O que Realmente Importa

Montessori cresceu muito no Brasil nos últimos dois anos. E é de se comemorar. Chegamos à UOL, à Globo News e a diversos sites internacionais de notícias. Verdadeiramente, hoje se vê Montessori, cada vez mais, sendo parte das discussões sobre educação e sobre criação de crianças pequenas. Hoje, em terras brasileiras, entretanto, demos dois destaques principais quanto ao método Montessori aplicado à realidade familiar e doméstica: primeiro, o “quarto montessoriano”, depois, as “atividades”. Este texto é uma tentativa de voltar ao que realmente importa: a Ajuda à Vida.

O ambiente preparado é mais do que o quarto. E é mais do que o colchão no chão. O quarto pode ser um começo, um primeiro passo, e é um sinal de verdadeira vontade de revolucionar a criação de sua criança, de colocar em prática de fato aquilo que você sabe e aquilo em que você acredita. Por isso, ele é tão importante. O quarto também é o local onde a criança passará mais tempo em seus primeiros meses de vida, porque ela vai dormir bastante e quando acordar vai ficar por lá durante um tempo ainda, trabalhando com os materiais, objetos e brinquedos que você deixar lá para ela. O quarto importa. Mas o que importa de verdade é mais que o quarto, e é o que chamamos em Montessori de ambiente.

O ambiente é a casa toda, e tudo o que se puder adaptar ainda fora da casa. Ambiente é onde a gente vive. Na natureza há coisas interessantes a todas as alturas, galhos no chão, flores rasteiras, animais que caminham ou voam baixo, relevo natural irregular. No meio urbano, tudo o que é interessante foi levantado, e tudo fica a mais de um metrô do chão. Mesmo assim, de vez em quando, quando caminhamos pela rua ou enquanto trabalhamos em casa, a criança encontra algo pequeno, discreto, que passou despercebido e está perto do chão. Nos faz lembrar Drummond:

“É feia. Mas é uma flor. Venceu o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio”.

Poderia ser algo bonito! Algo realmente interessante, algo que fosse feito especialmente para alegrar os sentidos e fazer a vida mais valiosa. Como poderia nos lembrar Blake:

“Ver um Mundo num Grão de Areia
E um Céu numa Flor silvestre,
Ter o Infinito na palma da sua mão
E a Eternidade numa hora.”

O ambiente preparado é a tentativa de trazer o infinito para a palma da mão, o universo para as pontas dos dedos, a eternidade para perto dos olhos. Em casa, podemos preparar a sala, com uma pequena cadeira para a criança ler seus livros, em companhia da poltrona ou do sofá, onde leem os mais velhos. Na hipótese de você ainda não ter aberto mão de sua televisão e de sua criança ainda assistir à programação diária com a família, essa cadeira também dá a ela a oportunidade de se sentir confortável e não precisar sentar-se no sofá com as pernas distantes do chão. Podemos preparar o banheiro, e é tão simples, com um banquinho firme e de base grande o suficiente para os dois pés da criança, com um apoio mais baixinho no box para o sabonete e o shampoo, ou mesmo no chão, com um gancho para a toalha da criança, que pode ser daqueles de ventosa, para prender no azulejo. O sabonete pode ser cortado num formato de ampulheta, para que a criança possa segurar com firmeza, e pronto, o banho e o escovar de dentes terão um espaço muito melhor para acontecer.

A cozinha é todo um mundo, e pode-se ter uma gaveta especial para os pertences da criança, uma prateleira na geladeira, aquela mais baixinha, para lanches seus, potes com sua comida, pedaços de frutas e mesmo uma jarra de suco. Podemos disponibilizar para a criança dois pratos de cerâmica para suas refeições, lanches e sobremesas, um copo de vidro e um de metal, ou só um dos dois, talheres de metal e guardanapos. À sua altura ainda pode haver uma jarra com água fresca ou um filtro pequeno, panos para secar quando derramar água fora do copo e uma vassourinha com pá, para varrer os grãos ou farelos que ficarem para fora do prato – os farelos da mesa ela pode limpar com um guardanapo mesmo ou com um “papa migalhas“. Um lixo de cozinha que a criança possa acessar, além do pouco higiênico lixo sobre a pia, também é uma boa escolha. Por fim, mais um banquinho ou escada baixinha, para a criança poder lavar sua louça ou colocá-la na pia, e também para que possa observar o que você cozinha, com você por perto, e não fique ao redor do fogão com perigosa curiosidade. São excelentes inovações em seu ambiente mais divertido da casa.

