A Criança para Montessori

“A educação da criança muito pequena,portanto, não visa
prepará-la para a escola, mas para a vida”. (Montessori, 1967)
Quando Montessori inciou seu trabalho com crianças pequenas, não tinha nenhuma ideia pré-concebida, portanto, nenhum preconceito acerca da natureza da criança ou do que seria melhor para cada idade. Todo o seu trabalho foi desenvolvido tendo como base a observação do desenvolvimento infantil.
Montessori percebeu que a criança pequena (0-6 anos) tem algumas características sempre presentes, em qualquer classe social, etnia ou localização geográfica. E.M. Standing fez uma revisão da obra de Montessori e identificou estas características:
  •  Amor à ordem;
  •  Amor ao trabalho;
  •  Concentração espontânea;
  •  Apreensão da realidade;
  •  Amor ao silêncio e ao trabalho solitário;
  •  Sublimação do instinto de possessividade;
  •  Poder de agir por escolha;
  •  Obediência;
  •  Independência e iniciativa;
  •  Auto-disciplina espontânea;
  •  Alegria.
Como Montessori era uma cientista, antes de ser uma educadora ou uma ativista social, seu interesse maior era descobrir a criança, e não formatá-la. Daí podermos considerar naturais as características encontradas pela médica.

Montessori dizia que toda criança nasce com estas características, todas quando muito pequenas gostam de ambientes silenciosos, procuram estar ativas (interna ou externamente), são muito concentradas – e para isto basta ver uma criança pequena brincando de algo que lhe agrade -, o tempo todo querem entender o que se passa à volta delas, quando algo lhes desperta real interesse, passam muito tempo sozinhas em torno de seu foco de investigação, não têm noção clara de posse, não possuem rebeldia inata, por si mesmas aprendem a andar e falar, ainda que não ajudemos, sabem fazer muitas coisas e a hora de fazê-las, sem ninguém ensinar, e são alegres.

Muitas vezes, estas características parecem frutos de uma boa educação formal, mas na verdade estão presentes na criança sempre que ela é deixada em liberdade. Montessori considerava que as Casas das Crianças não eram formadoras, mas possibilitavam a construção da liberdade pela criança, de forma que aquelas belas características que haviam sido adormecidas por uma criação repressora em casa ou em outra escola voltassem à tona, desta vez de forma ordenada e em um ambiente preparado para elas.
Depois de observar crianças por muitos anos, em locais que Montessori considerava adequados ao pleno desenvolvimento de sua natureza, a pedagoga chegou à completude do diagrama abaixo:
De forma sucinta, as fases em azul são mais agitadas, de crescimento intelecto-sócio-emocional mais intenso e exigem tanto do ser em desenvolvimento que por vezes ele precisa de silêncio e solidão, pois está tentando absorver tudo o que seu corpo e intelecto exigem. Em uma escala crescente, no entanto, a criança se torna um adolescente e um adulto cada vez mais sociável.
Considerando as mudanças que ocorrem em alguns momentos da vida da criança, Montessori via não ser exagero dizer que “O crescimento é uma sucessão de nascimentos”. Dizia que, “Num certo período da vida, uma individualidade psíquica acaba e outra nasce”. Em todas as fases a ordem maior é proporcionar um ambiente preparado para a criança, com adultos preparados também, e depois deixar a criança livre para se desenvolver.
Na fase que vai de zero a seis (0-6) anos, a criança tem uma Mente Absorvente, estando pronta a absorver tudo o que vier do ambiente. “Este período é caracterizado pelas grandes transformações que têm lugar no indivíduo”, pois a criança aprende sem ser ensinada quase todas as habilidades necessárias à sua sobrevivência: come, anda, pega, fala, controla a própria atividade biológica até um certo limite e aprende a viver socialmente, ainda que com restrições impostas pelos adultos.
Há, na fase da Mente Absorvente, duas sub-fases: a primeira, de zero a três (0-3) anos, é inacessível para o adulto, não se pode exercer nenhuma influência direta sobre esta criança. Na segunda sub-fase a mente ainda é absorvente, mas agora já é acessível ao adulto – não é de se estranhar que por muitos anos a educação formal no Brasil tenha se iniciado aos seis anos, já que só então o adulto é plenamente capaz de acessar a mente da criança.
O período seguinte, de seis a doze (6-12) anos, é de crescimento, mas sem transformações, “é um período calmo e sereno”. Embora haja mudanças, não há nesta época nada que possamos chamar de “nascimento”, como ocorre aos seis anos.
Chamamos a terceira fase, de 12 a 18 anos, de “Filhos da Terra”. Nesta época, ocorrem tantas transformações “que nos lembra a primeira fase”. Assim como a Mente Absorvente, os Filhos da Terra têm duas sub-fases: a primeira dos doze aos quinze (12-15) anos, é de maior aprendizado e mais transformações, e a segunda, dos quinze aos dezoito (15-18) é aquela que prepara o indivíduo para a sociedade humana. Sobre a terceira fase, Montessori dizia que o homem deve aprender a criar, a cultivar, a desenvolver. Depois de estar plenamente desenvolvido, é hora de participar da comunidade, daí as ideias de Montessori de que se deve dar ao adolescente a oportunidade de agir socialmente, compreendendo os caminhos da produção e da economia, assim como percebendo as diferenças sociais e buscando soluções para problemas.
No período que vai dos doze aos dezoito anos, foram identificadas algumas características extremamente comuns (Donahoe, 2010), entre crianças que foram deixadas livres para se desenvolver em um ambiente preparado:

  •  Alegria;
  •  Altruísmo;
  •  Otimismo;
  •  Confiança;
  •  Dignidade;
  •  Auto-disciplina;
  •  Independência e iniciativa;
  •  Vontade de ser útil;
  •  Bom senso;
  •  Habilidade de trabalhar com os outros.
A maior parte das pesquisas de Maria Montessori se desenvolveram com crianças de 0 a 6 anos, e ainda bastante com aquelas de 6 a 12. Após os doze anos, no entanto, Montessori pesquisou muito pouco¹ e disse que apoiava as pesquisas que estavam sendo feitas levando em consideração seus princípios. Há muito mais descobertas interessantes sobre adolescentes vindo de pesquisadores de linha montessoriana do que da própria criadora do método.

Gabriel García Márquez, grande escritor e Nobel de Literatura, foi aluno Montessori e disse, depois de adulto:

“Eu não creio que haja método melhor que Montessori para fazer as crianças sensíveis às belezas do mundo e despertar sua curiosidade sobre os segredos da vida”.

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STANDING, E.M. – Maria Montessori: Her Life and Work. New York: New American Library, 1962.
MONTESSORI, Maria – The Absorbent Mind. Lexington: BN Publishing, 2011.
DONAHOE, Marta – Liberty and Hope for the Adolescent: Valorization of the Personality, 2010.
¹Publicaremos em forma de e-book a tradução de “Filhos da Terra”, reflexões de Maria Montessori acerca do desenvolvimento e da educação do adolescente, ainda em 2012.

4 comentários sobre “A Criança para Montessori

  1. Precisando muito da tradução de "Filhos da Terra" haushauhsuahMas antes eu gostaria da sua indicação de leitura para entrar no Método, Gá, por favor.Estou acompanhando o blog e adorando. Obrigada por compartilhar informações tão importantes e tão interessantes. Beijos

  2. Cá!Eu acho que para começar mesmo há duas coisas legais: 1.Assistir "Maria Montessori: uma vida dedicada ás crianças" e ler "A Formação do Homem". Depois, leia "A Educação e a Paz" e só aí parta os menos deliciosos, mas mais informativos: "Pedagogia Científica" e "A Criança". Se der, leia "Pedagogia Científica" em inglês (The Montessori Method) e "A Criança" também (The Secret of the Childhood). O Montessori Method tem grátis aqui: http://digital.library.upenn.edu/women/montessori/method/method.html

  3. Olá! Estou começando agora a estudar o método Montessori! Tenho um filho de 2 meses e estou encantada pelo método! Este artigo me ajudou muito a entender um pouco mais! Vou procurar essas indicações de leitura que você descreveu acima! Parabéns e obrigada por compartilhar o conhecimento! =)

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