Quando eu tinha quatro anos, estávamos em fila para subir a escada de volta para a sala de aula, e dois colegas saíram da fila, correram para trás e foram olhar entre os paralelepípedos da parede.
Quando entendi o que estavam fazendo, eu saí da fila também, e uma amiga saiu comigo.
A professora chamou os quatro, e se minha memória está certa, nós quatro ignoramos a professora.
É difícil lembrar com detalhes, mas eu acho que em seguida, a professora encaminhou todos os meus colegas para a sala, menos nós quatro, e quando todo mundo estava voltando tranquilo, ela veio até nós.
“Os ovos quebraram, cadê os filhotes?” – foi tudo que meu colega disse para a professora quando ela veio nos buscar.
Ela se abaixou e olhou entre as pedras. Não era segredo. Quando alguém parava na frente das paredes de pedra da escola, era para espiar os ovos de lagartixa.
“Não sei, mas se eles já nasceram, estão escondidos entre as pedras. Se a gente ficar atento, em alguns dias vamos ver os filhotes passeando por aí”.
Ficamos atentos, e vimos os filhotes, e eles cresceram, e por vários anos continuamos encontrando os ovos entre as pedras da parede. Depois que os filhotes nasciam, com uma pinça, nós pegávamos as cascas e levávamos para a sala, para olhar com uma lupa.
Eu lembro disso até hoje, com tanta alegria. E escolhi te contar para que você entenda exatamente a importância de todas as paradas banais e aparentemente sem sentido das crianças que vivem com você. Sempre tem um segredo, e em geral elas gostam de contar.
O desafio é ter o comportamento espetacular da minha professora. Haja admiração.
Um abraço grande,
Gabriel
