Paz II: Compaixão

A Compaixão é o radicalismo de nossa era. (S.S. o Dalai Lama)

Antes de iniciar este texto, senti-me, guardadas todas as proporções, como Gandhi ao receber de uma mãe o pedido para dizer ao seu filho que não comesse mais açúcar. O líder espiritual respondeu que deveriam voltar, mãe e filho, em uma semana. Voltaram, e a mãe lembrou Gandhi de seu pedido, ao que o homem disse à criança: “Você não deve mais comer açúcar”. E a mãe, curiosa, lhe perguntou: “Senhor, perdão, mas por que pediu uma semana para dizer algo tão simples ao meu filho?”. E Gandhi lhe disse: “Ah, há uma semana eu mesmo ainda comia açúcar”.

A compaixão é um imenso desafio, o maior, talvez, de uma vida interior. Não seria certo falar dela sem experimentá-la ou busca-la ao máximo. Por isso, antes de começar a série Paz, comecei meu treino para me tornar um ser humano mais compassivo. Pela imensidão do desafio, decidi compartilhá-lo, em breve, num outro blog. Não é Montessori, é a busca interior a que me propus, para que pudesse ser honesto na continuidade do meu trabalho e, bom, para me aproximar, um pouco que seja, um pouquinho só, da perfeição total da criança.

Introdução

No Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, paixão significa sofrimento. E não é de espantar. Na raiz da palavra, tem origem comum a patologia, o estado de – talvez – maior sofrimento humano. A compaixão, por sua vez, é o sofrimento compartilhado, a capacidade humana de sentir o que outro indivíduo sente, de ser tocado na mesma intensidade que um terceiro por um sofrimento que não diz respeito diretamente a si mesmo.

Quando choramos durante um filme, quando sentimos pesar os ombros pelos infortúnios do mundo, quando as notícias do jornal da noite nos colocam em um estado de desânimo silencioso, sentimos compaixão. A compaixão nasce da experiência direta em relação ao sofrimento do outro.

Joan Halifax, ativista da compaixão, como me agrada chama-la, disse em sua incrível palestra no TED que compaixão é “a capacidade humana de olhar claramente para a natureza do sofrimento” – trata-se de algo que temos dentro de nós. Todos nós somos capazes de compaixão, e isso é muito importante, porque é difícil desenvolvê-la, então ter absoluta certeza de que é possível ajuda no primeiro passo do caminho.

De todos os seres da Terra, aqueles que falam mais rapidamente ao nosso coração são as crianças. Não é para menos. As crianças são a manifestação viva do amor. A materialização do conceito e do sentimento abstratos do amor puro e incondicional. A criança nos traz o sorriso de volta, é impossível continuar impassível diante do sorriso sincero de uma criança, como se de fato uma luz entrasse pelos nossos olhos e pudesse nos iluminar por dentro. A criança é, portanto, de todos os seres do mundo, a maior merecedora de compaixão, pela luz que nos traz, pela pureza de seu ser, pelo potencial e esperança de transformação que representa para a humanidade.

Infelizmente, a criança é também, entre todos os seres, o que mais necessita de nossa compaixão. Montessori nos disse: “Nenhum problema social é tão universal quanto a opressão à criança”. A criança é o mais frágil de todos os seres. Nenhum filhote animal demora tanto para ser independente quanto a criança – e é nisso que mora seu imenso potencial, em poder formar-se no mundo e não antes dele, em poder adaptar-se e, portanto, transformar-se, em seus primeiros tempos fora do útero, e não só durante seu desenvolvimento embrionário. A criança é, de todos, o ser que mais necessita de nossa compaixão para poder, de fato, desenvolver-se bem.

É por compaixão que nos levantamos a qualquer momento para descobrir de que precisa a criança, e por compaixão que a aquecemos no frio. É por compaixão que permanecemos com ela pelo tempo que for necessário e pensamos nela quando estamos ausentes. Entendemos, ao menos em parte, seu sofrimento, e muito mais do que isso, o sentimos dentro de nós. Entretanto, pela forma como muitas vezes convivemos com a criança, é notável a distância a que estamos de uma compaixão completa, por assim dizer, um olhar claro o suficiente na direção de seu sofrimento, uma compreensão inteira da dimensão de dor que habita a vida da criança. E é sobre isso que trata este texto.

