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Arquivo da categoria: Materiais

Textos sobre os materiais montessorianos e as características dos materiais desenvolvidos por Maria Montessori.

​O Papel do Vidro em Montessori

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Uma das cinco características que Montessori confere ao ambiente preparado para a criança, e ao material, é o Controle de Erro. O controle de erro é o que permite à criança aprender com o ambiente e os objetos, sozinha, além de aprender com o adulto, por interação e observação. Ele é uma das fundações necessárias ao processo da autoeducação. Sem controle de erro, o adulto precisa corrigir a criança o tempo todo, e ela só aprende o que ele ensina e controla.

Encontramos o controle do erro, no dia a dia, em atividades de encaixe, por exemplo, que só terminam quando acertamos. Também o encontramos em jogos como a cama de gato, boliche e quicar pedras em rios. Na sala montessoriana, o controle do erro é parte dos materiais ou da relação entre eles e a criança. Em casa, o mesmo princípio pode existir em atividades práticas como lavar um prato (que só fica limpo se levarmos bem), vestir calças, dobrar toalhas ou servir sopa.

Uma outra característica do ambiente preparado que também é uma característica do material montessoriano é a beleza. Tudo o que envolve a criança pequena deve ser belo para que ela tenha interesse não só em agir, mas em agir adequadamente, com cuidado e destreza. Aquilo que encanta a criança pela beleza tem uma chance maior de ser bem utilizado por ela. 

Juntas, essas duas características são de um potencial imenso, e explicam o uso do vidro e de outros materiais frágeis em casas e escolas montessorianas.

Em primeiro lugar, o vidro agrada a criança sensorialmente, talvez por ser igual ao material usado pelos adultos, mas talvez por ser muito superior ao plástico, mesmo – a maior parte dos plásticos é de baixíssima qualidade, péssimo acabamento, decoração deplorável, e soltam sabor.

Nada no plástico é belo de verdade, na maior parte das vezes. Quando a beleza existe, geralmente o que ocorre é que o plástico se parece muito com alguma outra coisa (madeira, vidro, porcelana ou metal).

Porque o vidro é muito mais bonito e muito mais nobre, a criança toma muito mais cuidado com ele do que com o plástico. Assim, quando ocorre o primeiro acidente, ele usualmente é um profundo aprendizado sobre a fragilidade do mundo, e a criança dali em diante cuida duplamente da forma como manuseia os objetos quebráveis, para não os perder de novo. O ambiente fala com ela, e ensina a ela a importância da delicadeza. É frequente inclusive que crianças habituadas a jogar pratos e copos no chão parem de fazer isso imediatamente quando recebem objetos de porcelana e vidro iguais aos dos adultos.

É importante, no entanto, que não invertamos a ordem das coisas. O vidro (como a porcelana) é uma delicadeza que chega depois de outras delicadezas. Primeiro, tornamo-nos delicados no trato, depois no tempo, em seguida no resto do ambiente, e quando a criança confia em nós, no ambiente e em si mesma, o vidro chega. Tudo isso pode demorar “nada” se buscamos Montessori desde o nascimento. Mas pode pedir algumas semanas, até uma dupla de meses, se começamos com Montessori bem mais tarde. O vidro não precisa – e não deve – ser a primeira mudança de sua casa ou escola. Mas ele não é a última. Chega assim que as delicadezas iniciais já foram compreendidas, e a importância do movimento controlado foi razoavelmente assimilada.

Um ambiente violento ou barulhento gera estresse e ansiedade, e implica em dificuldade de concentração, reflexão e controle do corpo. Isso pode fazer com que o vidro ou a porcelana sejam um perigo. Ao mesmo tempo, conforme o ambiente se acalma, objetos frágeis são um estímulo a mais ao cuidado e à tranquilidade.

Eventualmente, vai haver acidentes, e você vai afastar sua criança no começo. Só mais tarde, perto dos três anos ou a partir deles, é que ela vai aprender a varrer, com cuidado e calçada, sempre. Mas acidentes ocorrem com todos nós, e você talvez note que a frequência é muito menor com as crianças. Isso talvez tenha a ver com a importância profunda que elas conferem a tudo aquilo que as inclui no mundo real.

