Como Tudo Aconteceu

sanlorenzo1907

É chegado dezembro, o mês das retrospectivas, das lembranças e dos votos para o futuro. Achamos por bem iniciar o último mês de 2013 com a lembrança mais especial que podemos ter: a história do início do método Montessori. A Associação Montessori Internacional publica alguns documentos preciosos de Maria Montessori. O que se segue é a primeira parte de um “resumo de uma fala de Maria Montessori a seus alunos em 6 de janeiro de 1942, celebrando o aniversário da inauguração do primeiro Lar das Crianças”. Publicaremos a segunda parte dessa emocionante fala de Montessori na semana que vem.

Como Tudo Aconteceu – Maria Montessori, 1942

Hoje é o aniversário da abertura do primeiro Lar das Crianças. Quando eu lhes falar brevemente como isso começou, as poucas palavras desta história parecerão um conto de fadas, mas sua mensagem pode ser provar útil também.

Muitas vezes as pessoas perguntam, com a dúvida em suas mentes, se o método é adequado a crianças pobres e se ele pode ser de alguma forma adaptado a elas.

Para que vocês possam responder tais questões, eu gostaria de lhes dar uma pequena ideia de como nosso trabalho começou, da forma indireta como se ergueu.

Aconteceu de maneira estranha. Eu pensei muito sobre isso e tentei entender as razões para isso. Eu não sei se é uma indicação do destino, ou se foi estabelecido pelo destino mesmo. Tudo o que sei é que tem a ver com o Lar em si. Pode parecer curioso que eu me expresse dessa maneira, mas o faço para tornar clara a história que se seguiu.

Há muitos anos, Roma era a capital de um Estado em rápido desenvolvimento, que se manifestava em uma febre de construções. Todo pequeno espaço disponível era utilizado para se construir casas, cada pequeno quarteirão vazio. Um dos muitos era limitado de um lado por um dos antigos muros de Roma, que já havia passado por muitas batalhas, e do outro lado era limitado pelo cemitério moderno. Essa área era o último espaço a ser preenchido, com certeza em decorrência das superstições de que não seria auspicioso viver perto dos mortos, assim como por medo de fantasmas e também por razões higiênicas.

Mas possivelmente pela bela e histórica situação, uma construtora decidiu apostar seu dinheiro em um edifício nesse lugar. Era um esquema imenso, cinco casas do tamanho de palácios, com cinco ou seis andares. Mas a ideia era grande demais, a empresa foi à falência antes de terminar a construção, e o esquema falhou. O trabalho foi interrompido e abandonado. Havia somente as paredes com buracos para janelas e portas, não havia encanamentos e os edifícios permaneciam como um tipo de esqueleto.

Por muitos anos esse esqueleto imenso permaneceu abandonado. Tornou-se abrigo para mendigos sem teto, esconderijo para os mal-feitores que não desejavam ser reconhecidos e que, se descobertos, poderiam escapar facilmente naquele labirinto. Criminosos de todo tipo, ladrões e assassinos refugiavam-se ali. As pessoas viviam lá nas mesmas condições em que viviam os homens das pedras em suas cavernas.

Todos os que eram sem teto, e aqueles que desejavam se esconder, encontravam abrigo entre aquelas paredes. Nem mesmo a polícia se aproximava deles, ou ousava fazê-lo, pois que não conhecia os caminhos entre aquelas paredes de crime e terror.

Lentamente, o número cresceu, até que milhares de pessoas se amontoavam nesses prédios abandonados. Pessoas eram encontradas mortas, assassinadas, ou vítimas de enfermidades, o lugar se tornava um repositório de doenças para toda a região, e um centro de crime e das formas mais baixas de prostituição.

O “Quarteirão de San Lorenzo” ficou conhecido como a vergonha da Itália. As pessoas tinham medo demais de fazer qualquer coisa sobre isso, ninguém sabia o que acontecia entre aquelas paredes escuras. Não havia pequenas lojas para provisões por perto, nenhum vendedor itinerante que fosse até lá comercializar algo. Até mesmo os trabalhadores mais inferiores e o pescador mais pobre se pareceriam com príncipes em comparação, pois mesmo que pobres, teriam pelo menos uma forma honesta de viver, enquanto que os que vivam naquela escuridão não tinham trabalho, nenhuma forma de pagar, e sua própria vida se derivava do crime.

A questão da limpeza desta fossa de inumanidade exigia uma solução. Outra construtora de banqueiros muito ricos analisou o problema e decidiu que, considerando que as paredes já estavam erguidas, somente um pequeno gasto seria necessário para fazer frutificar qualquer capital investido. O distrito, dada sua má reputação, não se tornaria nunca um bairro nobre, então somente pequenas renovações eram necessárias para tornar o espaço habitável para aquelas pessoas já tão desafortunadas. Considerando a questão como uma aventura de negócios, começaram com uma construção que eles descobriram que abrigaria mil pessoas. Eles usaram um pouco de cal, colocaram algumas portas e janelas e inseriram canos e esgoto.

