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Arquivo da categoria: Brinquedos e Brincadeiras

Textos sobre brinquedos, brincadeiras e o lúdico, de acordo com o método Montessori.

Sobre Brinquedos que Brincam Sozinhos

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A criança deve desfrutar plenamente de jogos e brincadeiras os quais deverão estar dirigidos para educação; a sociedade e as autoridades públicas se esforçarão para promover o exercício deste direito – Declaração Universal dos Direitos da Criança

 

Maria Montessori escreveu que “A brincadeira é o trabalho da criança”, e para Montessori, o trabalho da criança é o que havia de mais precioso no mundo. Por meio de um paralelo à importância dada ao trabalho do adulto, Montessori explica que o da criança é muito mais importante, pois que se o adulto, por seu trabalho, constrói produtos, a criança constrói a própria vida, e a fundação do futuro da espécie humana e da civilização.

Anos depois, a UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) reconheceu a magnitude deste trabalho, quando estabeleceu, na Declaração Universal dos Direitos da Criança o direito aos “jogos em brincadeiras”. De forma muito ampla e, infelizmente, pouco delineada, a Declaração busca garantir, ao menos em papel, o direito que a criança tem de brincar.

Antes de continuar, assista a esta fala (legendada) concedida por Susan Linn ao Instituto Alana, acerca do tema “O Excesso de Brinquedos e a Importância do Brincar”:

Embora toda a fala de Linn seja extremamente pertinente, agora que você tem o contexto, queremos pinçar uma frase (a 1’37” de filme):

parece que fazemos tudo em nosso alcance para evitar que as crianças brinquem.

Isso é muito sério.

A cada vez que ligamos a televisão e colocamos em frente nossa criança, e ela vidra os olhos na tela, e não os desgruda até que a TV seja desligada, estamos infringindo a Declaração Universal dos Direitos da Criança, pois que, se não estivesse em frente à TV, estaria brincando – foi isso que se fez por mais de 3.900 anos de civilização, e é graças a isso que chegamos ao ponto que chegamos, é graças a isso que o ser humano existe hoje: graças ao fato de a criança, quando pequena, brincar.

Nos últimos sessenta anos, mais ou menos, com o advento da TV, e o mais recente e progressivamente maior desenvolvimento de programação infantil, a brincadeira vem perdendo espaço. Diferente do que se propõe, a brincadeira não mudou, ela realmente perdeu espaço, foi colocada de canto, em favor do entretenimento inócuo e em favor do divertimento vazio.

Também por volta da década de 1960, brinquedos que brincam sozinhos começaram a surgir. Um exemplo mais recente de brinquedos que brincam sozinhos são robôs de mecanismo simples e repetitivo, que não necessitam da interação da criança uma vez que estejam ligados, um vídeo ilustrativo deste tipo de brinquedo segue:

Os brinquedos que brincam sozinhos são, junto com as telas, dois dos artifícios maiores que usamos para prevenir a brincadeira da criança. Isso diz muito sobre nós. Especialmente, evidencia que acreditamos que uma criança livre não pode se desenvolver. Acreditamos que uma criança só pode aprender por meio da passividade espectadora, e só pode se desenvolver por meio do auxílio de um adulto. Esse adulto pode, inclusive, ser desconhecido. Pode ser um adulto da televisão sobre quem não sabemos mais do que o nome artístico e o horário de aparição na tela, mas permitimos que entre em nossas casa e ajude no desenvolvimento de nossas crianças.

À parte destes, há também os já explicados por Linn, brinquedos feitos a partir de personagens de televisão ou fast-foods. Mesmo com a ação intensa de institutos não governamentais e a promulgação da proibição à publicidade infantil, ainda haverá brinquedos construídos a partir de personagens de programas infantis de televisão. O problema destes, como vimos, é que as crianças não pensam, não imaginam. Elas simplesmente repetem o que as personagens fazem nos desenhos – e se assistir aos desenhos já é danoso, permitir que eles inibam a atividade criativa da criança é ainda pior.

Você viu um brinquedo que brinca sozinho, viu o desequilíbrio emocional que se pretende gerar com ele, viu o baixíssimo potencial de inovação e criatividade que este tipo de brinquedo oferece. Agora veja o que acontece quando se coloca um brinquedo que fica parado até que a criança vá lá e faça alguma coisa. Neste caso, selecionamos como exemplo uma dupla de crianças brincando com incríveis blocos de madeira:

Os blocos de madeira não são um material Montessori. Eles estão ausentes de quase qualquer sala montessoriana. Temos materiais de empilhar, seriar, mas os blocos de construir não são parte do acervo tradicional montessoriano. Entretanto, são um brinquedo perfeito para você ter em casa, são um brinquedo que permite à criança tudo o que é necessário para uma brincadeira saudável. Veja no vídeo o nível de concentração e empenho dos irmãos, especialmente ao final. Veja a negociação (nem sempre tranquila, mas aparentemente saudável) que ocorre, veja a capacidade infantil de escolher, sem frustração, trabalhar isoladamente ou em grupo. Observe várias vezes como eles escolhem peças específicas, trocam, experimentam, selecionam um tipo definido de peça para trabalhar. Observe como a necessidade do menino menor de seriar os prismas por tamanho é respeitada pela irmã mais velha que quer construir algo cada vez mais alto.

Observe tudo.

Nada disso seria possível com um boneco de desenho animado que funcionasse com pilhas.

