Do Pouco e do Muito

Por nove meses, células se uniram e multiplicaram, formaram-se e se transformaram, e deram origem a um pequeno bebê dentro do útero materno. O feto lá permaneceu e se desenvolveu até o fim do período de gestação. Foram nove longos meses, em um só ambiente: molhado, quente, silencioso, escuro, tranquilo. Nove meses sem precisar se esforçar para nada, pois que tudo acontecia ao bebê, e não por causa dele – e então, essa criança vem ao mundo.

Pode vir de muitas formas, algumas mais bruscas, outras mais tranquilas. Pode nascer de diversas formas de parto, em ambientes variados, assistido por pessoas mais ou menos preparadas de maneiras as mais distintas. Entretanto, vem ao mundo sempre. E vale dizer: não significa que não estivesse no mundo antes, mas que antes estava em um mundo outro: todo confortável, no qual a pequeníssima criança era aparentemente passiva e dependente, no qual era de fato, ainda, parte de outro corpo. Um mundo intra-uterino, intra-materno. E em pouco tempo, durante um processo que dura muito menos do que toda sua estada nesse confortável mundo pequeno, a criança é transportada – por forças mais, ou menos, alheias à sua vontade – ao mundo extra-uterino, extra-materno. Um mundo em que tudo é grande, seco, quase sempre mais frio do que no útero, mais iluminado e no qual até respirar dá trabalho.

Nosso trabalho, principalmente nos seis primeiros anos da vida da criança, e com ainda maior ênfase nos trinta e seis meses iniciais, é garantir que essa transição seja, no começo, suportável e, depois, agradável. Garantir que a descoberta do mundo seja boa, seja interessante, seja verdadeiramente maravilhosa. Para isso, são necessários dois cuidados. Primeiro, é necessário cuidar para que não haja uma privação grande demais das belezas que o mundo pode apresentar. Depois, e com tanta importância quanto, é necessário atentar para que se não apresente estímulos demais à criança pois, ao contrário do que se pensa, não é melhor pecar pelo excesso do que pela falta. Aqui falaremos primeiro do pouco, depois do muito.

O Pouco

Priva a criança de mundo quem a encarcera em seu berço, quem a priva de contato com seu ambiente e sua família por grades e panos, quem restringe seu mundo a um móbile – por belo que seja – pendurado sobre sua cabeça e tantas vezes fora do alcance de sua visão e suas mãos. Priva de maravilhas quem não a leva à natureza e não lhe permite brincar no chão, sujar-se na terra, pegar no mundo, explorar a vida.

O caminho do pouco é geralmente trilhado por quem, em êxtase de amor, confunde cuidado e medo. Oferecer pouco à criança, privá-la de muito, é chamado por quase todos de proteção. Mas a proteção e a privação são coisas distintas. Proteger é garantir que evitaremos todo o mal possível. Privar é, em nome da proteção, excluir também o que é bom da vida de uma criança.

Quando a colocamos em um berço por medo de que caia do colchão no chão, em vez de permitir que algumas pequenas quedas, sobre uma almofada ou manta dobrada aconteçam, e que a criança possa deitar e dormir sempre que sentir sono, privamos a criança de descobrir seu ritmo de vigília e descanso. Quando trancamos todos os armários, mesmo os que não contém nada realmente nocivo, por medo de que a criança quebre, faça barulho, se machuque, ou mexa no que não deve, privâmo-la de aprender a lidar com o que quebra, a trabalhar em silêncio com o que produz som ou a ter cuidado com o que necessita.

O remédio para o pouco é olhar o mundo pelos olhos da criança. Saber que ela necessita mexer, pegar, explorar, olhar para tudo o que é comum para nós e perceber quão incomum tudo seria se tivéssemos chegado ao mundo há cinco meses, um ano e meio, dois e nove, três. Olhar para tudo que nos circunda como se nunca tivéssemos visto o que é familiar nos permite perceber, ainda que em menor escala, o maravilhamento da criança diante da realidade. Aquele pedaço de casca de árvore que ela quer levar para casa, a pedra que pegou no parque, a formiga que caminhava e que ela parou para observar a caminho da padaria – isso tem nome, e se chama mundo, se chama vida.

A criança precisa pegar em flores, precisa deitar no chão, precisa encaixar as panelas com as quais você trabalha todos os dias, e precisa virar as páginas de livros bonitos e bem encadernados como os que você lê. A vida que ela testemunha é a da natureza, a da cidade e a da família, e ela quer investigar tudo, viver todas, conhecer. É claro que é nosso trabalho primeiro zelar por sua segurança física e emocional, mas isso não quer dizer esconder dela o mundo, mas lhe mostrar como lidar com ele, e encaminhar sua vida de forma que ela possa descobrir quanto possível. Claro, antes, é necessário amar a vida e o mundo, mas isso é trabalho para começar hoje e continuar pelo resto da vida – enquanto isso, procure adotar os olhos de sua criança, e olhar para a vida como se tudo começasse hoje.