Para finalizar, permitam uma historinha. Certa vez, em uma pequena escola que estava começando, foi comprada uma caixa de doze copos de vidro em tamanho normal (copo americano). Ficamos todos apreensivos. Eu porque era minha primeira experiência introduzindo vidro, e a equipe porque era a primeira experiência deles confiando em crianças com Montessori.

Depois de duas semanas retornei à escola e perguntei como iam as coisas. Ninguém falou do vidro, então eu perguntei. A professora: “Bom, foram quebrados três copos”. Achei pouco e devo ter sorrido. Ela continuou: “Desses, as crianças só quebraram dois. Um fui eu”.

Os Encantos do Real – Materiais de Pareamento

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Em 1907, Maria Montessori já havia passado alguns anos a testar seus materiais. Entretanto, foi entre esse ano e os dois seguintes que percebeu o potencial latente daquilo que havia desenvolvido antes. As adaptações que fizera às criações de Itard e Séguin, assim como aquilo que ela mesma criara, proporcionavam o que muitos jornais chamaram de “milagre da educação” – algo que Montessori se recusou a ver inicialmente por descrença, mas que foi forçada a aceitar depois: Aquele conjunto belo de peças delicadamente construídas e sabiamente dispostas e apresentadas permitia às crianças o desenvolvimento da autoeducação.

Montessori tentou usar muitos materiais, brinquedos e objetos além daqueles que existem nas salas hoje. Ela não sabia o que agradaria aos pequenos e os ajudaria em seu caminho para a vida. Aos poucos, porém, notou que um determinado conjunto de materiais era o que sempre atraía olhares, mãos e concentração de suas crianças e, por isso, eliminou aos poucos tudo o que se fazia supérfluo, conservando somente a – imensa – gama de materiais utilizados diariamente e espontaneamente por seus alunos. Notou, também, que tudo o que permanecia tinha como característica fundamental um conjunto de três princípios ativos:

  1. Manipulação da Criança
  2. Isolamento da Dificuldade
  3. Controle do Erro

Manipulação da Criança: Os materiais montessorianos são materiais de desenvolvimento, mais do que materiais didáticos. Por isso, é fundamental que sejam usados pela criança, pelas mãos da criança, para aprender e se desenvolver, mais do que pelo adulto para ensinar e transmitir conhecimentos. Os materiais devem ser usados em trabalhos que engagem mão, mente e coração. Por isso, é importante que sejam agradáveis ao toque e atrativos para a criança – e não impostos por nós por quaisquer motivos. Nós dispomos e apresentamos, mas não impomos jamais.

Isolamento da Dificuldade: Quando a criança vem ao mundo, não sabe como tudo isso funciona. Por esse motivo, apresentar a ela uma dificuldade de cada vez é ajudá-la a compreender o universo à sua volta e a agir nele com sucesso desde muito pequena. Assim, cada material montessoriano envolve um desafio, um objetivo, uma dificuldade. Em vez de tentar ensinar o máximo no menor espaço de tempo, tentamos ensinar qualquer coisa em um tempo justo, para que a criança absorva com alegria e sossego.

Controle do Erro: É possível chamar esta característica de um dispositivo contido em todos os materiais e que garante a autoeducação em si – não em isolamento, mas tendo de estar obrigatoriamente presente. Todos os materiais montessorianos têm algo em si que permite à criança corrigir-se e repetir sozinha a atividade até alcançar sua perfeição (usualmente algo superior à nossa). O material “diz” à criança quando ela erra, e o adulto não precisa fazê-lo. Assim, os pequenos podem trabalhar ininterruptamente por horas, aperfeiçoando habilidades e conhecimentos, sem que precisemos interromper ou corrigir.

Em todos esses sentidos, é um desafio muito grande construir materiais que ensinem conteúdos às crianças. De um lado temos materiais como a Torre Rosa e os Cilindros, que contém todas as propriedades dos materiais, mas cujo conteúdo é muito mais sensorial que intelectual. Outra é tentar ensinar como vivem as plantas ou os animais. Neste sentido, a alternativa mais comum são os materiais de pareamento.

