Quando o Adulto Falha

Nós falhamos, e com mais frequência do que gostaríamos. Nosso mapa está ok: Montessori está certa. Sabemos disso porque sempre que seguimos Montessori em todos os detalhes, dá certo. O problema é que nem sempre conhecemos todos os detalhes, e às vezes conhecendo-os esquecemos de um ou outro. Isso nos gera culpa, confusão, desorientação, e embora não prejudique muito nossas crianças, nos coloca em dúvida quanto à nossa competência. Por isso, acho que vale um artigo para trabalharmos os motivos das falhas que cometemos e como resolver problemas assim.

1. A diferença entre o erro e o sintoma do erro

Quando erramos, nem sempre percebemos o erro em si, mas o resultado dele. Percebemos que nossas crianças não querem desenvolver as atividades que propomos, ou que não desejam ficar sozinhas nunca. Podemos notar que elas rejeitam a possibilidade de fazer escolhas, ou que não querem trabalhar com os materiais que apresentamos, ou querem, mas de uma forma que jamais aprovaríamos, porque é evidentemente improdutiva.

Quando apresentamos uma atividade com a qual a criança não quer trabalhar, o erro não está necessariamente na nossa apresentação, e em geral não está na atividade também. O erro não se encontra nas estantes ou na possibilidade de escolhas, quando as oferecemos e as crianças não aceitam. Estes são só sintomas do erro. São a aparência externa do erro, aquilo que nos mostra que o erro existe, a manifestação palpável do erro. Mas o erro em si é invisível, ele não se encontra em nada que possa ser visto por nós, porque está do lado de dentro do adulto, e não do lado de fora.

Mesmo quando a casa não está adaptada, quando não oferecemos possibilidades de escolha e quando somos autoritários com nossos pequenos, o erro não está em nada disso. Isso tudo, tudo aquilo que consideraríamos como falha total, é só manifestação exterior do erro. Erros mesmo só existem dois, e são internos: falta de confiança na criançafalta de observação. Estes são os dois únicos erros, e são as origens e raízes de todas as manifestações externas que nos preocupam. Embora pareçam desafios imensos, esta é uma notícia boa: agora nós sabemos onde está o problema, e podemos refletir sobre ele.

2. A Observação

Observar é um ato de amor. Não há como observar sem amor. Se observamos sem amor, detalhes escapam, e sentimentos negativos se intrometem na observação. Sem amor, nós nos distraímos e a tarefa se torna enfadonha. Encarar a observação como um ato de amor – tanto quanto a amamentação, o preparo do almoço ou o beijo de boa noite – ajuda. Ela se torna mais agradável, e fazê-la todos os dias se torna mais prazeroso e, aos poucos, se percebe como é um ato de amor precioso.

Observar é tentar enxergar o que a criança nos diz sobre si mesma, sem articular verbalmente. A criança nos ensina a psicologia da infância, dizia Montessori. Estar atento à criança é estar atento a como o ser humano se desenvolve, como uma espécie vem a ser o que é. Ao mesmo tempo, é uma atividade despretensiosamente familiar, de um amor de mãe para filho, de professor para aluno, e uma atividade de investigação científica que pode revolucionar – como fez Montessori – a forma como o adulto compreende a criança. Decididamente, revoluciona a forma como cada um de nós compreende cada um deles.

Tenha um caderninho. Ele tem que ser querido, então você pode comprar um de que goste ou fazer um para você, encapar um com um tecido agradável ao toque. É bom que seja um caderno pequeno, porque é mais fácil de carregar com você e mais discreto. Ele vai ser um caderninho de observações sobre as crianças com as quais você convive. A outra opção é ter um bolinho de folhas de papel em cada cômodo de sua casa com uma caneta que deve permanecer sobre ele, e utilizar as folhas sempre. Depois, você pode arquivar as folhas em uma pasta ou encaderná-las. A caneta com a qual você vai escrever precisa ser gostosa para você também. Vale tudo para tornar a tarefa gostosa!

Todos os dias, sente-se para assistir sua criança fazer qualquer coisa: tomar banho, dormir, comer, assistir TV (eu não gosto de TV, e faz mal, mas demora para a gente aceitar tirar isso da vida de nossas crianças), brincar, conversar com amigos. Observe como ele faz, por quanto tempo se concentra, em quais atividades permanece mais tempo, se precisa de você e com qual intensidade precisa. Anote tudo. Veja se ele acordou mais disposto quando você mudou o colchão para o chão e veja se organizar tudo muito direitinho ajuda no humor dele. Escreva as alterações que acontecem conforme você insere o banquinho, a barra, o espelho, as estantes e as escolhas. Registre as mudanças que vão acontecendo conforme você estrutura a rotina e aprende a ser claro e direto, mesmo quando gentil, e conforme você substitui os prêmios e castigos pela autodisciplina. Anote tudo.

