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Arquivo da categoria: Por Maria Montessori

Textos de Maria Montessori sobre educação, a Casa das Crianças, Paz e muitos outros temas.

Sobre os Princípios do Educador Montessoriano

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Há algum tempo, o Lar Montessori traduziu e publicou Os Dez Princípios do Educador Montessoriano. Trata-se de uma lista belíssima de mandamentos para seguirmos em nossa prática pedagógica diária. A lista não é diretamente útil para famílias, pois que orienta uma prática pedagógica científica, e não uma prática familiar. Por famílias, os Princípios podem ser lidos como inspiração, mas por educadores precisa ser lida como orientação precisa e inequívoca.

Uma nova lista, contendo trechos da tradução do Lar Montessori e mais alguns princípios com a linguagem flexibilizada para adequação ao nosso momento histórico e social tem sido divulgada, e embora apoiemos a divulgação do pensamento de Maria Montessori, achamos relevante trazer a lista original, compartilhada pela Association Montessori Internationale, novamente.

Talvez você já conheça a missão do Lar Montessori: Honrar e disseminar Montessori tanto quanto permitirem nossos esforços, tendo sempre em vista as palavras de Maria Montessori, a busca do melhor sentido a ser atribuído a elas, e a ciência em progresso no momento presente. É em respeito a essa missão que retornamos aqui, para publicar novamente a tradução que realizamos do documento disponibilizado pela AMI. Se você perceber algo em nossa tradução que não corresponde ao original, avise-nos. Nossa tentativa é o máximo de fidelidade. Ao final desse post, você pode baixar nossa tradução em dois formatos, ambos em PDF, uma em A4 e uma em A5. Se você for um educador, pode imprimir e carregar consigo ou deixar em sua sala de aula – pessoalmente, preciso reler isso o tempo todo.

 

OS DEZ PRINCÍPIOS DO EDUCADOR MONTESSORIANO

Por Maria Montessori

1 – Nunca toque a criança, a menos que seja convidado por ela de alguma maneira.



 

2 – Nunca fale mal da criança em sua presença ou ausência.



 

3 – Concentre-se em fortalecer e ajudar o desenvolvimento daquilo que é bom na criança, para que sua presença deixe cada vez menos espaço para o que é ruim.



 

4 – Seja ativo na preparação do ambiente. Tome cuidado constante e seja meticuloso com ele. Ajude a criança a estabelecer relações construtivas com ele. Mostre o local adequado onde são guardados os meios de desenvolvimento e demonstre seu uso apropriado.



 

5 – Esteja sempre pronto a responder à criança que precisa de você e sempre escute e responda à criança que a você recorre.



 

6 – Respeite a criança que comete um erro e pode corrigir-se mais tarde, mas impeça com firmeza e imediatismo todas as más utilizações do ambiente e qualquer ação que coloque a criança em risco, assim como seu desenvolvimento ou os dos outros.



 

7 – Respeite a criança que descansa, assiste ao trabalho dos outros ou pondera sobre o que ela mesma fez ou fará. Não a chame, nem a force a outras formas de atividade.



 

8 – Ajude aqueles que estão à procura de atividade e não conseguem encontrar.



 

9 – Seja incansável na repetição das apresentações para a criança que as recusou antes, ajudando a criança a adquirir o que ainda não possui e a superar imperfeições. Faça-o avivando o ambiente com cuidado, limites e silêncio, com palavras suaves e presença amável. Faça com que a criança que busca possa sentir sua presença, e esconda-se da criança que já encontrou o que buscava.



 

10 – Sempre trate a criança com a melhor das boas maneiras, oferecendo o melhor que houver em você e à sua disposição.



 

Baixe aqui os Princípios em PDF, nas versões A4 e A5:
A4 – Os Dez Princípios do Educador Montessoriano
A5 – Os Dez Princípios do Educador Montessoriano



 

Como Tudo Aconteceu – Parte II

Publicado em

Antes de ler este post, leia a primeira parte da história. Vai ficar ainda melhor.

Lembrem-se de que todas essas crianças eram completamente analfabetas. Seus pais também eram analfabetos e elas nasceram e cresceram no ambiente que descrevi.

O que aconteceu há mais de trinta anos será agora um eterno mistério para mim. Eu tento desde então entender o que aconteceu àquelas crianças. Certamente não havia nada do que se encontra hoje nos Lares das Crianças. Havia somente mesas grandes.