Claro, há o quarto, mas nós já falamos dele no Lar, e há uma profusão de informações, algumas de muito boa qualidade, circulando na internet. Não retornaremos ao quarto agora. E há, também, o resto da casa: um quintal, uma varanda, um escritório. No Lar Montessori nós não pensamos em Home School, por isso, quando sugerimos adaptações da casa, pensamos que a casa basta, a preparação dela serve somente à vida da criança, é para que a criança viva melhor em casa que nós mudamos tudo. Isso faz diferença no nosso próximo ponto: as atividades.

Montessori nunca chamou seus materiais de atividades. Chamava-os de trabalho e há diferença. O trabalho é aquilo que a criança faz porque seu corpo e sua mente pedem, e que satisfaz suas necessidades internas de desenvolvimento. O trabalho não é aquilo que nós achamos interessante, ou aquilo que nos diverte. É aquilo que chama a atenção da criança espontaneamente e a faz concentrar-se e controlar seus movimentos e impulsos, em direção a uma finalidade superior à do movimento descontrolado e impulsivo. O trabalho une mão, mente e coração e leva a criança a um estado de sublime tranquilidade, de autodisciplina feliz, de organização alegre, de bem estar sereno. Não é necessário preparar atividades novas todos os dias. Recreação é assim, e a escola tradicional é assim. Na educação montessoriana, a regularidade é importante, coisas semelhantes acontecerem é importante, rotina importa.

Você precisa ter alguns trabalhos pela sua casa, e talvez alguns brinquedos – alguns brinquedos são melhores do que outros. E ter dois ou três trabalhos por cômodo pode ser uma boa ideia. Um caderno de desenhos na sala, acompanhado de três lápis de cor ou três giz de cera, por exemplo, uma cesta de tesouros no quarto, e mais uma cesta com três livros interessantes. Na cozinha, uma tábua de cortar com ingredientes para uma salada ao lado, e uma faca, para uma criança que já sabe usar a faca com destreza – para uma mais nova, quem sabe algo com uma colher ou uma transferência de líquidos. Na varanda, você pode pensar em uma pequena horta de temperos e em um cavalete de pintura com duas ou três cores de tinta (uma só no começo, mais depois). Os trabalhos pelos quais seu filho se interessar podem permanecer nas estantes, aqueles que não importam saem e dão lugar a outros, apropriados à idade dele.

Evidentemente, não colocamos tudo à disposição da criança em um dia só, não adaptamos a casa toda de uma vez e adicionamos todos os trabalhos em uma noite, como uma surpresa de aniversário. Isso é demais para a mente infantil. Nós vamos devagar, um dia colocamos os pratos e os copos na prateleira de baixo, e mostramos como carregar tudo com as duas mãos, devagar e com cuidado. No outro dia mostramos como usar o banquinho do banheiro e colocamos o sabonete e o shampoo mais para baixo. Desde os primeiros meses, podemos ter a cesta dos tesouros no quarto, podemos ter o colchão no chão e o espelho desde as primeiras semanas, e podemos inserir a cadeira na sala no mesmo dia em que inserimos os livros, e apresentar os dois de forma relacionada. Aos pouquinhos, podemos apresentar todas as novidades de forma que façam sentido e a criança saiba sempre onde encontrá-las e onde as colocar de volta quando terminar de usar.

Com os trabalhos, funciona do mesmo jeito, é necessário apresentar, bem devagar, parando as mãos a cada trecho do trabalho, para que a criança possa acompanhar nossos movimentos com atenção. É necessária uma postura nobre, de silêncio e certeza, de austeridade e confiança, pois que cada trabalho que para nós é simples e banal é, para a criança, a chance de se construir como humano e de ajudar no caminhar da civilização. Depois, quando terminamos a apresentação, guardamos o trabalho e perguntamos se a criança quer fazer. Se quiser, deixamos que faça e saímos de perto. Nós usamos um pequeno tapete que pode ser desenrolado em qualquer lugar da casa, e trabalhamos em cima dele. Ajuda a criança no controle do espaço a utilizar. No caso de fazer o trabalho sobre uma mesa, o tapete deixa de ser necessário.