Nós não podemos, em nome de uma indústria que, só no Brasil, movimenta 9.000.000.000 de reais (isso é 9 x 1000 x 1000 x 1000), retirar de nossas crianças o direito à concentração, ao desenvolvimento de funções cerebrais específicas, à socialização saudável, à criatividade e à imaginação. Nós não podemos privar nossas crianças do melhor que a vida pode lhes oferecer, e nós não podemos privar a humanidade do incrível trabalho da criança: a criação interior do humano. É isso que faz o brinquedo que brinca sozinho. Ele priva a humanidade do que ela tem de mais humano.

Para ajudar você, o Lar Montessori vai lançar, de vez em quando, checklists que deem suporte aos seus esforços para adequar a casa e modificar o que você acredita ser importante em seu ambiente. Como forma de teste desta nova prática, abaixo você encontra um PDF de uma página com dois checklists. Um se refere à escolha de brinquedos, e o outro ao rodízio dos brinquedos que você deixa disponíveis para seu filho (leia mais sobre a brincadeira da criança aqui, e depois aqui e aqui).

>> Checklist para Brinquedos

Trabalho e Brincadeira II

Atenção. Este é um texto longo. Se necessário, leia em partes.

Parte I

Em nosso artigo anterior sobre o trabalho e a brincadeira, expusemos sucintamente – apesar de o artigo ser longo – as semelhanças e as diferenças entre o trabalho montessoriano e a brincadeira. Vale dizer o trabalho montessoriano, porque ele é diferente dos trabalhos escolares em geral. Como já vimos, ele se assemelha à brincadeira em uma série de pontos, e é construído com o objetivo de seguir a natureza e as necessidades fundamentais da criança, por isso, agrada-lhe imensamente poder dedicar-se a este tipo de atividade.

trabalho montessoriano, nesse sentido, é uma atividade de contentamento. A criança que a realiza sente-se completa, preenchida. Montessori desenvolveu materiais que permitem à criança construir-se enquanto aprende sobre o mundo que a circunda. Nesse contexto, mesmo os assuntos que podem soar áridos a quem os aprendeu em um ambiente tradicional tomam ares de maravilha:

“Pode-se constatar”, diz Montessori, “em muitas crianças colocadas em condições adequadas, uma paixão pela matemática, pelos grandes números, pelas grandes operações aritméticas, como também pelos cálculos de nível muito superior, como o estudo das potências dos números, a extração da raiz quadrada e cúbica e especialmente pelos problemas de geometria” (Montessori, Formação do Homem)

Na escola montessoriana, quando o ambiente é perfeito e os adultos muito bem preparados, o trabalho basta. A brincadeira, ainda que sempre permitida, não é necessária. A criança não a busca, porque satisfaz todas as suas necessidades com o trabalho ativo, concentrado e feliz. A socialização é intensa na sala montessoriana, e as oportunidades para colocar em prática a criatividade também. As mãos estão sempre em ação e há inúmeros objetos belíssimos para utilizar e compreender.

Em casa, nem sempre é assim. Evidentemente, não há motivo  nem oportunidade para que um ambiente preparado com todos os materiais faça parte do âmbito doméstico. Em casa, a casa basta. Deve haver adequação dos ambientes às necessidades e possibilidades da criança, o que significa abaixar a altura de muita coisa, incluir alguma mobília pequena, permitir o acesso da criança ao que pertence a ela e dar a ela oportunidade de escolhas, liberdade de movimentação e respeito ao seu tempo. O ambiente deve ser ordenado, assim como a rotina. As regras devem ser sempre respeitadas, para evitar confusões, e os adultos precisam se esforçar por serem pacíficos. Isso, se feito, permitirá a você notar que a criança, na verdade, escolhe fazer o que você faz e se desenvolve assim.

Ela vai querer lavar a louça como você lava, mexer no computador como você mexe, dobrar as roupas, levar o cão para passear, colocar quadros na parede, limpar o banheiro, dar comida para o passarinho ou os peixes, cuidar das plantas, colocar a tirar a mesa, assistir TV, jogar videogame (cuidado com esses dois últimos), pintar, lixar, costurar, martelar, encerar, vai querer polir, lustrar, vestir e despir, banhar-se. Só viver já tomaria todo o dia da criança em casa, especialmente se ela vai para a escola em algum momento. Além de tudo isso, ainda há infinitas possibilidades de exploração do quintal, da varanda, da área comum do prédio, dos parques e das praças, de museus… Os espaços do mundo, todos eles, são espaços de aprendizado e desenvolvimento.

Parte II

Entretanto a brincadeira pode atender a diversas necessidades infantis, se bem pensada e cuidadosamente feita. Algumas formas de brincar são mais interessantes do que outras, para a criança pequena. Para além de entreter e fazer passar o tempo, a natureza de brincadeiras realmente interessantes ajuda a criança a conhecer melhor a si mesma e ao mundo que a rodeia. Por isso, vamos agora passar a uma lista breve de pontos a se pensar sobre os brinquedos e o brincar em casa:

1. Pouco vale muito – não tenha muitos brinquedos. Tenha poucos. Se você precisa de um número, tenha dez, e deixe seis à disposição da criança, no máximo. É pouco provável que ela tenha real paixão, ao mesmo tempo, por mais de seis brinquedos. Libere e adapte o resto de sua casa, e se lembre de que toda a casa é ambiente da criança, assim os seis brinquedos não são as seis alternativas dela, mas mais seis alternativas para ela. Além disso, tendo poucos brinquedos, você pode pensar mais em cada um que for fazer ou adquirir, e pode gastar um pouco mais (de tempo ou dinheiro) também, com coisas melhores. Fora isso, e você vai adorar ver acontecer, poucos brinquedos levam a uma fácil administração da ordem – tanto você quanto sua criança terão mais facilidade em manter tudo no lugar.