Eu lhes trouxe alguns dos materiais que havíamos utilizado para nosso trabalho em psicologia experimental, os itens que usamos hoje como materiais sensoriais e para exercícios de vida prática. Eu desejava meramente estudar as reações das crianças. Eu pedi à mulher encarregada que não interferisse com as crianças, senão eu não conseguiria observá-las. Alguém lhes trouxe papel e lápis coloridos, mas em si não foi essa a explicação dos eventos futuros. Não havia quem os amasse. Eu mesma só os visitava uma vez por semana e as crianças não se comunicavam com seus pais durante o dia.

As crianças estavam quietas, não tinham interferência da professora ou dos pais, mas seu ambiente contrastava vivamente com aquele ao qual estavam acostumadas. Comparado ao de sua antiga vida, parecia fantasticamente belo. As paredes eram brancas, havia um espaço externo com grama, apesar de ninguém ter plantado flores lá ainda. Mas sobretudo era belo que todos eles tivessem belas ocupações nas quais ninguém, ninguém mesmo, interferia. Eram deixados sozinhos e aos poucos as crianças começaram a trabalhar com concentração, e a transformação pela qual passavam era notável. De tímidas e selvagens como eram, as crianças se tornaram sociáveis e comunicativas. Mostravam uma relação diferente umas com as outras, sobre a qual escrevi em meus livros. Suas personalidades se desenvolviam, estranho como possa parecer, mostravam extraordinária capacidade de entendimento, atividade, vivacidade e confiança. Eram felizes e contentes.

Esse fato foi notado depois de um tempo pelas mães que nos vinham falar sobre isso. Como as crianças não tinham ninguém para lhes ensinar ou interferir em suas ações, agiam espontaneamente, suas maneiras eram naturais.

Mas o que havia de mais surpreendente quanto a essas estranhas crianças do Quarteirão de San Lorenzo era sua gratidão evidente. Eu fui tão surpreendida por isso quanto todos os demais. Quando eu entrava na sala, todas as crianças saltavam para me cumprimentar e dar-me as boas vindas. Ninguém as havia ensinado nenhuma forma de bom comportamento. E a coisa mais estranha de todas era que embora ninguém cuidasse deles fisicamente, eles desabrochavam em saúde como se tivessem sido alimentados secretamente com alguma comida nutritiva. E de fato tinham, mas em seu espírito. Essas crianças começaram a notar coisas em suas casas, uma mancha nos vestidos de suas mães, bagunça em seus quartos. Falaram às suas mães para não pendurarem as roupas molhadas nas janelas, mas para colocarem flores lá. Sua influência se espalhou em seus lares, e algum tempo depois também esses se transformaram.

Seis meses depois da inauguração do Lar das Crianças, algumas das mães vieram a mim, e pediram que tendo feito tanto por suas crianças, e elas mesmas não podendo fazer nada sobre isso porque eram analfabetas, eu ensinasse as crianças a escrever e a ler.

Inicialmente, eu não queria, sendo tão preconceituosa quanto todos os outros quanto às crianças serem muito novas para isso. Mas eu dei a eles o alfabeto da maneira que contei a vocês. Como isso também era novidade para mim, eu analisei as palavras para eles e mostrei que cada som das palavras tinha um símbolo pelo qual podia ser materializado. Foi então que a explosão da escrita ocorreu.

As notícias se espalharam e todo o mundo se interessou pelas atividades de escrita dessas crianças tão pequenas a quem ninguém havia ensinado. As pessoas perceberam que confrontavam-se com um fenômeno que não podia ser explicado, pois além de escrever as crianças trabalhavam o tempo todo sem serem forçadas a fazê-lo. Era uma grande revelação, mas essa não era a única contribuição das crianças. Foram também elas que criaram a lição do silêncio. Pareciam um novo tipo de criança. Sua fama se espalhou e por conseguinte todo tipo de gente visitava o Lar das Crianças, incluindo ministros de Estado e suas esposas, com quem as crianças se comportavam bela e graciosamente, sem ninguém os incitar, de maneira que até os jornais da Itália e de fora se entusiasmaram. Assim as notícias se espalharam, até que a Rainha se interessou. Ela veio àquele quarteirão, tão mal afamado que era considerado a porta do inferno, para ver por si mesma as crianças sobre quem ouvira maravilhas.

