Montessori e Lição de Casa

Acompanhar a lição de casa de nossos filhos pode ser um momento de aprendizado e conexão, ou pode ser um momento de tortura e sofrimento. O objetivo deste texto é ajudar seu filho e você a viverem bem esse momento todos os dias.

A lição de casa, como conhecemos normalmente, não existe em Montessori. Chamo de lição de casa a sequência de exercícios ou a confecção de trabalho conforme especificações da escola, em geral separada por disciplina ou área do conhecimento. Uma lição de Matemática, em minha definição para este texto, consistiria em problemas e exercícios matemáticos e talvez algumas explicações de processos. Uma de História, em responder questões sobre um assunto específico, exposto recentemente em sala de aula, talvez conforme o texto de um livro didático ou paradidático específico. Também são possíveis os projetos de pesquisa sobre assuntos definidos pela escola: redações, cartazes ou vídeos com graus variados de especificação feitos a partir da pesquisa realizada em casa, em livros ou internet. Nada disso existe no método como estruturado por Montessori.

Há muitos motivos para não dar lição de casa para crianças:

  • Em geral, famílias não estão realmente preparadas para ajudar;
  • Dependendo do volume, a lição de casa rouba tempo de brincar e viver;
  • A criança pode reforçar conceitos errados se repete o que não sabe;
  • É raro que lições de casa sejam bem estruturadas.

Mas também há muitos motivos para dar lição de casa na escola tradicional:

  • Pode ser um dos poucos momentos das crianças junto com seus pais;
  • Pode ser a única oportunidade de a criança exercitar seu aprendizado;
  • Pode ser a única chance que a criança terá de estudar de verdade;
  • Pode ser o único momento de aprofundar-se em paz em conteúdos;
  • Pode ser o único momento em que seu aprendizado não é julgado e ela pode errar.

Os motivos para não dar lição de casa não anulam os motivos para dar, e vice-versa. Em Montessori, ela não é necessária. Em uma escola tradicional, ela pode ser essencial. Eu gostaria que todas as milhares de famílias que leem o Lar Montessori tivessem a oportunidade de colocar suas crianças em escolas montessorianas, mas eu sei que ainda não é assim. Por isso, este texto existe para ajudar você a acompanhar a lição de casa do seu filho. Nós vamos ver agora algumas das atitudes que podem funcionar favoravelmente nesses momentos.

Atenção total – eventualmente, pode ser difícil, mas se for possível estar exclusivamente com a criança enquanto ela faz a lição, esse períodos se torna também um de vida em família, fica mais agradável para ela e você pode conhecer seu filho muito melhor, inclusive seus pontos fracos e fortes tanto em relação ao conteúdo quanto no que diz respeito a resiliência, foco, força de vontade, interesses particulares, prazeres intelectuais e artísticos e as formas de raciocínio que ele já desenvolveu.

Planejamento – como em tudo, fazer a lição de casa pode ser mais fácil se você observa seu filho e aprende os momentos melhores para isso. Antes de dormir, por exemplo, pode ser um momento ruim. Para ter mais sucesso, veja a lição de casa antes, ajude seu filho a preparar o espaço para estudar, e a ter disponíveis todos os materiais necessários. Reserve tempo para a tarefa. De certo, concordo que nem sempre temos preparação intelectual para lidar com os conteúdos passados pela escola, mas ainda assim, vale a pena conhecer a tarefa antes de sentar para fazer com a criança, especialmente até que a criança tenha idade e independência para fazê-la sozinha – o que vai variar a depender da escola, da criança e da tarefa.

Paciência – muitas coisas podem ser melhores com paciência. O banho, o almoço, o desvio no caminho, e a lição de casa. A criança pode gostar da lição um dia, e ir rápido, e pode desgostar de outros exercícios e ir muito devagar. A sua paciência lhe permitirá observar a criança, reencaminhar a atenção dela e não criar uma associação entre a lição de casa e momentos de bronca, pressão e estresse. Você pode respirar enquanto seu filho estuda, e prestar atenção, em turnos, à sua respiração, ao desenvolvimento de seu filho, ao esforço dele, aos sofrimentos que enfrenta, às formas de organizar uma lição que funcionam mais ou menos, e às suas ações mais e menos eficientes. Quando seu filho enfrentar dificuldades ou errar coisas, você pode dar três ou quatro votos de confiança enquanto respira e fica atento ao movimento do seu abdômen, e resiste ao ímpeto de corrigir e fazer por ele.