2. Ame e conheça o universo – os brinquedos e as brincadeiras vendidas nas lojas e nos programas de televisão são, em geral, vazios(as), bobos(as) e ausentes de sentido. São feitos para distrair, entreter e, no limite, alienar. A criança, diferente do adulto, não sente necessidade de descansar do mundo real. Ela deseja absorvê-lo inteiro. Quando for escolher um brinquedo ou uma brincadeira, pense: “Qual maravilha do mundo real estou levando para meu filho (ou aluno) agora?“. Maravilhar-se com o real é o grande segredo de todos os cientistas, artistas, filósofos e líderes políticos e religiosos – experimente tentar você também. O seu filho, com certeza, vai adorar.

3. Viver é desenvolver – A criança não quer perder tempo. Ela deseja, mais que tudo, desenvolver-se e tornar-se independente. Vai aproveitar cada chance que tiver, desde descer, com dificuldade e esforço, de seu colchão ao chão, até pegar as frutas e os legumes das cestas da cozinha e manipulá-los com a mão e a boca. A vida é toda uma grande descoberta e uma grande oportunidade de crescer. Com a brincadeira acontece exatamente o mesmo. Ao planejar uma brincadeira para seu filho, tenha em mente o momento de seu desenvolvimento, as necessidades que ele vem manifestando e você vem percebendo em uma observação atenta. Não compre brinquedos que sejam autossuficientes, que façam tudo sozinhos. Não compre brinquedos que não servem para nada. Você pode presentear seu filho com um boneco ou uma boneca, mas dê mais do que isso. Os brinquedos legais, aqueles pelos quais ele vai se apaixonar, são aqueles que exigem muito de seu cérebro em formação, e aqueles que permitem a ele o que chamamos de final aberto, em que é possível trabalhar por muito tempo livremente, ou descobrir pela exploração e o raciocínio a solução de um enigma.

Parte III

Se você considerar os três pontos que levantamos acima, vai acertar (quase) sempre. Todos nós estamos sujeitos ao erro, e uma das belezas da vida é justamente que encaremos essa possibilidade como algo inerente à existência. Montessori sugeria que tivéssemos o erro como um “caro e inseparável companheiro de jornada” e o conhecêssemos muito bem, não para evitá-lo, mas para controlá-lo. Sempre que entregar um brinquedo à sua criança, um material ao seu aluno, ou desenvolver com eles alguma brincadeira, observe-os. Atente bastante para não se fascinar mais com a brincadeira cuja ideia foi sua, com o brinquedo que foi difícil de encontrar, do que com a reação da criança. Só ela importa.

Isto dito, abaixo seguem sugestões de brinquedos e brincadeiras. O Lar Montessori evita listas de atividades, porque deseja que você descubra a magia do real e as maravilhas de seu lar. Mas aqui é pertinente ajudar você nos primeiros passos. Pelas informações que seguem, agradecemos especialmente à equipe de moderação do grupo Montessori para Mamães, que vem fazendo um serviço fantástico de divulgação e auxílio para aplicação de Montessori em família. Se você for pai (no masculino), também é muito bem vindo lá.

1. Brincadeiras que envolvam todo o corpo – Circuitos de tarefas nas quais a criança deva empenhar seus braços e pernas, atividades que envolvam equilíbrio, força, cuidado nos passos. Desde uma linha traçada no chão, para crianças pequenas, passando pela amarelinha e chegando até a princípios de arvorismo. Brincar com cordas, bambolês, labirintos (que podem ser feitos com traços, caixas de leite, tábuas ou papelão), obstáculos, passar por baixo, por cima, passar em volta, entrar em espaços pequenos, tudo serve, tudo diverte e tudo ensina, do jeito certo, por meio da atividade feliz. Um link simples com algumas ideias para inspirar você vai aqui.

2. Espaços naturais abertos ou parquinhos naturais – mais do que o parquinho com máquinas e equipamentos que fazem tudo pela criança, amplos espaços com troncos, pedras, areia, mato e terra oferecem possibilidades muitas de exploração e descoberta. Mexer com diferentes texturas, carregar peso, transplantar, plantar, empilhar e construir são algumas das muitas atividades que um espaço natural oferece. Se não houver nenhum planejado para crianças perto da sua casa, experimente visitar espaços de mato de verdade. Se seu filho não for muito pequeno e o espaço não for selvagem demais, haverá muito que fazer e pouco o que temer. Veja algumas imagens inspiradoras e pequenos comentários aqui. Para todos os links, se você não lê inglês, use o Google Tradutor. São frases curtas em geral, e ele deve ser suficiente.

