Quando escutamos alguém falar sobre a criança educada em Montessori, ou sobre a escola montessoriana, lemos palavras como:
concentrada
silenciosa
carinhosa
inteligente
atenciosa
cuidadosa
generosa
gentil
paciente
esforçada
E pode acontecer de olharmos para nossas crianças em casa, ou na sala de aula onde trabalhamos, e não vermos tudo isso.
Somos pais piores?
Não estou fazendo Montessori direito?
É tudo um esquema mentiroso de dominação mundial e lavagem cerebral?
Montessori não daria importância a estas três perguntas, e em vez disso nos diria, mais uma vez, para seguir a criança.
É uma boa frase de efeito, mas também pode ser difícil de fazer quando a criança está arrancando as plantas dos vasos na varanda e derramando terra no chão.
Então, Montessori nos ajuda um pouco mais:
É por meio do trabalho adequado e de atividades que o caráter da criança se transforma. O trabalho influencia seu desenvolvimento da mesma maneira que a comida faz reviver o vigor de uma pessoa faminta.
(em Citizen of the World)
O que é o trabalho adequado? Montessori descreve assim:
Se a criança puder usar sua atividade espontânea em um ambiente tranquilo e sem interferência ou ajuda não-solicitada, de fato ela está envolvida em seu trabalho mais importante: a construção da pessoa que ela será um dia.
(em Citizen of the World, grifos meus)
Quatro características:
- Atividade espontânea (e vale adicionar: com um pouco de esforço)
- Ambiente tranquilo preparado pelo adulto
- Sem interferência
- Sem ajuda desnecessária
Claro, arrancar as plantas dos vasos pode ser um jeito ruim de fazer isso, afinal, mata-se as plantas. Mas remover uma planta delicadamente, lavar suas raízes, colocar a plantinha sobre um tecido preto, e perceber as partes da planta pode ser um trabalho lindo, e a planta pode voltar para a terra depois.
Também valem outros trabalhos: pendurar roupas no varal, lavar janelas, cortar bananas com uma espátula de manteiga e servir para os familiares ou colegas, encontrar os pares das meias lavadas e dobrar para guardar na gaveta… Tudo isso pode ser trabalho, se tiver as qualidades que Montessori nos ensina.
Aos poucos, se envolvendo neste tipo de trabalho, a criança se concentra. A atividade chama cada vez mais sua atenção, e ela sente uma forma de paz parecida com a que nós, adultos, podemos sentir com um hobby ou esporte favorito: exige esforço, mas eu gosto de fazer.
Depois do trabalho, a criança muda, e se torna, mesmo, mais atenta, mais feliz. Como você ou eu, depois de meia hora fazendo uma pintura, correndo na rua, ou tocando violão. Exige esforço, mas em vez de ficar cansado, eu me sinto mais vivo.
Quando olhamos para a criança que ainda não trabalha, é difícil enxergar esta outra, que eu estou te dizendo que existe. Montessori entendia nossa dificuldade, e dizia que precisamos ser capazes de enxergar uma criança que ainda não está lá:
É preciso ter uma forma de fé de que a criança irá se revelar por meio do trabalho.
(em Mente da Criança)
Essa fé não precisará existir para sempre. Ela é necessária só no começo. Depois de ver isso acontecer uma, duas, três vezes, a fé é menos necessária, porque nós temos a compreensão. É com uma passagem sobre compreensão que eu quero terminar este texto.
Uma vez que o adulto compreenda os poderes misteriosos que existem dentro da criança, e que estes poderes se revelem espontaneamente pelas atividades da criança, sua atitude vai se transformar […] A humanidade precisa muito deste novo tipo de educador.
(em Citizen of the World)
Se você quiser se tornar um adulto que compreende os poderes da criança, o melhor lugar para você é O Poder da Criança. Se este for o seu primeiro curso sobre Montessori, você está com sorte, porque vai começar bem. E se você já é uma montessoriana experiente, mas sabe que ainda existem poderes da criança que você não aprendeu a libertar, eu te espero de braços abertos. Acesse o curso aqui.

