Os Sussurros do Ambiente

Ambientes falam. Quantas vezes entramos em casas nas quais, apesar de nos sabermos bem recebidos, não nos sentimos bem e desejamos ir embora o mais breve possível? Ambientes ricamente ornamentados e projetados com cuidado artístico nem sempre – diria, aliás, raramente – nos deixam tão à vontade, livres e abertos quanto casas aconchegantes, imperfeitas, mas nas quais notamos carinho e amor em todos os detalhes do ambiente. É claro que é possível unir o projeto cuidadoso com o amor, mas o segundo é mais importante que o primeiro.

A criança, exatamente como nós, e talvez mais ainda, dada a sua sensibilidade não-contaminada por excessos de estímulos aos quais nos submetemos todos os dias, escuta o ambiente. Ela sabe os segredos do ambiente e sente quando há carinho nele. O ambiente e a criança se comunicam muito intimamente, de forma natural e inconsciente. A criança aprende a viver, claro, por observação do adulto, mas também por exploração do ambiente. E em muitos casos mais por exploração do que por observação. A criança aprende agindo, ainda mais do que o adulto – e só pode agir no ambiente.

Este texto é sobre significados. Sobre o que queremos dizer para a criança quando construímos um ambiente para ela. Seja o quarto, seja a adaptação do resto da casa às suas necessidades, seja uma sala escolar. Trabalharemos aqui com o respeito como significado fundamental. Por que não o amor? Vale perguntar. Ao que dizemos: o amor é subjetivo demais. É possível sentir amor sem respeitar as necessidades alheias. Não é possível sentir respeito sem respeitar as necessidades alheias. E mais importante: o respeito pelas necessidades da criança talvez seja a forma mais bela de lhe transmitir amor.

A receita de quarto montessoriano vem se espalhando com rapidez na internet, e isso, ao mesmo tempo, alegra e preocupa. Uma vez que algo se espalha demais, tem a tendência de se tornar irreconhecível em sua origem. É uma característica do mundo moderno e do sistema econômico vigente transformar ideias e práticas alternativas em formas tradicionais de consumo. No caso de Montessori, preocupa mais, pois, tratando-se de uma pedagogia que teve seu início no bairro mais pobre da Itália, transforma-se hoje em uma mercadoria cara, e em uma imensidão de produtos excessivamente coloridos, em projetos profissionalizados. Duas máximas de Montessori orientarão nosso pensamento ao longo deste texto:

O objetivo do ambiente preparado é, tanto quanto possível, tornar a criança em desenvolvimento independente do adulto – A Criança

…naqueles países nos quais a indústria de brinquedos é menos avançada, você encontrará crianças com gostos muito diferentes. São também mais tranquilas, mais razoáveis e felizes. Seu único plano é tomar parte nas atividades que as rodeiam. São como pessoas comuns, usando e manipulado as mesmas coisas que os adultos – Mente Absorvente

O ambiente precisa dizer à criança:

  1. Você é livre
  2. Você pode tentar
  3. Você é tão importante quanto o adulto

Dizer para a criança que ela é livre é simples. Exige de nós o planejamento para que ela só tenha acesso ao que pode acessar. Dizendo melhor: é necessário que coloquemos o que ela não pode pegar em uma altura na qual ela também não possa ver. Parece absurdo, de início, restringir a vida do adulto. É uma criança, diríamos, é deve aprender que não pode pegar tudo. E entretanto, nós podemos. Nós pegamos em tudo o que vemos, em lojas, casas, nos mais diversos locais. A criança vê isso acontecer, e é difícil para ela entender porque justamente ela não pode. Por isso, é tão importante organizar o ambiente de forma que a criança tenha acesso a muita coisa. Se ela tem um ambiente dela, com seus pertences, e pertences belos como os do adulto, fica tranquila. Se os seus pertences são excessivamente coloridos, plásticos, barulhentos e se fazem tudo por ela – como os brinquedos modernos, que não necessitam da participação da criança e fazem dela mera espectadora – então ela desejará o mundo do adulto, porque é muito melhor do que o dela. E aí nós tentaremos restringir seu acesso, e aí ela não é livre.