Todos nós, e a criança em muito maior intensidade, atravessamos basicamente três categorias de sofrimento: físico, emocional e mental. Por isso, a seguir, nosso texto será dividido em três:

1.      Sofrimento físico da criança.

À época de Montessori, as crianças eram obrigadas a permanecer paradas sobre bancos. Muitas vezes sem encosto no qual pudessem descansar as costas, e quase sempre altos demais para que seus pés alcançassem o chão. Isso, claro, além de levar a um sofrimento desmedido e a um nível de dor terrível, criava condições ideais para o desenvolvimento de problemas sérios de coluna. Problemas estes que a pedagogia e a medicina – pareceria nem sempre sábia – resolveram com exercícios e aparelhos de alongamento, os quais as crianças deveriam fazer ou frequentar um número de vezes por dia ou semana, afim de acostumarem a coluna e não guardarem resquícios de problemas físicos. O sintoma do problema, assim, desaparecia dos olhares adultos – mas o sofrimento dos bancos, evidentemente, permanecia.

Hoje, encontramos o mesmo infeliz fenômeno a repetir-se incansavelmente em nossa sociedade quando, por exemplo, deixa-se que a criança chore até cansar, porque não podemos nos dar por vencidos. E retornaremos a isso quando tratarmos do sofrimento emocional, mas vale dizer aqui: quantas e quantas vezes esse choro, esse desespero, não se deve de fato a um sofrimento físico? Quantas vezes o choro de um bebê durante a noite não se deve a um desconforto físico que pode ser resolvido com uma ajeitadinha, um carinho, comida (leite materno), uma janela fechada ou aberta? E quantas vezes ignoramos esse sofrimento, quantos de nós não resistem e aderem às desumanas teorias de que se deixarmos o bebê chorar até cansar, volta a dormir?

É verdade, recomenda-se em Montessori não atender imediatamente a um suspiro ou uma agitação breve do bebê. Pode ser que ele se agite por instantes e retorne ao sono reparador de antes, sem precisar ser ainda mais acordado por nós. Mas jamais se espera quando se percebe sofrimento, não se pode, sob nenhuma hipótese, ignorar o sofrimento genuíno da criança.

Nós, adultos, temos a imensa sorte de, na maior parte do tempo, esquecermos de nosso corpo. Não pensamos nele, não lembramos a todo instante: “puxa, tenho uma mão, e dois pés, meço 1,70m, sinto sabores em todas as regiões da língua…”. A saúde faz isso conosco, e só passamos a pensar em nosso corpo quando sofremos de falta de saúde. A criança tem um fascínio pelo próprio corpo que está relacionado diretamente ao esforço que ela precisa fazer para utilizá-lo e compreendê-lo minimamente. Por isso, o sofrimento da criança quanto ao corpo não deve ser ignorado como birra infantil, má vontade, ser desastrada, não. O sofrimento infantil da criança quanto ao seu corpo deve ser encarado com a mesma seriedade que se encara um doente em recuperação. Ele tem todas as chances de ficar bom e se tornar independente novamente, mas enquanto isso, precisa de toda nossa ajuda, merece todo o nosso respeito, e, por seus esforços contínuos para melhorar e independer-se, devemos a ele (ou a ela, à criança), toda a nossa admiração e reverência.

Quantas vezes o desespero infantil se deve a um objeto colocado alto demais? À vontade de tomar banho, comer ou beber sozinho? Quantas vezes se deve à vontade simples de beber em um copo de vidro? Todos esses sofrimentos são físicos, como são físicos os sofrimentos de uma roupa apertada e que não permita a movimentação livre da criança, de ter de comer em horas estipuladas pelo pediatra ou pelo livro do autor nunca visto, em vez de a família, a criança, os adultos que a acompanham fora de casa? Esses sofrimentos são físicos, ou de origem física, e jamais permitiríamos que um adulto comum fosse submetido ao tratamento desumano que dispensamos tantas vezes às nossas crianças. Justo a elas, que nos fazem sorrir com um olhar simples, e nos fazem encontrar de novo a beleza da vida.