Estimava-se que na área vivessem pelo menos dez mil pessoas, então como descriminar quais entre elas seriam as melhores? Escolheram as casadas que, pela relação que tinham umas com a outras, seriam as mais humanas. Aconteceu que havia somente umas poucas crianças. Parece talvez lógico que, em uma situação tal, apesar de haver milhares de homens e mulheres, havia somente cinquenta crianças.

Mas essas crianças, selvagens e não-civilizadas como eram, apresentavam um sério problema de dano às casas. Deixadas sozinhas enquanto suas famílias iam trabalhar, eram livres para levar a cabo qualquer capricho. Então o diretor do empreendimento decidiu que a única maneira sensata de mantê-las longe de travessuras era reunir todas as crianças e confiná-las.

Um cômodo foi reservado com esta finalidade, lembrando em tudo uma prisão infantil. Esperava-se que uma pessoa com coragem social suficiente fosse encontrada para enfrentar o problema.

Em minha qualidade de médica de higiene, procuraram-me para que me interessasse pelo trabalho. Tendo considerado a situação, eu demandava que pelo menos as condições mais básicas de higiene, alimentação e saneamento fossem disponibilizadas.

À época, era moda entre as senhoras de sociedade interessarem-se por melhorias sociais. Foram procuradas para algo como uma coleta de fundos, porque nos confrontamos com o estranho problema de que, embora os banqueiros houvessem concordado em investir seu dinheiro para melhorar as condições habitacionais, não estavam nada interessados em educação. Não se podia esperar nenhum retorno financeiro de um dinheiro investido em qualquer coisa com propósitos educacionais.

Apesar de a sociedade ter abraçado o ideal de melhorar as condições desse povo desafortunado, as crianças haviam sido esquecidas. Não havia brinquedos, nem professor. Não havia nada para elas. Eu consegui encontrar uma mulher de quarenta anos, cuja ajuda pedi e a quem confiei a responsabilidade do trabalho.

No dia 6 de janeiro de 1907, esse cômodo foi inaugurado para reunir cinquenta crianças. O cômodo já estava em uso há algum tempo, mas a inauguração foi nessa data. Por toda a Itália o dia 6 de janeiro é tido como “o” dia de festas para as crianças. Foi nesse dia que os Três Reis Magos chegaram ao Menino Jesus e ofereceram a ele seus presentes. É celebrado como a Festa da Epifania [no Brasil, Dia de Reis].

Era impressionante à época esse interesse social imbuído com a ideia de que dar casas higiênicas aos sem teto seria a forma de purificar o núcleo negativo deste meio, constituído de um grupo de dez mil criminosos e deplorável humanidade. Eu também estava imbuída desse sentimento.

Mas enquanto todos tinham em mente que dando saneamento e moradia as pessoas seriam purificadas, ninguém levava em consideração as crianças. Ninguém havia pensado em trazer brinquedos ou comida para elas. Quando as crianças, variando de dois a seis anos, entraram [no Lar das Crianças], estavam vestidas com roupas pesadas, grossas e azuis. Estavam com medo e presas pelo tecido duro que vestiam, não podiam mover seus braços ou suas pernas livremente. Para levá-las a se mover juntas, fazia-se com que segurassem as mãos. A primeira criança era puxada contra a vontade, arrastando atrás de si a fila com todas as outras. Todas choravam miseravelmente. A simpatia das senhoras da sociedade foi despertada e elas expressaram a esperança de que em alguns meses as crianças melhorariam.

Foi-me pedido que fizesse um discurso para a ocasião. Mais cedo no mesmo dia, lembrando-me de que estávamos na Festa da Epifania, eu tive de ler a lição em meu livro de missas. Quando fiz o discurso, eu a li como um presságio para o trabalho que viria:

“Levanta-te, resplandece, Oh, Jerusalém, pois tua luz chegou, e a glória do Senhor ergue-se sobre ti. Porque eis que a escuridão descerá sobre a terra, e brumas sobre as pessoas, mas o Senhor se levantará sobre ti, e Sua glória brilhará sobre ti. E os gentis irão andar em tua luz, e reis no brilho de tua ascensão. Levanta teus olhos, olha em volta e vê, todos esses unidos, vieram a ti, seus filhos virão de longe, e suas filhas se criarão ao seu lado. Então verás, e serás rico, e teu coração se maravilhará e crescerá, quando as multidões dos mares se converterem a ti, a força dos gentis virá a ti. As multidões de camelos te cobrirão, os dromedários de Midiã e Efá; todos aqueles de Sabá virão, trazendo ouro e incenso, e manifestando louvores ao Senhor”.

Eu não sei o que me sobreveio, mas tive uma visão inspirada por isso, estava inflamada e dizia que este trabalho que estávamos tomando se mostraria muito importante e um dia as pessoas viriam de todos os lugares para vê-lo.

Reportando esta nova extravagância da sociedade, a imprensa mencionou que “a Dr.ª Montessori fez um belo discurso, mas que exagero o que ela disse!”

Foi então que o verdadeiro trabalho teve início.


4 comentários sobre “Como Tudo Aconteceu

  1. ” Não se podia esperar nenhum retorno financeiro de um dinheiro investido em qualquer coisa com propósitos educacionais.” Será que este pensamento está ainda em processo de mudança? Obrigada por compartilhar este belo texto com a gente =]

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