Ícone do site Lar Montessori

A Risada da Esperança

Eu não sei como as coisas andam por aí, mas a minha esperança está brincando de esconde-esconde.

Montessori explicava que quando crianças bem pequenas brincam de esconde-esconde (isso vale até os três anos, mais ou menos), gostam de se esconder sempre no mesmo lugar. Para elas, a delícia da brincadeira não é o esconderijo, mas a previsibilidade: “Eu vou sumir aqui, de novo, e ele vai me achar aqui, de novo!” – a gente acha, e a criança cai na risada.

A minha esperança é uma criança bem pequena brincando de esconde-esconde.

Enquanto estou de costas para ela, lendo as notícias do dia, vendo o mundo se dividir mais um pouco, esquentar mais um pouco, e mais algum adulto dizer mais alguma bobagem sem amor, a minha esperança aproveita e se esconde.

Quando eu acabo de ler, olho em volta e minha esperança não está mais lá. Bastou eu me distrair.

Eu saio procurando em todos os lugares, porque sou adulto, e esqueço que ela é criança, e se esconde no mesmo lugar todas as vezes. Ela quer ser encontrada. Mas eu não sei procurar.

Depois de vasculhar nas estantes de livros, nas musicas, nas outras notícias… depois de ver se está escondida na gaveta com a barra de chocolate, na geladeira e no fundo da (terceira) xícara de café, eu desisto. Sento, chateado, e ela vê, do esconderijo dela.

Eu escuto um suspiro frustrado. Ela queria ser encontrada. Aí quem suspira sou eu. E ela sussurra:

“Isso, de novo”. Eu suspiro outra vez.

“Assim, de novo”. Mais um suspiro, fundo.

“Mais calmo agora? Consegue me achar?”.

E aí eu lembro: a minha esperança é uma criança pequena, que se esconde sempre no mesmo lugar.

Ela está na minha caixa de costuras. Eu costuro futuros, você sabe. Com letras. Nunca sei se o que eu costuro vai ser usado por alguém, mas costuro.

Cada vez que a sua criança tem um minutinho a mais porque você lembra de um recado, a minha esperança dá uma risadinha indiscreta. Ela não precisa de mais do que isso.

É suficiente saber que uma vida melhorou porque eu fiz alguma coisa.

Eu torço para que a sua esperança não precise de mais do que isso. E para que ela seja insistente, repetitiva, e se esconda sempre no mesmo lugar: pertinho das outras crianças pequenas.

Um abraço grande,
Gabriel

PS1: Amanhã teremos mais um recado sobre esperança, e uma explicação que você pode contar para as suas crianças, sobre como as plantas fazem para rachar as pedras.

PS2: As inscrições para a Pós-Graduação do Lar Montessori vão acabar. Se você ainda está pensando em se inscrever, essa é a hora. Aqui.

Sair da versão mobile