem de me ajudar a guardar tudo durante o dia e a bagunça se acumular, vocês vão ter que guardar tudo à noite.

Eu odeio ser tão exigente, mas eu preciso ter todos os meus objetos organizados e dispostos em conjuntos completos que eu possa alcançar, de forma que eu possa pegá-los sozinho. Se eu tiver de pedir para vocês toda vez que precisar de alguma coisa, eu vou começar a me sentir um capitão, um general ou um inválido chorão. Parem e pensem, eu realmente poderia assumir um ou outro desses papéis. Nenhum de nós deseja isso. Eu preciso de independência como eu preciso de oxigênio. Ela me faz apresentar o melhor de mim. O tempo que vocês gastam organizando meu ambiente será o tempo que vocês economizarão não tendo que lidar com meu lado petulante, rebelde e teimoso.

A televisão é uma grande interrupção no meu desenvolvimento. Desculpe! Eu sei que vocês não querem ouvir isso: eu preciso de muitas atividades manuais e preciso de muito tempo de processamento. A TV me distrai das atividades mais importantes e enche minha cabeça com mais do que eu tenho tempo para processar. Leiam para mim todos os dias, porque a leitura vai devagar, e me dá tempo para processar junto. A TV me amontoa com mais do que eu sei usar, então ou eu desligo ou fico frenético. Eu sei que vocês podem achar que alguns programas são bons para mim, e vocês podem achar que merecem a folga que a TV dá para vocês, mas nós todos pagamos um preço alto para cada meia hora que eu assistir.

Eu não resisto à TV, mas tudo bem, porque qualquer criança de três a seis anos tem pais, e é para isso que os pais servem. A TV me deixa distraído, irritado, e me faz não cooperar com vocês. Quanto mais eu assistir, mais eu quero assistir, e aí surgem problemas entre nós. Se vocês não conseguem dizer não para o hábito de ver TV agora, onde está meu exemplo para dizer não para outros maus hábitos mais tarde? Além disso, quanto mais eu vejo TV, menos eu quero ser como vocês. Lembrem-se, eu imito o que assisto. Ah sim, cuidado também com os jogos de videogame e computador pelos quais eu vou implorar e que todos os meus amigos têm. Sei que vocês conseguem!

Geralmente, eu vou estar tão concentrado nos meus trabalhos e brincadeiras que não vou ouvir vocês quando falarem comigo. Não piorem as coisas falando de longe ou repetindo o que vocês disseram. Abaixem-se até o nível dos meus olhos, pertinho do meu rosto, consigam minha atenção e olhem nos meus olhos antes de falar. Então, façam das suas palavras poucas, firmes e respeitáveis. Vocês vão economizar muito sofrimento desnecessário se lembrarem de fazer assim. Eu sei que não vai ser fácil lembrar, mas se vocês se esforçarem bastante, podem fazer disso um hábito. Afinal, se vocês não fizerem o que devem, como podem esperar que eu faça o que devo?

Se você não tiverem tempo, energia ou, odeio dizer isso, autodisciplina para seguir aquilo que vocês dizem, não digam. Ameaças vãs e promessas vazias me fazem desprezar vocês. Vocês ficam parecendo bobos, arbitrários e fracos. Eu sei que eu ajo como se quisesse conduzir o universo sozinho, mas é só bravata. Eu realmente preciso de pais para conduzirem meu mundo. Quando eu não posso confiar que vocês querem dizer o que dizem, eu não posso acreditar em vocês. Isso me faz sentir inseguro e eu chego a alguns extremos. É assustador porque eu amo vocês demais. Eu preciso respeitar vocês e acreditar que vocês querem dizer o que dizem. Vocês são a parte mais importante do meu ambiente em casa.

Vocês se alegrarão de saber que parte do meu plano secreto pede que eu ajude com a casa e o jardim. Não, não pode ser quando vocês quiserem, quando vocês tiverem tempo ou estiverem com vontade. Tem que ser quando eu me interessar. Desculpe, não dá para negociar isso. Afinal, sou eu quem está criando um ser humano aqui. Vocês só estão educando um. Bom, eu acho que não serei de nenhuma ajuda, na verdade, não imediatamente ou diretamente. Vai ser uma complicação. Eu preciso do equipamento no tamanho certo, de demonstrações cuidadosas e de muito tempo e paciência.

Assim que eu tiver dominado uma habilidade, e me tornar capaz de realmente ajudar, vou cansar e escolher não fazer aquilo de novo. Aí eu vou querer aprender algo novo, que exija ainda mais habilidade e desenvoltura e vocês vão ter de começar tudo de novo. Isso vai acontecer mais ou menos uma vez por semana pelos próximos seis anos e vai ocupar bastante do seu tempo tão valioso e escasso. No longo prazo, no entanto, vai ser de grande ajuda, porque eu vou me sentir tão envolvido com a casa e com a família que serei muito mais razoável e cooperativo quanto aos nossos valores e regras. Eu também serei tão capaz, independente e auto-suficiente quando eu tiver uns nove anos que é bastante razoável esperar que eu faça minha parte na casa e no jardim. Eu terei desenvolvido obediência.

Eu sei que minhas necessidades são grandes e muitas. Eu sei que estou pedindo muito de vocês, mas vocês são tudo que eu tenho de verdade. Eu amo vocês e eu sei que vocês me amam além da razão e dos limites. Se eu não puder contar com vocês, com quem eu contarei? Mas não vamos fantasiar. Não precisa ser perfeito. Eu sou forte e resistente. Eu sobreviverei e farei o melhor. Só achei que vocês poderiam querer ter o capítulo sobre Cuidados Básicos com o Ambiente Doméstico do Manual do Proprietário sobre uma Criança Montessori. Vocês podem fazer os próximos três anos serem muito mais divertidos para nós todos se cuidarem de mim conforme minhas necessidades. Ei, nós podemos combinar que vamos satisfazer 50% das minhas necessidades? Ok, Ok, 25% e não se fala mais nisso.

Amor, abraços e beijos,

Seu filho de três a seis anos.

 

PS: Eu sei que tenho muita sorte. Não são muitos os filhos cujos pais vão realmente ouvir e atentar para suas necessidades em vez de ceder às teimosias e chororôs. Talvez eles temam que seus filhos deixem de amá-los. Talvez temam que seus filhos não sejam populares. Eu vou guardar isso para o Capítulo Seis.

Quanto mais eu assistir TV, mais eu vou reclamar por tédio, porque aos poucos eu vou perder minha tendência natural a seguir meus Períodos Sensíveis – sabem, aquela atração a certas atividades durante períodos determinados do desenvolvimento. Sem a interferência da TV, uma incansável sensação de insatisfação criativa me leva a explorar o ambiente, focar minha atenção em uma atividade, concentrar-me nela, e repeti-la. Sob a influência da TV, a mesma sensação incansável se torna um monstro de cara feia chamado “tédio”, que tiraniza a vocês e a mim, desgasta nossa relação e compromete meu melhor desenvolvimento.

 

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Donna Bryant Goertz, fundadora da Austin Montessori School, em Austin, Texas, atua  como uma fonte para escolas ao redor do mundo. O livro de Donna, “Children Who are Not Yet Peaceful: Preventing Exclusion in the Early Elementary Classroom” baseia-se em seus trinta anos de experiência guiando uma comunidade de trinta e cinco crianças entre seis e nove anos. Ela recebeu seu diploma de Ensino Básico Montessori da Fondazione Centro Internazionale Studi Montessoriani, em Bérgamo, Itália, e seu diploma de assistente para a infância pelo The Montessori Institute of Denver, no Colorado.