A que se devia o prodígio? Ninguém podia dizer claramente. Mas me conquistou para sempre, porque penetrou meu coração como uma nova luz. Um dia os vi com olhos que os enxergavam de forma diferente e me perguntei: “Quem são vocês? Vocês são as mesmas crianças que eram antes?” E disse a mim mesma: “Talvez vocês sejam aquelas crianças de quem se disse que vinham para salvar a humanidade. Se é assim, devo seguir vocês”. Desde então, eu sou aquela que tenta compreender sua mensagem para segui-las.

E para segui-las, eu mudei toda minha vida. Eu tinha quase quarenta anos. Tinha à minha frente uma carreira, um cargo de docência na Universidade. Mas eu deixei tudo, porque me senti compelida a segui-las, e a encontrar outros que as seguissem, porque eu vi que nelas repousava o segredo da alma.

Vocês devem compreender que o que aconteceu era algo tão formidável e tão perturbador que sua importância nunca poderia ser suficientemente reconhecida. Que isso nunca será suficientemente estudado é certo, pois que é o segredo da vida ela mesma. Não podemos conhecer completamente suas causas. Não é possível que tenha acontecido em decorrência de meu método, porque à época meu método não existia ainda. Essa é a prova mais clara de que foi uma revelação emanada das próprias crianças.

Meu método educacional cresceu dessas, assim como de muitas outras revelações, cedidas pelas crianças. Vocês sabem pelo que lhes contei, que todos os detalhes incluídos no método vieram dos esforços de seguir a criança. O novo caminho nos foi mostrado. Ninguém sabe exatamente como isso surgiu, somente veio a ser e nos mostrou o novo percurso.

Não tem nada a ver com nenhum método do passado, nem com nenhum método do futuro. Permanece solitariamente como a contribuição da própria criança. Talvez a primeira deste gênero, que foi construída por ela passo a passo.

Não poderia ter vindo de um adulto. A ideia, o princípio mesmo, de que o adulto devesse se retirar para dar lugar à criança, nunca poderia ter vindo do adulto.

Qualquer um que deseje seguir meu método deve compreender que não deve reverenciar-me, mas seguir a criança como seu líder.

Como Tudo Aconteceu

sanlorenzo1907

É chegado dezembro, o mês das retrospectivas, das lembranças e dos votos para o futuro. Achamos por bem iniciar o último mês de 2013 com a lembrança mais especial que podemos ter: a história do início do método Montessori. A Associação Montessori Internacional publica alguns documentos preciosos de Maria Montessori. O que se segue é a primeira parte de um “resumo de uma fala de Maria Montessori a seus alunos em 6 de janeiro de 1942, celebrando o aniversário da inauguração do primeiro Lar das Crianças”. Publicaremos a segunda parte dessa emocionante fala de Montessori na semana que vem.

Como Tudo Aconteceu – Maria Montessori, 1942

Hoje é o aniversário da abertura do primeiro Lar das Crianças. Quando eu lhes falar brevemente como isso começou, as poucas palavras desta história parecerão um conto de fadas, mas sua mensagem pode ser provar útil também.

Muitas vezes as pessoas perguntam, com a dúvida em suas mentes, se o método é adequado a crianças pobres e se ele pode ser de alguma forma adaptado a elas.

Para que vocês possam responder tais questões, eu gostaria de lhes dar uma pequena ideia de como nosso trabalho começou, da forma indireta como se ergueu.

Aconteceu de maneira estranha. Eu pensei muito sobre isso e tentei entender as razões para isso. Eu não sei se é uma indicação do destino, ou se foi estabelecido pelo destino mesmo. Tudo o que sei é que tem a ver com o Lar em si. Pode parecer curioso que eu me expresse dessa maneira, mas o faço para tornar clara a história que se seguiu.

Há muitos anos, Roma era a capital de um Estado em rápido desenvolvimento, que se manifestava em uma febre de construções. Todo pequeno espaço disponível era utilizado para se construir casas, cada pequeno quarteirão vazio. Um dos muitos era limitado de um lado por um dos antigos muros de Roma, que já havia passado por muitas batalhas, e do outro lado era limitado pelo cemitério moderno. Essa área era o último espaço a ser preenchido, com certeza em decorrência das superstições de que não seria auspicioso viver perto dos mortos, assim como por medo de fantasmas e também por razões higiênicas.