Se você fizer isso todos os dias, vai começar a notar padrões de comportamento, aprender o que é que ajuda seu filho, o que o torna mais tranquilo e o que o agita, o que o deixa feliz e equilibrado e o que só o alegra. Vai começar a distinguir pequenas crises de humor e o desejo de ficar sozinho para trabalhar, e vai ser capaz de ajudá-lo em seu desenvolvimento com muito mais eficiência. Quando não observamos, e não registramos por escrito, nossa visão, opinião e vontade se intromete no que achamos que é percepção objetiva dos fatos, e então impomos às nossas crianças aquilo que nós acreditamos ser o melhor naquele momento. Não nos cabe esta tarefa. Nosso trabalho é ver o que ela nos diz que é melhor, e prover aquilo que ela pede. Só a observação, como ato de amor, pode fazer isso por nós, e por isso, assim como a falta de observação é a raiz de quase todos os erros, também é a sustentação de todos os acertos.

3. Confiar na criança

“A criança é uma esperança e uma promessa para a humanidade”, dizia Montessori, que ainda adicionou: “Eu descobri a criança”. Não há como realmente auxiliarmos a criança se não acreditarmos que ela é capaz de se desenvolver sozinha. Nós somos auxiliares, nós precisamos preparar o ambiente, oferecer atividades, auxiliar com a rotina e algumas orientações, especialmente de adequação social. No entanto, a parte difícil ela faz sozinha. Nós não ensinamos nossa língua para os pequenos – nós só falamos com eles. E eles fazem a parte complicada: aprender, em um ano, a falar, e em três anos, a falar quase como nós.

A gente não ensina a criança a andar. Muitos de nós realmente não fazem nada neste sentido, mas mesmo assim um dia a criança anda. Sozinha, ela aprende. E isto serve para tudo. Não ensinamos que se deve fazer tais e quais coisas em tais e quais situações, mas a criança o faz, porque absorve o ambiente em que se encontra, e traduz sua absorção em comportamento. Ela vem com potencialidades inatas que propiciam o desenvolvimento das habilidades essenciais à sua sobrevivência. Se deixarmos à sua disposição a comida e a bebida, comerá quando sentir fome e beberá quando sentir sede. Se deixarmos os agasalhos ao seu alcance, e a ensinarmos a se vestir, ela, sozinha, irá buscá-los se sentir frio. Nós não precisamos ensinar isso, a criança aprende porque absorve o ambiente, e em seu ambiente os adultos fazem tudo isso, então ela faz também.

Por isso, um cuidado que beira o extremo com o ambiente deve ser tomado. O ambiente deve ser planejado e preparado para a criança em suas dimensões físicas e emocionais. A criança absorve tudo: ordem e desordem, paz e violência, amor e ira, calma e ansiedade. Se em seu ambiente nada se encontra ao alcance de suas mãos, o que absorve é a ideia de que depende do adulto para tudo – e um ambiente preparado leva, logicamente, à independência bela que vemos em crianças dentro de salas montessorianas.

Confiar na criança é acreditar que, assim como fez durante toda a história da humanidade, ela continuará a ser capaz de se desenvolver sozinha, e que o seu filho não é diferente. Ele precisa de você, de seu amor, de sua observação, de sua ajuda. Mas a parte difícil é trabalho dele, e você precisa deixar ele fazer o trabalho dele. Precisa acreditar.

Isto envolve permitir que ele erre, que enfrente dificuldades, que leve uns tombinhos, que use e quebre copos de vidro e pratos de cerâmica (leia sobre isso na categoria “cozinha”, aqui ao lado), que ele suba no próprio colchão e limpe o próprio bumbum, conforme aprende a fazer cada uma dessas coisas – e para aprender ele precisa que você ensine com cuidado, com observação e confiança.

4. Conclusão

Assim, fica claro que os erros que cometemos são os dois que apontamos: não confiar e não observar. Se confiarmos e observamos, as coisas caminharão. Se você está começando, leia as treze dicas do Lar Montessori para famílias montessorianas e o Manual do Proprietário da Criança Montessori. Em seguida, conforme for fazendo as adaptações do ambiente e ensinando seu filho a lidar com a nova independência, observe com cuidado como ele se desenvolve e o que lhe faz bem.

Confie. Ele vai se desenvolver. A criança é incrível, ela supera nossos erros quase sem perceber e vai em frente, rumo à vida. Confie na criança, e torne a observação um ato de amor. Você vai eliminar pelo menos quase todos os seus erros, assim. Depois, volte para contar como foi!


2 comentários sobre “Quando o Adulto Falha

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