“Me ensina a fazer sozinho?” – O que a criança quer de nós

Ainda ontem, eu mostrava a uma criança como fazer um exercício – veja bem, um exercício que eu demonstro para crianças e adultos há sete anos, e que adoro, e que literalmente faço vendado. E ele me disse: Não é assim. E eu, vendado, disse, Continue olhando. Ele olhou por um segundo, segurou minha mão, e disse: Não é assim. E puxou minha venda. E colocou a venda nos próprios olhos. E mostrou como eu deveria fazer. Exatamente como eu fazia, o que quer dizer que ele aprendeu, mas diferente do que eu fazia, porque não era eu que estava fazendo. Era ele.

O meu impulso, que escapou pela boca, baixinho e pela metade, foi pedir que ele me deixasse termi… Então continue e eu já volto. Boa sorte. Sorri. E fui embora. Com um nó no peito porque depois de nove anos de Montessori eu ainda não entendi que a criança precisa aprender a fazer sozinha. Esse é o pedido constante, eterno, da criança. Ela precisa fazer sozinha. E ela precisa fazer a si mesma sozinha.

Nós desejamos que as crianças sigam nossas instruções. Elas só querem a primeira parte, que é saber o caminho para seguir. Seguir mesmo, elas vão seguir sozinhas, e tropeçar, e cair, e ficar lá no chão com a poeira até poderem levantar. E nós vamos tentar ajudar e elas vão querer ficar lá no chão com a poeira. Porque tem aprendizado ali e no fundo elas sabem disso.

Montessori falava do adulto que em vez do protagonismo adotava uma postura de ajudante quase passivo. Que em vez do orgulho tinha paciência e humildade. Ela falava de um adulto que podia entender o pedido constante da criança: “Me ensina a fazer sozinho?”. Um adulto que em vez da fala desenvolvia a observação. A melhor época para aprendermos isso foi uns seis ou sete anos atrás, antes de nossos filhos nascerem. A segunda melhor época é agora.

Quando me ensino a observar, a primeira coisa que faço é sentar e apoiar as solas inteiras dos meus pés no chão, parar de mexer as pernas, parar o corpo, olhar para uma parede, respirar uma vez, e lembrar: eu observo para diminuir o sofrimento de quem está sendo observado. Para ajudar a vida. Para entender a vida. E aí, respiro de novo para poder olhar com atenção, mas antes me lembro: Eu ainda não sei o que verei. Eu ainda não sei o que verei. Se não faço isso, observo já sabendo, de antemão, o que vou encontrar: ele é bom em desenhos, mas desajeitado na pia. E aí, lá está ele, bom em desenhos e desajeitado na pia.

Se eu já decidi o que vou encontrar, não importa que os desenhos piorem, ou que ele tenha fechado a torneira até não cair mais uma gota, eu continuarei encontrando evidências que comprovem: excelente desenhista, mau lavador de mãos. Bom em desenhos, desajeitado na pia.

Quando observamos, o primeiro esforço recomendado por Montessori era ser ninguém, só a ninguém é que a realidade da vida se revela sem medo.  O segundo passo, claro, é anotar o que se está vendo, antes que as coisas passem muito tempo no filtro da interpretação. O menos interpretadas que pudermos. Em vez em “Ele adora descascar cenouras”, escrevemos “Ele descascou as cenouras sorrindo e atento”. E vamos colecionando observações.

O terceiro passo é ler aquelas coisas, que não fazem sentido sozinhas, e compará-las com o que a gente sabe sobre crianças, com os textos que já lemos, os vídeos que já vimos, e decidir:

Como eu posso ajudar essa vida?

Ou, como eu gosto de me perguntar:

Como eu posso o ajudar a sofrer menos, a ser mais feliz, a encontrar seu equilíbrio?

Ou, como precisamos nos perguntar às vezes:

O que eu posso usar para ajudar a desenvolver/aprender/entender isso e aquilo?

As respostas não serão objetivas. Elas serão o centro de um triângulo:

Triângulo das Conclusões

Nós observamos, comparamos com o que já sabemos, e interpretamos. E nem sempre fazemos as coisas nessa ordem. Então, o resultado da observação, a ação que tomamos depois, não é sempre objetiva, nem dá sempre certo. A gente erra. Mas os nossos erros vão ficando cada vez melhores quanto mais observamos a criança.

Em minha vida, uma das maiores descobertas que fiz – e que milhões de adultos fizeram antes de mim – foi que as crianças não são aquilo que nós queremos, que nós desejamos, ou que nós planejamos. Elas não são nem aquilo que o ambiente que nós fizemos deveria fazer com que elas fossem. Nada disso. Elas são o que elas fazem com o que nós fizemos com elas. (A frase é do Sartre, eu acho). Elas pegam tudo que a gente faz, e observam, interpretam, comparam com o que já sabiam, e tomam decisões.

Por isso, nós devemos continuar mostrando como fazer as coisas. Devemos indicar o caminho. Oferecer tudo o que for necessário. E aí deixar eles escolherem se querem pegar ou não. Se vão caminhar conosco ou por si. Se querem ir pelo nosso caminho ou se querem abrir um caminho novo, melhor ou não, mas deles mesmos. Eles não são, não serão, o que nós queremos. Eles serão o que precisam ser.

 


Vamos enxergar a criança juntos?

publicurso


Imagem de divulgação: http://www.familycorner.co.uk/building-blocks-success

Escrito por gabrielmsalomao

"A preparação que nosso método exige do professor é o auto-exame, a renúncia à tirania. Deve expelir do coração a ira e o orgulho, deve saber humilhar-se e revestir-se de caridade. Estas são as disposições que seu espírito deve adquirir, a base da balança, o indispensável ponto de apoio para seu equilíbrio. Nisso consiste a preparação interior, o ponto de partida e a meta." Maria Montessori, em A Criança

2 comentários

  1. “Elas pegam tudo que a gente faz, e observam, interpretam, comparam com o que já sabiam, e tomam decisões.”
    Forte demais!!!

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