Mas possivelmente pela bela e histórica situação, uma construtora decidiu apostar seu dinheiro em um edifício nesse lugar. Era um esquema imenso, cinco casas do tamanho de palácios, com cinco ou seis andares. Mas a ideia era grande demais, a empresa foi à falência antes de terminar a construção, e o esquema falhou. O trabalho foi interrompido e abandonado. Havia somente as paredes com buracos para janelas e portas, não havia encanamentos e os edifícios permaneciam como um tipo de esqueleto.

Por muitos anos esse esqueleto imenso permaneceu abandonado. Tornou-se abrigo para mendigos sem teto, esconderijo para os mal-feitores que não desejavam ser reconhecidos e que, se descobertos, poderiam escapar facilmente naquele labirinto. Criminosos de todo tipo, ladrões e assassinos refugiavam-se ali. As pessoas viviam lá nas mesmas condições em que viviam os homens das pedras em suas cavernas.

Todos os que eram sem teto, e aqueles que desejavam se esconder, encontravam abrigo entre aquelas paredes. Nem mesmo a polícia se aproximava deles, ou ousava fazê-lo, pois que não conhecia os caminhos entre aquelas paredes de crime e terror.

Lentamente, o número cresceu, até que milhares de pessoas se amontoavam nesses prédios abandonados. Pessoas eram encontradas mortas, assassinadas, ou vítimas de enfermidades, o lugar se tornava um repositório de doenças para toda a região, e um centro de crime e das formas mais baixas de prostituição.

O “Quarteirão de San Lorenzo” ficou conhecido como a vergonha da Itália. As pessoas tinham medo demais de fazer qualquer coisa sobre isso, ninguém sabia o que acontecia entre aquelas paredes escuras. Não havia pequenas lojas para provisões por perto, nenhum vendedor itinerante que fosse até lá comercializar algo. Até mesmo os trabalhadores mais inferiores e o pescador mais pobre se pareceriam com príncipes em comparação, pois mesmo que pobres, teriam pelo menos uma forma honesta de viver, enquanto que os que vivam naquela escuridão não tinham trabalho, nenhuma forma de pagar, e sua própria vida se derivava do crime.

A questão da limpeza desta fossa de inumanidade exigia uma solução. Outra construtora de banqueiros muito ricos analisou o problema e decidiu que, considerando que as paredes já estavam erguidas, somente um pequeno gasto seria necessário para fazer frutificar qualquer capital investido. O distrito, dada sua má reputação, não se tornaria nunca um bairro nobre, então somente pequenas renovações eram necessárias para tornar o espaço habitável para aquelas pessoas já tão desafortunadas. Considerando a questão como uma aventura de negócios, começaram com uma construção que eles descobriram que abrigaria mil pessoas. Eles usaram um pouco de cal, colocaram algumas portas e janelas e inseriram canos e esgoto.

Estimava-se que na área vivessem pelo menos dez mil pessoas, então como descriminar quais entre elas seriam as melhores? Escolheram as casadas que, pela relação que tinham umas com a outras, seriam as mais humanas. Aconteceu que havia somente umas poucas crianças. Parece talvez lógico que, em uma situação tal, apesar de haver milhares de homens e mulheres, havia somente cinquenta crianças.

Mas essas crianças, selvagens e não-civilizadas como eram, apresentavam um sério problema de dano às casas. Deixadas sozinhas enquanto suas famílias iam trabalhar, eram livres para levar a cabo qualquer capricho. Então o diretor do empreendimento decidiu que a única maneira sensata de mantê-las longe de travessuras era reunir todas as crianças e confiná-las.

Um cômodo foi reservado com esta finalidade, lembrando em tudo uma prisão infantil. Esperava-se que uma pessoa com coragem social suficiente fosse encontrada para enfrentar o problema.

Em minha qualidade de médica de higiene, procuraram-me para que me interessasse pelo trabalho. Tendo considerado a situação, eu demandava que pelo menos as condições mais básicas de higiene, alimentação e saneamento fossem disponibilizadas.

À época, era moda entre as senhoras de sociedade interessarem-se por melhorias sociais. Foram procuradas para algo como uma coleta de fundos, porque nos confrontamos com o estranho problema de que, embora os banqueiros houvessem concordado em investir seu dinheiro para melhorar as condições habitacionais, não estavam nada interessados em educação. Não se podia esperar nenhum retorno financeiro de um dinheiro investido em qualquer coisa com propósitos educacionais.

