Como Falar de Montessori para Sua Família

Quando começamos a levar Montessori para dentro de casa, é quase imediato o estranhamento de nossos familiares em relação às novas atitudes que tomamos. Abaixando-nos o tempo todo, arrumando cantinhos da cozinha e da sala, esperando … tanto … e aceitando tanto também. E a conversa sobre Montessori chega, mais cedo ou mais tarde, por um de dois caminhos: pode ser que alguém nos pergunte porque fazemos o que fazemos, e pode ser que nós não aguentemos mais e queiramos contar (e converter) os outros membros da família.

Este texto é uma compilação com o melhor que descobri até hoje sobre como comunicar Montessori para pessoas próximas. Embora seja o último, talvez o passo mais importante seja o número 7.

1. Não tente converter as pessoas

Algumas religiões dizem coisas como “o que converte o seu próximo não a divindade que você fala, mas a divindade que você manifesta nas suas ações”. Isso é verdade – sem a divindade – para Montessori também. As pessoas não se convencem, nem se transformam, porque nós falamos muito de Montessori. Elas mudam porque enxergam nas nossas ações uma forma melhor de viver. Por isso, não é suficiente ser montessoriano com as crianças, é preciso levar a paciência, a percepção das necessidades e as outras coisas para os adultos à nossa volta também – lembrando que adultos não são crianças e não devem depender de nós tanto quanto.

2. Seja discreto

Um monge diz que devemos praticar sem que ninguém perceba. De novo, é verdade para Montessori. Não precisamos fazer Montessori como se estivessemos na SPMW (São Paulo Montessori Week) desfilando com os princípios montessorianos. Basta que façamos as coisas, só porque elas precisam ser feitas, não porque adultos estão nos assistindo, mas porque as crianças dependem do nosso cuidado. Podemos ser discretos, e essa discrição vai ajudar a não afastar as pessoas. Se o que a gente fizer for desfilado demais, pode parecer falso, exagerado, e isso afasta todo mundo.

3. Quando perguntarem, não fale de Montessori

Mais hora, menos hora, alguém vai perguntar por que você faz o que você faz. A sua resposta não deve começar por “A Maria Montessori…” e nem por “Em Montessori…”. Não. Montessori não é importante para quem está ouvindo você, e um rótulo afasta as pessoas, mais do que aproxima. Sua resposta começa pelo que é mais querido para o coração de quem perguntou: a criança. Então, pode ser alguma coisa como: “Ela aprende melhor quando eu faço assim do que quando eu faço do outro jeito”. Ou: “Ela fica tão mais tranquila pelo dia todo se eu tomo esse cuidado duas ou três vezes”. Ou: “Eu percebi que ela ficava mais feliz quando eu tentava fazer assim, então mudei”.

4. Quando você pode falar de Montessori?

Fale de Montessori quando as pessoas já estiverem convencidas das coisas. Quando alguém disser algo positivo sobre o que você faz, duas vezes. Quando alguém elogiar e disser: “Puxa, eu queria ter a sua paciência…”. Aí você pode dar os instrumentos para essa pessoa desenvolver paciência. Ou foco. Ou maravilhamento. Ou calma. Ou cuidado. Livros de Maria Montessori, um vídeo que você goste, de crianças numa escola ou numa casa montessoriana, um curso, um texto. Até então, silencie, ou fale sobre a criança. A criança é capaz de mais mudanças do que Montessori – é uma heresia, mas você pode acreditar nela.

5. Use os argumentos corretos

Você nunca vai convencer uma pessoa de que Montessori é bom usando argumentos que fazem sentido para você. É necessário usar os argumentos que fazem sentido para ela. Se você está conversando com alguém que valoriza a ciência, é bom falar sobre o que Montessori faz que ajuda o desenvolvimento cerebral das crianças. Se está conversando com alguém que não valoriza a ciência, esse argumento não fará a menor diferença. Procure o que é que vai ajudar. As pessoas são diferentes de nós, e é um ato de compaixão encontrar a maneira mais adequada de falar com cada um.

6. Leve seus parentes para um curso

Eu sei que parece ridículo. Acabei de dizer para você não falar de Montessori. Por que levar alguém em um curso, de um ou dois dias inteiros, poderia ajudar? Ou mesmo a uma palestra? Ajuda, porque se você escolher bem o curso ou a palestra, vai ter um profissional falando com seu familiar. É nosso trabalho, dos profissionais que espalham Montessori, convencer e converter pessoas. Mesmo as mais resistentes. É nosso trabalho saber responder todas as dúvidas, todas as indignações, encontrar o tom de voz correto e as palavras certas para cada personalidade. Então, se você tiver a chance, arraste seus familiares até o evento mais próximo, que a gente ajuda.

7. Nunca ataque a pessoa inteira por um erro em particular

Essa talvez seja a consideração mais importante deste texto todo. Se o seu familiar gritar com as crianças, não diga: “É que você é muito bravo, isso é ruim”, ou “Você precisa se controlar”. Quando atacamos uma pessoa inteira, a pessoa inteira precisa se defender, e ela não vai mudar enquanto precisar se defender. Nós podemos dizer coisas como: “Os pequenos vão nos ouvir melhor se falarmos com eles como falamos um com o outro. Vamos tentar abaixar e falar devagar? Eles ainda não dão conta de processar tudo que a gente diz, eu estava lendo outro dia. Acho que vale a pena uma tentativa…” Ou “Hoje mais cedo eu tentei deixar a …. se vestir sozinha, e foi tão lindo! Ela colocou a calça ao contrário, mas o resto foi perfeito, e eu até deixei, porque ela ficou tão realizada! Uma hora experimenta…”.

Montessori disse numa carta para uma neta que somos lutadores, que lutam pela paz. Nós nunca vamos alcançar a paz pela guerra. Não é um bom caminho. E segundo Maria Montessori, o método que ela mesma desenvolveu já foi usado para muitos crimes (está em Creative Development in the Child). Nós precisamos buscar os meios adequados. Os meios mais hábeis. E há infinitos meios hábeis para convencer e converter pessoas. Nenhum deles passa por mostrar que elas são piores do que nós, ou que se não formos perfeitos somos terríveis. Precisamos muito deixar de olhar para o dedo de Montessori, e olhar para as crianças. As crianças mudam os adultos.

Preparação do Adulto, ,

Escrito por gabrielmsalomao

"A preparação que nosso método exige do professor é o auto-exame, a renúncia à tirania. Deve expelir do coração a ira e o orgulho, deve saber humilhar-se e revestir-se de caridade. Estas são as disposições que seu espírito deve adquirir, a base da balança, o indispensável ponto de apoio para seu equilíbrio. Nisso consiste a preparação interior, o ponto de partida e a meta." Maria Montessori, em A Criança

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