Materiais de pareamento são aqueles que trazem, de forma geral, belas ilustrações, figuras tridimensionais e etiquetas com palavras, para que a criança agrupe objeto, figura e palavra. São uma boa alternativa, entretanto via de regra enfrenta-se problemas porque é difícil encontrar uma figura tridimensional que corresponda a uma outra figura impressa ou desenhada de forma satisfatória para podermos contar com o isolamento da dificuldade e o controle do erro.

Nesses aspectos, a Montesorriso inovou corajosamente. Utilizando seus esforços para a construção de modelos tridimensionais artesanais, possibilitou o pareamento perfeito entre uma ilustração e uma peça, já que busca criar peças que correspondam de fato às ilustrações utilizadas. O trabalho desafiador escolhido pela Montesorriso foi mais do que criar materiais montessorianos – foi, antes, ajudar escolas e famílias a encontrarem algo precioso para nossas escolas e nossos lares: materiais montessorianos que de fato contem com todas as características necessárias.

Os materiais da Montesorriso também trazem consigo características para-didáticas, também sempre presentes nos materiais montessorianos, e que são responsáveis por dar ainda mais prazer à criança enquanto ela executa suas atividades: são organizados, belos e simples. O artesanato com cores leves e um material agradável ao toque, assim como a construção minuciosa dos modelos semelhantes às imagens permite à criança a noção da harmonia interna do material, evidenciando assim o encanto do mundo real e auxiliando a criança em sua caminhada para a vida.

Montesorriso

Objetos Montessorianos: Brinquedo e Material

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Crescemos com brinquedos. Nossos maiores objetos de desejo quando éramos menores foram brinquedos. Desejamos o carrinho, a bola, a boneca, o videogame, o trenzinho, o autorama, o cavalo de pau, e depois os minigames e videogames portáteis. Nos desenvolvemos acreditando que os brinquedos eram a graça da infância. Por isso, somos adultos que acreditamos nisso. Nós temos certeza de que os brinquedos alegram a criança e dão a ela motivos para sorrir. Somos adultos que vêem na brincadeira o verdadeiro objetivo de vida da criança. Nós achamos isso porque nossas crianças riem quando brincam, e nós amamos seus sorrisos. E ainda assim, em tanto amor e tanta alegria, estamos redondamente enganados.

A criança deseja conhecer, explorar e descobrir o mundo. Deseja ser independente e livre, e busca de todos os modos acessar o mundo do adulto, que é o universo que ela tem por modelo. Assim, tenta copiar seus pais em tudo o que fazem: o computador, o carro, o fogão. Nós, percebendo esta vontade da criança, buscamos satisfazer seu desejo lhe dando computadores de mentira, carros de plástico e fogões sem fogo. É uma boa ação, que fazemos com amor, e que a criança aceita de bom grado, porque é o máximo que poderá ter. Mas perto do mundo real, perto do que há de incrível na realidade, o brinquedo é quase uma troça com a vontade da criança de conquistar sua independência.

Segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, brinquedo é “passatempo, distração, coisa que não é séria, coisa fácil de fazer”. As conquistas da criança são difíceis, exigem esforço, trabalho, empenho e dedicação. O aprendizado da fala, do caminhar, e da execução de tarefas do dia a dia, como vestir, limpar, lavar, secar, cortar, comer, pegar, desenhar, abrir, fechar e guardar, exige uma incessante busca e repetidas tentativas por parte dos pequenos, e não se tratam, portanto, de brincadeiras, de passatempos, ou de coisas fáceis de fazer. Acima de tudo, são, para a criança, esforços e trabalhos sérios.

Montessori, quando inaugurou sua primeira sala em San Lorenzo, também achou que as crianças poderiam gostar de brinquedos, e tentou utilizá-los. No entanto, esta sala era equipada com materiais montessorianos e itens do mundo real à disposição dos pequenos. Então, nenhuma criança utilizou os brinquedos que Maria Montessori disponibilizou. Uma professora montessoriana dos Estados Unidos, Paula Polk Lillard, escreve um excelente livro, que consiste no diário que fez durante um ano sobre sua atividade em sala de aula. Neste diário conta que no início do ano utiliza uma caixa de brinquedos para que as crianças achem a escoala semelhante à sua casa, mas que uma semana depois os brinquedos são retirados, e as crianças, já atentas aos materiais presentes na sala, sequer percebem a ausência do caixote.