Apesar de a sociedade ter abraçado o ideal de melhorar as condições desse povo desafortunado, as crianças haviam sido esquecidas. Não havia brinquedos, nem professor. Não havia nada para elas. Eu consegui encontrar uma mulher de quarenta anos, cuja ajuda pedi e a quem confiei a responsabilidade do trabalho.

No dia 6 de janeiro de 1907, esse cômodo foi inaugurado para reunir cinquenta crianças. O cômodo já estava em uso há algum tempo, mas a inauguração foi nessa data. Por toda a Itália o dia 6 de janeiro é tido como “o” dia de festas para as crianças. Foi nesse dia que os Três Reis Magos chegaram ao Menino Jesus e ofereceram a ele seus presentes. É celebrado como a Festa da Epifania [no Brasil, Dia de Reis].

Era impressionante à época esse interesse social imbuído com a ideia de que dar casas higiênicas aos sem teto seria a forma de purificar o núcleo negativo deste meio, constituído de um grupo de dez mil criminosos e deplorável humanidade. Eu também estava imbuída desse sentimento.

Mas enquanto todos tinham em mente que dando saneamento e moradia as pessoas seriam purificadas, ninguém levava em consideração as crianças. Ninguém havia pensado em trazer brinquedos ou comida para elas. Quando as crianças, variando de dois a seis anos, entraram [no Lar das Crianças], estavam vestidas com roupas pesadas, grossas e azuis. Estavam com medo e presas pelo tecido duro que vestiam, não podiam mover seus braços ou suas pernas livremente. Para levá-las a se mover juntas, fazia-se com que segurassem as mãos. A primeira criança era puxada contra a vontade, arrastando atrás de si a fila com todas as outras. Todas choravam miseravelmente. A simpatia das senhoras da sociedade foi despertada e elas expressaram a esperança de que em alguns meses as crianças melhorariam.

Foi-me pedido que fizesse um discurso para a ocasião. Mais cedo no mesmo dia, lembrando-me de que estávamos na Festa da Epifania, eu tive de ler a lição em meu livro de missas. Quando fiz o discurso, eu a li como um presságio para o trabalho que viria:

“Levanta-te, resplandece, Oh, Jerusalém, pois tua luz chegou, e a glória do Senhor ergue-se sobre ti. Porque eis que a escuridão descerá sobre a terra, e brumas sobre as pessoas, mas o Senhor se levantará sobre ti, e Sua glória brilhará sobre ti. E os gentis irão andar em tua luz, e reis no brilho de tua ascensão. Levanta teus olhos, olha em volta e vê, todos esses unidos, vieram a ti, seus filhos virão de longe, e suas filhas se criarão ao seu lado. Então verás, e serás rico, e teu coração se maravilhará e crescerá, quando as multidões dos mares se converterem a ti, a força dos gentis virá a ti. As multidões de camelos te cobrirão, os dromedários de Midiã e Efá; todos aqueles de Sabá virão, trazendo ouro e incenso, e manifestando louvores ao Senhor”.

Eu não sei o que me sobreveio, mas tive uma visão inspirada por isso, estava inflamada e dizia que este trabalho que estávamos tomando se mostraria muito importante e um dia as pessoas viriam de todos os lugares para vê-lo.

Reportando esta nova extravagância da sociedade, a imprensa mencionou que “a Dr.ª Montessori fez um belo discurso, mas que exagero o que ela disse!”

Foi então que o verdadeiro trabalho teve início.

