E-Montessori: A Criança e a Tecnologia

Steve Jobs, fundador da Apple, ajudou e apoiou o desenvolvimento de uma série de aplicativos para iPod e iPhone baseados nos materiais montessorianos. Trata-se da série Montessorium, e são aplicativos de estética invejável e bom funcionamento. Quando os vi pela primeira vez minha reação inicial foi pensar que finalmente alguém havia conseguido unir o mundo digital e a educação montessoriana.

Mas eu estava errado. Conseguiram unir a abordagem montessoriana da matemática, da linguagem e da geografia com o mundo digital, e de forma magistral. Os aplicativos merecem ser usados. Mas ainda não conseguimos unir o mundo eletrônico à pedagogia montessoriana, e especialmente não o unimos de forma definitiva ou completa à criança como compreendida pela perspectiva montessoriana.

É sabido, e é bastante consensual, que a infância, especialmente até os seis anos de idade, é uma fase sensorial do desenvolvimento. Os pequenos gostam de sentir, e disso ninguém duvida. Pegam, mordem, agarram, abraçam, deitam sobre, lambem, olham, escutam, cheiram, tocam, pisam, esfregam e apertam. Eles usam as mãos ainda imaturas, os pés e pernas super flexíveis, os olhos imensos e atentos a tudo, os ouvidos ainda puros do excesso de ruido da civilização, o nariz e a boca investigativos, usam tudo o que têm para sentir o mundo e, sentindo-o, o absorvem. Por isso é fundamental que possamos prover a eles instrumentos de aprendizado que trabalhem todos os seus sentidos.

É até bom que estes materiais trabalhem poucos sentidos de cada vez. Excessos confundem. Os materiais montessorianos são pensados de forma a isolar o sentido trabalhado, para que a criança possa absorver uma informação de cada vez, em ordem, com cuidado, devagar. As crianças, é sempre bom repetir, chegam ao mundo em meio a um carnaval de rua, tudo é cor, som, movimento, e elas não entendem o que está acontecendo. Nosso trabalho é ajudar, sentido a sentido, informação a informação, ajudar a criança a compreender o mundo.

Isto posto, é necessário afirmar: mídias com tela não ajudam. A televisão é de todas a vilã mais representativa. Abundam estudos demonstrando que assistir televisão é nocivo à criança, do ponto de vista neurológico, psicológico e emocional. E é fácil entender: a televisão transmite informação demais. Primeiro, o mundo real é bastante estático. As coisas ficam paradas, e as pessoas se movimentam lentamente. Na televisão tudo se move rápido demais, com cor demais,  som demais. Além disso, a luz do mundo real é sempre refletida, as roupas, a pele, os móveis sempre refletem parte da luz das lâmpadas ou do Sol. Na televisão tudo tem luz própria, a luz emana da tela. Isso cansa a visão e cansa o cérebro. Depois de algum tempo diante da TV, o cérebro se estressa ou desliga: a criança chora ou fica inerte, dorme, desliga-se.

O computador é mais interativo, o tablet mais ainda. Assim, trazem benefícios que a televisão não traz. Isso não quer dizer, no entanto, que os malefícios sejam em algo diferentes. São os mesmos: excesso de cor e movimento, e excesso de luz. Por serem interativos, estes aparelhos não permitem que a saturação do cérebro se mostre por meio do desligamento, ou por meio do sono. Acaba acontecendo que o estresse é levado a níveis ainda maiores. É aí que entram aquelas observações leigas da mãe, tia e avó que diz “O que está deixando esse menino violento é esse monte de videogame e esses desenhos animados! Na nossa época não era assim”. Não era mesmo. Não porque os desenhos estejam mais violentos, ou os videogames, mas porque hoje há mais cor, mais movimento – enfim, porque hoje a tela é mais agressiva, mais estressante, e nos força a limites maiores.

Se sabemos, com garantia de anos e tantos registros de observação científica, que o mundo real educa a criança com perfeição, e que as mídias virtuais provocam efeitos majoritariamente nocivos, é nosso papel evitar que a criança seja prejudicada pelas invenções dos adultos. É nosso papel não usar a televisão para entretê-la enquanto tomamos banho ou dar o tablet para que fique em silêncio no restaurante. É nosso papel não instalar o DVD no banco de trás do carro para ligar em viagens longas cada vez mais curtas e não prometer que ela pode assistir ao desenho se comportar-se direitinho.