3. Brincadeiras de minimundo – tratam-se aqui do que se chama habitualmente de small world play, e que traduzimos mais ou menos livremente. É um tipo de brincadeira que envolve pequenos bonecos, miniaturas do mundo real. Não é necessário que sejam muito fiéis, e podem ser feitas em pano, madeira, ou (até…) plástico. As miniaturas são usadas em maquetes, que também podem ser feitas de vários materiais. A interação entre as formas humanas ou animais e seu ambiente é uma mímica do mundo real e ajuda a criança a simbolizar sua realidade e compreender melhor suas características. Podem ser abordados temas tais quais esportes, profissões, escola, família, transporte, animais selvagens, animais domésticos, paisagens, localidades geográficas. Da mesma maneira que o mundo real é infinito em suas maravilhas, o minimundo também é.  Lembre-se de que o faz-de-conta que parte da realidade é muito mais interessante para a criança do que aquele que precisa gerar todo um mundo de fantasia para acontecer, e tenha em mente também que o minimundo não substitui o mundo real – ele é sua mímica, sua imitação, e conta com a exploração do real para fazer sentido. Veja ideias aqui e aqui.

4. Faz-de-conta – isso é um assunto controverso em Montessori. Não por culpa de nossa precursora, mas por culpa de seus leitores. Montessori nunca foi contra o faz-de-conta. A brincadeira de fingir que tem como base o mundo real é uma exploração psicológica, criativa e emocional do mundo que circunda a criança. Evitamos, isso sim, embarcar em um mundo de fantasia, com elementos que fogem ao que pode ser percebido pelos sentidos e, portanto, confundem a criança em sua percepção da realidade, não a auxiliando em nada em seu desenvolvimento. Mas o faz-de-conta que copia algo real é belíssimo, e ajuda a criança a compreender melhor o ambiente em que vive. O teatro, as roupas e a atribuição de papéis é algo que surge naturalmente entre crianças pequenas, e é também algo que pode ser utilizado em casa. Como adultos, adoramos esse tipo específico de brincadeira. Atente para não exagerar e utilizá-la, como às outras, quando perceber que a criança a pede, de alguma maneira. Veja uma bela sugestão aqui.

Mais fontes:

Além dos quatro tipos de brincadeiras que enumeramos aqui, há outras que se pode fazer, lembrando dos três princípios que enumeramos acima, e que buscaremos chamar aqui de “Princípios do Brincar”. No álbum criado por Nádia Monteiro, responsável pelas dicas acima e moderadora do Montessori para Mamães, você encontrará fotografias e comentários sobre várias formas de brincadeira inspiradas nos princípios psicológicos e educacionais de Montessori.

Você pode, também, visitar os links abaixo para conhecer mais sobre o assunto:

1. Artigo de Angenline Lillard sobre Montessori e Brincar: http://www.journalofplay.org/sites/www.journalofplay.org/files/pdf-articles/5-2-article-play-learning-and-montessori-education_0.pdf

2. Brincadeira ou Trabalho? Alternativa Errada – http://mariamontessori.com/mm/?p=2353

3. As Cinco Características da Brincadeira e do Trabalho Montessoriano – http://mariamontessori.com/mm/?p=2374

4. Recuperando o Trabalho como Alegre e Edificante: uma missão montessoriana – http://mariamontessori.com/mm/?p=2381

5. Montessori e Brincadeira do ponto de vista da família – http://www.howwemontessori.com/how-we-montessori/2011/05/montessori-and-play.html

 

Trabalho e Brincadeira I

Atenção: este é um artigo longo. Se necessário, leia em partes.

O tema que dá título a este artigo precisa de mais de um texto para ser trabalhado em alguma completude. Neste primeiro, trataremos dos seguintes temas:

  • Características da brincadeira
  • Como estas características estão presentes no método Montessori
  • Diferenças entre trabalho e brincadeira
  • Diferenças entre material e brinquedo

No próximo artigo, trataremos de:

  • A presença do trabalho e da brincadeira em casa
  • Brincadeiras de fantasia e de realidade
  • O trabalho como atividade de contentamento
  • Possibilidades de brincadeiras construtivas

Características da Brincadeira & Montessori:

Quando pensamos em brincadeira, não nos vem à mente uma tabela de características, mas uma imagem bonita de crianças reunidas ou individualmente sorridentes, fazendo algo de seu gosto, sem um objetivo exterior que não seja o prazer total em uma atividade. É a imagem mais bela que se pode fazer da infância e, decididamente, a mais merecida.

Na brincadeira, a criança coloca em prática as atividades que mais despertam seu interior:  (1) usam objetos variados , (2) interagem com seus colegas, (3) valorizam muito mais o processo do que o produto, (4) divertem-se e (5) mantêm suas mentes abertas e livres.

O uso de diversos objetos é muito importante para os pequenos. Permite que explorem o mundo e usem suas mãos em abundância. Em diversos momentos, as brincadeiras pedem a implicação de todo o corpo, e as crianças caminham, exercitam-se, carregam coisas, transportam, passam. As mãos entram em interação com todo tipo de coisas, permitindo que a criança, primeiro, sinta diversas formas, texturas, temperaturas e, depois, que eduque seu movimento cada vez melhor.

A interação com colegas permite o desenvolvimento da sociabilidade. A criança que troca com seus pares precisa negociar a realidade, submeter-se e fazer valer sua vontade, avaliar seus pontos de vista e os dos colegas, transformar seu comportamento, respeitar e exigir respeito. Aprende a trabalhar com regras, normas e padrões, aprende a alterá-los, debater exceções, compreender contextos. Inclui colegas, aprende a ser incluída (ou não, e a lidar com isso). Visões de mundo distintas e conhecimentos variados se fazem presentes nessas interações e ocorrem mudanças de gosto, personalidade, carinho. Trabalham-se sentimentos, dos mais doces aos mais difíceis, e o raciocínio social necessário à interação.