O brinquedo é despretencioso, é uma distração. É muito bom, mesmo para nós adultos, brincar. Brincar com os filhos, com o cachorro, em um parque de diversões ou com os amigos. Nossas brincadeiras são mais sofisticadas, e gostamos de jogar, alguns gostam de videogames, apreciamos um bom papo jogado fora em volta de uma mesa com boa comida. Tudo isso é muito agradável, como é a brincadeira, mas nada disso nos daria prazer suficiente para que o fizéssemos por anos a fio. Para isso, é necessário o esforço, nós buscamos o esforço que se justifica por um grande objetivo – isso é sonhar e perseguir um sonho.

Com a criança acontece exatamente o mesmo. A criança gosta de brincar, e brincar deve ser considerado um de seus direitos, como é um dos nossos, o lazer. No entanto, a criança também tem suas buscas e seus objetivos. Para ela, no entanto, o trabalho e o objetivo são interiores. Não há para ela, como há para nós, a construção ou criação de algo externo, mas sim a construção de si mesma.

Para essa construção interna, a criança precisa de esforço, trabalho e atividade. Este trabalho, no entanto, precisa de um apoio exterior, um material para exercitar-se. Este é o material montessoriano. Ele serve para ajudar a criança a conquistar o desenvolvimento que ela deseja perseguir. Para que seja eficiente, deve atender a três requisitos principais, que são: a manipulação da criança, o isolamento da dificuldade e o controle do erro.

Primeiro, os materiais são da criança, e não dos adultos. Eles são feitos para serem manipulados pela criança e para que ela se sinta a vontade com eles, não só para que aprenda conteúdos, mas para que desenvolva seus sentidos e sua percepção da realidade.

Em segundo lugar, os materiais, para que ajudem, devem ter objetivos muito claros, trabalhar uma dificuldade, um elemento do mundo, de cada vez. Se um material tem muitos objetivos e ensina muitas coisas de uma vez, não ensina nada. A criança está descobrindo o mundo, e de confusão lhe basta a realide. De nós, ela precisa da ajuda, do apoio e do guia. Assim, quanto mais passo-a-passo puder ser a lição e quanto mais claro estiver para nós o objetivo único da atividade, melhor será para a criança a descoberta do mundo.

O terceiro ponto importante do material montessoriano é que ele contenha em si um dispositivo de controle do erro. O jogo da memória, embora não possa ser considerado um material, tem este dispositivo. Trata-se de algo que impede a finalização da atividade se ela não estiver completamente correta. Com o jogo da memória, se um pareamento é feito errado, ainda que quase todos os segintes sejam acertados, o último dará errado. Assim, o exercício não termina. Isso garante que a criança poderá aprender sozinha, e o professor não precisará corrigir nada, e a criança se desenvolverá por si mesma e seus esforços, sem ter de encarar a figura imensa do adulto desenvolvido o tempo todo.

Por todos os motivos expostos aqui, é possível dizer que não existem brinquedos montessorianos. Existem brinquedos mais inteligentes e menos inteligentes, alguns que trabalham mais e outros que trabalham menos o controle motor, e há os que respeitam mais e os que respeitam menos as fases do desenvolvimento da criança. No entanto, se um “brinquedo” tiver isolamento de dificuldade, um só objetivo, controle do erro e servir à manipulação da criança, sendo aplicado à educação de forma organizada e segundo a fase do desenvolvimento da criança, passamos a ter um material. Caso contrário, temos um excelente e despretencioso brinquedo. É excelente, mas não é Montessori.

Compreendendo Montessori: O Material Montessoriano

Este texto é o segundo da série “Compreendendo Montessori” e tratará do material montessoriano. Nosso primeiro texto, nesta série, foi sobre o desenvolvimento neuronal da criança pela perspectiva montessoriana.