2. Sofrimento emocional da criança

A criança não tem certezas. Mas isso não é novidade para você já há algum tempo. Novidade talvez seja o fato de que ela, especialmente enquanto muito pequena, não tem certeza nenhuma. A criança precisa da organização de seu mundo, de um modus operandi, de uma rotina, de ordem em seus ambientes físicos, de repetição de atividades, para ter certeza de que o mundo continua em sua órbita. Ela não parte do pressuposto de que o Sol vai nascer amanhã, e por isso se surpreende tantas vezes com a mesma coisa. Ela torce para que tudo aconteça como ela prevê, e quando acontece, alegra-se. Não toma nada por dado ou garantido.

Por isso, é tão importante que ela saiba, tenha total certeza, de nosso amor. Quando gritamos com a criança, quando, em tempos medievais e terras distantes, se batia nas crianças pequenas (prática hoje extinta, dada sua monstruosidade), ignoramos o fato de que ela não tem certeza de nosso amor. Dissemos no texto imediatamente anterior a este que a forma mais bela de transmitir amor a uma criança talvez seja demonstrar respeito às suas necessidades. Não é necessário – nem bom – abraçar a criança todo o tempo, interrompendo o que quer que ela esteja fazendo, para demonstrar carinho, despejar beijos e sussurrar declarações de amor. Ela sabe que você a ama enquanto você demonstra isso por meio de seu respeito e seu cuidado com todas as necessidades dela. E, puxa, como ela nos ama de volta!

Quando (perdão, perdão às famílias que não têm outra opção, mas é preciso criar), quando deixamos nossas crianças em escolas que não respeitam suas necessidades, entregamo-las nas mãos de pessoas que não sabem olhar para elas com compaixão, com amor, com imenso respeito e reverência, ela não tem certeza de muita coisa sobre nossos sentimentos. E por isso chora desesperadamente. A adaptação em escolas montessorianas é habitualmente simples, porque a criança sente que não foi abandonada, percebe que, de alguém que lhe ama, foi deixada nas mãos de gente que também ama. Ela não teme a escola montessoriana, e por isso é tão mais simples ficar nela. Evidentemente, mesmo isso varia muitíssimo, mas o padrão existe, e merece ser considerado.

Quando uma criança chora no escuro de seu quarto, no silêncio da noite, e pede por nós sem saber articular nossos nomes, ela demonstra seu desespero em volume alto, e pede socorro. Não atender a esse chamado, ignorar esse chamado, é permitir que a imensa e dolorosa dúvida surja em sua mente: onde eles estão? Onde estão aqueles que me permitem viver? Para onde foram? Por que eu estou aqui, sozinho?

As crianças choram muito menos em quartos montessorianos, especialmente a partir do momento em que sabem engatinhar. Elas acordam, por vezes, no meio da noite. Mas não se encontram em uma jaula, e sim em um ambiente que sussurra para elas o quanto são amadas, respeitadas e queridas. Um ambiente que faz estar presente o adulto que o preparou. Se, ainda assim, sentem-se sozinhas, a partir de uma cama baixa podem ir até o quartos dos pais – prática impossível a partir do berço, ou possível com um grau indesejável de risco. O quarto montessoriano permite à criança viver com muito menos sofrimento. A casa montessoriana leva isso a um extremo ainda mais positivo.

3. Sofrimento mental da criança

A criança não é tão racional quanto era de esperar, e nos lembra a sofrida canção de Oswaldo Montenegro:

Não, não sou tão racional
Como era de esperar
E a lúcida palavra que eu ia dizer
Transforma-se num sopro em pura intuição
E por qualquer razão
Eu fico à mercê
P’ra onde dessa vez, meu coração vai me levar?

