Como Tudo Aconteceu – Parte II

Antes de ler este post, leia a primeira parte da história. Vai ficar ainda melhor.

Lembrem-se de que todas essas crianças eram completamente analfabetas. Seus pais também eram analfabetos e elas nasceram e cresceram no ambiente que descrevi.

O que aconteceu há mais de trinta anos será agora um eterno mistério para mim. Eu tento desde então entender o que aconteceu àquelas crianças. Certamente não havia nada do que se encontra hoje nos Lares das Crianças. Havia somente mesas grandes.

Eu lhes trouxe alguns dos materiais que havíamos utilizado para nosso trabalho em psicologia experimental, os itens que usamos hoje como materiais sensoriais e para exercícios de vida prática. Eu desejava meramente estudar as reações das crianças. Eu pedi à mulher encarregada que não interferisse com as crianças, senão eu não conseguiria observá-las. Alguém lhes trouxe papel e lápis coloridos, mas em si não foi essa a explicação dos eventos futuros. Não havia quem os amasse. Eu mesma só os visitava uma vez por semana e as crianças não se comunicavam com seus pais durante o dia.

As crianças estavam quietas, não tinham interferência da professora ou dos pais, mas seu ambiente contrastava vivamente com aquele ao qual estavam acostumadas. Comparado ao de sua antiga vida, parecia fantasticamente belo. As paredes eram brancas, havia um espaço externo com grama, apesar de ninguém ter plantado flores lá ainda. Mas sobretudo era belo que todos eles tivessem belas ocupações nas quais ninguém, ninguém mesmo, interferia. Eram deixados sozinhos e aos poucos as crianças começaram a trabalhar com concentração, e a transformação pela qual passavam era notável. De tímidas e selvagens como eram, as crianças se tornaram sociáveis e comunicativas. Mostravam uma relação diferente umas com as outras, sobre a qual escrevi em meus livros. Suas personalidades se desenvolviam, estranho como possa parecer, mostravam extraordinária capacidade de entendimento, atividade, vivacidade e confiança. Eram felizes e contentes.

Esse fato foi notado depois de um tempo pelas mães que nos vinham falar sobre isso. Como as crianças não tinham ninguém para lhes ensinar ou interferir em suas ações, agiam espontaneamente, suas maneiras eram naturais.

Mas o que havia de mais surpreendente quanto a essas estranhas crianças do Quarteirão de San Lorenzo era sua gratidão evidente. Eu fui tão surpreendida por isso quanto todos os demais. Quando eu entrava na sala, todas as crianças saltavam para me cumprimentar e dar-me as boas vindas. Ninguém as havia ensinado nenhuma forma de bom comportamento. E a coisa mais estranha de todas era que embora ninguém cuidasse deles fisicamente, eles desabrochavam em saúde como se tivessem sido alimentados secretamente com alguma comida nutritiva. E de fato tinham, mas em seu espírito. Essas crianças começaram a notar coisas em suas casas, uma mancha nos vestidos de suas mães, bagunça em seus quartos. Falaram às suas mães para não pendurarem as roupas molhadas nas janelas, mas para colocarem flores lá. Sua influência se espalhou em seus lares, e algum tempo depois também esses se transformaram.

Seis meses depois da inauguração do Lar das Crianças, algumas das mães vieram a mim, e pediram que tendo feito tanto por suas crianças, e elas mesmas não podendo fazer nada sobre isso porque eram analfabetas, eu ensinasse as crianças a escrever e a ler.

Inicialmente, eu não queria, sendo tão preconceituosa quanto todos os outros quanto às crianças serem muito novas para isso. Mas eu dei a eles o alfabeto da maneira que contei a vocês. Como isso também era novidade para mim, eu analisei as palavras para eles e mostrei que cada som das palavras tinha um símbolo pelo qual podia ser materializado. Foi então que a explosão da escrita ocorreu.

As notícias se espalharam e todo o mundo se interessou pelas atividades de escrita dessas crianças tão pequenas a quem ninguém havia ensinado. As pessoas perceberam que confrontavam-se com um fenômeno que não podia ser explicado, pois além de escrever as crianças trabalhavam o tempo todo sem serem forçadas a fazê-lo. Era uma grande revelação, mas essa não era a única contribuição das crianças. Foram também elas que criaram a lição do silêncio. Pareciam um novo tipo de criança. Sua fama se espalhou e por conseguinte todo tipo de gente visitava o Lar das Crianças, incluindo ministros de Estado e suas esposas, com quem as crianças se comportavam bela e graciosamente, sem ninguém os incitar, de maneira que até os jornais da Itália e de fora se entusiasmaram. Assim as notícias se espalharam, até que a Rainha se interessou. Ela veio àquele quarteirão, tão mal afamado que era considerado a porta do inferno, para ver por si mesma as crianças sobre quem ouvira maravilhas.

A que se devia o prodígio? Ninguém podia dizer claramente. Mas me conquistou para sempre, porque penetrou meu coração como uma nova luz. Um dia os vi com olhos que os enxergavam de forma diferente e me perguntei: “Quem são vocês? Vocês são as mesmas crianças que eram antes?” E disse a mim mesma: “Talvez vocês sejam aquelas crianças de quem se disse que vinham para salvar a humanidade. Se é assim, devo seguir vocês”. Desde então, eu sou aquela que tenta compreender sua mensagem para segui-las.

E para segui-las, eu mudei toda minha vida. Eu tinha quase quarenta anos. Tinha à minha frente uma carreira, um cargo de docência na Universidade. Mas eu deixei tudo, porque me senti compelida a segui-las, e a encontrar outros que as seguissem, porque eu vi que nelas repousava o segredo da alma.

Vocês devem compreender que o que aconteceu era algo tão formidável e tão perturbador que sua importância nunca poderia ser suficientemente reconhecida. Que isso nunca será suficientemente estudado é certo, pois que é o segredo da vida ela mesma. Não podemos conhecer completamente suas causas. Não é possível que tenha acontecido em decorrência de meu método, porque à época meu método não existia ainda. Essa é a prova mais clara de que foi uma revelação emanada das próprias crianças.

Meu método educacional cresceu dessas, assim como de muitas outras revelações, cedidas pelas crianças. Vocês sabem pelo que lhes contei, que todos os detalhes incluídos no método vieram dos esforços de seguir a criança. O novo caminho nos foi mostrado. Ninguém sabe exatamente como isso surgiu, somente veio a ser e nos mostrou o novo percurso.

Não tem nada a ver com nenhum método do passado, nem com nenhum método do futuro. Permanece solitariamente como a contribuição da própria criança. Talvez a primeira deste gênero, que foi construída por ela passo a passo.

Não poderia ter vindo de um adulto. A ideia, o princípio mesmo, de que o adulto devesse se retirar para dar lugar à criança, nunca poderia ter vindo do adulto.

Qualquer um que deseje seguir meu método deve compreender que não deve reverenciar-me, mas seguir a criança como seu líder.


2 comentários sobre “Como Tudo Aconteceu – Parte II

  1. Olá! Parabéns pelo trabalho de divulgação de uma maravilhosa forma de ver a educação das crianças.
    Estou curiosa com um ponto: Neste texto há uma parte onde Montessori fala de como deu o alfabeto às crianças. Queria saber se tem esse método (mais detalhado) em algum texto deste blog… eu acesso por celular … Não visualizo todas
    opções 😦
    Obrigada!!!

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