Quando Maria Montessori estava começando a Casa das Crianças, sua primeira escola aberta ao público, esbarrou em um problema.
Ela queria alfabetizar as crianças, mas os materiais que ela havia estudado eram todos de madeira, e só podiam ser feitos por um marceneiro muito delicado – e dedicado. Ela visitou alguns, e nenhum aceitou a missão. Cortar dezenas de letras em madeira fina, com as curvas do traçado manuscrito… Simplesmente não valia a pena.
Depois de quase três meses procurando, Montessori estava a ponto de desistir de trabalhar com alfabetização. Até que, num final de tarde, recebeu a ajuda de que precisava.
Veja bem: não era a ajuda que ela queria. Se alguém perguntasse, Montessori queria um marceneiro. Ela era professora na Universidade de Roma, tinha estudado todos os autores ocidentais sobre educação de crianças, e tinha certeza do que precisava: letras recortadas em madeira, e placas de madeira com letras esculpidas em baixo relevo.
Quem chegou com a ajuda não foi outro professor da Universidade, nem um grande autor estrangeiro. Foi uma mulher que morava nos mesmos prédios onde a creche de Maria Montessori ficava: o conjunto residencial de São Lourenço, para a classe trabalhadora mais pobre de Roma.
Candida Nuccitelli morava logo em cima da escola de Maria Montessori, era vizinha das crianças de São Lourenço, e foi a escolhida de Montessori para cuidar da Casa das Crianças. Uma mulher do povo, trabalhadora, sem outras instruções. Naquela época, Montessori não oferecia um curso de formação, e ela e Nuccitelli conversavam todas as noites.
Diante do impasse da falta de um marceneiro, Nuccitelli perguntou para Montessori: “Por que não papel? Poderíamos cortar as letras em papel, e fazer cartões de papel grosso com letras em lixa coladas por cima… Isso daria a impressão sensorial, e seria mais simples, não é?”.
Eu não sei se foram exatamente essas as palavras dela. E eu também imagino os detalhes a seguir:
Montessori olhou para a professora, primeiro firme, escandalizada, depois curiosa, depois sorriu. “Sim, sim! Sim! Pegue papel, nós vamos começar, temos muito para cortar!” – eu também gosto de imaginar que aqui Nuccitelli suspirou, porque sabia que ia perder algumas horas de sono, e pensou: “Essa mulher não dorme, e não quer que ninguém durma…”.
Mas isso nós sabemos: Foi Nuccitelli quem deu a ideia, e elas passaram a noite inteira fazendo letras. Na manhã seguinte, tinham muitos alfabetos para as crianças, e os meninos e meninas da Casa de São Lourenço ficaram mundialmente famosos porque aprenderam a ler e escrever sozinhos, aos quatro anos, em seis semanas.
Às vezes, a ajuda vem de quem a gente não espera. É bom ficarmos atentos.
Um abraço grande,
Gabriel