O Muito

Sobrecarrega a criança quem acredita que ela precisa de algo além do mundo, quem se permite pensar tão grande, imponente e importante que todo contato com a realidade deve ser por si mediado. Sobrecarrega a criança quem não permite que ela esteja sozinha nunca, e não permite que empreenda seu corpo, sua mente, sua alma, em tarefas que despertam todo seu interesse, e que nós mal podemos compreender. Sobrecarrega a criança quem a expõe a novidades todos os dias, sem perceber que os dias todos são por si cheios de novidades alheias à nossa vontade.

O caminho do muito costuma ser trilhado por quem se orgulha de apresentar o mundo à criança, e se percebe doando amor, atenção e carinho na preparação de atividades que levam mais em conta o maravilhamento do adulto com algo novo, uma linha pedagógica e uma alternativa didática ou lúdica, do que a necessidade da criança, sua curiosidade, seu interesse. Usualmente, adultos verdadeiramente cegos de amor são os que trilham o caminha do muito, pois não conseguem olhar para a criança e enxergar o que ela, sozinha, mostra que quer e precisa fazer, e portanto empreendem verdadeiras caças a tesouros educacionais e recreativos, para tornar o mundo mais perfeito do que é.

O caminho do muito é belo, e parece motivo de orgulho. Seu único defeito é não levar a lugar algum. Só adianta entregar à criança aquilo que seu desenvolvimento exige. Mais do que isso é inócuo, na melhor nas hipóteses e, na pior, nocivo.

Quando passamos nossas noites a preparar atividades, como passam as noites a preparar aulas maravilhosas os professores mais dedicados, e não nos lembramos de olhar para a criança para saber se aquilo de que ela necessita em algo se aproxima do que fazemos. Quando permanecemos junto da criança durante atividades inteiras porque ela não gosta de trabalhar sozinha, mas não percebemos que na verdade o que falta é uma atividade que lhe desperte tanto interesse que ela de fato nos esqueça, mergulhada em trabalho, esforço e empenho. Quando, finalmente, adaptamos a casa inteira, mas dispomos a ela um tal número de brinquedos e atividades e não nos ocupamos em verificar o que verdadeiramente lhe agrada, com o que ela brinca e trabalha – quando não nos preocupamos em retirar o excesso.

Quando, metaforicamente, tomamos cuidado ao “ponto” da massinha que fazemos para que a criança brinque, mas não atentamos para o “ponto” do ambiente, a partir do qual nasce harmonia, paz, concentração, sossego. Quando, finalmente, mudamos o mundo, mas, vendados por dentro, não olhamos para nós, e nos esquecemos num oceano de orgulho feliz, acreditando-nos perfeitos e infinitamente criativos, sem perceber que a criatividade que importa não é a nossa, mas a da criança, e que tudo o que ela nos exige são olhos para ver e reparar em suas necessidades e suas claras demonstrações de o que precisa e quer fazer.

O remédio para o muito é olhar o mundo pelos olhos da criança. Saber que ela necessita mexer, pegar, explorar, olhar para tudo o que é comum para nós e perceber quão incomum tudo seria se tivéssemos chegado ao mundo há cinco meses, um ano e meio, dois e nove, três. Olhar para tudo que nos circunda como se nunca tivéssemos visto o que é familiar nos permite perceber, ainda que em menor escala, o maravilhamento da criança diante da realidade. Aquele pedaço de casca de árvore que ela quer levar para casa, a pedra que pegou no parque, a formiga que caminhava e que ela parou para observar a caminho da padaria – isso tem nome, e se chama mundo, se chama vida. – Sim, você leu certo. Nós repetimos o remédio do pouco, porque as enfermidades são todas distintas, mas a saúde é só uma.

Para alguém que acabou de chegar, não é necessário trazer novidades todos os dias. Quando um amigo de outra cidade, ou outro país, nos visita com tempo de sobra, nós lhe apresentamos o que há de mais bonito, mas também lhe damos tempo para descansar. E se ele nos diz que gostaria de passar mais algumas horas em um parque, em um museu, ou num café, fazemos isso de bom grado, felizes por estarmos proporcionando momentos agradáveis. Permitimos também, se somos gentis, que tenha momentos sem nossa presença, momentos para aproveitar sozinho seus prazeres íntimos, para explorar e descobrir. E quando já conhece a cidade o suficiente, permitimos que se locomova sozinho, somente nos comunicando de tempos em tempos que está bem e em segurança.