Quando o ambiente está todo preparado, e nós estamos usando esse ambiente adequadamente, como adultos preparados, então podemos nos retirar, deixar a criança trabalhar – engatinhar sozinha na direção de uma bola, segurar-se sozinha para se levantar, servir-se sozinha de suco ou comida, lavar sozinha a louça, tomar boa parte de seu banho sozinha e ler, transpor líquidos, cortar sozinha. Podemos nos retirar da cena e observar. Podemos sair de perto e ver como a criança trabalha, o que ela apresenta como dificuldade e, se apresenta facilidades, cogitar qual provavelmente será seu próximo interesse ou como um trabalho semelhante àquele pode ser mais difícil ou mais complexo.

O método Montessori não existe. Ele é o método da Pedagogia Científica e o método da Ajuda à Vida. Método Montessori é a forma como convencionamos chamar as formas de demonstrar respeito e reverência pela infância e as formas de auxiliar os criadores da humanidade em seu trabalho, formas essas desenvolvidas cientificamente por Maria Montessori, que acabou por emprestar involuntariamente seu nome ao método.

Quando uma ideia se espalha, e a ideia é boa, é hora de comemorar. Mas é necessário ter atenção para que não acabemos por transformar uma ideia que funciona em um paralelo mais poético daquilo que é a forma de trabalho tradicional. O método de Ajuda à Vida desenvolvido por Maria Montessori é radicalmente distinto do tradicional, diferente até as raízes. Se desejamos os efeitos possibilitados pelo método Montessori – equilíbrio emocional, socialização saudável, paz de espírito e de comportamento, funções executivas bem desenvolvidas, controle motor amadurecido, tranquilidade – então precisamos de fato nos atentar a quais foram as descobertas de Montessori, o que ela realmente disse que ajudava, e o que realmente funciona. É necessário ter atenção para que possamos, em um mundo que mistura o radical ao tradicional todo o tempo, nos ater ao que cremos e vemos ser verdadeiro, e trabalhar conforme percebemos, em mente e coração, que é melhor para nossas crianças.


5 comentários sobre “O que Realmente Importa

  1. Muito bom, assim como o anterior. Realmente, creio que se faz necessário o entendimento do método como um todo e não como algo “da moda” ou “bonito”. Se a transformação não acontecer antes nos pais, de nada adianta colchão no chão, banquinhos, etc. Parabéns!

  2. Gabriel, obrigada por esse texto! Vem ao encontro de mudanças que estamos promovendo no ambiente do meu filho. Estou lendo um livro que trata de ambientes preparados e de autonomia (“Etapas del desarrollo”, de Rebecca Wild, que, aliás, cita muito Maria Montessori) e estava sentindo falta exatamente do que você exemplificou e explicou tão bem aqui. Grata.
    Abraços

  3. Olá! Adorei as ideias. Só não sei como adaptar q quarto dele. Tem um guarda roupas, uma cômoda, um bicama – para visitas… – e o berço. Não cabe mais nada… Consigo tirar o berço, mas fazer uma estante baixa, já não tem espaço. Com essas informações, consegue sugerir algo? obrugada.

  4. Oi Gabriel! Tenho dois filhos, um de quatro anos e outro de um ano e cinco meses. Estou engatinhando no processo de me tornar uma adulta preparada e meu lar num ambiente preparado. Já adotei algumas das medidas mencionadas no texto, mas confesso que a maior dificuldade tem sido adaptar o ambiente para meu filho de um aninho. O mais velho gosta de brincar com bonecos e de desenhar, mas quanto ao pequenino ainda não encontrei atividades que o envolvam em concentração. Outra dificuldade, algumas ações que tornam o ambiente preparado para o de quatro, tornam o ambiente perigoso ou nada prático com relação ao mais novo, por exemplo, quer subir no banquinho do banheiro e ainda não tem equilíbrio e gosta de derramar o shampoo que fica mais baixo. Alguma dica? Abraços!

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