A criança naturalmente valoriza os processos, mais do que seus fins. Mas na brincadeira, especialmente, o fim é de importância muito menor. Importa fazer, importa fazer de várias maneiras, importa fazer bem e importa repetir o fazer – muitas vezes. A ação é a brincadeira em si, e o resultado representa ou seu final ou um estágio superado, a partir do qual se pode agir de novo e melhor, para tornar a brincadeira mais interessante pela perfeição e pela previsibilidade. Vale dizer: crianças adoram o que é previsível.

Não pode haver brincadeira sem alegria. A brincadeira sem alegria é entendiante – pior, não é brincadeira. O envolvimento da criança nela é sério. Ela leva às últimas consequências as regras do brincar em que se envolve, e se esforça verdadeiramente, mas faz tudo isso com alegria. Não faço nada sem alegria, são os dizeres da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. A criança nos diria o mesmo.

Não há fronteiras na brincadeira. A criança testa tudo, abre-se para o mundo, explora, descobre. Embora exista repetição, a atividade mental nesta repetição muda vez a vez, refina-se, aprofunda-se. Não existe um professor ou um adulto que obriguem tais e tais comportamentos, impedindo outros. A escolha é livre, o tempo é respeitado, o espaço é respeitado – a criança é respeitada e por isso sua mente é livre para trabalhar.

Em Montessori, este é o verbo que usamos: trabalhar. Mas nosso trabalho é especial. Nosso trabalho é encantador, porque parte das características naturais da criança e responde primeiro às suas necessidades internas. Nosso trabalho é composto por atividades pensadas de acordo com os estágios do desenvolvimento infantil e respeita o ritmo de trabalho, o tempo e a necessidade de repetição da criança. Por isso, ele é apaixonante.

No trabalho do ambiente montessoriano, a criança também coloca em prática as atividades que mais despertam seu interior:  (1) usam objetos variados , (2) interagem com seus colegas, (3) valorizam muito mais o processo do que o produto, (4) divertem-se e (5) mantêm suas mentes abertas e livres.

Em uma escola montessoriana, haverá cerca de uma centena ou duas de materiais dispostos nas estantes, para crianças até seis anos. Em casa, pode haver muito menos – só serão necessários os trabalhos que corresponderem à fase do desenvolvimento do seu filho, e não de vinte ou trinta crianças. Em sua casa, haverá, talvez, seis atividades em cada ambiente. Os materiais entram em rotação, conforme a criança começa a se interessar por atividades novas e desinteressa-se das antigas, assim, há pouco acúmulo. Além disso, algumas coisas podem ficar sempre à disposição da criança, para seu uso: uma vassoura menor, seus utensílios de cozinha, algumas de suas roupas e uma cesta ou prateleira com livros infantis.

A interação com colegas na escola é natural. Em salas montessorianas o professor não é e nem pode ser o centro de todas as relações. Ele é uma peça chave na mediação entre a criança e os materiais que ela ainda não conhece, e ele é responsável, acima de tudo por observar as crianças e preparar o ambiente de acordo com suas observações. Depois, a sala é das crianças. A interação entre elas é linda e deve acontecer livremente. Nós interferimos se há risco físico ou psico-emocional, mas no todo, trata-se de um Lar das Crianças de fato. Em casa, o lar é da família toda. Se houver irmãos, eles devem ter a oportunidade de interagir por bastante tempo sem muita interferência nossa. Se não houver e algum amigo for bem vindo, trata-se também de uma excelente opção. Por outro lado, a criança deve ser deixada livre para trabalhar sozinha, sem que imponhamos nossa interferência.

Os materiais montessorianos contêm o que chamamos de controle do erro. É um dispositivo que garante que todas as atividades se autocorrigem – o adulto não é responsável por corrigir a criança e nem se espera isso dele. A criança, em interação com o mundo, aperfeiçoa-se. Se ao final a atividade não estiver correta, a criança percebe. Por isso, os pequenos podem focar todos os seus esforços no fazer em si, e não no resultado. Podem ficar seguras de que saberão se o resultado esteve bem, isso ficará evidente e o processo poderá continuar. Não terá havido um resultado imperfeito. A ausência da preocupação com elogios, prêmios ou castigos também é relevante na valorização do processo sobre o produto. (Você pode entender melhor todo este parágrafo aqui e aqui).

Afora trabalhar e interagir, é necessário ser feliz. “Um teste”, diz Montessori, “da correção do processo educacional é a felicidade da criança”. Uma criança que brinca, na acepção comum do termo, é feliz de forma óbvia: ri, corre, grita. Uma criança em Montessori é feliz porque coloca em prática aquilo que lhe é fundamental. Ela é feliz sorrindo, conversando, andando, e utilizando suas mãos ininterruptamente. No vídeo que segue, isto fica evidente. Trata-se de um vídeo institucional, portanto o início e o fim podem ser desinteressantes. O meio demonstra claramente o que queremos dizer aqui:

A criança, quando tem liberdade de agir, trabalhar e interagir com quem quiser, quando pode ser feliz de forma completa e consciente, mantém a mente aberta ao mundo, aberta a encantar-se com ele. Gabriel García Marquez, Prêmio Nobel de Literatura, diz em sua autobiografia:

Não acredito que haja um método melhor do que Montessori para tornar as crianças sensíveis às belezas do mundo e despertar sua curiosidade pelos segredos da vida.

