Montessori para Adultos Exaustos e Impacientes

Não há um só adulto que não se sinta exausto. E nem uma só criança que não sofra as consequências da exaustão dos adultos. Precisamos entender de onde vem esse cansaço todo, e achar um caminho para diminuir a presença dele nas nossas vidas, e nas das nossas crianças.

A exaustão é um problema do futuro. Não me entenda mal. Não quero dizer que ela seja um problema que vai nos afetar do futuro. Quero dizer que ela vem do futuro para nos afetar agora. Ela nos pega de jeito quando pensamos sobre tudo o que ainda temos para fazer mais tarde, amanhã, depois.

Falta-nos a paciência para fazer só o que estamos fazendo agora. Nós procuramos um resultado para alcançar. Um objetivo para atingir. Isso nos impede de prestar atenção no que estamos fazendo. Quero dar dois exemplos:

Ainda esses dias, eu lavava louça. Não é minha atividade favorita, mas eu também não tenho horror a ela. Em um dado momento, percebi o contraste entre o calor que sentia e a água gelada, e senti prazer. Tentei sentir esse prazer por mais tempo, e ele continuou até quase toda a louça estar limpa. Normalmente, quando lavo louça, só quero que ela esteja limpa, para poder fazer a próxima coisa. Mas nesse dia eu não queria que a louça acabasse, só queria sentir a água gelada no dia quente. E terminei a louça feliz.

Em outro momento, eu acompanhava meu filho em um trabalho para a escola. Eu gosto dessa parte, mas nem sempre sou o melhor adulto. Acontece, às vezes, de ter expectativas, e nesse dia eu tinha, queria que ele se saísse bem no trabalho. Ele não estava se saindo tão bem assim e eu estava ficando tenso. Por sorte, existe Montessori, e eu lembrei que podia esquecer do objetivo e por um instante focar no trabalho. Perguntei quase em voz alta, para mim mesmo: E se ele pudesse se sair mal, e vocês pudessem aproveitar este momento? O resultado foi um par de horas de trabalho desafiador, mas interessante, para nós dois, e um aprendizado muito mais rico do que o exigido pelo trabalho, mais profundo e mais complexo.

Nossa impaciência é enorme. Nós temos objetivos, e quando estamos nos aproximando deles, em vez de aproveitar o caminho, começamos a pensar no objetivo seguinte. Nós nunca estamos em paz, fazendo a coisa certa, na hora certa. Sempre existe um depois. E o depois cansa.

Montessori, quando fala da preparação do adulto, diz:

A preparação que nosso método exige do professor é o autoexame. A renúncia à tirania.

Montessori, em O Segredo da Infância

Ela fala de nossas atitudes com a criança. Mas e se aplicássemos isso a nós mesmos?

Precisamos mesmo de um autoexame, precisamos perceber o que estamos fazendo, o que estamos sentindo, e porque estamos nos sentindo assim. Geralmente, quando estamos sofrendo, isso tem a ver com prisões, com falta de liberdade, assim como acontece com a criança.

As duas prisões que construímos para nós mesmos são:

  • A prisão do futuro e
  • A prisão das ideias.

Montessori fala das duas em Creative Development in the Child. Quando nos ensina sobre o caminho para a perfeição, sugere:

Em vez de executar as atividades de todo dia sem pensar e de forma imperfeita, acreditamos que fazê-las com atenção, consciência, cuidado, e tão perfeitamente quanto possível seja o primeiro passo para atingir a perfeição. […] Precisamos fazer as coisas porque precisamos fazê-las, e fazemos conforme elas chegam.

Montessori, em Creative Development in the Child

Veja que Montessori não diz: Precisamos fazer as coisas pensando nas próximas coisas que vão chegar. Mas: Fazemos conforme elas chegam. É impossível dar atenção a cada coisa que fazemos se nós cismamos com o que vêm depois. Executar cada ação quando ela for necessária, por ela mesma, é o caminho da perfeição sugerido por Montessori.

Claro, ela pensa na criança de novo. Mas para pensar na criança é necessário pensar no adulto, e Montessori sabe que um adulto impaciente consigo vai ser impaciente com as crianças. O máximo que podemos oferecer às crianças é o que podemos oferecer a nós mesmos.

A outra prisão que construimos para nós mesmos é a das ideias. E Montessori diz que até com a ideia da liberdade esse risco existe:

Se temos uma ideia fixa de o que a liberdade é e o que ela deve ser, terminamos nos tornando escravos de nossa ideia de liberdade.

Montessori, em Creative Development in the Child

Isso não é verdade só para a liberdade. Mas para o sucesso, para a nossa noção pessoal de “bom pai” ou “boa mãe” e tantas outras ideias. Se eu acredito que ser um “bom pai” é ajudar meu filho a ter um alto desempenho na escola, essa ideia me aprisiona e me impede de enxergar outras maneiras de ser um bom pai. Maneiras, talvez, melhores. Se me parece que ter sucesso como um adulto responsável é ter a pia sempre livre de louças, além de enlouquecer, eu posso deixar de ver outras formas de ser um adulto responsável – formas maiores, melhores e, talvez, menos óbvias.

A impaciência é fácil, e automática. A paciência exige esforço. Mas é um esforço que nos descansa, que nos liberta. Abrir mão dos objetivos e do futuro, para fazer o nosso melhor em cada ação, agora, não é o caminho para o eterno descanso, mas é o caminho para fora de um ciclo de exaustão e frustração, e é o caminho para relações mais perfeitas, conosco e com as crianças que dependem de nós.


O caminho da paciência é longo, e é bom, se for trilhado em paz. Depois de anos trabalhando com famílias por todo o Brasil, eu montei um curso sintetizando algumas das ideias mais belas e profundas de Maria Montessori para uma vida pacífica com crianças. Os comentários dos alunos me enchem de alegria:

Muito didático, linguagem simples e acessível, rico em informações e direto ao ponto. Da perspectiva de uma mãe, é transformador.

Lu Andrade, mãe

Clareou muito nossas dúvidas como pais de primeira viagem!

Patrícia Renaldo, mãe

Escrito por gabrielmsalomao

"A preparação que nosso método exige do professor é o auto-exame, a renúncia à tirania. Deve expelir do coração a ira e o orgulho, deve saber humilhar-se e revestir-se de caridade. Estas são as disposições que seu espírito deve adquirir, a base da balança, o indispensável ponto de apoio para seu equilíbrio. Nisso consiste a preparação interior, o ponto de partida e a meta." Maria Montessori, em A Criança

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