O Cidadão Esquecido

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Estamos em um momento que flutua entre especial e amedrontador na história do Brasil. Alguns dizem que é um momento histórico único, outros dizem que não se trata de momento histórico nenhum. Entre os extremos, tentamos encontrar um rumo, uma prioridade, uma direção para a qual remar afim de, quem sabe, encontrarmos um futuro melhor. Para Montessori, esta direção é a criança. Abaixo, traduzimos um dos documentos mais especiais da Association Montessori Internationale.
Em 1947 Maria Montessori escreveu uma carta que foi enviada a todos os governos. Excertos desta carta seguem abaixo.
Minha vida foi empreendida na pesquisa da verdade. Pelo estudo da criança eu investiguei a natureza humana em suas origens, tanto no Oriente quanto no Ocidente, e embora haja quarenta anos desde que comecei meu trabalho, a infância parece para mim uma fonte infindáel de revelações e – permitam-me dizer – de esperança.
A infância me mostrou que a humanidade é uma só. Todas as crianças falam – não importam sua etnia ou as circunstâncias de sua família – mais ou menos na mesma idade. Os dentes mudam etc, em períodos fixos de sua vida. Em outros aspectos também, especialmente no campo psíquico, são assim semelhantes, assim sensíveis.
As crianças são as construtoras dos seres humanos que edificam, adquirindo do ambiente a linguagem, a religião, os costumes e as peculiaridades não só de sua etinia, não só da nação, mas até do bairro da cidade onde se desenvolvem.
A infância constrói com o que encontra. Se o material é pobre, a construção também é pobre. No que concerne à civilização, as crianças estão no nível dos caçadores-coletores.
Para edificarem a si mesmas, devem pegar por acaso o que quer que encontrem no ambiente.
A criança é o cidadão esquecido, e ainda assim, se os governantes e os educadores viessem a reconhecer a força incrível que existe na criança – para o bem e para o mal – eu sinto que eles dariam à infância prioridade sobre todo o resto.
Todos os problemas da humanidade dependem do ser humano; se o ser humano não for considerado em sua construção, os problemas jamais serão resolvidos.
Nenhuma criança é Bolchevique, ou Fascista, ou Democrata. Todas elas se tornam o que as circunstâncias ou o ambiente fazem delas.
Em nossos dias, quando, apesar das terríveis lições de duas guerras mundiais, o futuro parece tão negro quanto sempre foi, eu sinto em meu íntimo que um outro campo deve ser explorado, além daqueles da economia e da ideologia. É o estudo do SER HUMANO – não da pessoa adulta sobre a qual todo apelo é vão. Ela, insegura economicamente, permanence confusa no turbilhão de ideias conflitantes e atira-se, ora para um lado, ora para outro.
O ser humano deve ser cultivado desde o início da vida, quando os grandes poderes da natureza estão agindo. É então que se pode esperar um planejamento para uma melhor compreensão internacional.
—–
Aos que desejarem saber a posição política do Lar Montessori, é a que segue:
A criança é o cidadão esquecido, e ainda assim, se os governantes e os educadores viessem a reconhecer a força incrível que existe na criança – para o bem e para o mal – eu sinto que eles dariam à infância prioridade sobre todo o resto.

Os Dez Princípios do Educador Montessoriano

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Por Maria Montessori


1 – Nunca toque a criança, a menos que seja convidado por ela de alguma maneira.


2 – Nunca fale mal da criança em sua presença ou ausência.


3 – Concentre-se em fortalecer e ajudar o desenvolvimento daquilo que é bom na criança, para que sua presença deixe cada vez menos espaço para o que é ruim.


4 – Seja ativo na preparação do ambiente. Tome cuidado constante e seja meticuloso com ele. Ajude a criança a estabelecer relações construtivas com ele. Mostre o local adequado onde são guardados os meios de desenvolvimento e demonstre seu uso apropriado.


5 – Esteja sempre pronto a responder à criança que precisa de você e sempre escute e responda à criança que a você recorre.


6 – Respeite a criança que comete um erro e pode corrigir-se mais tarde, mas impeça com firmeza e imediatismo todas as más utilizações do ambiente e qualquer ação que coloque a criança em risco, assim como seu desenvolvimento ou os dos outros.


7 – Respeite a criança que descansa, assiste ao trabalho dos outros ou pondera sobre o que ela mesma fez ou fará. Não a chame, nem a force a outras formas de atividade.


8 – Ajude aqueles que estão à procura de atividade e não conseguem encontrar.


9 – Seja incansável na repetição das apresentações para a criança que as recusou antes, ajudando a criança a adquirir o que ainda não possui e a superar imperfeições. Faça-o avivando o ambiente com cuidado, limites e silêncio, com palavras suaves e presença amável. Faça com que a criança que busca possa sentir sua presença, e esconda-se da criança que já encontrou o que buscava.


10 – Sempre trate a criança com a melhor das boas maneiras, oferecendo o melhor que houver em você e à sua disposição.



Você pode consultar a versão disponível em inglês na página da Association Montessori Internationale