O Material Montessoriano

E.M. Standing foi amigo e admirador de Maria Montessori. Escreveu Maria Montessori: Her Life and Work. Neste livro, inicia sua explicação sobre o trabalho da criança dizendo  que o objetivo de seus esforços é interno, diferente do que ocorre com o adulto. Para clarear esta explicação, uma metáfora é interessante. Se, vendo um homem encher um carrinho com areia de praia, nós nos oferecêssemos para fazê-lo em seu lugar, ele 

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prontamente aceitaria. No entanto, se fizéssemos o mesmo com uma criança que enche seu baldinho de areia, ela nos negaria veementemente e, não só continuaria o trabalho como o repetiria vezes sem conta. 

Isto ocorre porque o adulto deseja transportar a areia para algum lugar. O mais importante para o adulto é o objetivo final. A criança deseja exercitar-se, aprender, viver a experiência e sentí-la de todas as maneiras. A experiência da criança precisa ser respeitada, havendo a menor quantidade possível de interferências adultas e respeito pelo tempo necessário a cada uma para desenvolver e repetir uma atividade quantas vezes quiser.

O método Montessori tem como pressuposto a liberdade. Para que esta liberdade seja proveitosa, no entanto, o ambiente deve ser preparado. “O primeiro objetivo do ambiente preparado é tornar a criança independente do adulto”, diz Standing. A relação que se estabelece, então, é não só do professor com a criança, mas da criança com o professor e com o ambiente. Este ambiente deve ser completamente adaptado aos pequenos, em tamanho e em utilidade, e deve conter os materiais necessários a alguns tipos de desenvolvimento:

  • Vida Prática;
  • Educação dos Sentidos
  • Aquisição de Cultura
  • Outros aprendizados necessários à faixa etária.

As atividades de vida prática visam auxiliar o desenvolvimento do controle motor e das habilidades necessárias para o dia-a-dia. Os principais objetivos desta área, segundo McNichols, são o “cuidar do ambiente”, o “cuidar de si mesmo”, “habilidades úteis para a vida” e “graça e cortesia”. Não há uma seleção fixa de materiais para a vida prática, já que a depender da época e do local, as habilidades a desenvolver podem mudar muito. Entre as mais comuns no Brasil estão as habilidades ligadas à autonomia para se vestir e servir-se na cozinha, assim como o aprendizado de formas de limpar e organizar ambientes.

003424Para a educação dos sentidos, a seleção de materiais é mais tradicional, embora possa contar com inovações dos professores. Para esta área, há dezenas de materiais que procuram educar sentidos específicos, como o da percepção de cor, peso, tamanho, textura, cheiro ou som. Montessori acreditava que antes de se iniciar qualquer trabalho puramente intelectual, os sentidos deveriam estar plenamente desenvolvidos.

É interessante notar que embora os alunos aprendam as características sensoriais com materiais específicos, a aplicação destes conceitos ao mundo real acontece espontaneamente, sem a necessária interferência de um professor em outro momento que não seja a lição inicial sobre como utilizar o material.

Montessori percebeu logo que a aquisição de cultura pode começar cedo, já que o interesse das crianças pelos números e pela escrita, especialmente, é flagrante em todos os locais do mundo e, até onde se sabe, em todas as épocas. Um bom exemplo de como funciona a dependência entre os materiais é a preparação para a escrita.

O desenvolvimento desta habilidade é longo e começa nos primeiros materiais da área sensorial. A delicadeza necessária para segurar um lápis, o controle da pressão sobre o papel, o formato de cada letra e seu som e a habilidade de traçar linhas são competências trabalhadas por muito tempo antes que o aluno, de fato, escreva. Muitas vezes, a criança tem a impressão de ter aprendido a escrever sozinha, já que após conhecer os sons das letras e adquirir as técnicas necessárias, escreve “de repente”, sem receber ordens e por livre e espontânea vontade.

Outros materiais trabalham a cultura como a concebem os adultos: Ciências, História e Geografia. Estes variam completamente a depender do grupo social dentro do qual se insere a escola. No entanto, alguns padrões são obedecidos, já que alguns tipos de habilidades são especialmente agradáveis para a criança: classificação, pareamento, organização e nomeação são algumas delas.