Para que a criança seja livre e sinta isso, a cama precisa estar no chão ou precisa ser de uma altura que lhe permita subir e descer com facilidade, exatamente como é sua cama para você. Você não precisa escalar o estrado e o colchão quando quer dormir, e ela também não o deseja. Quanto ao berço, embora tenhamos discutido o aspecto anteriormente, vale salientar: nós não dormiríamos em um – quando um adulto precisa dormir em algo parecido a um berço, chamamos a esse espaço solitária. Em uma cama colocada no chão, a criança escuta o ambiente a lhe dizer:

…você é livre para respeitar suas necessidades biológicas mais essenciais. Se você precisar dormir, venha cá, e você pode dormir quando e quanto quiser. Você é bem-vinda. Quando acorda, a criança escuta sua cama lhe dizer: descanse um pouquinho mais, pelo tempo que quiser, e quando desejar você pode sair, pode ir para o chão, explorar e absorver mais do mundo, para poder se desenvolver e se transformar em um adulto equilibrado e feliz.

Além da cama, são necessários móveis baixos, banquinhos, estantes com seus pertences, e pertences de alta qualidade (e vale reforçar: não há necessidade de pertences caros. A criança precisa do mesmo copo de vidro que você usa, só que menor, para as mãozinhas dela. Ela precisa do mesmo prato de porcelana, só que ela usa o de sobremesa para a refeição principal e o pires de chá para a sobremesa). Os brinquedos da criança, em casa, são simples, não custam quase nada, e são belíssimos. Duas jarras (daquelas pequenas, de leite) de porcelana com água colorida dentro, por exemplo, rendem um longo período de concentração. Se jarras forem muito difíceis, use duas canecas, bonitas, lisas, ou com uma estampa bela e quase neutra.

Esse ambiente, de objetos belos ao seu alcance, de estantes baixinhas e prateleiras acessíveis, sussurra:

…venha. Você pode trabalhar aqui. Esse mundo também é seu. Manipule os objetos que disponho para você, explore-os, mas o faça de forma lenta, cuidadosa, senão tudo quebra. Tenha cuidado para poder continuar a trabalhar com tudo. Se for difícil, mas você achar que consegue, você pode tentar. E se for difícil, mas você quiser insistir sem ajuda, você pode tentar. Eu ficarei aqui, em silêncio absoluto, esperando você terminar.

Uma jarra d’água colocada na altura da criança para que ela se sirva, uma vasilha com pedaços de frutas ou de pão, dizem a ela:

…você é livre para comer quando sentir fome, livre para respeitar as suas necessidades biológicas mais essenciais. Você é livre para demorar quando quiser para se servir e para beber quanta água achar que precisa. Você pode tentar se servir quantas vezes quiser, ninguém virá lhe recriminar por ser difícil. Esse é seu ambiente, e você é realmente livre aqui.

Se você precisar escolher para sua criança entre dois brinquedos ou materiais, escolha o menos colorido, o mais natural, o menos plástico, o menos sonoro (à exceção de instrumentos musicais de qualidade, evidentemente) e o que acenda menos luzinhas. Se não houver uma opção de cores tranquilas ou neutras, de material natural (vidro, porcelana, metal, madeira), e silenciosa, pense com muito cuidado se é necessário comprar alguma coisa. Geralmente, vale dizer, não é. Compramos para a criança, para o quarto da criança, algo que não ficaria feio se o ambiente fosse adulto. Compramos para ela algo que não a torne menos nobre do que nós somos.

Em todos os encontros de famílias promovidos pelo Lar Montessori e seus diversos excelentes parceiros, escuto pelo menos uma vez um depoimento semelhante a: eu dava água no copo de plástico com tampinha para meu filho, e era tranquilo, ele gostava. Aí um dia estava sem copo de plástico e dei no de vidro mesmo. Agora ele não quer mais usar copo se não for de vidro. É claro. Da mesma maneira que há copos melhores para cada tipo de vinho, há copos melhores para água, suco, chá e leite.