Para a criança, pode ser muito difícil dizer o que quer, de que precisa, o que quer dizer. Seu cérebro demora mais para processar informações (ele está construindo as pontes entre os neurônios, como uma tribo que ainda está construindo suas trilhas e não consegue transportar cargas de um lugar ao outro com rapidez) e por isso também é mais difícil para ela escutar o que nós dizemos. Seu ouvido funciona, e não é necessário nem positivo gritar. Mas seu cérebro está se fazendo, e por isso é necessário ter paciência.

Tente imaginar como é acordar logo cedo, com a cabeça lenta e com sono, e começar a receber ordens. Agora, imagine que esse será o ritmo de seu cérebro o dia inteiro. Não é de surpreender que depois de darmos a mesma ordem três vezes em um espaço de tempo muito curto e num volume de voz elevado a criança comece a chorar – esse é o mesmo desespero que nos faz ficar mal humorados logo cedo quando ouvimos muitas coisas ao mesmo tempo e ainda não entramos no nosso ritmo. A criança vai entrar no ritmo. Mas demora. Alguns anos. Enquanto isso, precisamos entrar no ritmo dela. Não há outra opção, sem gerar sofrimento.

“A compaixão e o amor”, nos disse o mesmo Dalai Lama, “não são luxos na sociedade moderna. São necessidades”. Quando falamos da criança, isso faz ainda mais sentido. Se tratarmos a compaixão e amor pela criança como luxo teremos… Bem, o mundo que temos hoje. Na sociedade moderna, em que já se percebeu a necessidade urgente de mudança, e se vem percebendo que a única possibilidade para essa mudança é a infância de agora, torna-se finalmente verdade o que disse o Lama: a compaixão é uma necessidade do tempo presente.

A criança precisa se esforçar para pensar, e isso não lhe traz sofrimento algum. Mas quando atrapalhamos o seu pensamento, aí ela sofre, como um artista que fosse interrompido em seu momento de máxima inspiração, um Isaac Newton a quem se roubasse o instante em que descobre a gravidade. E para pensar, a criança precisa de muita repetição. Ela não tem certezas, lembramos, e precisa confirmar tudo infinitas vezes, até realmente interiorizar como é que o mundo funciona – como é, frequentemente, que seu próprio corpo, aquilo que ela conhece de eu, o que define sua identidade, como é que se próprio corpo funciona.

Como uma conclusão

A compaixão é uma necessidade. E se uso Dalai Lama e Joan Halifax, isso se deve ao fato de ele ter dito algo que nos permite compreender tão melhor a criança. Se você quer começar a estudar a compaixão, você pode começar pela edição da Vida Simples, de janeiro de 2014, além da palestra que já assinalamos acima. Se você quer, porém, criar um mundo de paz, então além disso, vale a pena ler A Criança, de Maria Montessori, o livro em que ela expõe O Segredo da Infância (é esse o título do livro em italiano) e nos permite abrir os olhos, de uma vez por todas, para a urgente necessidade de se compreender os sofrimentos da criança, e de aliviar sua imensa carga de dor.

Se aos adultos que admiramos não gostamos de ver sofrer, que dizer das crianças que amamos tanto ou mais que a nós mesmos. Este texto foi só um primeiro passo, ou melhor ainda, só um indicador de onde começa a trilha. Ela começa com um olhar claro na direção do sofrimento da criança. E de lá avança rumo à Paz na Terra. É de A Criança uma das frases mais recorrentes deste blog, e é com ela que finalizamos:

“A preparação que nosso método exige do professor é o autoexame, a renúncia à tirania. Deve expelir do coração a ira e o orgulho, deve saber humilhar-se e revestir-se de caridade. Estas são as disposições que seu espírito deve adquirir, a base da balança, o indispensável ponto de apoio para seu equilíbrio. Nisso consiste a preparação interior, o ponto de partida e a meta”.

 

Postado em Paz

2 comentários sobre “Paz II: Compaixão

  1. Texto profundo e até provocador para o nosso lado tirano e nossos erros humanos.
    Precisamos tirar das palavras esta sabedoria e sorver com nossa alma e nossas atitudes, trazendo a compaixão para a prática.

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