A Decoração do Quarto da Criança: Um Caso de Amor

Bem antes de uma criança nascer, ela já é amada. Os pais pensam nela, cantam para ela, conversam, acariciam, beijam, compram e modificam suas rotinas e seus lares para recebê-la. Algumas famílias até chegam a ler livros e blogs para entender melhor como fazer tudo isso!

Entre muitas outras formas de expressar este amor, uma é por meio do cuidado imenso que temos ao montar os quartos dos pequenos. Famílias montessorianas e não-montessorianas exercem o amor da mesma maneira: pensando em tudo que a criança poderá gostar de ter por perto. Enquanto famílias não-montessorianas costumam decorar o quarto com muitas cores, móveis e brinquedos, nós temos por hábito um quarto minimalista e essencial, mas todos declaramos nosso amor por meio da decoração do quarto.

A criança, como se percebesse e compreendesse esta declaração, ama seu quarto também. Desde o momento em que chega em casa desenvolve uma relação de exploração, aprendizado e aconchego com o ambiente que foi totalmente preparado para ela, com carinho e atenção. A criança sente este amor e o retribui, amando aos pais e ao ambiente.

Uma das características comuns a todas as crianças é o amor à ordem. Com alguma atenção, este amor pode se converter em ações concretas, por parte da criança, mas isto só acontece mais tarde. No começo, este amor se manifesta por meio da tranquilidade quando as pessoas, o ambiente e a utilização do tempo são organizados e sempre semelhantes.

Montessori conta uma história interessante sobre isso. Diz que certa vez estava caminhando com um grupo de pessoas, entre as quais estava uma mãe com a filha nos braços. Esta mãe estava agasalhada, mas depois de algum tempo de caminhada sentiu calor, e retirou o véu que lhe cobria a cabeça e o tronco, dando-o para que alguém o carregasse. A criança começou a chorar. Depois de várias tentativas de acalmar esta pequena, Montessori ofereceu-se para segurar a criança e sugeriu à senhora que colocasse o véu novamente. A criança ainda chorava no colo de Montessori, mas assim que sua mãe agasalhou-se, parou de chorar. Montessori, então, explicava, ao final da história: a criança sabe que véus devem estar à cabeça e aos ombros, e não são feitos para que sejam carregados aos braços. A criança estava com uma imagem organizada do véu, quando a mãe o retirou, confundindo-a.

Algo muito semelhante acontece no quarto das crianças. Há uma organização que foi estabelecida antes que ela chegasse. Esta organização pode ser alterada para acomodar-se melhor à criança, conforme ela cresce, mas é necessário, primeiro, que haja uma organização. E em segundo, que ela seja mantida e respeitada pela família sempre que possível. Mudar a cama de lugar, trocar a pintura ou o papel de parede, adicionar ou retirar móveis aos quais a criança se acostumou e tantas outras mudanças que, aos nossos olhos, são pequeníssimas, podem causar transtornos de confusão para a criança pequena.

Quando amamos um ser humano, por exemplo um cônjuge, e esta pessoa muda de humor ou de comportamento, dizemos, intrigados: “Você está diferente. Aconteceu algo?”. Em última e trágica instância esta mudança pode levar ao fim de relacionamentos muito antigos, inclusive, e a tratamentos médicos específicos. Com a criança, exatamente a mesma coisa acontece: ela ama o quarto, e ama a ordem do quarto, mas ainda não desenvolveu a nossa capacidade de reconhecer padrões por trás de pequenas diferenças. A criança pequena não consegue perceber que o véu não está sobre a cabeça porque está calor. Ele não está sobre a cabeça e isto é grave o suficiente.

Da mesma maneira, os pequenos não compreendem que a cama mudou de lugar porque… Ou que as estantes estão do outro lado do quarto porque… O que importa para ela é que estão no lugar errado, e todo o esquema mental, todo o mapa, todo o imenso trabalho de abstração que ela teve de desenvolver por amor ao seu ambiente, para conhecê-lo profundamente, está ultrapassado, e deu lugar à mesma imensa confusão que ela levou tanto tempo para colocar em ordem dentro de si.

A relação da criança com os ambientes, assim como a relação dela conosco, com os adultos, é de amor, em seu estado puro e simples. E assim como ama, em nós, o nosso silêncio e nosso conhecimento, ama nos ambientes a liberdade e a ordem. É nosso papel garantir que esta relação seja frutífera e gere poucos desentendimentos. Nós somos os guardiões da ordem, nos primeiros tempos de vida da criança, e é nosso papel auxiliá-la a conhecer e sentir-se segura nos locais em que é livre e deve ser feliz.

 


3 comentários sobre “A Decoração do Quarto da Criança: Um Caso de Amor

  1. Olá,
    Lendo este post, fiquei com um medo enorme de estar desconsertando a cabeça de minha filha de 5 meses já que ela está a cada 2 meses em um ambiente diferente. Mas, é a necessidade de estar em lugares diferentes agora. Ainda não tive o prazer de fazer, montar o quartinho dela. Ainda bem! Assim, antes de gastar com quarto “decorativo”, vi o método montessoriano e amei. Mas, fica a pergunta: essa mudança vai fazer confusão na cabecinha dela? Pretendo estabilizar até março.
    Att
    Cíntia

    1. Cíntia, fique tranquila! Crianças são sobreviventes fantásticas! Sim, acontece uma certa confusão na cabeça da sua filha. Mas há como ajudá-la mesmo assim: procure manter o mais possível os horários da rotina dela, e alguns hábitos diários. Também, tente fazer as coisas sempre do mesmo jeito: dar banho, trocá-la, vestir e dar comida mais ou menos da mesma forma e na mesma ordem todos os dias, ou o máximo deles que você puder. Variar pouco as roupinhas dela também pode ser uma boa ideia, e ter um número menor de brinquedos e materiais também ajuda. Assim ela tem menos para organizar!
      E fique tranquila, de verdade, nós temos de fazer nosso melhor, e só, e precisamos nos perdoar pelo que não dá pra fazer agora. Se as crianças nos perdoam, quem somos nós para fazer diferente, não é?
      Tudo de bom!
      Gabriel

      1. Olá Gabriel,
        Somente hoje vi sua resposta. Obrigada!
        As coisas agora estão se encaixando e até semana que vem estarei organizando o tão sonhado quarto montessoriano de Sophia. Só estou na dúvida em relação a cama. Não gostaria d ecolocar o colchão diretamente no chão.
        Mas vou dar mais uma pesquisada.
        Muito obrigada!
        Abraços

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