Trabalho e Brincadeira, Material e Brinquedo

Segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, brinquedo é “passatempo, distração, coisa que não é séria, coisa fácil de fazer”.  E isso é bom. Todos nós precisamos brincar, e com as crianças não é diferente. Já vimos que as características da brincadeira são muito relevantes para a formação infantil, e sabemos que a brincadeira também é importante para o adulto. Nós gostamos muito de correr em parques, passear com nossos filhos, levar os animais de estimação para dar uma volta, jantar com amigos e jogar conversa fora. É bom, faz bem e alegra. Mas não é suficiente para a vida.

Para viver com propósito exige esforço, foco, vontade e trabalho. É necessário, para nós, adultos, ter uma direção para caminhar, um norte, e sermos livres para que possamos perseguir o que chamamos de missão ou vocação. Para a criança acontece exatamente da mesma maneira. Entretanto, a missão dela está dada mesmo antes de seu nascimento: seu objetivo é desenvolver-se. Ela caminha para a vida e todo o seu esforço é direcionado para a independência física (entre zero e seis anos), intelectual (entre seis e doze anos) ou social (entre doze e dezoito anos).

Material, para o mesmo dicionário, é algo “prático ou útil, aquilo a partir do qual determinada atividade pode ser desenvolvida e conduzida às suas finalidades específicas”. Parece árido, mas devemos guardar em mente que a finalidade específica de qualquer atividade infantil é ajudar a vida a se desenvolver com plenitude. É com esta finalidade que a criança faz tudo aquilo que faz. Ela não descansa porque, ao contrário de nós, o objetivo de toda sua atividade não é exterior a ela, mas é aquilo de que depende sua própria sobrevivência futura. Se ela se esforça sem cessar, é porque depende de cada um de seus esforços ter uma vida equilibrada e saudável futuramente e, internamente, sabe disso.

O material é diferente do brinquedo não tanto em sua utilização natural pela criança, mas na preocupação adulta em sua construção. A indústria de brinquedos gera uma movimentação de bilhões de dólares anualmente. Só nos Estados Unidos da América são cerca de US$ 22.000.000.000,00 de dólares anuais. Não é muito supor que sua preocupação nada tenha em comum com aquelas de famílias e escolas. A maior parte dos brinquedos é feito com a exclusiva finalidade de venderÉ feito para chamar a atenção dos adultos, e por isso traz cores vibrantes, produz muitos sons, faz muitas coisas ao mesmo tempo. Adultos fascinam-se pela abundância. Para que chame a atenção da criança (que prefere a simplicidade, a leveza das cores, um estímulo de cada vez e uma só tarefa para executar) conta com dois aliados: o adulto e a televisão.

O material de desenvolvimento do método montessoriano é feito para ambientes escolares. Entretanto, em casa muitas atividades, especialmente de Vida Prática, podem ser utilizadas. Além disso, os princípios de ordembelezautilidade, assim como as características fundamentais dos materiais podem ser sempre levados em consideração para qualquer objeto que se proporcione para a criança.

Assim, vale dizer algo que nos sirva como balança para que possamos medir nossa atitude diante do brinquedo e da brincadeira: o problema não é a brincadeira, mas o brinquedo. Ou melhor, o problema é qual brinquedo.

Há brinquedos que são construídos tendo em mente a criança, suas necessidades, suas características. Estes, em geral apresentam alguns pontos que podemos levar em consideração:

  • São de madeira ou metal;
  • Têm poucas cores e muito leves;
  • São agradáveis ao toque;
  • Apresentam um desafio à criança;
  • Não são máquinas e não levam pilha;
  • Dependem das mãos da criança para funcionar;
  • Não dependem do adulto;
  • São de pouco peso;
  • São esteticamente agradáveis;
  • Se são miniaturas, são miniaturas, e não caricaturas da realidade;
  • Têm um objetivo principal – e, talvez, alguns secundários;
  • Não subestima a inteligência da criança e está atento às fases do seu desenvolvimento.

Ao escolher um objeto, um presente, um brinquedo ou um material para as crianças, levar tudo isso em consideração nos ajudará a apresentar coisas melhores e a proporcionar momentos de brincadeira – ou de trabalho – verdadeiros, realmente prazerosos e que deverão ajudar a criança, fundamentalmente, a ser feliz.

Em nosso próximo texto, exploraremos as dimensões do trabalho e da brincadeira em casa e na escola, assim como as diferentes formas do trabalhar e do brincar em família. Será brevemente abordada também a questão das diferenças entre imaginação e fantasia.

Objetos Montessorianos: Brinquedo e Material

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Crescemos com brinquedos. Nossos maiores objetos de desejo quando éramos menores foram brinquedos. Desejamos o carrinho, a bola, a boneca, o videogame, o trenzinho, o autorama, o cavalo de pau, e depois os minigames e videogames portáteis. Nos desenvolvemos acreditando que os brinquedos eram a graça da infância. Por isso, somos adultos que acreditamos nisso. Nós temos certeza de que os brinquedos alegram a criança e dão a ela motivos para sorrir. Somos adultos que vêem na brincadeira o verdadeiro objetivo de vida da criança. Nós achamos isso porque nossas crianças riem quando brincam, e nós amamos seus sorrisos. E ainda assim, em tanto amor e tanta alegria, estamos redondamente enganados.