A criança é uma recém chegada ao mundo. Não é nosso trabalho mostrar todo o mundo a ela. Ele se mostra sozinho. Nosso trabalho é ajudá-la a organizar, a explorar com sucesso. Nosso trabalho é dar o apoio e o preparo necessários, deixando-a à própria boa sorte depois. Quatro, cinco brinquedos, ou materiais, ou atividades, ou trabalhos, ou objetos por cômodo, não mais. À exceção de uma cesta de livros, com quatro ou cinco livros, ou de uma pequena prateleira com um aquário ou duas, três fotografias interessantes, bastam poucos objetos de cada vez para que a criança trabalhe e brinque em paz. De resto, a casa basta.

A criança tem verdadeira paixão pelos afazeres domésticos, e se soubermos auxiliá-la na realização de pequenas tarefas pelas quais demonstra interesse, não precisamos de novas atividades todos os dias. Dois brinquedos na sala, uma prateleira de coisas úteis na cozinha, uma gaveta de roupas no quarto, mais uns quatro brinquedos, talvez uma área de artes na varanda com dois potes pequenos de tinta, um cavalete e dois pincéis. Um banquinho leve e forte. Muita natureza, muito tempo, muito tempo, e amor. É tudo de que a criança precisa. Um amor que observe e que possa, assim, enxergar o invisível, perceber as necessidades da criança e proporcionar atividades que de fato lhe atraiam, escondendo, doando ou desfazendo-se de tudo o que não desperta o interesse espontâneo da criança.

Se algo não interessa à criança, não há nenhum motivo pelo qual o objeto deva existir ao seu dispor. Brinquedos que ela abandona para brincar com as frutas, raízes e verduras da cozinha, objetos que ela esquece porque está passando água de um copo para outro no banheiro, atividades planejadas com carinho às quais ela não olha, porque as plantas do quintal, da praça ou dos vasos lhe interessam mais. Tudo isso é dispensável. Indispensáveis são as frutas, as raízes, as verduras, os copos com água, as plantas do quintal. Indispensáveis são as panelas para encaixar, é o fio de tecido no qual ela coloca as miçangas encontradas em um potinho que pertencia a você. Indispensável é a blusa de zíper com que ela não cansa de brincar, e a parede e o chão que ela aprecia sentir com as mãos porque têm texturas incríveis.

Todo o material montessoriano é uma adaptação do mundo a um ambiente artificial, somado a um grande conjunto de abstrações materializadas – essas necessárias à escola, mas não à casa, por serem artifícios de aprendizado formal escolar. O contato com a natureza, com o mundo, com a casa de verdade, dá conta de muito do que se tem em uma escola Montessori. É necessário respeitar a criança, seu tempo, e por meio de seus olhos, enxergar o mundo como uma fonte inexaurível de novidades, que nos permite não planejar tanto, e nos dá a chance de observar mais, para planejar melhor, para apresentar melhor, para perceber com maior exatidão o momento exato do presente exato – do presente que se vive, e do presente que se dá.

O Muito e o Pouco

O muito e o pouco são descaminhos. São enfermidades. Ambos são produtos de nossos defeitos adultos. Em geral têm sua origem no orgulho – acreditamo-nos superiores à criança e por isso as protegemos de tudo, e as privamos de tanto, ou acreditamo-nos superiores à criança e por isso nos julgamos responsáveis por fazê-la ver um mundo que ela, desde cedo, enxerga com muito mais cuidado do que nós.

O remédio é sempre o mesmo, olhar o mundo pelos olhos da criança. O remédio é interior, e não há texto que resolva. “A preparação que nosso método exige“, dizia Montessori sobre o adulto, “é o auto-exame, a renúncia à tirania. Deve expelir do coração a ira e o orgulho, deve saber humilhar-se e revestir-se de caridade. Estas são as disposições que seu espírito deve adquirir, a base da balança, o indispensável ponto de apoio para seu equilíbrio. Nisso consiste a preparação interior, o ponto de partida e a meta”.

Desejamos estar aqui, entre o muito e pouco, buscando com você esse (in)exato caminho intermediário, essa (im)perfeita trilha, pela qual caminha a criança, e através da qual nos é necessário segui-la, mas segui-la como líderes, diria Montessori.


6 comentários sobre “Do Pouco e do Muito

  1. Obrigada Gabriel, pelo maravilhoso texto!!!! Obrigada pela “receitinha” básica… quando o remédio para algo não é olhar para dentro de si, olhar pelos olhos do outro (no caso da criança) pode resolver muita coisa!

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