Se você já acostumou seu filho à televisão, sempre é tempo de mudar. Tirar a televisão não adianta. É necessário dar mundo real. Um passeio ao parque ou a um museu interativo em vez de passar o sábado assistindo à maratona do desenho favorito dele. Algumas horas encontrando insetos no jardim de casa ou do prédio, na praça ou no parque, em vez de horas assistindo a um filme sobre os insetos no iPad. Vale tudo: caixa sensorial, cesta dos tesouros, materiais. Dá mais trabalho, sim, não é mais fácil. É mais fácil a televisão. Mas é melhor para ele, para a relação de vocês e, você ainda vai concordar comigo, é melhor para você!

Quanto aos aplicativos do Montessorium, bom, talvez sejam uma excelente quase-exceção. Mas não são uma exceção inteira. Se for necessário usar o tablet, eles são uma opção melhor, não só por serem versões virtuais de materiais Montessori, e portanto trabalharem com controle do erro e isolamento da dificuldade, mas principalmente porque, seguindo inspiração montessoriana, são materiais minimalistas, clean, de cores mais leves e menos informação visual do que a maior parte dos outros aplicativos semi-educativos que pululam nas lojas de cada sistema operacional. Ainda assim, no entanto, tela é sempre excesso de luz, excesso de cor, excesso de estímulo.

Ainda não encontramos uma forma de unir Montessori e a utilização de mídias com tela. Por enquanto, a televisão e a Torre Rosa ficam em salas separadas. No entanto, vale lembrar: cada família deve fazer todo o possível para proporcionar às crianças uma excelente educação, mas não mais que o possível. Se os pais são amantes de cinema, e assistem filmes em casa regularmente, não há maneira de retirar a televisão da sala. Com uma mãe que seja programadora ou um pai que tenha uma start-up de aplicativos virtuais, o acesso ao computador e aos tablets e smartphones é inegável. Nesses casos, cada família deve desenvolver suas medidas, e trabalhar o melhor que puder, tentando compensar o excesso de tela com uma boa quantidade de mundo real.

Para finalizarmos, quero recuperar um trecho do Manual para Proprietários de uma Criança Montessori:

A televisão é uma grande interrupção no meu desenvolvimento. Desculpe! Eu sei que vocês não querem ouvir isso: eu preciso de muitas atividades manuais e preciso de muito tempo de processamento. A TV me distrai das atividades mais importantes e enche minha cabeça com mais do que eu tenho tempo para processar. Leiam para mim todos os dias, porque a leitura vai devagar, e me dá tempo para processar junto. A TV me amontoa com mais do que eu sei usar, então ou eu desligo ou fico frenético. Eu sei que vocês podem achar que alguns programas são bons para mim, e vocês podem achar que merecem a folga que a TV dá para vocês, mas nós todos pagamos um preço alto para cada meia hora que eu assistir.

   Eu não resisto à TV, mas tudo bem, porque qualquer criança de três a seis anos tem pais, e é para isso que os pais servem. A TV me deixa distraido, irritado, e me faz não cooperar com vocês. Quanto mais eu assistir, mais eu quero assistir, e aí surgem problemas entre nós. Se vocês não conseguem dizer não para o hábito de ver TV agora, onde está meu exemplo para dizer não para outros maus hábitos mais tarde? Além disso, quanto mais eu vejo TV, menos eu quero ser como vocês. Lembrem-se, eu imito o que assisto. Ah sim, cuidado também com os jogos de videogame e computador pelos quais eu vou implorar e que todos os meus amigos têm. Sei que vocês conseguem!
O vídeo abaixo está em inglês, mas vale assistir mesmo que você não entenda a língua.

4 comentários sobre “E-Montessori: A Criança e a Tecnologia

  1. Que texto maravilhoso!!! Realmente não é fácil manter os pequenos longe das tecnologias, mas temos que nos esforçar para oferecer outras atividades… Parabens pelo blog, estou adorando!

  2. O que montessori fala quando a criança participa da criação de roteiros e produção de um vídeo depois o assiste na TV? Acho interessante a participação da criança em ver como funciona toda a estrutura que está por trás das câmeras. Meu filho adora quando gravo vídeo e vê ele na TV.

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