A criança deseja conhecer, explorar e descobrir o mundo. Deseja ser independente e livre, e busca de todos os modos acessar o mundo do adulto, que é o universo que ela tem por modelo. Assim, tenta copiar seus pais em tudo o que fazem: o computador, o carro, o fogão. Nós, percebendo esta vontade da criança, buscamos satisfazer seu desejo lhe dando computadores de mentira, carros de plástico e fogões sem fogo. É uma boa ação, que fazemos com amor, e que a criança aceita de bom grado, porque é o máximo que poderá ter. Mas perto do mundo real, perto do que há de incrível na realidade, o brinquedo é quase uma troça com a vontade da criança de conquistar sua independência.

Segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, brinquedo é “passatempo, distração, coisa que não é séria, coisa fácil de fazer”. As conquistas da criança são difíceis, exigem esforço, trabalho, empenho e dedicação. O aprendizado da fala, do caminhar, e da execução de tarefas do dia a dia, como vestir, limpar, lavar, secar, cortar, comer, pegar, desenhar, abrir, fechar e guardar, exige uma incessante busca e repetidas tentativas por parte dos pequenos, e não se tratam, portanto, de brincadeiras, de passatempos, ou de coisas fáceis de fazer. Acima de tudo, são, para a criança, esforços e trabalhos sérios.

Montessori, quando inaugurou sua primeira sala em San Lorenzo, também achou que as crianças poderiam gostar de brinquedos, e tentou utilizá-los. No entanto, esta sala era equipada com materiais montessorianos e itens do mundo real à disposição dos pequenos. Então, nenhuma criança utilizou os brinquedos que Maria Montessori disponibilizou. Uma professora montessoriana dos Estados Unidos, Paula Polk Lillard, escreve um excelente livro, que consiste no diário que fez durante um ano sobre sua atividade em sala de aula. Neste diário conta que no início do ano utiliza uma caixa de brinquedos para que as crianças achem a escoala semelhante à sua casa, mas que uma semana depois os brinquedos são retirados, e as crianças, já atentas aos materiais presentes na sala, sequer percebem a ausência do caixote.

O brinquedo é despretencioso, é uma distração. É muito bom, mesmo para nós adultos, brincar. Brincar com os filhos, com o cachorro, em um parque de diversões ou com os amigos. Nossas brincadeiras são mais sofisticadas, e gostamos de jogar, alguns gostam de videogames, apreciamos um bom papo jogado fora em volta de uma mesa com boa comida. Tudo isso é muito agradável, como é a brincadeira, mas nada disso nos daria prazer suficiente para que o fizéssemos por anos a fio. Para isso, é necessário o esforço, nós buscamos o esforço que se justifica por um grande objetivo – isso é sonhar e perseguir um sonho.

Com a criança acontece exatamente o mesmo. A criança gosta de brincar, e brincar deve ser considerado um de seus direitos, como é um dos nossos, o lazer. No entanto, a criança também tem suas buscas e seus objetivos. Para ela, no entanto, o trabalho e o objetivo são interiores. Não há para ela, como há para nós, a construção ou criação de algo externo, mas sim a construção de si mesma.

Para essa construção interna, a criança precisa de esforço, trabalho e atividade. Este trabalho, no entanto, precisa de um apoio exterior, um material para exercitar-se. Este é o material montessoriano. Ele serve para ajudar a criança a conquistar o desenvolvimento que ela deseja perseguir. Para que seja eficiente, deve atender a três requisitos principais, que são: a manipulação da criança, o isolamento da dificuldade e o controle do erro.

Primeiro, os materiais são da criança, e não dos adultos. Eles são feitos para serem manipulados pela criança e para que ela se sinta a vontade com eles, não só para que aprenda conteúdos, mas para que desenvolva seus sentidos e sua percepção da realidade.

Em segundo lugar, os materiais, para que ajudem, devem ter objetivos muito claros, trabalhar uma dificuldade, um elemento do mundo, de cada vez. Se um material tem muitos objetivos e ensina muitas coisas de uma vez, não ensina nada. A criança está descobrindo o mundo, e de confusão lhe basta a realide. De nós, ela precisa da ajuda, do apoio e do guia. Assim, quanto mais passo-a-passo puder ser a lição e quanto mais claro estiver para nós o objetivo único da atividade, melhor será para a criança a descoberta do mundo.

O terceiro ponto importante do material montessoriano é que ele contenha em si um dispositivo de controle do erro. O jogo da memória, embora não possa ser considerado um material, tem este dispositivo. Trata-se de algo que impede a finalização da atividade se ela não estiver completamente correta. Com o jogo da memória, se um pareamento é feito errado, ainda que quase todos os segintes sejam acertados, o último dará errado. Assim, o exercício não termina. Isso garante que a criança poderá aprender sozinha, e o professor não precisará corrigir nada, e a criança se desenvolverá por si mesma e seus esforços, sem ter de encarar a figura imensa do adulto desenvolvido o tempo todo.

Por todos os motivos expostos aqui, é possível dizer que não existem brinquedos montessorianos. Existem brinquedos mais inteligentes e menos inteligentes, alguns que trabalham mais e outros que trabalham menos o controle motor, e há os que respeitam mais e os que respeitam menos as fases do desenvolvimento da criança. No entanto, se um “brinquedo” tiver isolamento de dificuldade, um só objetivo, controle do erro e servir à manipulação da criança, sendo aplicado à educação de forma organizada e segundo a fase do desenvolvimento da criança, passamos a ter um material. Caso contrário, temos um excelente e despretencioso brinquedo. É excelente, mas não é Montessori.

