O Buraco Negro e as Estrelas: Formas de Disciplina

Alguns chamam de fé, alguns de amor.
Alguns de orientação superior.
Vocês são o motivo de nos encontrarmos,
então obrigado, estrelas.

Desde sempre, e provavelmente para sempre, o homem buscou espaços solitários, silenciosos e tranquilos para pensar. Montessori nos fala sobre isso quando descreve o Jogo do Silêncio. A quietude e a solidão, a introspecção e a individualidade são fundamentais para as crianças muito pequenas. O trabalho delas, sabemos, é construir a si mesmas, e desenvolver dentro de si todo o aparato físico, emocional e psicológico para a interação social futura.

De todos os lugares buscados pelo ser humano para pensar, porém, o último é o cárcere involuntário. Há quem encontre alegria na clausura, mais ou menos da mesma maneira que a criança encontra prazer em uma cabana, um canto, um buraco, ou um espaço apertado. O espaço pequeno oferece de fato alguma segurança. Mas só quando encontrado por busca voluntária. Nunca quando imposto sobre a criança pela força dominadora e invencível do adulto.

O castigo, muitas vezes imposto na forma do isolamento, chamado eufemisticamente de cantinho do pensamento é uma forma de opressão à criança das mais cruéis praticáveis por um adulto. Explico: a casa onde habita uma criança, ou a escola que ela frequenta, são espaços cheios de afeto, preenchidos por amor. A criança é, de fato, a grande fonte de amor da humanidade. Ela nos faz amar quando pensávamos que isso não mais seria possível e desperta o melhor de nós em um mundo que nos faz reagir sempre com o que temos de menos bom. A casa onde habita uma criança é símbolo maior deste amor. Quase toda a casa.

cantinho do pensamento é um espaço da casa, o único, onde não existe afeto. Não há materiais nem brinquedos, não há interação, música, não há mundo. Os sentidos muitas vezes são isolados (especialmente nas formas exageradas do cantinho, nas quais a criança é virada para a parede, ou colocada em um cômodo sozinha). Montessori aprecia comparar a sociedade em microescala e em larga escala. Há um outro local social, em escala maior, que serve-nos também como cantinho do pensamento: trata-se do cárcere.

Colocar uma criança de castigo é tão eficiente quando encarcerar um adulto. Em 2011, no Brasil, de cada dez presos adultos, sete retornavam ao crime depois de sair do cárcere. Prender, colocar para pensar, e aguardar a mudança do comportamento pelo castigo não funciona. Por dois motivos: primeiro, porque ficar de castigo pensando é pensar no erro, e pensar no erro é reforçar o erro – o cárcere, como o cantinho, é uma escola de erros. O segundo é que o meio em que se está depois do castigo é o mesmo meio de antes do castigo, e geralmente – se não determina – o meio favorece a reincidência no erro. Se as condições sociais não se transformam, o erro não desaparece, e o mesmo ocorre com a criança.

Dissemos certa vez no Lar Montessori: ” O castigo reforça o erro, faz a criança pensar sobre o que fez de errado, e o que fizemos de errado não nos ensina. Ensina-nos, antes, repetir o comportamento certo, tanto o nosso quanto o alheio. Buscar alternativas dentro do que sabemos ser correto ou desejável. É sobre isto que devemos meditar, e não sobre o erro. Quando uma criança é colocada no quarto sem televisão, ou quando é privada de algum de seus prazeres por ter cometido um erro, existem dois sentimentos possíveis: o surgimento da raiva e o sentimento de culpa. Nenhum dos dois é produtivo para o aprendizado.” Para complementar esta passagem, sugerimos a leitura do artigo recente do Centro de Educação Montessori de São Paulo sobre vergonha.

Colocar a criança inteira de castigo é dizer a ela: “Você é ruim” “Você, e tudo o que existe em você, precisa ser esgotado, escondido, reprimido, para que o mundo continue a girar”. E nós sabemos que nada disso é verdade. Foi a ação da criança que nos desagradou – e não a criança inteira. Nunca pode ser a criança inteira.

Se é a ação da criança o erro que encontramos, devemos primeiro pensar se é um erro ou uma necessidade. Uma criança que chore porque não pode escolher, ou porque não pode pegar, ou porque não pode ficar no chão, ou porque teve a decoração de sua casa alterada – qualquer uma dessas crianças e desses choros representa uma necessidade, e não um erro. Muito menos um capricho.

Caso se trate de fato de um erro – uma criança que tenha batido em outra, xingado, gritado, então podemos pensar em formas de remediar o ocorrido, não para dar uma consequência ao ato da criança (o mundo dá consequências, nós só damos castigos mesmo), mas para ensiná-la, de fato, como o mundo funciona. O primeiro passo é parar a criança. Isso pode ser feito de qualquer maneira, mas devemos buscar a mais pacífica possível – quero dizer, a menos física: se você puder usar só palavras é melhor, se não puder, use o menos possível a contenção manual. O segundo passo é mostrar que ela é amada, querida, e respeitada: isso quer dizer sentar com os olhos na altura dos olhos dela, encostar-lhe gentilmente uma mão, falar baixo e falar de forma séria. O terceiro passo é conversar.