Abaixo, vamos trabalhar algumas das características gerais dos materiais Montessori.

Características dos materiais:

A principal característica dos materiais montessorianos em uma sala preparada é que sirvam à manipulação do aluno sempre. Em uma sala comum, um globo terrestre pode ser utilizado pelo professor à frente da turma. Em um ambiente Montessori, há globos terrestres com diferentes destaques e que devem ser utilizados para vários fins pelos próprios alunos.

Outra característica muito relevante dos materiais é que contém em si o que chamamos de “controle do erro”. O aluno deve poder perceber sozinho, em todos os materiais, quando acertou e quando errou. Como exemplo, temos os cilindros de madeira:

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O aluno deve encaixar todos os cilindros no bloco. Cada um dos cilindros só cabe adequadamente em um orifício da madeira. Se um dos cilíndros for colocado no local errado, será impossível terminar o exercício. Assim, não é necessário que o professor corrija a atividade, já que esta corrige a si mesma, e o aluno percebe seu erro sem nenhuma interferência externa.

O controle do erro nos materiais permite também ao professor uma liberdade muito maior, para que ele possa auxiliar outras crianças, ensinar a se utilizar um ou outro material, corrigir alguma atividade nociva ao ambiente ou às crianças e – sua tarefa mais importante – observar a sala e o desenvolvimento de cada aluno. No entanto, longe de diminuir as responsabilidades do professor, que perde muito da função de ensinar e corrigir, o material didático montessoriano confere muitas outras responsabilidades a ele, pois só sem estar ativamente ensinando o tempo todo o professor pode realmente perceber se os alunos estão aprendendo.

A terceira importante característica dos materiais Montessori é o “isolamento da dificuldade”. Normalmente, para ensinar a cor vermelha, por exemplo, o professor falaria sobre morangos, cerejas e flores, fazendo com que o aluno tivesse de associar muitas palavras e muitas coisas antes de compreender o vermelho. O material para cores de Montessori é uma caixa com pequenos tabletes coloridos.

Os tabletes de cores são todos iguais em textura, forma, tamanho e peso. A única diferença entre eles é a cor, de maneira que o aluno possa associar diretamente o conceito à realidade que ele representa.

A Lição em Três Tempos:

Para ensinar a utilização dos materiais às crianças, o professor não dá uma aula geral e nem insiste muitas vezes. Ele pega o material, coloca-o diante do aluno e demonstra, com poucas palavras e instruções precisas, passo-a-passo, como se desenvolve a atividade.

Muitos dos materiais trabalham com a associação entre conceitos e coisas. Para se ensinar estes conceitos pela primeira vez, utiliza-se a Lição em Três Tempos. Incialmente se mostra os dois objetos e se nomeia a ambos: “Isto é uma colher, isto é um garfo”. Em seguida, pede-se que o aluno aponte, pegue ou mova “a colher”, ou “o garfo”. Depois de algumas variações desta segunda parte, pergunta-se ao aluno “Qual é este?” e “Qual é este?”, apontando-se uma vez a cada objeto. Assim, na primeira etapa nomeia-se algo, transmite-se uma informação. Na segunda, associa-se o nome ao objeto de fato, por meio do movimento, principalmente. No terceiro tempo, testa-se o aprendizado da criança, para que saibamos se a lição foi cumprida. Usa-se poucas palavras, para não confundir a criança, e para que ela possa, a partir deste momento, exercitar-se livremente, sem precisar ficar presa ao adulto por muito tempo.

O objetivo desta explicação foi somente esclarecer que, de todas as personagens da sala montessoriana, a principal é a criança e o primeiro coadjuvante é o material. É por meio da interação entre estas duas personagens que tudo acontece. A função do professor, neste contexto, é fazer com que tudo flua da melhor forma possível, especialmente evitando atrapalhar com interrupções excessivas. O adulto, neste palco, é o contra-regra, que entra quando é necessário e sai quando tudo está pronto. Somente por meio de seu bom trabalho tudo funciona, mas sua importância não é a de quem recebe o foco da iluminação, é a de quem garante que a lâmpada vai acender.

Até mais!