Dia das Crianças, não dos produtos

“Gosto muito do pôr do sol.
Venha, vamos ver um pôr do sol”.
(Antoine de Saint Exupéry, em O Pequeno Príncipe)
   Hoje, quando estava almoçando, liguei a televisão no jornal da tarde. O âncora dizia, enquanto víamos imagens de lojas e ruas: “E a 25 de Março está vazia! Para quem quer comprar o presente de dia das crianças, ainda dá tempo!”. 25 de Março é o principal centro de comércio a varejo em São Paulo, e é famosa por seus descontos fantásticos em produtos de qualidade baixa ou média.

   Na hora, veio-me à mente uma fala que havia lido no Facebook, dias antes: Neste 12 de outubro, faça com que o dia seja das crianças, e não dos produtos. Lembrei-me também do livro que já mencionei aqui em um artigo anterior: “The World Needs Your Kid” e do blog sobre miniamlismo da Jéssica, o Minimal Student.
   Crianças não ligam para brinquedos. Os pais que já conhecem e praticam Montessori há algum tempo sabem disso. Elas ligam para o prazer advindo do aprendizado que a experiência com o brinquedo proporciona. Então, não é o brinquedo que importa, são três outras coisas:
  1. o prazer
  2. o aprendizado
  3. a experiência
   Como o prazer certamente advirá do aprendizado e o aprendizado só pode surgir a partir da experiência, vamos pensar em experiências. Sabemos que a criança pequena gosta de usar os sentidos e adora ter trabalho. No dia das crianças, podemos proporcionar isso a ela de várias maneiras.
   Uma ideia é organizar um passeio em família para um parque, praça, ou oficina infantil. Em um parque, a criança pode explorar todo o entorno natural que lhe faz tão bem. Pode aprender as texturas das folhas, troncos, da grama e da terra. Ela pode sentir o cheiro das flores, pode ver (e pegar!) insetos, lagartas, minhocas… Cuidado com aranhas, taturanas e animais com ferrão, mas de resto, toda experiência sensorial é científica!
   Passear pelo parque pode proporcionar para ela a oportunidade de conhecer plantas diferentes, e lembre-se de que crianças adoram categorizar. Separar as coisas em flores, arbustos, árvores e ervas-daninha pode ser um jeito de ajudar seu filho a organizar o mundo. Além disso, claro, vale comer uns sanduíches feitos em casa com suco, água, leite ou chá e brincar de roda-roda, pular corda, esconde-esconde, pega-pega, rolar na grama e todas as outras brincadeiras que você e seu filho conhecem bem!
   A praça é um passeio menor, mas muitas vezes é tão bom quanto o parque. Aqui em São Paulo sei que há várias praças com parques de diversão e outras de beleza natural que vale a pena. Conheço uma chamada Praça do Por do Sol, que fica em um local bem alto da cidade e que permite ver o por do sol de um ponto de vista fantástico. Além disso, tem muita grama, árvores, espaços amplos para brincadeiras e conversas. Ir a uma praça pode ser mais fácil para uma família em que todo mundo trabalhe ou para uma criança que não goste de ficar muito tempo no carro, até chegar em um parque que fique longe.
   As oficinas infantis acontecem em várias cidades do Brasil durante o dia 12 de outubro e o fim de semana que o segue. Nem todas são legais. Algumas funcionam com base em competições, outras têm como tema personagens de desenho animado. Mas há um punhado que oferece oportunidades incríveis para as crianças: utilizar materiais recicláveis, superar obstáculos físicos como montanhas de almofadas ou ladeiras de borracha, conviver com crianças de outras classes sociais. Passar um dia em uma oficina assim pode ser muito, muito mais divertido do que ganhar um carrinho, uma bola ou um quebra-cabeça.
   Em alguns casos, porém, pode estar chovendo, pode estar trânsito, e um passeio pode ser bem complicado. Aí vale a pena dar o presente? Não. Não, por dois motivos: primeiro, as coisas são mais caras no dia das crianças, não compensa. E em segundo lugar, seu filho não pode associar seu afeto com objetos, com presentes. Seu afeto tem de estar nas suas palavras, nos abraços, no carinho que você pode e deve oferecer todos os dias.

   Se não houver nenhum passeio para fazer, não tem problema. Faça uma atividade sensorial, faça um pão e peça ajuda para fazer a massa, faça uma salada de frutas e precise de ajuda para cortar as frutas, uma faxina de mentira com ajuda para varrer um pedaço da sala ou do quintal. Se estiver frio, faça tudo de dentro de casa, e se estiver quente, plante uma flor no quintal, use a varanda para montar um brinquedo com tecido ou papel (e o principal não é o brinquedo, mas montar o brinquedo).

   Se você faz parte de uma família que aprecia uma boa educação social, também há vários locais que propiciam o contato entre diversas classes sociais, organizações que dão espaço para algumas crianças darem brinquedos para outras, e você pode ensinar sua criança a dar, sem esperar nada em troca.
   Finalmente, o que importa é fazer deste dia um Dia das Crianças, no qual seus pequenos sejam prioridades completas, em primeiro, segundo e terceiro plano. Dia 12 de outubro não é dia de dar presentes para seu filho, mas é dia de despertar o prazer advindo do aprendizado que surge a partir da experiência.
   Um abraço e feliz Dia das Crianças!