Como Agir em Ambientes Não Preparados (e na casa dos avós)

Na última semana, tivemos o workshop Montessori: Viver em Paz com Crianças (você ainda pode acessar as aulas aqui) e ao longo desta semana, responderemos as dúvidas que os alunos deixaram. Até dia 16 de dezembro as aulas e as respostas ficarão disponíveis para todos, depois, continuarão disponíveis para os alunos do curso Montessori: Viver em Paz com Crianças.

A dúvida de hoje é da Misae: …os avós da minha filha insistem em não adequar o ambiente da casa delespois acreditam que ela deve aprender o que pode e o que não pode (eles tem essecomportamento desde quando ela engatinhou com 4 meses) – então eles mantem objetos que quebram, ou são muito pesados, ou cortantes ao alcance dela – e são muitos e pela casa toda. Mas eles sempre afirmam que educaram 4 filhos assim,então, eles tem certeza que sabem o que deve ser feito.

Percebo que na casa deles ela escuta “não pode” ou “faz dodói”com muito mais frequência do que “muito bem” ou “olha o que ela aprendeu a fazer”. Além disso, na casa deles não conseguimos deixá-la a sós para que eladescubra os “segredos do desenvolvimento”….

Acredito que estamos fazendo o melhor para ela…mas eles realmente criaram 4 filhos. Há um equilíbrio entre preparar o ambiente e educar para o que pode e o que não pode?


Sua pergunta precisa de duas respostas. A primeira é sobre o que fazer com avós que não concordam com Montessori. A segunda é sobre o que fazer com nossos filhos em ambientes não preparados.

As gerações anteriores com frequência acreditam que fizeram bem o seu trabalho, porque seus filhos estão vivos. Ter filhos vivos (ou mesmo casados, empregados e com casa própria) não é um bom argumento para a criação de crianças. Quase todos os estilos de criação geram adultos que conseguem sobreviver. A questão é gerar gente genuinamente feliz, e gente que ajude o mundo a melhorar.

Isso não quer dizer que vamos bater de frente com os avós de nossos filhos. Minha sugestão varia, dependendo de quanto tempo a criança passa com os avós. Se forem visitas, mesmo que muito frequentes, várias vezes por semana, mas por poucas horas, eu sugiro que não se enfrente os avós, e que nós lembremos que o amor deles é mais importante do que a conduta deles. Nossos filhos se beneficiam do amor desses avós, e para isso vale a pena aceitar as regras da casa deles.

Se os avós criam a criança junto, se moram na mesma casa ou ficam com nossos filhos diariamente por várias horas, longas conversas pacíficas sobre crianças podem ser necessárias. Nesse caso, você não vai falar de Montessori. Você vai falar sobre o seu filho, e sobre os benefícios de fazer as coisas de uma forma determinada. Vai falar sobre o comportamento e o temperamento dele. Não vai atacar o que os avós da criança fazem, só continuar falando sobre porque você faz o que você faz, e aos poucos tentar seduzir os avós para tentarem e verem o que acontece.

Sobre sua última pergunta, Montessori disse que a criança precisa aprender a diferença entre a boa ação e a má ação. A má ação é aquela que prejudica a criança, outros seres vivos ou o ambiente. Se a ação da criança não prejudica nada, não há o que impedir.

Já sobre o ambiente, nós devemos lembrar que a criança habita a casa conosco, mas ela não habita a casa dos avós. Se, por um lado, na casa da criança (que é a nossa), as coisas devem ser preparadas para ela, porque ela mora lá, na casa de outras pessoas (incluindo os avós) a criança não mora. Por isso, faz sentido que essas casas sejam menos preparadas. Nós ainda não chegamos em um mundo no qual todos os lugares são preparados para crianças, independente de elas viverem lá ou não.

Se no ambiente da criança ela tiver liberdade de verdade, e puder se movimentar e agir com o máximo de independência, é mais fácil – e mais e mais fácil conforme os anos passam – se adequar a regras diferentes em lugares diferentes.

Esta resposta é um pouquinho do que você vai encontrar na aula Exceções e Ambientes Estranhos do curso Montessori: Viver em Paz com Crianças.


Escrito por gabrielmsalomao

"A preparação que nosso método exige do professor é o auto-exame, a renúncia à tirania. Deve expelir do coração a ira e o orgulho, deve saber humilhar-se e revestir-se de caridade. Estas são as disposições que seu espírito deve adquirir, a base da balança, o indispensável ponto de apoio para seu equilíbrio. Nisso consiste a preparação interior, o ponto de partida e a meta." Maria Montessori, em A Criança

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