Bibliografia:

McNICHOLS, J.C. – The Montessori Controversy. New York: Delmar Cengage Learning, 1998

STANDING, E.M. – Maria Montessori: Her Life and Work. New York: New American Library, 1962.

MONTESSORI, M. – Dr. Montessori’s Own Handbook. New York: Frederick A. Stokes Company, 1914.

Cesta dos Tesouros

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Este texto foi traduzido do livro “How to Raise an Amazing Child the Montessori Way”, de Tim Seldin.

Tudo por perto de seu bebê é um mundo mágico de objetos esperando por descobertas

Assim que seu bebê for capaz de sentar e pegar coisas, ele vai adorar explorar uma “cesta dos tesouros”. É uma cesta baixa que você terá enchido com objetos do lar e coisas da natureza. Os objetos precisam ser grandes o suficiente para que a criança não os engula e não devem ter pontas ou partes afiadas que possam machucar a criança quando tocadas ou quando colocadas na boca. Crianças mais velhas gostam da cesta também, permaneça adicionando novos objetos.
Uma cesta dos tesouros deve provocar maravilhamento, surpresa, descobertas. Junte entre 50 e 100 objetos, cada um com suas características de cor, textura, peso e cheiro – use sua imaginação e seu bom senso. A escolha dos objetos é constante, e pode se tornar um passatempo agradável para os pais examinar objetos e pensar se seriam tesouros interessantes para a cesta. Você pode incluir coisas como uma carteira, uma casca de noz [uma concha sem partes afiadas é sempre um objeto interessante], uma pinha, um pincel, uma pena, um sino de metal, uma pedra macia. Bebês e crianças usam todos os seus sentidos, enquanto adultos tendem a depender da visão. Objetos que possuam um padrão visual ou uma textura diferenciada na superfície, um aroma especial, que sejam gelados ao toque (como uma pedra), ou que produzam sons quando movimentados são especialmente interessantes. Para uma criança pequena, tudo é uma descoberta nova e excitante.

A cesta dos tesouros pode entreter seu filho por períodos longos, sendo que meia hora é um tempo razoavelmente comum. Com crianças pequenas, tenha em mente que se trata de um grande estímulo, sendo melhor oferecê-lo para uma mente descansada e alerta. Quando crianças pequenas estão explorando a cesta pela primeira vez, o melhor a fazer é não dizer nada. Somente selecione um objeto, examine-o cuidadosamente, e coloque-o de volta na cesta. Seu filho pode pegar o mesmo objeto assim que você o devolver à cesta ou pode escolher algo completamente diferente. Deixe-o explorar sozinho – as crianças gostam que estejamos por perto, mas nem sempre desejam nossa interferência.

–trecho adaptado–
Colocar os objetos na boca é uma fonte de prazer e aprendizado para sua criança. Desde que os objetos estejam limpos e sejam seguros, não é necessário limitar esta experiência. Procure escolher objetos que atendam a estes requisitos.
O olhar da criança já se desenvolveu nesta idade, e já é possível para ela observar objetos de cores sutis e leves. Quaisquer objetos chamarão a atenção de seus olhos, e coisas simples, de casa, podem despertar grande interesse.
Vidros de sementes ou feijōes, pequenos sinos, correntes… Todos estes objetos (e muitos outros) proporcionam sensações interessantes para o ouvido da criança, e serão também fontes de descobertas.
Procure selecionar objetos interessantes para o tato. Diferentes texturas e temperaturas são importantes, e é mais interessante escolher objetos de madeira, metal ou vidro (desde que forte, para sua criança não correr riscos) do que de plástico, já que o plástico apresenta sempre a mesma textura. Objetos naturais, como pinhas e sementes grandes podem ser interessantes também.
Objetos com cheiros suaves podem ser bem interessantes também. Sachês, saquinhos de ervas, sementes cheirosas e limões são boas escolhas (quanto ao limão, cuidado para não expor a pele da criança ao sol depois de ter manejado a fruta).
Depois te ter explorado os objetos da cesta, ainda existe uma cesta para ser descoberta. Procure escolher um recipiente belo, agradável ao tato, para que a criança tenha também esta possibilidade de exploração.