Não precisamos comprar uma infinidade de copos, mas precisamos disponibilizar um bom copo de vidro, por exemplo, ou mesmo uma boa caneca, para o chá e o leite, de forma a permitir que esses objetos confabulem com nossas crianças e lhes confessem:

…sabe, você é muito importante. Tão importante que tem copos iguais aos dos seus pais (ou professores), pode se servir quando deseja e possui objetos bonitos. Os adultos que rodeiam você têm mais cuidado em escolher objetos para você do que para eles. Eles realmente olham com cuidado antes de te trazer alguma coisa.

Quando queremos ajudar nossa criança a desenvolver uma habilidade que ela mostra que quer desenvolver – parear formas ou cores, sequenciar tamanhos, enfiar objetos pequenos em orifícios pequenos – não precisamos investir fortunas, antes de pensar com cuidado. O que precisamos é garantir que cada uma dessas atividades vá dizer à criança que ela é livre, que ela pode tentar, e que ela é tão importante quando os adultos.

Um pareamento de cores pode ser feito de várias maneiras. Podemos utilizar dois catálogos de tintas (aqueles, distribuídos gratuitamente) e recortas os retângulos coloridos. Podemos imprimir quadradinhos e plastificá-los. Podemos usar lápis de cor e tiras coloridas de papel. Para pequenos orifícios, podemos usar uma tampa (plástica, quem sabe, mas ainda melhor se de madeira) com um recorte ou um furo, podemos usar telas em tecido com orifícios maiores para um primeiro bordado, e se quisermos guiar esse bordado, podemos desenhar sobre o tecido com canetas hidrográficas, sem precisar comprar os moldes excessivamente coloridos que encontramos em lojas de brinquedos. Para sequências de tamanhos não precisamos de um material montessoriano, em casa. Podemos usar cabos de vassouras serrados em diversos pontos, ou caixinhas de tamanhos diferentes (de preferência com o mesmo formato) embrulhadas no mesmo papel ou pintadas da mesma cor.

O que importa é que cada um desses materiais se coloque à disposição da criança, como que a lhe comunicar:

…estamos aqui para você, o tempo todo, você é livre para ir e vir quando quiser, escolher o que preferir, e devolver aqui para poder usar mais depois. Nós precisamos ficar organizados, porque você precisa nos ter à sua disposição o tempo todo. Você precisa ser livre para nos usar pelo tempo que quiser e repetir seu trabalho conosco quantas vezes achar prazeroso. Você pode tentar de novo, pode tentar fazer de outro jeito – desde que você também nos respeite – e pode deixar de usar um de nós quando não nos achar mais interessantes. Nós fomos escolhidos ou confeccionados com cuidado pelos adultos que vivem com você, nós somos resultado de muito trabalho mental e físico e somos seus, porque você é importante, você é realmente importante e nobre. Sabe, criança, você precisa ser livre, precisa poder trabalhar, e precisa saber que você importa porque, afinal de contas, você é o construtor da humanidade futura. Você é a esperança do mundo.


9 comentários sobre “Os Sussurros do Ambiente

  1. Lindo texto Gabriel!! Como sempre simples e direto! Eu fico triste ao ver a escola do meu filho, com TUDO de plástico, copos com bico pra crianças de 3 anos, brinquedos faltando pedaços, enfim, uma falta de respeito à criança que os adultos sequer são capazes de perceber. O pior é que as duas únicas escolas da minha cidade que não são apostiladas estão no mesmo nível com relação aos materiais oferecidos às crianças. Uma pena, e o pior é que meu filho não está gostando da escola, e me pergunto até que ponto isso é de adaptação mesmo, ou vai da percepção dele com esse cuidado com o ambiente.

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  2. Gabriel, que lindo texto! Tenho gostado cada vez mais de vir aqui, seus textos fazem cada vez mais sentido pra nossa família. Obrigada por compartilhar, com tanto carinho e tanta convicção, esse respeito cada vez mais necessário às crianças. Abraços

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  3. Gabriel, linda reflexão. Agradeço a você as postagens maravilhosas que fazes. Foi através delas que conheci o método e comecei a aplicar com meu filho, que por acaso também se chama Gabriel.

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