A conversa deve ser clara, simples, direta, e ensinante – mais do que um julgamento, a criança precisa de uma aula. Devemos explicar o que ela fez (“Você quebrou o vaso”, “Você xingou a sua tia”, “Você bateu no seu irmão”) e não julgar (nunca “você foi um mau menino”, “você é mal educado”, “você se acha muito esperto”). E em seguida explicar porque aquilo é ruim – também de forma objetiva, clara e simples, sem julgamentos e sem estender demais a fala. A criança pode realmente desligar a conexão que existe entre o que ela fez e o que você diz, se você falar demais.

Em seguida, não coloque a criança de castigo. Redirecione sua atenção. Convide-a para uma atividade que você sabe que ela aprecia. Uma atividade na qual ela use mãos, mente e coração. Algo que goste de fazer, que envolva um pequeno desafio (ela talvez ainda esteja tensa com o que fez, e não consigo fazer algo difícil demais) e que faça necessário o uso das mãos. Algo, especialmente, que nada tenha a ver com o que estava fazendo quando cometeu o erro.

Mais tarde, um ou dois dias depois, com o erro esquecido, ensinaremos a forma correta de fazer. Se a criança quebrou algo, ensinaremos – sem mencionar o erro – a carregar coisas sem quebrar. Se ela bateu em alguém porque queria passar, ensinaremos a pedir licença. Se xingou, ensinaremos a ser gentil. Se subiu no sofá de sapatos, ensinaremos a tirá-los.

Vale dizer: regras em casa só são respeitadas por crianças maiores de três anos. As menores decoram comportamentos, rituais, repetem rotinas. Regras, de forma verbal e abstrata, só vão funcionar mais tarde. Você pode começar a dizê-las cedo, mas o mais importante vai ser a forma de fazer, o ritual e a repetição da ação em si. As regras, uma vez que existam em sua casa, nunca devem ser “regras negativas”, mas sim “regras ativas”. Isso quer dizer que em vez de ditar “Você não pode xingar ninguém”, devemos dizer “Você deve tratar a todos com respeito e gentileza” e, então, ensinar devagar, aos poucos, formas de ser gentil.

Tanto enquanto a criança é pequena como quando ela cresce, o trabalho de aperfeiçoamento do comportamento não é simples, não é rápido. Exige de nós uma preparação interna, psicológica, mesmo espiritual, para compreender a criança como um ser que necessita, acima de tudo, de ajuda. A bronca, o castigo e a lição de moral não ajudam. Elas incomodam, ferem, diminuem e humilham, mas não ajudam. É bem verdade, momentaneamente, o castigo funciona – todo mundo tem medo de um buraco negro de afeto e tenta evitá-lo ao máximo. Mas a médio prazo o erro volta, se o meio social não se altera, a reincidência é certa.

Prepare o ambiente de sua casa, prepare as rotinas, os rituais, os tempos e os espaços da vida de sua criança. Acima de tudo, prepare-se. Erros acontecem, eles surgem, eles surgem para nós o tempo todo. Em lugar de os encararmos como inimigos a derrotar, encaremo-los como amigos a conhecer. Vamos descobrir o erro, entender o que gera o erro, observar quando e porque surge, e portanto como pode ser evitado. É um trabalho longo, e a meio caminho os erros surgirão, repetidamente. Não podemos cansar, nós somos maiores, responsáveis e cheios de todas as responsabilidades. É nosso trabalho ajudar a criança a compreender e agir corretamente. Uma vez que de fato aprenda a forma correta, ela talvez não erre nunca mais.

Há duas formas de trabalhar a disciplina. Uma é contar, como os marinheiros antigos, com estrelas que nos guiem: o adulto, a rotina, os rituais, poucas e simples regras básicas sempre respeitadas por todos. Outra é trabalhar com buracos negros onde jogamos tudo aquilo que nos dá medo: o descontrole infantil, nossa ira, nosso orgulho, o desequilíbrio de todos nós. É melhor trabalhar com as estrelas. Diferente dos buracos negros, elas estarão sempre visíveis, são belas e espalham luz. De fato, orientam caminhos e ajudam a vida. Dá mais trabalho. Os buracos negros atraem, são espaços gravitacionais fortes. Mas as estrelas iluminam.


6 comentários sobre “O Buraco Negro e as Estrelas: Formas de Disciplina

  1. Olá Gabriel, agradeço muito por compartilhar todo o seu conhecimento. Tenho uma filha de dois anos e está muito difícil com relação ao comportamento dela, quando chamamos sua a atenção, ela começa a jogar as coisas que estão à sua frente no chão, e chora por um longo período. Este artigo é excelente e me ajudará muito nesta fase. Obrigada, Sabrina.

  2. EU CONCORDO PLENAMENTE, POIS QDO EU ERA CRIANÇA MINHA BATIA MUITO E DAVA MUITO CASTIGO RUIM,ENTAO….FUI CRESCENDO E FIQUEI TRINTA ANOS , COM RAIVA E MAGOA DELA!!!! NAO ADIANTA BATER , NEM HUMILHAR , PORQUE TUDO PODE PIORAR

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