Ajudar o mínimo necessário – em Montessori, optamos por nunca ajudar uma criança que acredita ser capaz de uma ação qualquer. Se a criança se vê capaz, deixamos que se esforce. Isso, eventualmente, faz com que ela cometa erros, é claro. Quem tenta erra. Esses erros, de vez em quando, serão percebidos pela própria criança, e é por isso que você precisa esperar com paciência enquanto ela erra. Se ela mesma puder perceber, aprende muito mais do que se você apontar. Outras vezes, no entanto, você pode precisar apontar. Veja que, na lição de casa, nós nem sempre podemos confiar no processo de autoeducação – a autoeducação depende de um meio adequado, e a lição às vezes não é esse meio. Se você precisar (mesmo) apontar o erro para a criança, aponte com perguntas, do tipo: “vamos ver aqui, quantas bolinhas precisávamos pintar? … Vamos contar quantas você pintou?” ou “Hm… Elefante começa com que letra mesmo? E aqui você colocou…” para que a criança tenha a chance de aprender a prestar atenção.

Ajude o interesse – é uma infeliz verdade que nem sempre as lições sejam interessantes. No mundo ideal, a maioria seria, mas no mundo real às vezes é o contrário que acontece. Há algumas coisas que podemos fazer para ajudar a criança a se conectar com a lição. Podemos usar objetos da casa para inspirar a escrita, podemos buscar figuras ou vídeos em revistas e internet, podemos até lançar mão de um ou outro material didático concreto (montessoriano ou não)¹ para ajudar a criança a desenvolver vontade de fazer a tarefa. Se nós pudermos tornar a lição interessante, participando ativamente dela e trabalhando pela manutenção do interesse da criança pelo conhecimento, pouparemos nossos filhos de terem, diariamente e por quatorze anos, que enfrentar momentos cada vez mais longos de tédio e repulsa pela educação.

Dar a importância que a lição tem, e não mais – por vezes, especialmente para adultos que foram criados em contextos tradicionais de educação, a lição de casa parece ser o que há de mais importante na vida da criança fora da escola. E, vamos e convenhamos, se a criança está na escola tradicional, a lição importa mesmo. Por isso, eu sugeri lá em cima que ela não seja deixada para o final do dia, fica estressante. Mas, se a lição for bem trabalhada e logo, sobra tempo para o que é mais importante fora da escola: a brincadeira e a conquista da independência da criança.

Cada casa terá suas particularidades, uma estruturação diferente da rotina e possibilidades distintas de adaptação. Também, cada escola dá um peso distinto à lição e adota níveis distintos de seriedade e profissionalismo em sua preparação. De toda maneira, esse é um assunto longo que deveremos voltar a abordar no Lar Montessori. Aprendo com vocês que não é útil à infância e às famílias fingir que as escolas tradicionais não existem. É necessário usar o conhecimento de Montessori para lidar com isso da melhor maneira possível.

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¹ Eu ainda estou pensando sobre a possibilidade de escrever ou filmar um brevíssimo manual sobre o uso de materiais montessorianos para o suporte à educação escolar tradicional em casa. Parece uma boa ideia, mas ainda preciso pensar mais um pouquinho para elaborar algo que valha a pena.


10 comentários sobre “Montessori e Lição de Casa

  1. A ideia pro video é maravilhosa. Faz um manual brevíssimo, breve, longo, extenso, um livro e sempre será um tema que mudará vidas. Nem sempre é possível o ideal, especialmente no Brasil, mas transformando o real em um pouquinho melhor a cada dia, a gente chega lá. Isso é o que seus textos fazem conosco, mamães, desde sempre.

  2. Gostei muito da idéia dos materiais montessorianos para as crianças em escolas regulares. Vai ser ótimo para a minha família

  3. “É necessário usar o conhecimento de Montessori para lidar com isso da melhor maneira possível.”
    Ótima frase para terminar o texto!

  4. Olá Gabriel,
    Esperando ansiosamente, por esse material para auxiliar na escola tradicional, meus filhos estão no ensino fundamental, e não existe escola montessoriana na minha cidade. Até e Obrigada!

  5. Creio ser excelente a ideia posta ao final do artigo: “a possibilidade de escrever ou filmar um brevíssimo manual sobre o uso de materiais montessorianos para o suporte à educação escolar tradicional em casa.”Em muito auxiliará os pais de escolas tradicionais e até servir para o melhor entendimento de pais com filhos em escolas montessorianas perceberem as razões e a lógica da construção do pensamento.

  6. A gente deixa você pensar mais um pouquinho, mas não deixe de fazer o manual será incrível como tudo que você faz!! Parabéns, eu amei o texto e já estou compartilhando aos montes!!

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